Montfort Associação Cultural

10 de março de 2015

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“Eu protesto! Nem um cardeal pode passar por cima das palavras de Jesus e da fé vinculante do Concílio de Trento”. Cardeal Cordes, Emérito do Conselho Cor Unum

Contra as declarações separatistas do Cardeal Marx, de Munique, de que “a Igreja da Alemanha não é uma filial de Roma e o Sínodo não pode nos prescrever o que fazer”. 

Publicado por InfoCatólica

Tradução Montfort

Carta sobre a deriva da Igreja na Alemanha

Cardeal Cordes: “Protesto!”

O cardeal alemão Paul Josef Cordes, presidente emérito do Pontifício Conselho Cor Unum, manifestou-se contra as recentes declarações à imprensa do Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal Alemã e do bispo de Osnabrück, Dom Franz-Josef Bode, na assembleia geral dos bispos alemães de Hildesheim. O cardeal alerta: “nem mesmo um cardeal pode separar a pastoral da doutrina com um golpe de mão, a menos que queira passar por cima do sentido de fé vinculante das palavras de Jesus e das proposições vinculantes do Conselho de Trento “.

(InfoCatólica) Para o seu interesse, reproduzimos a parte mais importante do texto do  Cardeal Paul Josef Cordes:

Entre os assuntos discutidos na última assembleia geral dos bispos alemães, foram feitas públicas certas declarações de seu Presidente que não foram nem confirmadas nem desmentidas pelo secretariado da Conferência Episcopal Alemã. Como as palavras do mais alto representante dos católicos alemães possuem caráter orientador e, além disso, tiveram repercussão nos meios de comunicação, é razoável discutir publicamente algumas das opiniões expressas, inclusive para limitar a confusão causada em vários lugares.

Situação lamentável do catolicismo na Alemanha

Nestas declarações, observou o presidente da Conferência Episcopal Alemã que, na Igreja Universal, há certas expectativas em relação à Alemanha. Isto é já espantoso. Uma pesquisa realizada pela Fundação Bertelsmann constatou que apenas 16,2% dos católicos da Alemanha ocidental acreditam em um Deus todo-poderoso como um interlocutor pessoal; o resto dos católicos identificam a Deus como uma providência sem rosto, um destino anônimo ou uma força primordial. Ou o negam pura e simplesmente. Na verdade, não temos razão para nos distinguir pela nossa fé diante das Igrejas de outras nações.

Deformações Teológicas do Cardeal Marx

Não só surpreende a particular estima que supostamente seria concedida à Igreja alemã dentro do catolicismo. Ainda mais bizarras são as distorções teológicas e declarações com que o Presidente da Conferência Episcopal declara, de forma lapidar: “Nós não somos uma filial de Roma. Cada Conferência Episcopal é responsável pela pastoral em sua área cultural e deve anunciar o Evangelho ela mesma, como parte de sua própria e primordial tarefa”. Como um especialista em ética social, talvez o Cardeal Marx entenda muito da independência das filiais de grandes empresas. No entanto, no contexto da Igreja, tais declarações são mais apropriadas para uma conversa de bar.

As palavras de Cristo e Trento são vinculantes

O que se esconde por trás dessa “responsabilidade” para a “pastoral da área cultural”? Em questões como a nova edição do Gotteslob (livro de canções oficial fornecido em cada igreja alemã, NT) ou na decisão sobre a rota da peregrinação a Altötting (santuário mariano da Baviera, NT), o presidente da Conferência Episcopal alemã é certamente competente. No entanto, o debate sobre a questão dos separados que voltaram a se casar é muito diferente. Esta matéria está unida ao coração da Teologia. Nisso, nem sequer um cardeal pode separar a pastoral da doutrina com um golpe de mão, a não ser que se queira passar por cima do sentido de fé vinculante das palavras de Jesus e das proposições vinculantes do Concílio de Trento.

Complexo Antirromano

O crucial sentido de comunidade, um fundamento teológico e espiritual de caráter central para a Igreja, aparece claramente nas declarações de Hildesheim como algo sem importância. E isto apesar dos bispos, na ordenação episcopal, prometem expressamente manter a “unidade com o colégio dos bispos sob o sucessor de Pedro.” A frase: “Nós não podemos esperar até que um sínodo nos diga como organizar aqui o cuidado pastoral do matrimônio e da família” certamente não é inspirada pelo espírito eclesial da ‘communio’. Assim, esse “complexo anti romano” não é de forma alguma a invenção de um escritor, mas uma realidade típica das latitudes do norte, dotadas de uma força centrífuga. Em qualquer caso, é altamente destrutiva para a unidade da fé.

 

O Cardeal Marx não está sozinho em sua deriva

Por outro lado, não é menos certo que o Cardeal Marx não está sozinho. O presidente da comissão de pastoral da Conferência Episcopal, Dom Franz-Josef Bode, acudiu em sua ajuda com a exigência de que pastoral e dogmática se enriqueçam mutuamente. Isso suporia um discernimento “historicamente importante”, que ele qualifica nada menos que como “mudança de paradigma”. Para isso, Dom Bode não hesita em usar a Constituição conciliar Gaudium et Spes, que diz que “não há nada verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração (dos discípulos de Cristo).”

Do exposto, Dom Bode deduz que “não só a mensagem cristã deve encontrar ressonância no homem, mas os homens devem encontrar ressonância em nós.” Ele se pergunta: “Que relação tem ainda hoje a doutrina da Igreja com a vida cotidiana das pessoas? Levamos suficientemente em conta as experiências concretas das pessoas para inclui-las na doutrina? Não se pode permitir que doutrina e vida andem por caminhos totalmente distintos.” No entanto, a tentativa de obter conteúdos da fé a partir da experiência vital não é tão novo quanto aqui se pretende afirmar, e de modo algum pode reivindicar como seu o termo “mudança de paradigma”.

 

Atalho Patético

Durante as discussões do Concílio sobre a relevância para a fé dos fenômenos sociais e eclesiais, houve um debate sobre a expressão bíblica “sinais dos tempos”. A discussão dos Padres Conciliares concluiu que, de forma definitiva, seria errado considerar esses “sinais dos tempos” da vida do homem como uma “fonte de fé”, de modo que descartaram expressamente o patético atalho de considerar que os fenômenos que desafiam a Igreja fossem, como tal, uma fonte de fé (locus theologicus).

 

Os bispos na Alemanha não são a fonte de fé

A Constituição conciliar sobre a Revelação Divina, por sua vez, ensina sem nenhuma dúvida que a fé da Igreja Católica se alimenta exclusivamente da Sagrada Escritura e da doutrina da Igreja. Mesmo independentemente das disposições dessa inequívoca instrução, seria paradoxal deseja outorgar a função de fonte da fé a um pequeno grupo de membros da Igreja que vivem em uma situação tão espiritualmente lamentável quanto objetivamente irregular.

A maioria dos membros praticantes da Igreja não é afetada por esse problema diretamente. Esperemos que os pastores que se reúnem em Roma no outono também saibam dar também a estes homens e mulheres um guia sobre como arraigar cada vez mais profundamente seu casamento na fé em Jesus Cristo, para que eles possam ser para muitos de seus contemporâneos o testemunho do poder de Deus na vida das pessoas. Talvez os padres sinodais possam inclusive mostrar o seu apreço a todos aqueles que, na fidelidade à promessa matrimonial outorgada em um dado momento, não contraíram nenhum novo enlace.

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Nota: Este é um trecho publicado em www.kath.net e expressamente autorizada pelo Cardeal Paul Josef Cordes (presidente emérito do Pontifício Conselho Cor Unum) de sua carta de 7 de março de 2015 ao diretor do jornal católico alemão “Die Tagespost”, reagindo a certas declarações do Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, e do Bispo de Osnabrück, Franz-Josef Bode, na assembleia geral dos bispos alemães de Hildesheim. Traduzido por InfoCatólica para o espanhol.

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