Montfort Associação Cultural

3 de abril de 2006

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Estudos bíblicos e arqueológicos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Diogo Luiz
  • Localizaçao: – Brasil

Professor Orlando

Andei lendo pela internet e achei um artigo do NYT com uma pequena entrevista de um arqueólogo comentando sobre a veracidade da Bíblia.

Afinal, como devemos encarar a Bíblia historicamente? A Bíblia, no Antigo Testamento tem uma idéia central? Como o senhor vê tratarem a Bíblia como textos de tradição cultural, com elementos usados por outros povos da época? A veracidade do Antigo Testamento pode ser contestada? Qual é a explicação da Igreja quanto ao dilúvio?

Diogo

RELIGIÃO Pesquisador equilibra fé e arqueologia

William G. Denver realizou um extenso trabalho arqueológico em Israel, e recentemente se tornou o autor de “What Did the Biblical Writers Know and When Did They Know It?”(“O que os escritores bíblicos sabiam e quando ficaram sabendo?”, William B. Eerdmans Publishing). Gustav Niebuhr conversou com ele.

Pergunta: O que era a arqueologia bíblica e por que ela morreu?

Resposta: A arqueologia bíblica não era de fato uma subdivisão da arqueologia; era uma subdivisão dos estudos teológicos. A maioria dos praticantes eram professores de seminários, e alguns eram clérigos.

Foi uma tentativa de utilizar a arqueologia de uma forma amadora. O dinheiro vinha dos seminários e dos círculos da igreja. As questões que eram levantadas eram questões de fé e história. O movimento ruiu em meados dos anos 70 por uma série de motivos. Ela nunca provou a história dos patriarcas, por exemplo. O movimento não conseguiu atingir sua meta. Basicamente, o campo se tornou mais profissionalizado e mais secularizado. Nenhum arqueólogo sério de hoje tentaria provar a Bíblia no sentido antigo.

P.: Mas você está preocupado agora com o fato de alguns estudiosos da Bíblia estarem indo longe demais na tentativa de refutar a Bíblia como história. Você diz que os chamados minimalistas agora tendem a uma abordagem desconstrucionista das Escrituras.

R.: O princípio básico da maioria dos desconstrucionistas é, o texto não possui um significado central, ou qualquer significado com o qual possam chegar a um acordo. O que você faz é pegar o texto e despedaça-lo, e depois falha ao tentar montá-lo novamente. O que realmente visa fazer é desacreditar os textos importantes, e a Bíblia é o maior alvo do desconstrucionismo.

Para abordar um texto antigo é necessário uma certa empatia, para entendê-lo às avessas. O que aconteceria se lêssemos os clássicos desta forma, ou Shakespeare desta forma? Eu fui assistir “Hamlet”
recentemente, e eu prefiro ver um “Hamlet” não desconstruído.

P.: Alguns críticos o chamaram de fundamentalista religioso, apesar de você dizer explicitamente que aborda a Bíblia de um ponto de vista histórico, secular.

R.: Eu me esforço para manter minha preocupação teológica latente fora do meu trabalho. Eu cresci em um lar fundamentalista. Eu freqüentei uma escola dominical muito conservadora. Mas fui para uma escola teológica liberal, em Harvard. E depois me converti ao judaísmo. Eu não sou um teísta. Eu não tenho nenhuma questão de fé em jogo. Este não é o sentido disto.

Recentemente, um estudioso bíblico europeu me chamou de sionista devido a minha longa associação com Israel. Esta rotulação não esclarece as questões, mas mostra o que acontece quando você tenta adotar uma abordagem moderada.

Eu sou conservador no sentido mais apropriado: eu desejo preservar o que sabemos sobre o passado. Mas isto é ser conservador com “c” minúsculo.

Eu acho que todos os bons historiadores são conservadores.

P.: O que você quer dizer quando diz que as histórias bíblicas iniciais contêm um “núcleo de verdade?”

R.: Nas histórias da ascensão de Israel, há muitas histórias que soam como verdade, especialmente no Livro dos Juizes, que narra a longa e exaustiva luta contra os cananeus. A maneira como olho para o núcleo de história é utilizar a arqueologia como critério. Eu acho que esta é a verdadeira contribuição do livro, mostrar como um arqueólogo leria estas histórias.

As pessoas ficarão desapontadas com meu núcleo de história. Ele é muito modesto. O rei Salomão não teve 900 esposas, e tudo o que tocava não virava ouro. Mas ele existiu, e era bem rico para os padrões de sua época.

Então, ao invés de tratar Salomão como um mito, como os revisionistas querem fazer, eu apenas reduzo um pouco suas proporções.

P.: Qual é o valor acadêmico de adotar uma abordagem moderada à Bíblia como um documento histórico?

Q.: As visões extremistas tendem a ser novidadeiras e de vida curta.

Eu sempre fui partidário do que chamo de estudo de consenso. Vez por outra, surge alguém independente que dá início a uma revolução. Por temperamento e treinamento, eu pertenço a uma faixa intermediária. A história da arqueologia é recheada de teorias absurdas, teorias idiossincráticas.

Eu desejo preservar o terreno intermediário são, sensível e equilibrado onde as pessoas possam se situar.

P.: Você acha que as pessoas estão preparadas para um debate público sobre a precisão histórica dos eventos descritos na Bíblia?

R.: É verdade que a arqueologia está criando uma revolução na forma como os estudiosos e os leigos vêem a Bíblia. Quase todo dia eu percebo algum indício de que tudo isto está prestes a ser exposto ao público. Isto pode ser perigoso. Pode ser radical demais para muitas pessoas.

P.: Como você responde quando as pessoas perguntam se a Bíblia é verdadeira?

R.: Depende do que você entende como verdade. Eu tento explicar que sim, ela é verdadeira em algumas de suas dimensões históricas. Mas os escritores da Bíblia estão interessados na verdade em uma dimensão mais ampla. Eu tenho um amor profundo pela Bíblia e sua capacidade de nos instruir eticamente e moralmente. Eu realmente sou um historiador humanista secular. A propósito, não há a palavra “história” na Bíblia. Os escritores hebreus da Bíblia não estavam escrevendo história objetiva. Para eles, a palavra “verdade”
significava verdade religiosa. A arqueologia não pode legislar a crença.

O arqueólogo pode nos dizer o que aconteceu. Os escritores bíblicos podem nos dizer qual o significado que acharam para aqueles eventos.

Prezado Diogo, salve Maria.

Meu irmão tinha um amigo hipocondríaco. Vivia nas farmácias, procurando as novidades terapêuticas para seus males imaginários. Comprava qualquer remédio, escolhendo-os por serem novos, pela cor do liquido que continham, pelo formato simpático e diferente do frasco. Tomava tudo. Tomava de tudo.

Envenenava-se. Lenta e terapeuticamente.

Meu Irmão tinha um amigo…

Morreu de tomar remédio. Com os livros e as leituras se dá algo semelhante. Alguns há, que não querendo ver o mal de que, de verdade, sofrem — que é a ausência de Deus em suas almas — procuram a solução lendo qualquer livro, engolindo qualquer opúsculo, desde que seja uma … novidade. E a Internet é o grande bazar “farmacêutico” para os hipocondríacos da religião. Eles buscam, na Internet, aquilo que só a Igreja Católica pode dar: a fé verdadeira, e, através da confissão e da comunhão, o perdão de nossos pecados, e o próprio Cristo Jesus, realmente presente na Eucaristia.

Ele são “hipocondríacos” espirituais por que não tem sabedoria, porque não se alimentam da Verdade nos livros naturalistas que os professores os fazem pesquisar nas Faculdades. Não é na Internet que acharão as águas da verdade de que falou Nosso Senhor à samaritana, junto ao poço de Jacó.

É na leitura humilde –e com espírito de fé– das Escrituras, é no estudo sério dos Doutores e Padres da Igreja, especialmente no estudo de São Tomás, é na leitura diligente e submissa dos documentos pontifícios. É sobretudo na oração, que se deve encontrar a Sabedoria.

Portanto, meu caríssimo Diogo, não imite os internautas hipocondríacos da religiosidade, procurando na Internet o que nela não existe: a verdadeira sabedoria.

Exemplo dessa pseudo ciência e dessa pseudo sabedoria é esse texto que você me manda, cheio de contradições, e impregnado de um naturalismo absurdo.

Por exemplo. o autor declara que não é teísta.

Isto significa o que?

Significa que ele não crê em Deus criador do céu e da terra.

Não sendo teísta o que ele pode ser?

Poderá ser um ateu, um deísta (um homem que afirma que se existe um Deus, Ele nem se comunica conosco, nem nós com Ele), ou um panteísta, ou, finalmente, um gnóstico. Em qualquer dessas hipóteses a Sagrada Escritura deixa de ter qualquer valor.

Se ele é ateu ou deísta, ele estará convencido que a Sagrada Escritura é pura invencionice. Se ele é um panteísta, a Sagrada Escritura é um amontoado de fábulas, que a imaginação humana, a-científica, inventou, para explicar o universo e a vida humana. Se ele for um gnóstico, a Sagrada Escritura será apenas uma das possíveis manifestações do espírito divino em certos indivíduos, exprimindo os textos sagrados apenas a experiência particular de alguns homens, sem ter qualquer valor universal.

De qualquer modo, então, a noção que ele tem da Sagrada Escritura será fundamentalmente torta e relativizada.

Daí o naturalismo com que ele analisa os textos sagrados.

É claro que a Sagrada Escritura tem uma idéia central que lhe dá unidade. Somente numa época descentralizada, que perdeu o senso da unidade, é que se poderia fazer a pergunta colocada na entrevista.

A Sagrada Escritura mostra que Deus é a causa de todas as coisas, que nós somos criados por Deus e que devemos servi-lo, nesta vida, para podermos ser eternamente felizes com Ele, no céu, depois da morte.

Ora, essas verdades são inteiramente lógicas e alcançáveis pela razão humana.

Além disso, a Sagrada Escritura nos revela verdades de fé, que estão além da capacidade do conhecimento humano: por exemplo, que Deus é uno e trino.

Mas a razão compreende que, se Deus existe e é infinitamente veraz, Ele não pode, nem Ele quer nos enganar, e que, devemos então crer em todas as verdades que Ele nos revelou, embora estejam elas acima da capacidade da razão humana.

Os fatos históricos narrados pela Escritura são verdadeiros e a Ciência histórica séria jamais os contraditou, mas sempre confirmou essas verdades fatuais históricas.

Tome a questão do dilúvio.

Os inimigos da fé tentam negar esse fato histórico. Ora, todos os povos do mundo mantém a tradição de que houve um dilúvio. Essa aceitação universal do fato do dilúvio, existente nas lendas e tradições de todos os povos, só poderia ocorrer porque, de fato, no início da humanidade tal coisa aconteceu.

Veja agora, a contradição dos historiadores e cientistas naturalistas.

De modo geral, nas Universidades os professores admitem que houve um CONTRATO SOCIAL que teria originado a sociedade.

Ora, o próprio Rousseau — um dos propugnadores dessa balela — admite que se o contrato Social tivesse existido, ele teria deixado marcas profundas nas tradições de todos os povos, tal teriam sido as mudanças que ele teria causado. E Rousseau confessa que não existem, em nenhuma tradição popular, quaisquer marcas ou sinais desse pretenso contrato. Conclui então Rousseau que, de fato, o Contrato social não foi fato histórico, não existiu, mas que devemos imaginá-lo para melhor compreender e organizar a sociedade.

E o que o próprio doido do Rousseau admite — que não existiu realmente contrato social nenhum — os professores cientificistas afirmam com força e convicção: Creio no Contrato Social, origem de todas as coisas….

No dilúvio, não se crê. Apesar de Deus afirmá-lo e de que todas as tradições o confirmarem. Acredita-se no doido do Rousseau.

A Igreja ensina que o dilúvio foi um FATO histórico real, ocorrido nos tempos originais da humanidade.

Ele foi universal, isto é, atingiu a totalidade dos homens então existentes, em certa região da terra.

Você me pergunta ainda se alguma verdade do Antigo Testamento pode ser contestada. Nenhuma verdade pode ser contestada. Pior ainda será a contestação, se for contra as verdades que Deus ensinou quer no Novo, quer no Antigo Testamento.

Heresia é exatamente contestar certas verdades da Escritura, e aceitar algumas. A palavra herege significa aquele que escolhe, na Sagrada Escritura, só o que lhe agrada.

Finalmente resta-me responder-lhe sobre as “contribuições culturais” na Sagrada Escritura.

O autor da Sagrada Escritura é o próprio Deus. Os autores inspirados atuam como a “caneta” ou pena de Deus. Evidente é que, conforme o instrumento utilizado para escrever, a letra sairá diferente. Esta comparação serve para compreender que, embora o autor da Sagrada Escritura seja o próprio Deus, o instrumento de que Ele se serve — o profeta ou escritor bíblico — influirá no estilo, nas imagens utilizadas ao escrever. Deus inspira a verdade. O profeta escreve com seu estilo e saber próprios. Daí, o livro do profeta Isaías ter um estilo elevado, pois ele era um príncipe culto e educado, enquanto o profeta Habacuc, sendo um simples homem do campo, tinha um estilo rústico que o fez dizer a Deus, quando recebeu através de um anjo, a ordem divina de ir a Babilônia, na cova dos leões levar comida ao profeta Daniel: “Senhor, eu nunca vi Babilônia, e não sei onde é a cova ” (Dan. XIV,34). Recomendo-lhe que leia esse texto. É saboroso.

É claro, então, que na Sagrada Escritura se encontram traços culturais da época em que foram escritos os seus livros. Mas não há nela nenhuma influência do pensamento pagão ou idolátrico.

Espero tê-lo ajudado algum tanto.

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli

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