Montfort Associação Cultural

24 de novembro de 2004

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Estado político do Vaticano

  • Localizaçao: – Brasil

1) Por que a nossa Igreja Católica se tornou um Estado político e continua sendo? Parece-me que desfiguraram a verdadeira face da Igreja desejada por Cristo que disse: “meu reino não é desse mundo”. O poder dado por Jesus aos seus dicípulos é espiritual e não humano. Também não concordo com a guarda do Vaticano, pois nosso Mestre e Senhor sofreu e morreu na Cruz e não quis ser defendido pela espada de Pedro. Por favor me respondam!

2) Por que o Vaticano é um Estado político? Não lhes parece isso contraditório com a Igreja que Jesus Cristo quis? Sou católica, amo o papa, mas não acho que nosso chefe espiritual, nosso Pastor deva ser um chefe de Estado.

Você nos pergunta:

1: “Por que a Igreja se tornou um Estado político?
E argumenta dizendo:
“Cristo afirmou que seu Reino não era deste mundo”.”Cristo deu a seus discípulos um poder espiritual e não humano”.

2 – Você diz não concordar também com a Guarda Suiça no Vaticano porque, “não quis ser defendido pela espada de Pedro”.

Respondemos a você, na caridade, visando elucidar a questão. E, para facilitar sua compreensão, começaremos respondendo a suas objeções escriturísticas.

Não é certo dizer que Cristo não quis ser defendido pela espada de Pedro, porque, se assim fosse, Ele teria dito a Pedro que lançasse fora a espada. Cristo não mandou a Pedro se desfazer da espada. Em vez disso, Cristo ordenou a Pedro que guardasse a espada, porque quando Cristo já não estivesse no mundo, Pedro deveria usá-la como seu representante contra quem ferisse com o ferro: “Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido”. Se no Horto, Cristo mandou Pedro guardar a espada, era porque, naquela situação, Pedro não podia representar Cristo, que estava presente, e porque — como você notou — convinha que Ele morresse na cruz para nos redimir.

Que Cristo não condenou o uso da espada está claro por várias outras passagens da Sagrada Escritura. Por exemplo, quando Nosso Senhor disse: “Agora, quem não tem uma espada, que venda seu manto e compre uma”. Ao que Pedro contestou: “Eu tenho duas. E Cristo lhe respondeu: É suficiente” (Lucas, XXII 36 – 38).

E a Tradição sempre interpretou essas duas espadas de Pedro como sendo os dois poderes do Papa: o espiritual e o material. (Também cristo não condenou o uso profissional da espada pelos soldados, visto que não ordenou ao centurião que deixasse sua profissão. ).

Quando você nos escreve dizendo que “Cristo deu a seus discípulos um poder espiritual e não humano” fica clara sua dificuldade maior que o leva a ter uma opinião errada sobre o problema. Repare que você fala em “poder espiritual e não humano”. Ora, essa colocação do problema faz do poder espiritual algo que não seria humano.

Sua maneira de expressar acaba opondo o humano ao espiritual. E isto não está certo, porque tudo o que é humano é espiritual e material, ao mesmo tempo, visto que o homem é um ser composto de corpo e alma.

Você me diria que a Igreja é só espiritual ? Não creio, porque dizer isso seria cair em heresia. De fato, são os gnósticos, antigos e modernos, que afirmaram que a Igreja é só espiritual e, por isso, invisível.

Cristo — Deus e homem ao mesmo tempo — fundou não uma Igreja pneumática (espiritual) e sim uma Igreja visível, que tem estruturas materiais e que é reconhcível pelos homens. Por isso, ele compara a sua Igreja a um edifício, e coloca para ela uma pedra fundamental — que é Pedro, representante visível de Cristo na História.

Portanto, o poder dado por Cristo a Pedro era um poder espiritual e material, ao mesmo tempo, porque a Igreja Católica é também divina e humana. Sua cabeça é Cristo e o espírito Santo é a alma da Igreja, mas ela tem membros humanos e existe encarnada na História. Por isso Cristo deu a Pedro “as chaves do reino dos Céus” e não a chave.

A Igreja, sociedade divina e humana tem então, como Cristo, espírito e matéria. Porque não há oposição contraditória entre o espiritual e o material, como afirmam os gnósticos. A matéria foi criada por Deus e é boa.

Por isso também Cristo quis receber dos Reis um tributo de mirra (símbolo da dor e do sacrifício) incenso (símbolo da adoração) e ouro (símbolo da riqueza). Então, os gibelinos, protestantes e modernistas erraram ao dizer que a Igreja tem que ser pobre, sem ter nada de riqueza, porque Cristo aceitou riquezas dos reis, tinha bolsa durante sua pregação na Terra, e possuía uma túnica tão rica — por ser inconsútil — que os soldados sortearam-na e não a dividiram como haviam feito com suas outras roupas.

Portanto, é certo que a Igreja não é puramente espiritual e o poder que Pedro recebeu de Cristo não era só espiritual. Era um poder divino para ser usado para os homens que tem corpo e alma.

É verdade que Cristo declarou solenemente que seu Reino não era deste mundo. O Reino de Cristo, propriamente, é o dos céus. Esse Reino é também a Igreja, visto que Ele anunciou que seus contemporâneos veriam o Reino. A Igreja, reino de Cristo, não é deste mundo, mas está neste mundo. Por isso, ela é obrigada a ter bens, para fazer a caridade, e desde o seu início os Apóstolos estabeleceram diáconos para cuidar destes bens e fazer a caridade. Veja como isto está contado nos Atos dos Apóstolos (VI).

Passaremos, agora, a tratar da instituição dos Estados Pontifícios.

Já quando Constantino deu liberdade à Igreja, no início do século IV, ele deu à Igreja algumas propriedades, ainda que não um Estado. No século V, os bárbaros invadiram o Império do Ocidente, destruindo toda organização política. Todos os poderes sossobraram. Reinava por toda a parte a violência, a força bruta e uma verdadeira anarquia. Isso aconteceu especialmente na Itália, onde o único poder estável que se manteve foi o do Papa em Roma. Daí, naturalmente se recorreu ao Papa como juiz e como estabelecedor da ordem.

No século VIII, Pepino o Breve reconheceu o Papa como autoridade governante do centro da Itália, e mais tarde, Carlos magno confirmou esse reconhecimento.

Por que a providência divina, que guia a História, permitiu que assim ocorresse ? Por que o Espírito Santo, que guia a Igreja todos os dias, permitiu que os Papas se tronassem soberanos temporais ?

Qualquer historiador isento de preconceitos concorda que o estabelecimento dos Estados Pontifícios deu à Igreja uma liberdade de atuação de que ela muito necessita. Os Estados da Igreja, separados dos grandes reinos da Europa pelos Alpes e por uma miríade de pequenos estados feudais italianos, garantiu aos Papas uma liberdade plena para exercerem seus poderes.

Quando, na Idade Média, os Papas ficaram à mercê do Rei da França (Felipe, o belo) disso resultou o Cativeiro de Avignon e o Cisma do Ocidente. Quando, os Imperadores do sacro Império tiveram os Papas sob seu domínio, o resultado foi a servidão da Igreja e uma grande corrupção do clero e decadência da religião.

Os Estados da Igreja permaneceram governados pelo Papa até 1870, quando as sociedades secretas carbonárias — que visavam, entre outras coisas destruir a Religião — se apoderaram de Roma fundando o reino da Itália unificada. Na realidade, visavam destruir o papado, tirando-lhe primeiro todo poder material, para, em seguida, tirar-lhe todo poder espiritual. E é o que estamos assistindo.

É para combater esses males que todo Papa tem que jurar defender os estados da Igreja, e que todo católico é obrigado, em consciência, a defender a independência da Igreja.

No século XX, se chegou, em 1929 aos acordos de Latrão — assinados pelo cardeal Gasparri e pelo famigerado e ridículo Duce dos fascistas, o ateu, materialista, socialista e anarquista Benito Mussolini.

Por esses acordos, a Igreja reconheceu o domínio da Itália sobre as terras do antigo estado Pontifício, enquanto a Itália reconhecia o Vaticano como Estado soberano. Como compensação indenizatória, o Vaticano receberia uma enorme quantia, e ficava isento de impostos na Itália. Na prática, tranformou-se o Vaticano em pequeno paraíso fiscal. (E é curioso ver como muitos eclesiásticos que exigem que a Igreja seja pobre, nunca falam dessas vantagens monetárias e financeiras do clero). Juraram o “Pacto das Catacumbas”, usavam cruzes peitorais de madeira, e manipulavam contas bancárias altas, às vezes em proveito da revolução e da guerrilha socialista e comunista. E pior era quando viviam pobremente, por condenarem o direito de propriedade.

Então a Igreja, reino dos Céus na terra, não é um Reino deste mundo, mas vive neste mundo. Luta neste mundo. Luta contra o mundo, no mundo. Por isso Santo Agostinho a descreveu como Civitas Dei. Como uma Cidade: “Dois amores construiram duas cidades. Os que amam a Deus até o desprezo de si mesmos construiram a Cidade de Deus, enquanto os que levam o amor de si mesmo até o ódio de Deus construiram a Cidade do Homem” (Cito de memória e não literalmente. Mas o texto é lindíssimo e merece ser lido).

São as sociedades secretas que recusam à Igreja o seu direito de ser também um Estado, a fim de melhor dominá-la, para depois destruí-la.

É claro que uma simples resposta em forma de carta não esgota o problema. Estaremos a sua disposição para responder às suas questões, visando a defesa da Igreja e de seus direitos, assim como a salvação das almas. Rezamos para que Deus nos una em defesa de seus direitos.

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