Montfort Associação Cultural

2 de setembro de 2004

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Espórtulas e Dízimo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcel
  • Idade: 26
  • Localizaçao: Campo Grande – MS – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Caríssimo Prof. Dr. Orlando,

Mais uma vez estou aqui para fazer outro comentário, desta vez sobre o complicado assunto das espórtulas.

Estou ciente (há menos de dois anos, por sinal) das boas razões – canônicas e práticas – que a Igreja tem para pedir espórtulas aos fiéis que se usam dos diversos serviços (sacramentos, exéquias etc.) a eles prestados.

Mas me parece ainda estranho o uso deste recurso. Não porque o sacerdote não tenha direito a viver de seu apostolado, claro que tem. Mas justamente porque quem doa tais espórtulas de falecimentos e sacramentos, quando não critica a validade das mesmas, não tem consciência que é este o dinheiro que não deixa a sua Igreja em boas condições de conservação, ou seus funcionários morrerem de fome. E, uma vez dada a espórtula, esta categoria de fiéis nunca mais volta lá.

Ou seja, é um batizado que negligencia a sua religião.

E, por consequência disso, não se lembra que é responsável, não só nas horas difíceis, mas sempre, por sustentar a “sua” religião.

E nem se dá conta de que a devolução mensal do dízimo é também um dos recursos – o mais regular, a meu ver – para não deixar a sua Igreja morrer de falta do material.

Aproveito, diante disso, para te fazer algumas perguntas: 1. na Igreja pré-Vaticano II, era comum (e incentivada) a devolução do dízimo? Por quê?

2. as dioceses hoje procuram dar ênfase à conscientização do dízimo, mostrando inclusive fundamentos bíblicos, e tentando substituir uma cultura de sustento das Igrejas baseada no trinômio “bingo-churrasco-quermesse”. Isso é correto? Isso é positivo?

3. se todos os católicos que se dizem praticantes tivessem maior consciência em devolver o dízimo como gratidão à graça de Deus em nossas vidas (e consequente consciência de que “eu sou Igreja”), seria então necessário manter tais espórtulas eventuais (pois meu dízimo é que faz o padre viver de seu ofício, além de custear demais despesas da Paróquia)? E se o mesmo acontecesse aos “católicos só de nome” (caso obviamente voltassem à sua Santa Mãe Igreja)?

Desculpe-me pelo longo discurso, mas preciso bastante de sua resposta a respeito.

[]s, Marcel.

Muito prezado Marcel, salve Maria!

A lei da Igreja quanto ao dízimo, no Brasil, sempre foi a seguinte: “Pagar dízimos, segundo o costume“. Nunca, se pagou, no Brasil, o dízimo literalmente entendido, isto é, 10% do que se ganha.

Sempre, no passado, cada fiel pagava, como podia, quanto queria, e quando podia.

A Igreja, no Brasil, nunca se preocupou com o quanto se pagava. Formada a consciência do fiel, ele sempre dava quanto podia.

Foi com esse sistema que se construíram todas as inúmeras e bem bonitas igrejas coloniais — e bem ricas –, que se construíram as escolas católicas, os hospitais, asilos etc.

Hoje, a primeira coisa que se lê, na porta de uma igreja, é o cartaz do dízimo.

Pelo jeito que apelam e clamam esses cartazes, os padres estão recebendo cada vez menos esmolas do povo…

E é claro que seja assim.

Se o número de pessoas que vai à Missa caiu vertiginosamente, depois do Vaticano II, porque deveria ter aumentado a contribuição das esmolas?

Tive notícia de que, na Espanha, país mais tradicional e o de maior freqüência à missa dominical de todo o mundo, a porcentagem dos que agora vão à Missa dominical é mínima, não chegando a 5% do povo católico.

Frutos do Vaticano II, e das Missas show.

Porque se o padre quer fazer da Missa um show, o povo prefere outros, bem mais “divertidos”.

A Missa não é um show. A Missa é a renovação do sacrifício do Calvário.

Você diz bem: que é preciso antes formar católicos conscientes de pertencer à Igreja, do que pedir dinheiro dos que nem estão plenamente conscientes da fé católica e dos deveres que ela impõe.

Permita-me, meu caro Marcel, de passagem, corrigir uma expressão sua: “eu sou a igreja”.

“Nós somos a Igreja” é o nome de um movimento modernista, e contrário ao Papa.

Nós somos membros da Igreja.

Eu não sou a Igreja. Sou membro dela. Nós não somos a Igreja, e nem podemos dizer, simplesmente, que somos igreja. Somos membros pecadores da Igreja. Antes do Vaticano II, nunca ouvi falar em campanha de dízimo. Jamais se falava disso.

Mas como os católicos eram melhor formados, como eles tinham mais fé e, por isso, eram mais conscientes de seus deveres para com o clero do que os de hoje, como muito mais gente freqüentava as Missas, havia muito mais contribuição nas esmolas.

Além disso, sabe-se muito bem que, hoje, as Instituições católicas alemãs — Caritas, Misereor, e outras –, dão milhões de dólares à Igreja do Brasil.

Mas sabe-se, também, que muito desse polpudo dinheiro vai para o MST fazer invasões de terras, violando o décimo e o sétimo mandamentos da lei de Deus, e — conta-se — que vai até para o PT.

Por que então um fiel comum deve sacrificar-se, dando o dízimo, se muito do dinheiro da Igreja vai para um partido, ou para um movimento político comunista?

Por que dar o dízimo para um padre que se veste na moda play boy, ou para outro que se veste a moda moderninha em jeans e sem camisa, e diz que vai a praia e ao baile de carnaval em… Poços de Caldas?

Dízimo para um padre que defende o fim do celibato e que freqüenta baile e praia?

É claro e bem natural que, nessas circunstâncias lamentáveis, a mão do povo se feche.

E o descontentamento e reprovação do povo ao modo como se pronunciam certos prelados, mais sedentos de aparecer na mídia e de agradar a onda política do momento, mais do que preocupados em defender a Fé, desagrade ao povo.

Ainda agora, enfrentando o clamor popular, a CNBB defendeu o atual “Estatuto da Criança” (criança barbada de 18 anos) e a não diminuição da idade penal, que certamente diminuiria a criminalidade juvenil.

E enquanto o povo, em imensa maioria, levado pelo bom senso — e apoiado até pela doutrina católica — pede mais rigor da justiça, e mesmo a pena de morte, a CNBB e os políticos que mais falam em nome do povo não aceitam a vontade do povo.

Se o povo, em imensa maioria, quer a diminuição da idade penal, aí a vontade do povo não vale. O povo está equivocado. Eles é que estariam certos.

Se o povo quer a pena de morte — aliás, em consonância com o que dizem a Sagrada Escritura e a doutrina católica de sempre — esses Bispos e esse políticos, declaram que o povo precisa ser conscientizado, que o povo é ignorante.

E, para conscientizar o povo, falam em dízimo…

Para alguns Bispos marxistóides da CNBB, assim como para os políticos demagogos que pretendem falar em nome do povo, a vontade do povo só vale quando coincide com o capricho ideológico deles.

Antes do Vaticano II, se ensinava aos católicos que eles deveriam dar a vida pela Igreja. Em conseqüência, eles estavam prontos a dar a vida pela Igreja. E, portanto, com muito mais facilidade davam o dinheiro que podiam, como manda o quinto mandamento da Igreja: “Pagar dízimos, segundo o costume”. Mas, se se ensina que qualquer religião salva, e que quem pretende dar a vida pela Fé católica é um fanático, porque então ir a Missa, e ainda por cima dar o dízimo para o padre moderninho ir a festas?

Desse modo, como se espantar que tenham diminuído as esmolas na Igreja?

Bem nos ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo: “Procurai antes o reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado em acréscimo” ( Mt., VI, 33).

Como essa advertência de Jesus, nosso Redentor, calha bem para o clero progressista, dominante hoje em dia, e que, se procura algum “reino”, é o do marxismo, julgando que justiça é a igualdade, é pegar o que é dos outros, e não que justiça é dar a cada um o que é seu: a quem a honra, a honra, a quem o temor, o temor, e a quem a glória, a glória”.

E só depois de ter dado a Fé verdadeira e os sacramentos corretamente — e também bom exemplo ao povo — poderia reclamar: a quem o dízimo, o dízimo.

Aproveito a ocasião para lhe desejar um santo Natal, com muitas graças de Deus para você e para a sua família, assim como para o seu vigário. Com farto dízimo, proporcionado a seu zelo pela Fé Católica e pela virtude.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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