Montfort Associação Cultural

26 de janeiro de 2005

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Escritores e capacidade de debater

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Paulo Soares
  • Idade: 40
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Caro Prof. Orlando Fedeli:

Após ler muitas perguntas e respostas no espaço do leitro, me veio uma preocupação: Sou católico, mas não sei se do jeito que vocês gostariam. Leio Max Webber, Dostoiévski, Tolstói , e , recentemente, o romance “Pais e Filhos” do escritor Ivan Turguêniev. Leio também Vitor Hugo , Dante Aleghieri, Thomas Mann, Emile Zola ( o Germinal, um clássico) e os mais consagrados escritores de todos os tempos. Não me preocupo com a pseudo-catequização que determinados escritores , na opinião de vocês, possam me causar. Alias diga-se de passagem, li tambem o clássico de Max Weber, A Ética do Protestante e o Espírito do Capitalismo”.

Resumindo não escolho uma doutrina católica para ler, leio tudo que considero um clássico. A Bíblia já li muitas vezes,e por isso chego a conclusão, se me permite, apontar que em determinadas situações o sr defende a pena de morte pelas palavras de Jesus:

Mateus 26:52 Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua ESPADA; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão

Teria querido Jesus defender a pena de morte ou simplesmente alertar Pedro de que aquele que se utilizar da violência gerará mais violência e por causa dela poderá morrer ?

O amor inesgotável de Jesus é expresso em Mateus:

Mateus 5:43 Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.

Mateus 5:44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;

Mateus 5:45 para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.

Mateus 5:46 Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?

Mateus 5:47 E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais?

Não fazem os gentios também o mesmo?

Mateus 5:48 Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste

Não foi para evitar qualquer mal entendido que Jesus disse isso?

Amai os inimigos tambem, sem contart o olho por olho e dente por dente que Jesus condena em Mateus:

Mateus 5:38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente.

Mateus 5:39 Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra;

No entanto no seu site caro professsor, não vejo uma pregação baseada no amor, na compaixão , e sim vejo muito ódio em algumas respostas. Basta que alguem tenha uma conduta que vocês consideram errada para lembra-los sempre do fogo eterno que vocês parecem amaldiçoar os não-católicos.

Aliás sobre o fogo eterno em proxima carta gostaria de reproduzir texto sobre isto , mas fica para uma próxima.

É indiscutível a sua cultura e o espírito incansavel de defender o catolicismo, é de se admirar, a garra com que defende a sua causa é algo que até me emociona, creio que o Sr deve ficar muito cansado de ler , reler, e responder tantas cartas e além de tudo publicar os cadernos com estudos fruto de muita pesquisa, realmente parabéns.

O sr possui um nível cultural e uma capacidade de debater que pouca ou quase nenhuma chance nos dá de contra argumentar.

Mas, teimosos que sou não desisto.

abraços e me perdoe os erros de grafia pois escrevi esta num teclado desconfigurado e nem tive tempo de revisar.

PS: Se não for abusar que tal lançar uma coluna com sugestão de livros.

Sejam romances ou livros de história, bíblicos, etc. Seria muito útil para nós, assim aprenderiamos (aqueles que tem sede de saber) muito mais.

Paulo Soares

Muito prezado Paulo, salve Maria!

Antes de tudo lhe agradeço por suas palavras de elogio, assim como por sua lealdade em me criticar.

Elogiar, sem criticar, pode ser bajulação. Criticar sem reconhecer o valor de outrem, é injustiça.

Certamente, porém, seus elogios à minha pessoa e a meu trabalho provém de sua generosidade mais que de sua justiça.

Vamos então ao âmago de seus questionamentos.

Não se ofenda, peço-lhe, como que vou lhe contar, pois só tenho em vista ajudá-lo, e lhe conto uma anedota como meio didático, para ajudar a sua compreensão Meu irmão conheceu um homem hipocondríaco. Um homem com mania de doenças e de tomar remédios.

Esse indivíduo ia à farmácia, e perguntava para o balconista, como se estivesse numa mercearia, ou numa livraria: — “Então que novidades o senhor tem para me oferecer ?”
E comprava um remédio porque era novo. E comprava outro porque era famoso. E um terceiro, porque era gostoso. E um quarto, porque tinha um vasilhame simpático ou elegante.

É claro que meu irmão conheceu um hipocondríaco.

Ele morreu de tanto tomar remédio.

Claro que, se pudesse, ele protestaria, argumentando talvez que os remédios não lhe poderiam fazer mal, porque ele, não conhecendo química, nenhum dos elementos contidos nas tisaranas que engolia, lhe poderiam fazer mal.

Fizeram mal.

Morreu.

Está morto até hoje. Porque “quand on meurt c´est pour longtemps”, dizem os franceses.

Essa história, que eu lhe contei, visando ajudá-lo, repito, se parece com a sua.

Assim como esse hipocondríaco tomava remédios, você engole “clássicos”.

E ingenuamente pensa que eles não o afetam.

Você me passa uma lista de autores que leu (ou engoliu), e que — se percebe — você julga de grande valor, embora uns digam o contrário dos outros.

Como você pode juntar em sua cabeça Dante e o indecente Zola?

Ou você não entendeu Dante ou não entendeu Zola.

(E não pense que aprovo o pensamento de Dante. Dou cursos da Divina Comédia, gratuitamente, condenando o que ele ensina).

Você diz que leu o esotérico, romântico, demagogicamente bombástico– e chato — Victor Hugo e Max Weber.

Vá lá se entender qual o critério dessas suas leituras!

Você engole, como o hipocondríaco de que lhe falei, os livros que lhe informam ser “clássicos”.

Livros, meu caro Paulo, são como remédios: só se lêem por “prescrição médica”, para sanar uma nossa deficiência de conhecimento da verdade. Não se lê de tudo, e nem em qualquer ordem. O resultado de leituras gulosas é, no mínimo, a confusão doutrinária e a demolição da capacidade de análise e de crítica, e, no máximo, a destruição da Fé. mesmo em pessoas com boa intenção e boa vontade, como você me parece ter.

Quer ver a prova disso ?

Você me diz que leu a Bíblia várias vezes, e, a seguir dá uma interpretação errada do que Cristo ensinou ao mandar Pedro guardar a espada “por que quem o ferro fere, com o ferro deverá ser ferido”.

Como você pode dar a essa frase de Cristo uma interpretação contra a pena de morte, se Cristo, no Apocalipse, disse expressamente:

“Quem matar à espada, importa que seja morto à espada” (Apoc. X, 13)

O que leva você a condenar a pena de morte são, entre outras coisas, suas leituras de Dostoiewski, que combatia a pena de morte em todos os seus depressivos e eslavófilos romances.

(E o movimento eslavófilo era ligado ao esoterismo alemão, coisa que provavelmente, você não teve oportunidade conhecer e que estou disposto a lhe ensinar, você querendo).

Depois, você me dá uma loga série de citações evangélicas sobre o amor, e me acusa de que:

“no seu site, caro professsor, não vejo uma pregação baseada no amor, na compaixão , e sim vejo muito ódio em algumas respostas. Basta que alguem tenha uma conduta que vocês consideram errada para lembra-los sempre do fogo eterno que vocês parecem amaldiçoar os não-católicos”.

Em primeiro lugar, isso não é verdade .

Se você fizer uma pesquisa de minhas cartas, — e confio em seu senso de justiça que o fará e reconhecerá o que digo — você constatará que falo mais de perdão e de misericórdia, do que de inferno. E jamais mando qualquer pessoa para o inferno. Muito menos meus inimigos, pelos quais rezo.

Em segundo lugar, vejo que você não compreende bem o que significa amor, na Sagrada Escritura.

São suas leituras românticas que lhe dão uma idéia deturpada do amor.

Amar, nos Evangelhos, é querer o Bem absoluto, Deus, para o próximo. E o Bem absoluto consiste em querer o céu para os outros. E o céu só se alcança tendo a verdadeira Fé, e praticando a lei de Deus.

É por desejar o Bem a todos que passo horas incontáveis, como você bem justamente reconhece, escrevendo aos que me consultam, aos que me atacam e aos que me criticam, para ajudá-los a voltar a Deus e a ter o céu.

E isto é amar o próximo.

Pouco acima lhe disse que dou cursos sobre a Divina Comédia, e gratuitamente.

Disse-lhe isso, como meio de lhe fazer bem. Vendo seu gosto pela literatura, talvez você se interessasse por estudar Dante comigo, o que me permitiria lhe ensinar muitas coisas, e lhe fazer realmente bem, como a um amigo.

Será que isso é não ter compaixão?

Atacar o erro é como atacar uma doença. O médico que corta um tumor causa dor no doente, para salvar-lhe a vida. Assim também, meu caro Paulo, atacar um erro, e atacar quem erra, é necessário para ensinar a verdade.

Uma das obras de misericórdia espirituais é castigar os que erram, e outra é ensinar os ignorantes.

Para isto me tornei professor.

Para isto escrevo.

Para isto, lhe escrevo.

Na esperança bem ansiosa — bem ardorosa — de lhe poder fazer muito bem.

Transcrevo, aqui, algumas de suas generosas frases para comigo apenas para colocar em relevo o que me emocionou em sua missiva. Eis suas frases, por demais generosas, nas quais sublinho o que me emocionou.:

É indiscutível a sua cultura e o espírito incansavel de defender o catolicismo, é de se admirar, a garra com que defende a sua causa é algo que até me emociona, creio que o Sr deve ficar muito cansado de ler , reler, e responder tantas cartas e além de tudo publicar os cadernos com estudos fruto de muita pesquisa, realmente parabéns”

Descontando o exagero de sua consideração para comigo, digo-lhe que me emocionou a mim ler que você se emociona ao verificar o denodo com que defendo a verdade católica.

E porque me emocionou a sua emoção?

Porque vejo nela que você escutou, na minha voz, outra voz que a minha. Que você compreendeu que Deus nos chama para defendê-Lo.

Um rapaz de certa cultura como você, bem orientado em seu amor pelas leituras, poderia ser um bom defensor da verdade. Por isso, como Jesus disse um dia a uma pessoa bem santa, lhe repito: “Ordina questo amore”. Ordene esse seu amor pela leitura.

Você me permite — e me perdoe – por desabrochar minha emoção por sua emoção?

Pois saiba que,

“En mi alma hay una llama
que la quema por entera.
El amor es qe me llama
a luchar por mi bandera.
Es mi Diós el que me llama
a morir por su bandera”

“Ah mi Diós yo bien quisiera
que mi alma antorcha fuera,
que otras almas encendiera,
en el amor por tu bandera!
Que en mi alma siempre ardera
el amor por tu bandera”

Não quer você também ter essa chama ardente de amor à verdade em sua alma?

Não me permitirá você que minha alma seja como tocha ardente que inflame também a sua alma no amor da Fé verdadeira?

Perdoe-me esta expansão, mas a oportunidade de fazer o bem deve ser pega no momento que passa.

Escreva-me, que desejo lhe ensinar muito, para que você tenha o Bem absoluto na Verdade absoluta, a Fé na Igreja Católica Apostólica Romana.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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