Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Era a Javé que Nosso Senhor se referia?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcos Reis
  • Localizaçao: Porto Alegre – RS – Brasil
  • Religião: Católica

Estimados Senhores:

Através das Escrituras, percebemos que Nosso Senhor muitas vezes referiu-se à antiga Lei para justificar seus atos frente às palavras dos profetas.

Todavia, observa-se que Cristo igualmente lembrou aquele código para estabelecer parâmetros de comparação (e contraste) entre sua visão e a antiga.

Ele afirma que não veio para abolir a Lei antiga, mas para “aperfeiçoá-la”. Também censuraveementemente a hipocrisia dos judeus quanto aos alimentos supostamente proibidos, porque o que corrompe o homem é o que nasce internamente, e não os objetos materiais do mundo sensível. No sublime Sermão da Montanha, o Salvador adquire postura extremamente “reformista”, revelando um novo modo de convívio.

Além disso, parece-me que a concepção de Deus no antigo testamento é bastante diversa daquela apresentada por Jesus. Ao Javé vingativo e nacional dos judeus foi contraposto o Deus que perdoa e que é universal, expandindo a limitada (e exclusivista) visão de um povo eleito e étnicamente homogêneo.

Cumpre assinalar que no instante do último suspiro de Jesus na cruz, o véu do templo foi rompido, fato que obviamente representa a ruptura com o passado.

Amparados pela ótica da doutrina católica tradicional, até que ponto podemos sustentar esta divisão, sem cairmos em cisma?

Chega-se a questionar se o Deus cristão é o mesmo dos judeus do antigo testamento, haja vista ser inconcebível uma mutação de Deus, já que Ele é em si, é o motor imóvel, e é Dele o princípio criador de tudo.

Despeço-me, sem antes parabenizar os senhores pelo magnífico “site”, que tanto trabalha pela cristandade autêntica e vigorosa.

Obs: Confesso que muito já me diverti com a habilidade com que aqui são desarmadas as balelas protestantes.

MARCOS REIS

Prezado Marcos, salve Maria!

Muito obrigado por seu elogio ao site Montfort, e eu me alegro que você se tenha divertido com o esmagamento dos hereges. Porque está escrito, no Antigo Testamento “O justo se alegrará na vingança [de Deus]” “Laetabitur justus cum viderit vindicta”( Sl. LVII, 11).Com o que concorda o que está escrito no Apocalipse: “Até quando, Senhor, santo e verdadeiro, dilatas tu o fazer justiça e vingar o nosso sangue dos que habitam sobre a terra”( Apoc. VII, 10).

Antigo e Novo Testamento ensinam a mesma doutrina. O que o Antigo Testamento ensinou em forma velada pelo véu da profecia, o Sol de Justiça, Cristo, deixou bem claro, no Novo Testamento. Pois não pode haver contradição alguma entre o Novo e o Velho Testamento, obras do mesmo Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor (o Pai), Deus Santo (o Espírito Santo, o Amor de Deus) e verdadeiro (o Filho, a verdade de Deus).

São Boaventura pergunta (cito de cor as palavras dele, sem consultar seu livro, portanto não ipsis litteris): Por que fez Deus, no mesmo dia, um luminar para presidir o dia, e um astro luminar para presidir a noite?

E o sol é radiante e tudo ilumina, pondo em tudo cores. Mas a luz da Lua é misteriosa e difusa, e só deixa ver vultos, e em nada põe cor. Mas a luz da Lua vem do sol.

E assim é que a luz do Antigo Testamento é difusa e misteriosa como a profecia, fazendo ver tudo de modo obscuro. Mas quando nasceu o Sol de Justiça, Cristo, tudo ficou claro, e o que era obscuro ficou esclarecido, porque a luz do Antigo Testamento vem do Novo, já que a luz da Lua vem do Sol.

Essa poética e belíssima explicação de São Boaventura demonstra que nada há no Novo Testamento que contrarie o Antigo, mas apenas o esclarece e o aperfeiçoa, fazendo ver claramente o que estava em esboço e vago no Antigo testamento, fazendo ver na realidade do Novo testamento, aquilo que era figurado no Antigo.

Porque o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Yahwé é Deus Pai, e o Filho é a imagem do Pai. Por isso disse Jesus” “Quem vê a Mim , vê o Pai” (Jo. XIV, 9). “Eu e o Pai somos um “( Jo. X, 30).”Tudo o que o pai tem, é meu”(Jo XVI, 15 ).

Foi o herege gnóstico Marcion quem disse que o Deus do Antigo Testamento é o oposto do Deus do Novo Testamento, e isso foi condenado pela Igreja. Cristo disse aos judeus que lhe explicassem como nos salmos está dito: “Disse o Senhor a meu Senhor: “(Sl.CIX, 1; e Mt. XXII, 44).

Portanto, o Senhor (Deus Pai) disse ao Senhor (Deus Filho, igual ao Pai).

Foram os judeus que acusaram Cristo de ter uma concepção de Deus diferente daquela do Antigo Testamento. Mas Cristo lhes respondeu que o Deus do Antigo testamento era seu Pai e que agia nele.

O véu do Templo se rasgou para significar que Deus abandonava o Templo judeu, e não que havia uma ruptura entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo testamento. Se houvesse ruptura entre o Deus do Antigo Testamento e o do Novo, quando Cristo morreu no Calvário, o Deus do Templo, se fosse diferente de Cristo, alegrar-se-ia, e não sairia do Templo.

Repito: a ruptura foi entre o Deus do Antigo Testamento — que é o mesmo Deus do Novo Testamento — e a Sinagoga.

Deus é imutável, e por isso Cristo declarou que não tiraria nem um jota da lei. Afirmar que há diferença entre o Deus do Velho Testamento e o do Novo não faz cair em cisma: faz cair em heresia, pois é a Gnose que afirma essa diferença.

Espero que você tenha compreendido o que lhe expliquei, mas se lhe persistir alguma dúvida, escreva-me porque é um erro muito grave pensar que o Deus do Novo Testamento é diferente do Deus do Antigo. Cristo veio revelar que o Deus do Antigo Testamento era uno em substância, e era trino em pessoas. Por isso, ainda no Antigo Testemento Isaías viu dois serafins cantarem: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos”
Eles cantam três vezes Santo, para indicar já, mas veladamente, a Santíssima Trindade que vai ser revelada por Cristo, e a chamam de Senhor, no singular, para indicar a unidade. Também Abraão viu três anjos, e os chamou de Senhor, no singular.

Portanto, o Deus uno do Antigo testamento é o mesmo Deus Trino do Novo Testamento.

In Corde Jesu,, semper,

Orlando Fedeli.

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