Montfort Associação Cultural

31 de janeiro de 2001

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Entrevista do Padre Claude Barthe com o Cardeal Joseph Ratzinger sobre a situação da Igreja Católica

Entrevista com o cardeal Joseph Ratzinger

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé emite seu ponto de vista sobre a situação da Igreja Católica

Radicalização do laicismo, abandono do sagrado, crise de vocações, mas também sinais de renovação: ao final do grande jubileu do ano 2000, o Pe. Claude Barthe entrevistou o cardeal Joseph Ratzinger que lhe mostrou seu ponto de vista sobre a situação da Igreja Católica. (Publicado no “Spectacle du monde” n°464 de janeiro 2001, p.68)

Padre Claude Barthe (C.B.) — Mons. Billé, presidente da Conferência dos Bispos da França, na última assembléia em Lourdes [novembro de 2000], falou da “radicalização” e de vexames de que a Igreja é objeto:  “acusação, deboche, desconfiânça, dissimulação, ostracismo…”.

Ele analisava este fenômeno, há décadas muito marcante em relação à \”mentalidade liberal e individual, que respiramos como o ar.\” Como exemplo, ele se referiu à receptividade, com muitas reservas, do documento \”Dominus Iesus\”, sobre Jesus Cristo, como único meio de salvação, que foi totalmente rejeitado por pessoas que não o leram, para as quais, só o fato de saber que a Igreja não preconiza o pluralismo religioso, é insuportável.

Cardeal Joseph Ratzinger (J.R.) — Sim, há uma radicalização evidente do laicismo, do secularismo, que se opõe à presênça da fé na nossa sociedade, laicismo e secularismo que querem \”sectarisar\” a fé católica, se assim podemos dizer, e reduzir a Igreja católica ao estado de seita. A mentalidade geral, proponderante no Ocidente, cada vez mais se distancia da fé da Igreja. Isto é um fato.

Noto que, se atacam a declaração \”Dominus Iesus\”, como expressão de intolerância, na realidade o contrário é verdadeiro: não se tolera mais que a Igreja católica possa se exprimir sobre sua própria identidade e sobre sua própria fé, que, aliás, ela não impõe a ninguém, mas que ela afirma e defende. Quanto à tolerância, ao menos, parece-me que a idéia geral do Ocidente é de que se possa exprimir sobre sua própria fé.
Estes violentos ataques mostram que, além da fé, no centro desta marginalização, há uma forte realidade. Não seria necessário atacar a Igreja e a fé se elas fossem realidades abandonadas ou a ponto de desaparecer. Portanto, estes ataques são também um sinal da vitalidade da fé e da força que ela mantém no mundo espiritual.
Eu acrescentaria que esta marginalização da Igreja não é igual em todas as regiões da Europa, nem em todas as partes do mundo. Assim, há uma paganização na Alemanha, principalmente nas regiões antes sob o domínio dos comunistas e, de maneira geral, no norte do país, onde o protestantismo se decompõe e cede lugar a um paganismo que não tem mais necessidade de atacar a Igreja, porque a fé, aí, tornou-se de tal modo ausente que não acham mais necessário agredi-la.

Mas há, também, situações totalmente diferentes. Pode-se constatar, hoje, novas manifestações de fé em fortes movimentos juvenis, que mostram a realidade sempre presente de um desejo do absoluto, com uma redescoberta da beleza da fé e do sagrado. Este anseio do sagrado, do redescobrimento de todas as belezas perdidas, está muito presente na nova geração.

Neste sentido, o panorama está diversificado. Há, de um lado, como bem descreve Mons. Billé, este novo radicalismo do secularismo, que queria triunfar definitivamente, e impor seu domínio, tornando inacessível, inaceitável e intolerável, a realidade da Igreja.

De outro lado, sem o apoio total da mídia, mas com uma força interior profunda, há um ressurgimento da fé. A Igreja estará, certamente, em situação minoritária no nosso continente, mas reforçando-se espiritualmente e interiormente, tornando-se, assim, uma esperança para o bem dos homens.

C.B. — Esta renovação, de que o Sr. fala, se manifesta na França por um certo florescimento de comunidades, por uma manifestação de muitas forças vivas. Mas elas estão dispersas, até mesmo separadas, à espera evidente de uma afirmação cristã, clara e firme, dos pastores.

J.R. — Acho que se pode falar de uma geração um pouco desanimada, a geração do Vaticano II que, na época do Concílio, concebera grandes esperanças, um pouco irrealistas, esperando um novo acordo entre a Igreja e o mundo. A decepção que se seguiu, destas esperanças mal interpretadas, foi muito grande, e hoje não se encontra mais a força interior da fé, que nunca contou com fácil aceitação do mundo, apesar de ser ela a resposta às grandes questões que sempre os homens apresentam.

Na nova geração, há muitas vocações, um pouco espalhadas. Nas dioceses há menos vocações porque nelas encontramos um clero desanimado e comunidades aflitas. A atração, antes exercida pelo trabalho paroquial, se exerce hoje na direção de comunidades vivas, nas quais se encontra uma fé e uma alegria intensas, embora, na verdade, dispersas. Mas, me parece, que esta forte pujança de vocações, embora de poucos e um tanto marginalizadas,   terá  um grande peso no futuro.

C.B. — Há uma estatística que impressiona os bispos da França: num total de 120 padres ordenados por ano, incluindo todas as tendências possíveis, da Fraternidade S. Pio X aos mais progressistas, 20 a 25 ¾ portanto 1/5 ¾ são ordenados no rito tradicional. E, dos 4 restantes, 2 são muito sensíveis à liturgia tradicional. Nos seminários de Paris ou de Ars, uma parte não desprezível (às vezes, um pouco mais da metade dos seminaristas) pensaram em se formar num seminário da Fraternidade S. Pedro ou da Fraternidade S. Pio X. Não o fizeram porque isto reduziria e marginalisaria seu apostolado. Não seria, então, o momento de mudar alguma coisa no terreno litúrgico paroquial?

J.R. — Parece-me que mudar não é a prioridade. Foi o erro que se cometeu depois do Concílio. Pensou-se que a reforma consistia, primeiramente, na mudança.

C.B. — Eu não me referia aos textos, mas a mudanças concretas, como o retorno do altar, o silêncio no canon, o ofertório.

J.R. — Isto deve ser, naturalmente, a conseqüência de uma nova presênça do sagrado nos corações. Mudou-se o sentido do altar porque tinha-se uma nova sensibilidade, mais didática, diria um pouco mais racionalista. Pensou-se a Missa como um diálogo com o povo. Devia-se entender tudo; devia-se, pois, \”abrir\” tudo, para ser entendido. E perdeu-se, assim, aquela sensibilidade, pelo fato de se pensar que entender a realidade litúrgica, seria entender as próprias palavras da liturgia. Uma piedosa velhinha pode entender muito bem a profundidade do mistério, sem, no entanto, entender o sentido de todas as palavras.

Foi o que aconteceu depois do Concílio. O Concílio se manteve ainda muito equilibrado. Mas, depois do Concílio, prevaleceu a idéia de que era preciso abrir tudo, entender tudo, proveniente de uma noção superficial da compreensão da liturgia e da sua mensagem. A liturgia é também uma mensagem, é verdade. Mas é uma mensagem diferente. Portanto, é muito importante que as novas vocações descobrem que uma liturgia racionalisada, uma liturgia na qual tem-se somente a preocupação de se fazer compreender, do ponto de vista da razão, do ponto de vista intelectual, não tem mais a profundidade daquela realidade que me toca no meu coração até o nível da presênça de Deus em mim.

Se nós voltamos, assim, à uma visão muito mais profunda da liturgia como mistério, no sentido que esta palavra tem no Novo Testamento, se nós reencontramos o essencial deste contato entre o povo e o padre no Senhor, e se é o próprio Senhor que nos toca, então o mais importante estará feito. Eu acho, portanto, que uma nova sensibilisação às realidades da liturgia, ao seu mistério, juntamente com uma nova educação litúrgica, são as primeiras coisas a fazer. E não pensar primeiramente e imediatamente em mudanças.
Se reencontramos uma compreensão mais profunda, as mudanças necessárias serão decorrentes.

C.B. — Mudar os corações antes de mudar o altar. Mas, a simbologia litúrgica ajuda muito.

J.R. — Certamente, o símbolo ajuda porque somos feitos de corpo e alma, e as coisas devem ser assim expressadas.

C.B. — Vós sois especialmente sensível ao entendimento da leitura da Escritura na Igreja. Ora, a recente edição de uma das mais célebres Bíblias em françês, contem notas que afirmam que tal ou tal passagem do Evangelho de S. João (bem como o louvor?? do capítulo 2 da epístola aos Filipenses) negam a divindade de Cristo. Esta notas foram redigidas por um dos exegetas franceses mais conhecidos, que afirma que há tres níveis de redação neste Evangelho: João I, que não acreditava na divindade de Cristo, João II, que nela acreditava, João III, judeu-cristão, que não acreditava.

J.R. — Sim, nós devemos reencontrar uma leitura eclesial da Escritura. Portanto, isto que o senhor fala restabelece, é claro, a leitura da Escritura de outra forma. Trata-se de um puro historicismo que se revela nestes desdobramentos muito arriscados. Quem prova, primeiro, a existência destes três níveis de redação? São reconstituições feitas com um método literário absurdo, visto unicamente do ponto de vista do trabalho do historiador. Além disto, hoje o estudo literário dos textos passa por uma renovação que se mostra fecunda, mesmo para a Bíblia. Compreende-se que não é possível fixar seu sentido reconstruindo um momento histórico. De resto, como reconstruir este momento? As hipótese de reconstrução, como puras hipóteses, mudam todos so dias. Não é dessa forma que se pode esgotar uma obra literária, Dante, Racine; não é assim que pode-se entender a Bíblia. Não é possível entrar no dinamismo interior de um texto do Antigo ou do Novo Testamento, se não se entende uma coisa — verdadeiro sob o ponto de vista histórico —,a saber que estes livros nasceram na fé, no seio do povo de Deus, no interior de uma comunidade crente. Não são invenções; não se está na presênça de um autor depois de outro, que escreveram livros como podem professores podem fazê-lo. Estes textos fotam produzidos na fé e pela fé da Igreja, e eu não posso comprende-los senão entrando neste mesmo dinamismo da fé.

Esta fé é a fé de uma instituição — a Igreja — que existia e existe ainda. Conseqüentemente, a contemporaneidade, o sincronismo, com o sentido dos textos sagrados, não são alcançados com reconstruções — mais uma vez, absurdas para mim —, mas pela identidade e sincronismo da Igreja como tal. Parece-me, portanto, que a leitura a que o senhor se refere, teve seu tempo. Ela não traz nada a ninguém, mesmo historicamente. São jogos do espírito que não têm nenhuma consistência histórica. É preciso voltar a uma visão mais profunda: conhecero tema que está na origem deste livro, a natureza deste tema. É somente do seu interior, da Igreja, que eu posso realmente compreender a Escritura. Eis porque, a leitura litúrgica, na qual as palavras são presênça e realidade, é, historicamente, a leitura mais realista e a mais fiel.

C.B. — Um dos aspectos, e não dos menores, da crise da transmissão da fé, não está numa predicação estéril, uma \”predicação Walt Disney\”, como diz o cômico cristão, Henri Tisot: \”todo o mundo é gentil; é preciso ser gentil com todo o mundo\”?

J.R. — Sim, tem-se medo, hoje, de falar de pecado, porque tem-se medo de dar uma visão negativa da vida e não se quer impor ao homem moderno, que já padece muito, uma predicação onerosa da parte da Igreja. Mas, nós devemos entender bem estes sofirmentos muiro reais que afetam o homem na sociedade de hoje. Defenitivamente, eles são a ausência de Deus. E isto é a essência do pecado: viver na ausência de Deus. Há, portanto, um otimismo falso e muito articial nesta forma de pregar, supondo que tudo é bom e que nós somos todos gentis. Esta não é a realidade do homem de hoje. Sem isto, não haveria a droga, o suicídio…

C.B. — o aborto, que na França, atingiria uma mulher em duas…

J.R. — … e tudo aquilo que faz com que os homens da nossa sociedade sofram e que ele precisa entender. Sofrimentos profundos, como mostra a intensa procura de respostas aos seus males na psiquiatria, na psicanálise. É preciso, pois, tomar precauções com este otimismo falso e fatal. Como seria preferível falar somente de coisas belas e boas! Mas, os homens veem a nós porque eles sofrem. Eles querem ter uma resposta verdadeira para este sofrimento profundo. Eles nos procuram para descobrir que a raíz daquilo que padecem é a ausência de Deus. Porque, se Deus não existe, que faço? Qual é o sentido da minha vida? Onde ir? Por que? Tudo torna-se inútil e inaceitável. Trata-se, para nós, de fazer conhecer que o mal da vida, o pecado, é a perda de Deus, e de fazer conhecer este Deus que perdoa o pecado. O perdão é uma cura para a qual eu devo colaborar com Deus na penitência. Eu creio que é preciso encontrar um novo realismo para se falar do pecado. Se dele nós falamos com fórmulas inacessíveis ao homem de hoje, elas continuarão sendo fórmulas do passado, vazias de significado.

C.B. — Encontrar uma linguagem pastotal realista, que correnponda ao ouvinte e à realidade, não vale também para o que vós vos referistes no início, ou seja, em relação à confrontação entre a Igreja e a sociedade?

J.R. — Certamente. O Senhor enviou seus discípulos \”pregar e curar os doentes\”. É uma parte essencial da missão dos apóstolos. Isto não quer dizer que nós tenhamos que substituir os médicos do corpo: eu falo da verdadeira doença da vida. Fica, portanto, claro que a fé que nos foi dada não foi feita para um mundo fechado. Ela é sempre dada para o homem. Não é intolerância da nossa parte, mas exercício da responsabilidade que nós temos em relação aos outros, de lhes anunciar esta possibilidade de ser curados no Senhor. É preciso ter nova coragem, é preciso nos convencermos que realmente nós temos nas mãos os meios para curar os homens, que é nossa obrigação de lhes dar esta palavra de Saúde, e que isto verdadeiramente muito necessário ao homem. É preciso novo ímpeto missionário. Não se gosta mais de falar de conversão, mas esta é a realidade: nós temos uma responsabilidade universal. Nós não podemos extirpá-la de nós mesmos. Seria muito cômodo se pudessemos fazer isto, mas nós somos obrigados a oferecer aos outros aquilo que o Senhor nos deu para os outros.

C.B. — Eminência, vós sabeis que vós sois um cardeal muito popular: uma pesquisa na Internet revela que, sobre 57.000 respostas, 28% são de opiniões favoráveis a vós, logo após o cardeal Martini, na frente, com 32%. Ora, especialistas dizem que nas respostas espontâneas, as opiniões ditas “de esquerda” se manifestam sempre mais livremente… Digo isto pelo alegre da anedota, mas também para salientar o eco das vossas proposições. Vós falais, pois, para pastores de amanhã de uma nova coragem no anúncio da fé.

J.R. — Absolutamente. Com a certeza que o Senhor está conosco, nós poderemos enfrentar os problemas do novo milênio. Em relação a canditaduras e sondagens, eu as acho ridículas: nós temos um papa e é o Senhor quem decide em tudo, quando e como. Mas é verdade que ser pastor hoje na Igreja, exige uma grande coragem. Com nossa fraqueza — eu sou um homem fraco — nós, assim mesmo, poderemos correr o risco de cumprir nosso dever de pastores. Porque é o Senhor que age e que disse aos seus apóstolos que na hora da confrontação, eles não se preocupassem com a dúvida de como se defender e que dizer, mas que o Espírito lhes insinará aquilo que é preciso dizer.

Isto é, também para mim, algo muito real. Mesmo com minha pouca força, diria até, por causa disto, o Senhor poderá fazer em mim aquilo que Ele quizer. Na Escritura nós vemos sempre acontecer assim: o Senhor escolhe para agir aqueles que em si não poderiam jamais fazer grande coisa. É nesta fragilidade humana que Ele mostra sua própria força, como disse S. Paulo. Neste sentido, penso que um pastor nunca deve ter medo, na medida em que ele deixa agir, em si mesmo, o Senhor.

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