Montfort Associação Cultural

30 de setembro de 2005

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Entrevista com Jean Guitton:`Lefebvre estava Certo!`

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Emerson Leite
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Muito prezado Sr. Orlando, Salve Maria, Rainha do Carmo.

Estou pensando em comprar um catecismo. O Catecismo Maior de São Pio X seria o mais apropriado?

Abaixo, uma entrevista reveladora com Guitton, que ainda viu algo de positivo no Concílio Vaticano II, por incrível que pareça.

Um abraço,

Emerson


“Lefebvre Estava Certo!” 

Diz amigo íntimo do Papa Paulo VI

No dia 11 de outubro de 1992 – o 30º aniversário da abertura do Segundo Concilio do Vaticano – o jornal italiano “La Stampa” publicou uma entrevista com Jean Guitton, 91 anos, homem francês de letras, amigo de João XXIII, e confidente de Paulo VI desde seu primeiro encontro em 1936 até a morte do segundo em 1978. A entrevista mostra um católico Liberal, como seu amigo Papa Paulo VI, dividido entre a crença no mundo moderno e a crença na Fé Católica. As contradições podem ser percebidas, linha por linha. Que sonho amável, resolvê-las! Mas se a Igreja Católica continuar a seguir semelhantes guias, ela só poderá despedaçar-se. Aqui está a entrevista como publicado em “La Stampa” …

Guitton: No dia que o Conselho abriu eu estava tremendo de emoção. Por toda minha vida eu tinha sonhado com um Concílio que encararia as grandes questões do Século 20: ecumenismo, progresso, direitos das mulheres.. E assim foi, e eu fui o primeiro leigo na história a participar em um Concílio da Igreja Católica. Isso foi a trinta anos atrás.. (emociona-se). “O Concílio foi perfeito. Mas em sua aplicação, quantos erros! A Fé enfraqueceu. Mesmo a verdade perdeu força. A Igreja católica abandonou proclamar-se a Única Igreja Verdadeira. Orou junto com Protestantes, com outras religiões. Nos seminários, Freud, Marx, Lutero tomaram o lugar de Aquino, Ambrósio, Agostinho.(Os destaques são nossos)

Essa é a razão pela qual Lefebvre agiu sozinho, por conta própria?

G: Paulo VI e o Papa Wojtyla deram-me a tarefa de encontrar uma solução, para evitar o cisma. Eu falhei. Falar de Êcone é muito doloroso para mim. PORQUE, QUANDO VOCÊ SE DEBRUÇA SOBRE ISTO, LEFEBVRE ESTAVA CERTO. (Os destaques são nossos)

Em que sentido ele estava certo? 

G: A verdade não pode mudar. Se é branco, não pode tornar-se cinzento, vermelho nem roxo. E se a Igreja possui a verdade, permanece idêntica a si mesma sob sua história. Quando Lefebvre disse que o Concílio não pode mudar declarações solenes da Igreja, em verdade, ele dizia coisas que nós temos que concordar. Mas Lefebvre buscou sustentar-se em um caminho equivocado. Confundiu pertencer à Igreja com pertencer a um partido.(Os destaques são nossos)

Que outras desvantagens há no período depois do Concílio? 

G: Anarquia: o cura não obedecendo o sacerdote da paróquia, o sacerdote não obedecendo o bispo, nem o bispo o cardeal. O catecismo sendo confiado a qualquer um que se apresente. Olhe, a próxima porta para mim aqui em Paris, existem duas paróquias – eles não dizem as mesmas coisas. Pergunte-se, que coerência pode haver em um catecismo confiado a qualquer pessoa?(Os destaques são nossos)

O Novo Catecismo irá resolver as dificuldades? 

G: Este é justamente o problema. Como os católicos podem ter que esperar trinta anos para descobrir o que é correto e errado, fazer ou acreditar? O novo catecismo devia ter chegado três minutos depois do Concílio, não trinta anos mais tarde. 

Existem outras desvantagens? 

G: A crise de vocações. Uma vez o Concílio terminado, pensei que os seminários encheriam outra vez. Em vez disso… E então, viemos a pensar que sinceridade era suficiente para fazer um cristão. Mesmo se você é um ladrão ou um homossexual. Você necessita verdade. Arrependimento. Fé.(Os destaques são nossos)

Há uma perda da Missa Latina? 

G: Sim. Em latim eu expressei as emoções de 60 anos de minha vida como um católico. Mesmo que Paulo VI tenha sofrido com a mudança da liturgia, ele disse para mim: devemos sacrificar nossos sentimentos, fazer o Evangelho compreensível para todos. Tinha razão. Mas o Concílio não aboliu o Latim: ele deixou a liturgia livre. Somente mais tarde a Missa Tridentina foi tratada como uma peça de museu.

Quais foram as vantagens do Concílio? 

G: Diálogo. Por dois mil anos antes do Concílio, tudo que a Igreja católica fez foi condenar. Agora este método foi mudado: em vez de condenação, ela escuta. O diálogo com não-católicos continua hoje mais que nunca: com Anglicanos, com Protestantes; com Ortodoxos, agora que a Rússia Soviética tornou-se de S. Petersburgo. Mesmo relações regulares com o mundo imenso de incrédulos nunca foram tão intensas. 

Qual foi a mais excelente inovação do Concílio? 

G: Liberdade religiosa. Eu me lembro dos cardeais divididos em dois partidos. Os progressistas diziam: a religião deve ser baseada num ato de liberdade. Eu concordei. Soube que Sartre tinha atacado o problema, mas sem resolver ele: porque não há liberdade sem Deus, nem Deus sem liberdade. A linha progressista prevaleceu. 

E os conservadores foram derrotados. Quem eram eles?

G: O principal era Ottaviani. Uma mente clara, excelente, límpida. Ele falava latim lindamente. Lembro-me que nós tínhamos que determinar em que ponto uma família católica torna-se numerosa. Alguém disse, “é numerosa quando há quatro crianças.” “Não, quando há doze”, gritou replicando, “Contrariamente, eu não teria nascido.” Disse-o em latim, é claro.

Que outra personalidade deixou impressões em você? 

G: Wiszinsky. O primaz da Polônia era um homem excepcional. Na direita. 

E sobre Wojtyla? 

G: Ele foi pupilo de Wiszinsky. Eu não sei a que grupo ele pertenceu. Eu digo a você, ninguém sonhou que ele fosse se tornar Papa.

Por que Paulo VI quis que você, um leigo, participasse do Concílio?

G: Houve uma grande afeição entre nós, uma grande amizade. É misterioso como algumas pessoas combinam bem uma com o outro. A primeira vez que eu encontrei com ele foi em um 8 de setembro, ele era bispo… foi como um lampejo de relâmpago. Fez-me prometer que cada 8 de setembro, eu iria e o encontraria. Isso é o que eu fiz durante 27 anos. Quando tornou-se Papa eu disse a ele: “Sua eminência, eu ofereço minhas despedidas. Ele me respondeu, “O quê? Eu não tenho nenhum coração? Eu posso não amar você? Não, eu necessitarei do seu conselho mais que nunca.” 

O que ele disse a você no tempo do Concílio? 

G: A noite depois de minha participação, ele presenteou-me com um relógio, dizendo “Hoje foi um dia histórico. Você foi um dia histórico. Usará este relógio para lembrar-se que este tempo é um sopro comparado com a eternidade.” Eu fiquei exultante… radiante de alegria! 

O que mais ele disse a você? 

G: Que sofria. Seguia o trabalho do Concílio em circuito fechado de televisão. Sentiu no seu coração a divisão entre os Cardeais, soube das manobras táticas que se seguiam. 

Quem manobrava? Os conservadores ou progressistas?

G: Ambos. Havia 2000 bispos. Cada Parlamento possuía homens astutos tentando por meios mais ou menos honestos influenciar os outros. 

O que você lembra do fim do Concílio? 

G: Agora que minha vida está quase terminada eu posso introduzi-lo em um segredo. Paul VI imaginou-se como um moribundo no campo de batalha. A responsabilidade esmagou-o. Um dia ele disse a mim: “Deixa-nos encontrarmo-nos depois da morte.” Foi o homem mais solitário no mundo. Estava sozinho com Deus. Posso ver, o Concílio foi o acontecimento do século. De Gaulle também disse assim para mim. Elogiei-o por salvar a França. Respondeu, “Ah, mas você participou do Concílio.” 

Tivemos 30 anos de dificuldade para a Igreja. Nós hoje ainda podemos nos chamar de cristãos?

G: Estes anos foram o triunfo de violência, a glorificação do sexo, da televisão, do dinheiro. O maior inimigo do Cristianismo não é o ateísmo, que é visível e tangível. O inimigo invisível é a indiferença. 

E sobre consumismo, capitalismo? 

G: Capitalismo é como uma gravata. Pode ser usada tanto para melhorar minha aparência ou como para me estrangular. 

Você disse que o Comunismo não está morto, e levantará outra vez em alguma outra forma. 

G: Eu iria mais longe. O comunismo não é, como tal, contra o Cristianismo. Torna-se assim quando apóia o ateísmo. Os primeiros cristãos tinham suas propriedades em comum. 

O Cristianismo está moribundo? 

G: A Igreja está passando através de uma crise terrível. Mas crise é sua condição essencial. Deus deseja esta condição. A Igreja já estava em crise quando S. João escreveu o Apocalipse. Mas se houvesse de restar um só cristão no mundo, a Igreja permaneceria viva nele. Perceba, nossa era é a da decadência. É como disparar uma flecha. A flecha deve ser puxada para trás antes de poder ser atirada adiante. Veja, hoje estamos sendo pressionados para trás. Mas estamos na véspera de grandes mudanças. O próximo século será a idade da nova evangelização, e a luz irá encher a Igreja mais uma vez. Mas os meus olhos não estarão mais aqui para ver isto.(Os destaques são nossos)

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Fonte: http://www.stas.org/archives/documents/Lefebvre%20was%20right.pdf  (pdf)

Muito prezado Emerson,
salve Maria !

    Muito obrigado por fornecer essa entrevista de Jean Guitton. As confissões que ele faz do fracasso do Concílio Vaticano II são preciosas dada sua amizade com Paulo VI e sua simpatia pelo diálogo e pela liberdade de religião condenada pelo Syllabus e aprovada pelo Vaticano II. O próprio Cardeal Ratzinger definiu o Vaticano II como “o Anti-Syllabus” (Cfr. Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria de los Princípios Teológicos, Herder, Barcelona, 1985, p.457).
    Preciosas  também são a confissão de Guitton de que Dom Lefebvre tinha razão e o reconhecimento das ruínas causadas pelo Vaticano II. Que Deus lhe pague esse favor aos leitores do site Montfort.
    Quanto ao catecismo de São Pio X, ele é excelente. Recomendo também que você compre o catecismo Romano ou do Concílio de Trento. Creio que foi lançada agora uma nova edição.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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