Montfort Associação Cultural

24 de novembro de 2004

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ENROLAVOS, REMENDOS E GAMBIARRAS

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Felipe Coelho
  • Localizaçao: – Brasil

(…)

Olavo de Carvalho continua esperneando e… fazendo “enrolavos”. Cada vez que publica uma Nota, verifica que saiu furada. Toca fazer um remendo, com um P.S. a um Adendo. Depois, constata que a coisa não ficou clara, e faz uma gambiarra com arame farpado, sendo as farpas os insultos de que é pródigo. A seguir, ele vê que a casa está desabando, e coloca esteios de madeira podre, ou tenta segurar uma parede arruinada, amarando-a com um barbante frouxo.

Sempre vomitando insultos, fazendo evasivas, alinhavando negaceios, armando distinções sibilinas, numa maçaroca confusa, para lhe permitir afirmar, se atacado, dizer que não disse o que afirmou. Dizer que não disse o que disse, mas que, se disse, disse noutro sentido, que lhe é próprio.

Olavo só não dá argumentos sérios. Não responde quando pego em contradição, e, quando se vê refutado, muda de assunto, levantando outra acusação numa fuga vergonhosa e esperneante.

Com tudo isso, Olavo prova que, de fato, é especialista em tentar “vencer discussões sem ter razão”.

Entretanto, cada remendo aponta um furo. Cada gambiarra deixa claro um “apagão” e ameaça um curto circuito. Cada esteio podre indica um desabamento. Em suma, ele se enrosca cada vez mais em sua maçaroca terminológica de pseudo “filósofo”.

Afirmara Olavo – por escrito, em um de seus enrolavos — que da própria definição de fé constava a auto evidente noção de conhecimento. Respondi-lhe citando várias definições de fé, e provando que ele errara. Ele finge que o assunto não existiu, e confessa que:

“As sentenças do Concílio de Trento que o sr. Fedeli ostenta com ar de triunfo nada têm portanto a ver com o sentido em que afirmei – e reafirmo – a superioridade do conhecimento em relação à fé”.

Sem dúvida: o sentido que Olavo tem de fé “nada tem portanto a ver” com o que ensina o Concílio de Trento, já que Olavo afirma e reafirma — como os gnósticos — a superioridade do conhecimento em relação à fé.

Exatamente: é por discordar do conceito de fé do Concílio de Trento que Olavo não é católico.

Depois disso, Olavo passa adiante impávido, distinguindo dos sentidos da palavra fé:

     1) fé como simples crença e 2) fé como virtude teologal.

Claro que essa é uma distinção legítima.

Mas, de que Tratado de Teologia ele tirou isso? Ele não o diz.

Até o Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Ed. Civilização Brasiliense, São Paulo, 1983, o verbete Fé registra:

“Fé: s.f. crença religiosa; firmeza ou pontualidade no exercício de um compromisso; crédito; confiança; primeira virtude teologal; asseveração de algum texto; “e etc. (p.542. O negrito é meu).

Eta seu Olavo! Que vício o seu de “inspirar-se” em textos sem citar a sua fonte. Ou de “chutar” e “cozinhar” suas citações, como provei que ele fez ao falar do Inferno de Dante. (Cfr. A Gnose “Tradicionalista” de Guénon e Olavo de Carvalho, VIII-3). E, por vezes, se for pego, dirá que fez de propósito, para armar uma cilada ao oponente, para ver se o adversário de fato conhecia o assunto.

Depois disso, Olavo, prossegue, reafirmando a tese gnóstica de que o conhecimento é superior à fé, embora tenha eu provado com São Tomás na mão, que isso, tomado absolutamente, é falso, e tenha comprovado, com citações de vários autores, autoridades em Gnose, que essa é uma idéia tipicamente gnóstica.

Olavo finge que nada disso leu, e vai para a frente.

Furioso e atabalhoado, refazendo remendos, enrolavos e gambiarras, ele garante que entre a fé protestante e a católica “a única diferença que há entre elas é a da compreensão diferente que o crente desta e daquela confissões têm do texto revelado a cuja verdade aderem” (Olavo de Carvalho, Nota sobre fé e conhecimento e um P.S. muito revelador, 18/7/01).

A “fé” protestante só se diferenciaria da fé católica, no que tange à intrepretação das Escrituras!

Como se isso fosse pouco!

E será verdade que existe uma fé protestante?

A Declaração “Dominus Iesus” da Congregação da Doutrina da Fé, aprovada pelo Papa João Paulo II ensina que as seitas protestantes não são igrejas e que não têm propriamente fé, mas simples crença:

2ª ” Deve, portanto, manter-se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões” (Dominus Iesus, n. 7).

7ª “Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada”. (Dominus Iesus n. 16).

“Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: “uma só Igreja católica e apostólica”. Por outro lado, as promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (Cfr. Mt. XVI, 18; XXVIII, 20 ss) e de guiá-la com o seu Espírito (cfr. Jo. XVI,13) comportam que, segundo a Fé católica, a unicidade e unidade, bem como o que concerne a integridade da Igreja, jamais virão a faltar” (Dominus Iesus, n. 16)

10ª “Com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de salvação para toda a humanidade (Cfr. Act XVII, 30-31). Esta verdade de fé nada tira ao fato de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista “imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que “tanto vale uma religião como outra” (Dominus Iesus,n.22. O negrito é meu).

Mas, para um homem que se proclama “católico-judeu-islâmico”, é claro que a fé é uma coisa de somenos importância. Olavo prega o indiferentismo religioso, tantas vezes condenado pela Igreja Católica.

Olavo não é católico.

Que existe uma só Fé verdadeira, isso está no Credo Quicumque de Santo Atanásio que principia afirmando solenemente:

Quicumque, isto é, “Quem quer que queira salvar-se, deve antes de tudo professar a Fé católica. Porque quem não a professar, integral e inviolavelmente, perecerá sem dúvida por toda a eternidade. A Fé Católica consiste em adorar um só Deus…”

A seguir, vêm os doze conhecidos artigos do Credo que se reza na Missa. No final, repete Santo Atanásio, o vencedor da heresia ariana:

“Esta é a Fé Católica e quem não a professar fiel e firmemente, não poderá salvar-se”. (Cfr Catecismo Romano e Denzinger, 39)

Essa tese católica de Santo Atanásio foi tornada dogma no IV Concílio de Latrão, que condenou a Gnose cátara:

Extra Ecclesia nulla salus” ou seja,

“FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO”.

E esse dogma foi de novo proclamado e ensinado na Declaração Dominus Iesus, sobre a Unicidade e a Universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, ao afirmar que o único Redentor é Cristo, e que ninguém se pode salvar senão pelos seus divinos méritos, e que Cristo so tem uma Igreja.

***

Segundo enrolavo (do dia 18/7/01)

No mesmo dia em que escreveu este novo “enrolavo” (18/7/01) O de C. redigiu mais um, intitulado Fé, ciência e ideologia: o fundo da questão Fedeli

Remendos, gambiarras e enrolavos de Olavo se multiplicam, numa confissão implícita de que todas as tentativas de ocultar furos, por meio de remendos sucessivos, de gambiarras doutrinárias, e de enrolavos sofísticos, fracassaram. A máscara católica que ele usava caiu.. Que ele se proclame sufi, budista, cabalista, ou adepto de qualquer gnose esotérica, pouco importa. Católico, repito, ele não é.

Sua fecundidade em compor remendos é tanto mais extraordinária, quanto mais ele a diz contida, pois já prometeu, diversas vezes, que não me leria mais, e que não perderia mais tempo com meus escritos.

Apesar disso ele não resiste. Sua raiva é tal, que terminada uma nota-remendo, ou um adendo-gambiárrico, ele fica insatisfeito com o que escreveu, percebe que falta algo, quer acrescentar mais uma explicação, arranjar outra desculpa, arquitetar outro “enrolavo”. E recomeça, esperneante e espumante de raiva, porque tem consciência de que continua faltando sempre uma coisa: a verdade.

Até hoje ele não respondeu às duas perguntas que sua intervenção abrupta, para defender Guénon, me obrigou a fazer-lhe: Guénon é gnóstico? Qual a religião de Olavo?

Desafiado por ele, provei que Guénon é gnóstico. Ele finge esquecer de Guénon, seu mestre querido, para salvar, de qualquer jeito, o seu prestígio pessoal.

Quanto à religião de Olavo, provei que ele, de fato, é gnóstico, e que, portanto, não é católico. Demonstrei que os quatro itens essenciais da Gnose que ele tirara mesmo de uma enciclopédia existiam realmente em seus escritos. Olavo, porém, fica mudo sobre qual é a sua religião exotérica, e recusa admitir o que deixou patente em seus livrecos: que ele é gnóstico mesmo.

Como disse, escreveu então Olavo, no mesmo dia 18/7/01, mais um “enrolavo”, desta vez sobre Fé, Ciência e Ideologia: o fundo da questão Fedeli“. Ele começa definindo e distinguindo Gnose de gnosticismo e de heresia gnóstica:  

GnoseGnosticismoHeresia gnóstica

Ora, se ele chama de Gnose o conhecimento espiritual em sentido genérico, é evidente que então ele erra distinguindo essencialmente gnosticismo de Gnose, pois o genérico engloba o específico.

O Gnosticismo, mesmo com a distinção feita por Olavo, e tal como o descreve Voegelin, é um fenômeno do gênero Gnose. Perdoem-me os leitores a redundância, o gnosticismo — sendo uma espécie do gênero Gnose — é necessariamente gnóstico. E não adianta Olavo estrilar e estrebuchar de hidrofobia incontida contra isto.

O mesmo se deve dizer das heresias gnósticas: elas são gnósticas porque contém a Gnose (para Olavo não basta uma só palavra: é preciso a redundância…).

Serge Hutin diz:

“Se os gnosticismos são muito diversos, o gnosticismo é uma atitude absolutamente característica, um tipo especial de religiosidade. Não é arbitrário colocar um conceito geral de Gnose, “conhecimento” salvador traduzindo-se por determinadas reações humanas — sempre as mesmas. Se o gnosticismo fosse apenas uma série de aberrações doutrinárias próprias a certos hereges cristãos dos três primeiros séculos, seu interesse seria puramente arqueológico; mas ele é muito mais que isso: a atitude gnóstica reaparecerá expontaneamente, fora de toda transmissão direta; essetipo especial de religiosidade apresenta mesmo perturbadoras afinidades com certas aspirações absolutamente “modernas” (Serge Hutin, Les Gnostiques, PUF, Paris 1970, p. 8. Os itálicos são do autor. O negrito é meu).

Henri-Charles Puech afirma que as heresias gnósticas cristãs tiveram “um fundo primitivo puramente pagão” (H.-C. Puech En Quête de la Gnose- La Gnose et le Temps, Gallimard, Paris, 1978, vol. I, p. 235).

E diz a seguir: “O gnosticismo aparece doravante como um fenômeno geral da História das religiões cuja envergadura ultrapassa infinitamente os limites e o campo do cristianismo antigo e que é, em suas origens, exterior, senão anterior ao cristianismo (…) Por diversas que tenham sido essas formas sob as quais o gnosticismo se manifestou historicamente, o gnosticismo deve ser tido como um fenômeno específico, uma categoria ou um tipo distinto do pensamento filosófico-religioso: é uma atitude que tem um modo de ser, uma estrutura, leis próprias, e que a análise, unida à comparação, permite reencontrar, substancialmente idêntica e com as mesmas articulações, na base de todos os sistemas diversos que, em razão desse fundamento ou desse “estilo” comum, nós temos o direito de chamar, de classificar sob uma mesma etiqueta e de os chamar de ‘gnósticos’” (H-C Puech, op cit, Vol I, p. 235).

Meu aluno Felipe Coelho, um jovem universitário, respondendo brilhantemente a um artigo de Olavo (Gnósticos e Revolucionários in O Globo, 21/ VII/ 2.001), escreveu uma carta a esse jornal (Resumo da Polêmica e Eric Voegelin contra Olavo de Carvalho), na qual demonstrou como esse “filósofo” auto promovido é condenado pelos próprios textos de Voegelin, autor que o pai do “Imbecil Coletivo” invocara em sua defesa. (Esses dois documentos se encontram no site Montfort)

Dispenso-me de acrescentar qualquer coisa sobre esse ponto. Foi uma “lavada” que Felipe deu em Olavo e que O Globo não quis publicar.

 

Olavo reconhece que uso a definição de Gnose adotada por alguns especialistas no assunto, porém diz que eu exagero e deturpo o que eles afirmam, ao considerar que todas as religiões e seitas gnósticas conspiram contra a Igreja Católica Apostólica Romana. Aponta, a seguir, como origem desse meu “exagero” as doutrinas que eu teria recebido de um “imortal” já falecido. “Imortal” que acusei, ele também, de seguir a Gnose romântica de Anna Katharina Emmerick. Que as “visões” dessa freira eram gnósticas e cabalistas, eu o provei em minha tese de Doutoramento na USP.

Não foi com nenhum mestre “imortal” falecido que aprendi que os “Os reis da terra sublevaram-se, e os príncipes coligaram-se contra o Senhor e contra o seu Cristo”. Foi na Sagrada Escritura no Salmo II, 2.

Foi na Escritura que aprendi que Deus colocou inimizades entre os filhos da Virgem Maria e os filhos da serpente: “Porei inimizades entre ti [a serpente] e a mulher, entre a tua raça e a dela, e ela mesma te esmagará a cabeça” (Gen. III, 15).

Foi nos Evangelhos que li a frase de Cristo: “Quem não está comigo, está contra Mim” (Mt XII. 30).

Cristo não disse que haveria três posições em face dEle, mas só duas.

Foi no Evangelho que aprendi que os filhos das trevas formam um corpo só, assim como os filhos da luz são um só corpo na Igreja, pois disse Cristo: “caia sobre vós todo o sangue derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o Templo e o altar” (Mt. XXIII, 35-36). Por isso, Cristo chamou os fariseus “filhos do demônio”, que designou como o pai da mentira: “Vós tendes por pai o demônio e quereis fazer a vontade de vosso pai” (Jo VIII,44).

Portanto, há uma “filiação” diabólica, paralela e oposta à filiação divina que se recebe no Batismo, e que nos faz membros da Igreja, Corpo Místico de Cristo. Ao tornar-se alguém “filho do demônio”– a expressão é do próprio Jesus Cristo — se torna, ipso facto — membro de um como que “Corpo Místico” do demônio, membro de uma Anti Igreja, ou Sinagoga de Satanás.

O Apocalipse, por sua vez, afirma que existe a Sinagoga de Satanás que combate os filhos de Deus: “… és caluniado por aqueles que se dizem judeus, porém não o são, antes são uma sinagoga de Satanás” (Apoc. II-9)..

Por isso, São Gregório Magno, nos Moralia, fala de uma luta entre a Igreja e a Anti Igreja, na História. E Santo Agostinho, escreveu no Civitas Dei:

“Dois amores fundaram duas cidades, a saber: o amor próprio levado até o desprezo de Deus, a terrena; o amor a Deus levado até ao desprezo de si próprio, a celestial” (Santo Agostinho, Civitas Dei, Vozes, Petrópolis, 1990, vol II, Livro XIV, cap. XXVIII).

Isto não impede que os maus se dividam, porque é próprio do erro a multiplicidade, enquanto o efeito próprio da verdade é a unidade. Mas todos os maus, embora divididos entre si, sob várias seitas, se unem contra a Cidade de Deus.

“O acontecido entre Rômulo e Remo mostra como a cidade terrena se divide contra si mesma; o sucedido entre Caim e Abel é reflexo das inimizades que existem entre as duas cidades, entre a Cidade de Deus e a dos homens. Em suma, que os maus lutam uns contra os outros e, por sua vez, contra os bons. Mas os bons, se perfeitos, não podem ter nenhuma altercação entre si”. (Santo Agostinho, Civitas Dei, Livro XV, cap. V).

Portanto, conforme Santo Agostinho, na História, há uma luta de duas “Cidades”, ou Sociedades, cada uma com a sua doutrina. Não há, então, para Santo Agostinho, uma multidão de “Cidades”, mas só duas, cada uma com sua doutrina, uma lutando contra a outra: a Cidade de Deus que é a Igreja Católica, e a Cidade do demônio que é a Sinagoga de Satanás, ou a Anti Igreja.

Por isso, também Santo Inácio de Loyola fala de duas “Bandeiras”, que lutam entre si, na História: a Bandeira de Cristo, e a Bandeira do demônio.(Cfr. Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais).

Isso não é dualismo. É uma luta moral na História. Dualismo é a doutrina anti metafísica da Gnose ao defender que no ser — e mesmo no Ser divino — há uma dualidade de princípios opostos e iguais, em perpétua luta, tal como se diz no Taoísmo do Yin e Yang, doutrina metafísica dualista que Olavo e Guénon defendem, como provei em meu trabalho “A Gnose “Tradicionalista” de René Guénon e Olavo de Carvalho“. Olavo, sim, como todo gnóstico, é dualista do ponto de vista metafísico.

Essa doutrina da luta entre a Igreja Católica e a Anti-Igreja aparece também na encíclica Humanum Genus de Leão XIII, sobre a Maçonaria:

“Desde quando, pela inveja do demônio, miseravelmente se separou de Deus a quem era devedor do seu chamado à existência e dos dons sobrenaturais, o gênero humano dividiu-se em dois campos inimigos, que não cessam de combater, um pela verdade e pela virtude, o outro por tudo o que é contrário à virtude e à verdade.

“O primeiro é o reino de Deus na terra, a saber, a verdadeira Igreja de Deus Cristo (…) o segundo é o reino de Satanás. Sob o seu império e em seu poder se acham todos os que, seguindo os funestos exemplos do seu chefe e de nossos primeiros pais, recusam obedecer à lei divina e multiplicam seus esforços, aqui para prescindir de Deus, ali para agir diretamente contra Deus” (Leão XIII, Humanum Genus, Sobre a Maçonaria, n o 1).

Foi com Leão XIII que aprendi que “Em toda a série dos séculos que nos precederam essas duas cidades não têm cessado de lutar uma contra a outra ( …) “( Leão XIII , Humanum Genus, no 2. O negrito é meu).

Leão XIII — contemporâneo de Guénon — mostra, a seguir, que embora as seitas secretas sejam muitas e variadas, elas têm todas o mesmo fim e os mesmos princípios. Portanto,– a conclusão é minha — têm a mesma doutrina, embora com variações sectárias:

“Existe no mundo um certo número de seitas que embora difiram umas das outras pelo nome, pelos ritos, pela forma, pela origem, se assemelham e estão de acordo entre si pela analogia de finalidade e dos princípios essenciais. (Leão XIII, Humanum Genus, n o 8).

Repito: não aprendi isso tudo com “imortal” falecido nenhum, mas na Doutrina Católica, na Sagrada Escritura, nos ensinamentos dos Papas, no que ensinaram os Padres da Igreja e os Santos, e, praticamente, em minha vida.

Mas seu Olavo diz de minha posição:

“Ela é uma escolha, um ato de fé, que o sr. Fedeli, abusivamente, procura confundir e identificar com a própria fé católica, de modo a poder condenar como herético quem quer que, na sua divisão dualista do mundo, não cerre fileiras com ele”.

Ora, as citações que fiz acima comprovam que essa doutrina não é minha. É a que está no Antigo e no NovoTtestamento, é a dos santos, é a do Papa Leão XIII. Herege não é aquele que não cerra fileiras comigo. Eu não sou a Igreja: pertenço, graças a Deus, à Igreja Católica Apostólica Romana, na qual quero viver e morrer, embora seja pecador. Herege é aquele que nega pertinazmente qualquer dogma da Doutrina Católica.

Essa luta entre as duas Cidades é tão verdadeira, que até escritores que não são católicos a reconhecem.

O insuspeito Umberto Eco mostra, em seu livro “Interpretação e Super Interpretação”, que o fenômeno da Gnose hermética percorre toda a Historia até nossos dias (Cfr. Umberto Eco, Interpretação e Super Interpretação, Martins Fontes, São Paulo, 1997, pp. 31- 45).

Em outro de seus livros, depois de mostrar como a Gnose hermética se manifestou ao longo da História, Eco assim intitula um de seus itens:  

E depois afirma o autor de O Nome da Rosa:

“Quase todas as características do pensamento hermético [que Eco considera um pensamento gnóstico] são representáveis nos procedimentos argumentativos de um de seus epígonos contemporâneos: René Guénon.(cfr. o ensaio de Cláudia Miranda, em Pozzato, 1989).” (Umberto Eco, Os limites da Interpretação, Perspectiva, São Paulo, 1995, p. 72) ou em Umberto Eco, Intrepretação e Superinterpretação, Martins Fontes, São Paulo, 1997, pp. 27 a 51).

Aliás, o ensaio de Cláudia Miranda: René Guénon o la Vertigine della Virtualitá”, (in Maria Pia Pozzato et allii, L’Idea Deforme, Bompiani, Milano, 1989, pp 227 a 261), demonstra como atuam Guénon e seus sequazes quando escrevem, inclusive Olavo de Carvalho:

“Como vimos precedentemente, quando Guénon deve demonstrar qualquer coisa, ele não se considera obrigado a dar nenhuma prova. Entretanto em outros, a mesma falta de provas se torna motivo de crítica”.(Cláudia Miranda: René Guénon o la Vertigine della Virtualitá, in L’Idea Deforme, p.240).

Exatamente como Olavo.

E ainda:

“Poder-se-ia dizer que, no discurso esotérico de Guénon, quanto mais uma coisa é considerada verdadeira, menos necessidade há de explicá-la. Como se a persuasão esotérica, espelho invertido da persuasão científica moderna, agisse por ausência de “provas” (Cláudia Miranda, op cit. p. 252).

Exatamente como Olavo.

O que diz Eco sobre a permanência do discurso e do pensamento gnóstico hermético, na História, é confirmado pelo que asseveram muitos outros autores.

Ladislau Mittner, no livro Storia della Letteratura Tedesca, Dal Pietismo al Romanticismo (Einaudi, Milano, 1964, p.40), compara o curso da Gnose na História a um rio cársico, que ora aparece à superfície, ora desaparece no sub solo, correndo secretamente.

Também Octávio Paz, insuspeito prêmio Nobel, afirma uma ação secreta da Gnose na História da Poesia nos séculos XIX e XX, chegando mesmo a falar em atmosfera de conspiração gnóstica:

“Não é necessário seguir os episódios da sinuosa e subterrânea marcha do movimento poético do século passado, oscilante sempre entre os dois polos de Revolução e Religião. Cada adesão termina em ruptura; cada conversão em escândalo. Monnerot comparou a história da poesia moderna com a das seitas gnósticas e com a dos adeptos da tradição oculta. Isso é verdade nos dois sentidos. É inegável a influência do gnosticismo e da filosofia hermética em poetas como Nerval, Hugo, Mallarmé, para não falar de poetas deste século: Yeats, George Rilke, Breton. Por outro lado, cada poeta cria em torno de si pequenos círculos de iniciados, de modo que, sem exagero, pode-se falar de uma sociedade secreta da poesia. A influência desses grupos tem sido imensa e logrou transformar a sensibilidade de nossa época. Desse ponto de vista não é falso afirmar que a poesia moderna encarnou-se na História, não à plena luz, mas como um mistério noturno e um rito clandestino. Uma atmosfera de conspiração e de cerimônia subterrânea rodeia o culto da poesia.”(Octavio Paz, Signos em Rotação, Perspectiva, São Paulo, 1996, p. 84).

Será que Olavo ousará afirmar que Octavio Paz é um delirante fedeliano, por falar de conspiração na poesia contemporânea? E que ele é louco por asseverar que se pode afirmar, sem exagero, que há uma sociedade secreta da poesia? Ou por afirmar que é inegável a influência do gnosticismo em poetas modernos famosos?

 

Olavo escreveu:

“O sr. Fedeli tem todo o direito de defender sua idéia, mas nem mesmo a alegação de insanidade lhe dará o direito de sugerir ou insinuar que ela corresponda a alguma cláusula do dogma católico tal como definido pelos Papas e Concílios. Nenhum Papa ou Concílio subscreveu jamais essa doutrina. Nenhum jamais afirmou a identidade substancial de todas as espiritualidades não-cristãs com a heresia dos primeiros séculos, identidade que, para o sr. Fedeli, é a verdade das verdades.”

Leão XIII, como já vimos, afirmou a doutrina que defendo da coligação de todos os hereges contra a Igreja na Humanum Genus.

Felipe Coelho provou, em resposta ao artigo “Gnósticos e Revolucionários”, que Olavo publicou contra ele, escondendo-se atrás de O Globo (21/VII/ 2001), que Voegelin afirma, contra Olavo, que houve, sim, uma gnose pagã existente nas religiões orientais. Aliás, o próprio Guénon defende isso com todos os seus seguidores “Tradicionalistas”. E o próprio Olavo, ao defender que existe um núcleo comum a todas as religiões, admitiu o que agora nega, e desafia que eu o prove.

Já provei.

Que Olavo leia, e tente refutar, meu trabalho: “A Gnose “tradicionalista de René Guénon e Olavo de Carvalho”.

Está no site Montfort.

Finalizando, Olavo afirma, mais uma vez, que:

“Assim, não vejo por que prosseguir esta discussão.”

Entretanto…dias após, ele escreveu novo “enrolavo”

Mais um Remendo “enrolavado” de seu Olavo

Propósito e promessa de não escrever mais, para Olavo, dura alguns dias.

Ele deve ter passado esse intervalo de tempo, ruminando sua raiva, e contemplando sua obra contra mim, e viu que ela mais parece um barraco mal pregado, mal equilibrado, mal coberto, com goteiras por todo lado, que só continuaria de pé, se a ele se acrescentasse um calço num tabique, um remendo numa folha de zinco, uma gambiarra na fiação maçaroquenta e farpada. Vê que na maloca que montou para me contestar falta algo. Falta unidade, falta ordem, falta grandeza. Sobretudo falta a verdade.

Então, toca publicar, no dia 22/VII/ 2001, mais um …

“ADENDO AO AVISO 3″

O que comprova que o tal solene Aviso 3 era insuficiente.

E foram tantos os AVISOS, com P.Ss, ADENDOS, e Notas que, Olavo mesmo, já não se entende.

Neste último ADENDO AO AVISO 3, ele mesmo se confunde — como bem notou meu aluno Felipe — e atribui ao AVISO 3 o que estava no AVISO 2.

Pobre Olavo. A raiva o cega e o precipita…em novos erros.

Felipe Coelho já arrasou esse ADENDO AO AVISO 3, — que deveria ter sido chamado ADENDO AO AVISO 2, assim como o artigo “Gnósticos e Revolucionários” que Olavo publicou (educadamente) no O Globo, depois de mandar um “bilhetinho” injurioso, por e mail, ao jovem universitário. (Por que será que Olavo é bem mais educado num artigo de jornal do que em e-mails?).

Quero comentar apenas alguns pontos do ADENDO AO AVISO 3 — que deveria ser 2 — que me dizem respeito.

Olavo confirma que copiou mesmo os 4 itens essenciais da Gnose, que ele citara inicialmente, de uma enciclopédia, mas não de uma enciclopédia barata e popular. Foi de uma enciclopédia famosa e filosófica: a Routledge Encyclopaedia of Philosophy.

De modo que agora temos a confissão de que este “filósofo” auto nomeado, se dispensa de ler as fontes primárias: consulta a Routledge Encyclopaedia of Philosophy. O que o dispensa de longas e fastidiosas leituras…

E confessa que é de propósito que omitiu a referência bibliográfica… para montar uma cilada contra mim.

A seguir ele dá seis notas pelas quais Eric Voegelin resume a Gnose moderna, e me faz um pedido:

“Peço pois novamente ao sr. Fedeli que aponte, na minha obra, os indícios de revolta contra a ordem do ser, de confiança na possibilidade de mudar essa ordem pela ação humana, da apologia do processo histórico como meio de criar um mundo bom e, sobretudo, do conhecimento entendido como “método de alterar o ser”. Tenho a nítida impressão de que há tempos venho escrevendo contra essas coisas, mas talvez o sr. Fedeli conheça o meu pensamento melhor que eu” (Olavo de Carvalho, Adendo ao Aviso 3, 22/VII/2001. O negrito é meu).

Vou atender o pedido de seu Olavo indicando-lhe os textos em que ele defendeu a Gnose, e onde ele poderá encontrar esses textos (porque a memória dele parece estar enfraquecida).

Evidentemente, ele não encontrará os textos dele na Routledge. E nem na Barsa.

Vejamos, uma a uma, as seis características da Gnose segundo Eric Voegelin, mas apud Olavo de Carvalho. 

1a “O gnóstico está insatisfeito com a sua situação”

Certíssimo.

(Também Olavo parece bem insatisfeito com sua situação nesta polêmica.)

A insatisfação gnóstica, porém, não é com o salário que recebe, ou com o estar confundido numa polêmica. É, sim, uma insatisfação com a ordem do ser. O gnóstico sofre por insatisfação metafísica. Ele não admite sua própria contingência metafísica. Quer ser Deus.

Essa primeira característica da Gnose, conforme Voegelin (apud Olavo), corresponde ao 1o item da Gnose apresentado pelo próprio seu Olavo, numa de suas Notas, Avisos, Adendos. (Procure em qual).

Tratei disto no meu trabalho “A Gnose “Tradicionalista” de René Guénon e de Olavo de Carvalho” – aliás , um trabalho elaborado em razão de um desafio a mim, feito por O de C.

Recomendo a leitura desse meu trabalho ao sr. Olavo, pois lá ele poderá encontrar muitos textos, escritos por ele, “há tempos”, e dos quais ele já não tem mais uma “nítida impressão”, na memória, assim como textos de seus queridos mestres de Gnose Hinduista e Sufi, tais como Guénon, Schuon, Ibn Arabi, Lings, Nasr, Burckhardt, Benoist, Tourniac etc. e de outros autores gnósticos citados como autoridades pelos “tradicionalistas” guénonianos.

Nos Cap. III -1 e IV, 1,2, 3, 4,5, 6, 7, 8, 9, 10. estão os textos em que Olavo e seus mestres na Gnose expõem sua revolta contra a ordem do ser. Lá ele poderá encontrar umas 55 citações de seus mestres e autores preferidos, assim como umas 20 citações de textos do próprio Olavo, e dos quais ele perdeu a “nítida impressão” de tê-los escrito… “há tempos”. 

 

2a característica da Gnose segundo Voegelin (Apud Olavo…)

“Os males da situação podem ser atribuídos ao ato de que o mundo é intrinsecamente mal organizado… (O que será que havia no lugar dessas reticências?) Os gnósticos não são inclinados a descobrir que os seres humanos em geral ou eles próprios em particular são inadequados. Numa dada situação em que algo não é como deveria ser, a culpa será encontrada na maldade do mundo”

Evidentemente, essa característica corresponde à idéia de que o Demiurgo mau organizou mal o mundo da matéria grosseira — o mundo da “manifestação” da Gnose hindu e guénoniana — e que disso derivaria a maldade dos seres contingentes.

Se Olavo relesse o trabalho de Guénon intitulado “Le Démiurge”, estudo que ele elogiou e comentou na revista Planeta (Olavo de Carvalho, O Homem e sua Lanterna. René Guénon o Mestre da Tradição contra o Reino da Deturpação, in revista Planeta, no 107, agosto de 1981), se ele relesse o seu próprio artigo, veria que ele defendeu exatamente — “há tempos” — o que Voegelin apresentou como 2a característica da Gnose.

Aliás, Guénon publicou pela primeira vez o estudo Le Démiurge, na revista La Gnose, que ele dirigia como Bispo da Igreja Gnóstica, sob o nome de Palingenius, (pormenores importantes que Olavo omitiu na sua biografiazinha de Guénon).

No meu já citado trabalho, seu Olavo poderá encontrar a questão do Demiurgo no Cap. V., onde se acham umas 13 citações de René Guénon e de outros autores, e 4 de Olavo de Carvalho. Recomendo também a Olavo que leia o artigo que ele escreveu na revista Planeta sobre o Demiurgo, e no qual Olavo diz que, segundo a tradição semita, o Criador do mundo é Shaitan ou Satã. Criador do mundo a quem Guénon chamara de “Príncipe deste Mundo”, isto é, de demônio.

 

3a característica da Gnose segundo Voegelin (no dizer de Olavo).

“A crença de que “é possível salvar-se da maldade do mundo”.

Tratei disto — a salvação (ou libertação) pelo conhecimento — em meu trabalho citado, no capítulo VI – 4 – 5, onde utilizei 7 citações de guénonianos e 25 de Olavo de Carvalho.

 

4a característica da Gnose segundo Voegelin, contado por Olavo.

“Para isso a ordem do ser terá de ser mudada por meio de um processo histórico. Do mundo miserável, um mundo bom deve evoluir historicamente”

Essa característica dada por Voegelin corresponde à terceira conseqüência secundária da Gnose, apontada por Olavo em uma de suas Notas, Avisos, Pss, Adendos. Corresponde ela à noção milenarista ou utópica.

Tratei disso, no Cap.VIII – 4 e 5 de meu trabalho sobre a Gnose de Guénon e de Olavo, fazendo lá cerca de 11 citações de Guénon, ou relativas ao que disse Guénon, e umas 9 citações de textos de Olavo. Que ele as leia.

 

5a característica da Gnose de Voegelin, segundo seu Olavo

“O traço gnóstico em sentido mais estrito: a crença em que uma mudança na ordem do ser reside no reino da ação humana, de que o ato salvacional é possível por meio do próprio esforço do homem”.

Noutras palavras, o “homem seria Redentor de si mesmo, pelo fato de que existiria nele uma partícula da Divindade, que se reuniria à Divindade por meio do Conhecimento.

Tratei dessa questão no Cap. III – 2 itens 7 e 8 de meu citado trabalho, quando dei meu esquema da Gnose, assim como nos capítulos VI-1-2-3, falando das partículas divinas que existiriam no homem e em todas as coisas, e que possibilitariam a libertação da prisão feita pelo Demiurgo ao estabelecer seres contingentes; e no Cap. VI-4, ao tratar da Soteriologia gnóstica, a salvação pelo conhecimento. Também no capítulo VI-5, trato dessas doutrinas da auto redenção nos textos de Olavo de Carvalho, textos dos quais, infelizmente, ele tem “a nítida impressão” de que jamais os escreveu.

Seria um grave caso de amnésia…se não fosse uma escapatória.

Nesse capítulos, fiz mais de 80 citações, sendo 37 de textos de Olavo de Carvalho.

 

6a Característica da Gnose apontada por Voegelin, segundo Olavo:

“O conhecimento — Gnosis — do método de alterar o ser é a preocupação central do gnóstico… [De novo reticências. Que haveria aí?] a construção de uma fórmula para a salvação do eu e do mundo”.

Essa característica é uma explicitação da quinta.

Segundo Voegelin, portanto, para a Gnose, a “salvação do eu e do mundo” se daria pelo Conhecimento, e não pela fé e pelas obras como ensina a Igreja.

Ora, Olavo tem insistido exatamente em que o Conhecimento é superior à fé.

Quanto a considerar o conhecimento como “método de alterar o ser”, esta é uma formulação típica da Gnose alquímica.

Tratei disso também (da Gnose e Alquimia) — de que Olavo é defensor, seguindo Burckhardt — no capítulo IX -2 de meu livro, que tudo indica que Olavo ainda não leu.

Nesse capítulo sobre Gnose e Alquimia, faço uma dúzia citações, sendo que a metade é de textos de Olavo.

Consta que Olavo dá cursos de Alquimia, cujas apostilas não conheço. Seria bom que eles as publicasse para provar que não é mestre de uma alquimia gnóstica, e sim de uma “boa” alquimia, de uma alquimia…”católica”.

****

Logo depois da promessa de Olavo de que não trataria mais da questão, pois que não vê “por que prosseguir esta discussão”, ele escreveu um artigo contra Felipe Coelho, escondido atrás de O Globo, e que já foi brilhantemente refutado por esse jovem universitário. Por isso, julgo que não é preciso analisar esse artigo.

Deixem-me, por favor, – uma vez — concordar com seu Olavo:
eu também já não vejo necessidade de prosseguir esta polêmica, pois já provei que Olavo de Carvalho não é católico, e sim gnóstico, tal como seus mestres Guénon, Schuon e Lings.

Quero apenas deixar claro que polêmicas entre intelectuais se fazem com base em documentos escritos e em livros, precisamente citados.

Insultos são próprios de botequineiros.

E fofocas, de comadres.

Na festa de São Tiago Apóstolo,
São Paulo, 25 de julho de 2.001 .
In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli

 



 Olavo de Carvalho

A palavra fé é compreendida habitualmente em dois sentidos. O primeiro é o da simples crença, ou adesão voluntária a uma verdade revelada. A segunda é a da virtude sobrenatural que “move montanhas”. Pretender que qualquer indivíduo que tenha a fé no primeiro sentido possua ipso facto a virtude de mover montanhas é intrinsecamente absurdo e extrinsecamente blasfematório. Desde logo, porque o poder da vontade sobre a totalidade da alma é relativo e escalar, admitindo graus que vão desde a simples veleidade até o autodomínio. Em segundo lugar, o valor da fé-crença depende da compreensão mais ou menos clara, mais ou menos certa, que o fiel tenha da doutrina à qual deu sua adesão. Se não fosse assim, a fé protestante teria de valer o mesmo que a católica, pois a única diferença que há entre elas é a da compreensão diferente que o crente desta e daquela confissões têm do texto revelado a cuja verdade aderem. A fé, nesse sentido, é obviamente inferior ao conhecimento, na medida em que dele depende o seu valor.

Quanto à fé compreendida como virtude sobrenatural, ela já é em si mesma conhecimento, e conhecimento em sentido eminente, pois consiste na presença atuante e reconhecível de Deus, que não se poderia obter por nenhum meio intelectual imaginável. A palavra “reconhecível” é aí o ponto decisivo, pois não se poderia falar em “fé sobrenatural inconsciente”. Nesse plano, portanto, a questão da superioridade relativa de fé e conhecimento perde obviamente todo sentido, pois não há conhecimento superior ao da presença imediata do seu objeto, e a fé sobrenatural é, mais que o sinal dessa presença, a presença mesma.

As sentenças do Concílio de Trento que o sr. Fedeli ostenta com ar de triunfo nada têm portanto a ver com o sentido em que afirmei – e reafirmo – a superioridade do conhecimento em relação à fé. O fato de ele citá-las mostra apenas sua compreensão deficiente das questões que se mete a discutir e sua incapacidade de elevar-se ao nível das idéias que finge rebater.

Quanto ao resto da sua resposta, não passa da reafirmação renitente de suas confusões de sempre, escrita num estilo ginasiano e com as miseráveis afetações de bom-mocismo que lhe são de praxe.

Olavo de Carvalho
18/7/01

 

Para completar a bufonaria, um detalhe pítoresco. Com aquele ar entre lisonjeado e humilde do artista que recolhe os aplausos após o espetáculo, o sr. Fedeli estampa na sua homepage a carta de um leitor, Fabrício, que o cumprimenta efusivamente pela vitória alcançada no confronto comigo. Se ele soubesse quem é o tal Fabrício, não ostentaria com tanta satisfação esse troféu: é um rapaz maluco, gozador compulsivo, que me envia regularmente e-mails pornográficos e que agora resolveu incluir o sr. Fedeli entre os figurantes do seu circo. Cópia da mensagem foi simultaneamente enviada a mim, não havendo pois a menor possibilidade de dúvida quanto à sua autoria. O sr. Fedeli é, decerto, vítima inocente dessa gozação, mas não posso dizer que seu prêmio tenha sido injusto, nem destoante da sua performance a grotesca nota final tocada pelo missivista.



 

Olavo de Carvalho

Nos meus escritos, os termos gnose, gnosticismo e heresia gnóstica designam em geral (e guardadas as exceções devidas a eventual negligência) três fenômenos distintos:GnoseGnosticismoHeresia gnóstica

Já o sr. Orlando Fedeli usa os três termos para designar um só e mesmo fenômeno. As heresias dos primeiros séculos, o hinduismo, o budismo, o judaísmo, o islamismo e as ideologias modernas – tudo, para ele, são partes ou aspectos de uma mesma entidade, braços de um mesmo monstro: a Gnose, gnosticismo ou heresia gnóstica, religião do diabo.

Para legitimar esse uso do termo, ele usa da definição geral de gnose aceita por alguns estudiosos, mas dando-lhe uma aplicação que vai muito além do que qualquer deles jamais admitiu e que implica dar foros de verdade científica à hipótese de uma universal conspiração gnóstica contra a Igreja Católica, reunindo budistas, comunistas, muçulmanos, judeus, hinduístas, nazistas, gnósticos no sentido antigo e, evidentemente, eu.

Nem Hans Jonas, nem H.-C. Puech, nem Hans Urs von Balthasar, nem Voegelin, nem qualquer outro estudioso, por mais ampla que fosse sua definição de gnose, jamais a usou para sustentar essa hipótese, a qual aliás nem sequer mencionam porque, mais que à história, ela pertence ao domínio da psicopatologia.

É o sr. Fedeli que faz dela esse uso, fingindo escorar-se na autoridade desses eruditos. Mais ainda: fingindo que semelhante uso é universal, consensual e indisputado.

A origem da doutrina fedeliana da gnose, com efeito, não está em nenhuma dessas fontes, mas numa outra, bem pouco acadêmica: está na teoria da Revolução e Contra-Revolução do dr. Plínio Corrêa de Oliveira, segundo a qual só há duas correntes históricas no mundo, a revolucionária e a católica. Esta abrange os que interpretam o catolicismo no sentido estrito da TFP; aquela, todos os demais seres humanos, descontados os inocentes úteis e inúteis. Absorvendo a teoria ao mesmo tempo que renegava o autor — com quem competira em vão pela liderança da TFP –, o sr. Fedeli simplesmente trocou o termo “revolucionário” por “gnóstico”, mas nada acrescentou de substancial à concepção de seu primeiro mestre e posterior bête noire.

A única diferença é que o dr. Plínio, um aristocrata de temperamento, não desceria a bravatas pueris na defesa da sua teoria, por mais absurda que fosse; ao passo que o sr. Fedeli, que tudo quanto sonhava na vida era ser o dr. Plínio quando crescesse, infelizmente não cresceu.

No conteúdo, a idéia de ambos é a mesma.

A hipótese aí contida é tão ampla, que ela não pode ser provada nem impugnada no prazo de uma vida humana ou de infinitas vidas humanas. Cientificamente, ela é por isso mesmo inaceitável. Fatos inumeráveis não lhe darão consistência, refutações sem fim não a farão recuar. Ela é uma escolha, um ato de fé, que o sr. Fedeli, abusivamente, procura confundir e identificar com a própria fé católica, de modo a poder condenar como herético quem quer que, na sua divisão dualista do mundo, não cerre fileiras com ele — ou com o fantasma do dr. Plínio — no seu combate contra tudo o mais. Isto implica, naturalmente, estender sobre todos os “gnósticos”, no sentido amplíssimo do termo, a acusação de heresia que a Igreja fez pesar sobre os gnósticos dos primeiros séculos. Mas isto já não é teoria: é loucura.

O sr. Fedeli tem todo o direito de defender sua idéia, mas nem mesmo a alegação de insanidade lhe dará o direito de sugerir ou insinuar que ela corresponda a alguma cláusula do dogma católico tal como definido pelos Papas e Concílios. Nenhum Papa ou Concílio subscreveu jamais essa doutrina. Nenhum jamais afirmou a identidade substancial de todas as espiritualidades não-cristãs com a heresia dos primeiros séculos, identidade que, para o sr. Fedeli, é a verdade das verdades.

Abusando das fontes científicas que cita, abusando da fé católica em cujo nome acusa e condena, o sr. Fedeli não faz senão impingir a seus discípulos um catolicismo de sua própria invenção – dele ou do dr. Plínio Corrêa de Oliveira.

Não correspondendo, no conteúdo, à doutrina da Igreja, nem na forma àquilo que se entende por teoria científica, a doutrina dualista da Revolução e Contra-Revolução, seja na sua versão originária, seja na sua adaptação fedélica, não é nem religião nem ciência: é ideologia, no sentido estrito do termo.

Daí o atrativo que exerce sobre jovens que buscam, não o conhecimento, nem a purgação de seus pecados, mas uma causa – uma causa em nome da qual possam, sem o mínimo abalo de sua boa consciência, mentir e pecar.

Avaliado pelos critérios dessa ideologia, devo ser efetivamente um gnóstico e um herético, mas não vejo que importância possa ter isso desde o ponto de vista de uma Igreja e de uma ciência que ignoram solenemente o sr. Fedeli, o dr. Plínio e as idéias de ambos.

Todos os esforços que Fedelis e fedelhos façam para provar a acusação que me imputam são aliás desnecessários e redundantes, visto que ela já está provada ex hypothesi nos termos mesmos que a enunciam, sendo “gnósticos” por definição todos os que, rejeitando o dualismo absoluto de Revolução e Contra-Revolução, não se alinhem resolutamente com esta última no sentido em que a entende o sr. Orlando Fedeli – coisa que, de fato, não posso fazer.

Custei um pouco a entender isso, pois, partindo da crença espontânea na normalidade de meus interlocutores, com total boa fé, não atinei senão aos poucos com a lógica circular em que se baseava sua argumentação, irrefutável porque psicótica.

E não pensem que com isso eu esteja proferindo um insulto. Atenho-me ao terreno científico, reconhecendo com estrita objetividade, no argumento fedélico, aquela estrutura circular, fechada e autoprobante que, segundo o clássico estudo La Fausse Conscience, de Joseph Gabel (um judeu! que horror! um gnóstico!), é a marca inconfundível e comum do discurso ideológico e do discurso psicótico.

Assim, não vejo por que prosseguir esta discussão. Contento-me em não ser um gnóstico na acepção tradicional e voegeliniana do termo. Se o sou ou não no sentido especial que a coisa tem no mundinho fechado da seita montfortiana, é um problema com o qual o sr. Fedeli e seus meninos, que já perderam por mim tantas noites de sono, podem perder todas as que lhes restem. Isso não será jamais da minha conta.

18/07/2001

– As seitas gnósticas dos primeiros séculos do cristianismo. – O fenômeno descrito por Eric Voegelin, que assinala uma continuidade entre as heresias gnósticas dos primeiros séculos da Era cristã e os modernos movimentos ideológicos de massa. – O conhecimento espiritual em sentido genérico.Fé, ciência e ideologia: o fundo da questão Fedeli
<http://www.olavodecarvalho.org/textos/fedeli5.htm>Post scriptumNota sobre fé e conhecimento
e um P. S. muito revelador
 

 

“2.4.4. René Guénon: Deriva e Navio de Doidos”. – As seitas gnósticas dos primeiros séculos do cristianismo.” (Olavo de Carvalho, Fé, Ciência e Ideologia na questão Fedeli, 18/7/01). – O fenômeno descrito por Eric Voegelin, que assinala uma continuidade entre as heresias gnósticas dos primeiros séculos da Era cristã e os modernos movimentos ideológicos de massa.“Nos meus escritos, os termos gnose, gnosticismo e heresia gnóstica designam em geral (e guardadas as exceções devidas a eventual negligência) três fenômenos distintos: – O conhecimento espiritual em sentido genérico.

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