Montfort Associação Cultural

23 de junho de 2006

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Em quem votar?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Christoffer Yuri
  • Localizaçao: Anastácio – MS – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Prezado Senhor,

Admiro o trabalho e coragem do Prof. Orlando na defesa da fé Católica. De fato, com uma análise puramente materialista e econômica estava convicto em votar no PT, pois alguns dados estatísticos demonstraram que alguns ojetivos nacionais estavam sendo alcançados, como o aumento do valor real do salário mínimo e o aumento dos investimentos no Programa Espacial. 
Mas, ao ler os textos do Prof. Orlando comecei a ficar com dúvidas, mas confesso estar diante de um dilema: Como brasileiro e patriota, foi muito doloroso para mim ver o desmantelamento do Estado Nacional efetuado pelo governo do PSDB, de modo que nem um argumento ou mesmo tortura me faria votar em um candidato desse partido, o PSDB. Mas, a única alternativa seria votar em um candidato de um partido que o Prof. Fedeli já demonstrou em outra resposta ter princípios socialistas e, portanto, contrários à Igreja Católica. Ou seja, do meu ponto de vista é o seguinte: Para salvar a Igreja eu tenho que destruir o meu país e votar em um candidato que sabidamente tem um projeto de desmantelamento do Estado Nacional. 
Aliás, em uma entrevista feita em 2004 com o ex-Presidente FHC, ele lamentava o fato de ainda não existir um exército internacional e um governo mundial, para criar o que ele chamava de comunidade global, pois a idéia de Estado Nacional, segundo ele, já tinha que ser superada, haja vista a “evolução” filosófica e sociológica do mundo moderno. Ele condenava também o Presidente Lula por estar retornando ao conceito de “Brasil Potência” e achava isso um retrocesso, pois o pensamento já havia evoluído o suficiente para serem abolidas as fronteiras nacionais. 
Então, o que devemos fazer? Se destruírmos o país, não iríamos também destruir a maior nação católica do mundo?

Muito prezado Christoffer,
Salve Maria.
 
    Todos esses partidos são garras de uma só mão. Não adianta escolher entre eles. Em qualquer um que se votar, seremos fisgados por uma das unhas da única vontade que manda em todos eles.
    FHC estava presente na fundação do PT. Ele foi um dos que fez eleger Lula. E eles têm as mesmas idéias marxistas e abortistas (na medida em que Lula possa ter idéias).
    FHC foi que fez eleger Lula, apresentando como alternativa a ele um candidato como o Serra – que tem tanta capacidade e simpatia quanto cabelos. E Serra também é comunista de sacristia, tanto quanto o Lula. Escolher entre Lula e Serra é escolher entre um comunista barbudo e um comunista careca…E, agora, lá vem o Alckmin que, certamente, não é comunista. Mas, que defendeu o aborto ”y otras cositas peores”.
    A solução não vem da política. As eleições são uma brincadeira em que o povo tem que escolher entre 3 ou 4 canadidatos escolhidos por uma panela, que determina antecipadamente o resultado final.
    E será que se dve crer em pesquisas de opinião pública?
    Se a maioria apoia Lula, apesar dos roubos escancarados do mensalão, então, a maioria não condena o roubo. E se a maioria do povo não condena o roubo, nem a desonestidade e nem a incompetência, como esperar a solução por meio dessa maioria? Só um conversão religiosa e moral poderia mudar a situação do País.
    Outro dia recebi uma pseudo entrevista que um tal Jabor — jornalista de idéias péssimas, mas bem inteligente — teria feito com o chefe do PCC, o bandido Marcola. Creio que essa pseudo entrevista diz, cruamente, grandes verdades sobre a degradação atual não só do Brasil, mas do mundo. Passo-lhe, mais abaixo, essa pseudo entrevista para sua análise. 
    Escreva-me, depois, o que achou dela.
    Um forte abraço.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli


ENTREVISTA COM O MARCOLA DO PCC

Pra quem acredita que os “chefes do tráfico” são todos ignorantes, leiam isso…

23/05/2006

Estamos todos no inferno

Não há solução, pois não conhecemos nem o problema

“Você é do PCC?”

– Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

- Mas… a solução seria…

- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…)
E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

- Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.

Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?

Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a (palavrão) com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

- O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

- Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete antitanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí…Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo…. Já pensou? Ipanema radioativa?

— Mas… não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco… na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele vocês… não têm saída. Só a (palavrão). E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi che entrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

Jornal: O GLOBO
Editoria: Segundo Caderno
Coluna: Arnaldo Jabor
Caderno: Segundo Caderno
(destaques nossos)

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