Montfort Associação Cultural

18 de outubro de 2006

Download PDF

Em defesa da Missa Tridentina

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcos Tetsuji Morita
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Arquiteto
  • Religião: Católica

Sou um convertido. Vivi quase a metade da minha vida como um ateu, ou agnóstico, e me batizei antes de me casar, pois a minha noiva era Católica. Permaneci ainda cerca de vinte anos como um católico medíocre, satisfeito com o cumprimento farisaico dos preceitos, porém, mergulhado no mundo…
Entre abril e maio de 1998 fui tocado profundamente por Deus e permaneci em ‘estado de contemplação’, sentindo-me nos braços de Deus… Comecei imediatamente a estudar com afinco os ensinamentos de Jesus Cristo e da Igreja.
Embora não seja uma regra geral, os convertidos tendem, pela própria experiência de discernimento, ao tradicionalismo.
Diferentemente dos ‘católicos natos’ batizados na infância, que por algum motivo se tornam ‘progressistas’ e ‘modernistas’ e costumam criticar as orientações do Magistério, invariavelmente sem conhecê-las a fundo, os convertidos aceitam com obediência tudo aquilo que é do depósito da fé com muito mais facilidade, uma vez que a sua própria passagem para o Catolicismo foi uma vivência e superação dessas questões. Como exemplo, poderíamos citar a ordenação exclusivamente masculina, o celibato dos sacerdotes e religiosos, a atitude de reverência diante do Santíssimo Sacramento, a infalibilidade do Papa no que concerne à Doutrina promulgada ex-Cathedra, dogmas marianos, defesa da vida e outros assuntos que exigem a fé incondicional.
Pessoalmente, sendo de origem oriental, tenho a oportunidade de assistir às cerimônias budistas e, vejo com uma certa inveja o “sacerdote budista e toda a sua assembléia voltada com grande respeito e reverência ao ‘altar’”.
A nossa disposição de “aula” pós-Concílio Vaticano II, onde o sacerdote toma a posição de ‘professor’ diante da assembléia, me causa a impressão de que, apesar de proclamarmos a presença sacramental de Cristo no altar, damos mais importância às pessoas… De fato, a posição “de costas” do sacerdote em relação à assembléia, antes de ser desrespeito a ela, é um sinal de profunda reverência para com Deus verdadeiro e pessoal (e não um ‘deus’ vago e abstrato como é para outras religiões!). Uma das poucas igrejas Católicas no mundo a manter ainda esta benigna tradição é a Brompton Oratory de Londres. Por causa da grande influência (pouco divulgada) da cultura cristã no Japão durante o ‘século de ouro do Cristianismo’ (século XVII) que se reflete até mesmo na filosofia e prática da cerimônia de chá, desconfio até que aquela disposição dos budistas possa ser resultado da influência da Missa Tridentina…

Infelizmente muitos ‘católicos’ estão mais preocupados com seus ‘direitos’ e, invariavelmente, sem conhecer a verdade, os reivindicam a todo custo, esquecendo-se que tudo, inclusive a própria existência, devem a Deus…

O que de fato nos falta é a percepção da absoluta e infinita diferença de dignidade entre nós e Deus, aquele temor e tremor benigno diante do Absoluto!

Latim:
Muitos ‘católicos’ criticam a Missa Tridentina, isto é, a Missa de sempre, celebrada por mais de quinze séculos, como sendo ultrapassada, uma vez que se emprega nela, a língua Latina. Ora, será que o papel da Santa Igreja é de se rebaixar até o nível do povo? Será que ela deve seguir a orientação ‘socialista’ que invariavelmente nivela tudo ‘por baixo’? Ou seu papel seria de elevar os cristãos? Será que o católico é proibido a aprender Latim? E isso levaria a alguma desvantagem pessoal? Ora, o conhecimento de Latim nos leva ao melhor domínio de, pelo menos seis línguas dele originárias: Português, Espanhol, Italiano, Francês e Romeno. Onde se encontra a desvantagem? Aqui recordo a história da conversão de uma cristã japonesa no século XVII: Garasha (ou Graça) Hosokawa. Esta mulher, esposa de um senhor feudal, converteu-se graças à influência de sua serviçal, cristã. Devido a sua imensa sede de conhecer a verdade, acabou, apesar de todas as dificuldades, aprendendo as línguas portuguesa e Latina para melhor compreender a Santa Doutrina Católica… Como as mulheres de daimyo viviam quase enclausuradas, não teve oportunidade freqüente de assistir às Missas e receber a Eucaristia (teria comungado, no máximo, uma ou duas vezes em toda a sua vida…), porém, certamente experimentou uma profunda presença de Deus em sua vida, morrendo heroicamente ao se recusar a se tornar refém de um outro senhor feudal que procurava tomar o poder.

Tenho, além disso, a oportunidade mais ou menos freqüente de assistir às Missas no exterior e sinto às vezes dificuldade de acompanhar a celebração justamente por causa do uso da língua vernácula. Ora, se a Missa fosse celebrada em Latim, ela seria a mesma em todos os países, o que reforçaria ainda mais o sentido da unidade Católica.

Participação dos leigos
Certamente o Concílio Vaticano II trouxe maior ‘participação’ dos leigos. Será que isso resultou em maior reverência, atenção e amor recíproco? O que notamos, infelizmente, é exibição de vaidades, de querer se mostrar, de atritos de relacionamento, de brigas nas equipes de liturgia. Quando participo de uma Missa Tridentina, pelo contrário, posso me dedicar inteiramente à oração e à contemplação.

Outra diferença fundamental é que na participação da missa de Paulo VI (pós-Vaticano II) não há uma ruptura com a vida cotidiana, isto é, a missa parece ser uma continuação da vida agitada que levamos, enquanto que para participar da Missa Tridentina, somos levados a romper com a rotina diária para ingressarmos na ante-sala do céu.

Sobre o uso dos ministros extraordinários de Eucaristia concordo inteiramente com um texto que encontrei na Internet, escrito por um outro convertido:

MISSA TRIDENTINA, MINISTROS DA EUCARISTIA
Thomas E. Woods, Jr.
O espírito de inovação dos últimos quarenta anos tem endurecido a sensibilidade de muitos clérigos para a seriedade e gravidade de suas rupturas quase rotineiras com a Tradição. Tem sido mostrado a eles que algumas inovações obviamente teriam sido detestadas por toda a assembléia dos santos, embora eles os ignorem (uma atitude que outrora seria impensável para um Católico) ou de fato aleguem que temos feito “progresso” desde aqueles tempos. Tal é o nível de nossa idiotice espiritual que uma era tão empobrecida espiritual e esteticamente quanto a nossa pode se descrever como “progresso”, e interpretar o desagrado presumível dos santos em relação a nossa ‘inovação’ como um sinal de seu atraso, ao invés da nossa própria imaturidade.
Como um convertido, sempre considerei o uso dos “ministros de Eucaristia” uma das inovações pós-conciliares mais incômodas. Eu me perguntava: se os Católicos realmente crêem o que dizem sobre a Sagrada Eucaristia, e se eles realmente crêem no que dizem sobre o santo sacerdócio, por que estimulam tanto a introdução dos leigos numa área tão sagrada da vida da Igreja – uma área em que os leigos nunca reivindicaram ou manifestaram o desejo de admissão? Afinal de contas, S. Tomás de Aquino fizera uma ligação explícita entre a ordenação do sacerdote e a sua missão de distribuir a Santa Comunhão, e o Papa João Paulo II uma vez indicou a relação entre a consagração das mãos sacerdotais com o seu inestimável privilégio de distribuir as Hóstias consagradas aos fiéis.
Nada disso, porém, parece sensibilizar os inovadores, cujo ponto ideológico não é exatamente sutil: a introdução dos ministros da Eucaristia clara e obviamente denigre o ofício do sacerdócio sacramental em nome do igualitarismo totalmente estranho à tradição Católica (embora, não coincidentemente, muito bem-vindo ao mundo). A premissa implícita é de que devemos nos conformar com o mundo: uma vez que a era em que vivemos é aquela que enfatiza a “igualdade”, e uma vez que os privilégios do sacerdócio, portanto, parecem incongruentes e intoleráveis aos fazedores de opiniões do nosso tempo, a exigência do tempo deve ser satisfeita à custa da tradição imemorial.
Em pelo menos um caso, os ministros da Eucaristia estão sendo aparentemente evitados na comunidade da Missa – isto é, pessoas que participam das Missas Latinas tradicionais da Igreja. Certamente, as pessoas que participam daquela Missa o fazem a fim de evitar a familiaridade casual na presença do sagrado que o uso dos ministros da Eucaristia tão claramente reflete. Num mundo que crê que nada é imune às mudanças, que a própria família é objeto de redefinição de acordo com o capricho humano, eles apreciam o fato de que a piedade e a reverência da Missa Latina tradicional, na sua beleza e imponente austeridade, e na sua reserva dos serviços sagrados unicamente ao sacerdote, relembra-nos que algumas coisas de fato não devem ser tocados por homem. Que mensagem a mais a nossa sociedade e os nossos filhos necessitariam, além disso?
O grande Rei Felipe II da Espanha, ao ver uma criança que aprendia a engatinhar tentando escalar a grade da Comunhão, disse-lhe, “Apenas os sacerdotes podem estar aí”. Hoje, uma geração possuidora de uma autoconfiança imerecida e inconseqüente e sem uma maturidade espiritual, ri da piedade bela e solene dos nossos antepassados que nunca teriam sonhado em transgredir o terreno do santo sacerdócio e desmistificar e profanar o lugar mais belo e sagrado de toda a terra.
Bons pais Católicos devem, portanto, trabalhar contra as pressões da mídia, da indústria do entretenimento, e de todo Zeitgeist a fim de aquinhoar nos seus filhos a idéia de que algumas coisas são sagradas, uma idéia que é mais bem expressa na ação e no gesto que em palavras. A Santa Comunhão, dizem aos seus filhos, ao permitir-nos a comunhão com a vida divina, é o maior dom de Deus para nós na terra. A Santa Comunhão, além disso, contém o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do próprio Senhor. A única resposta racional e espiritual madura para tal dom, portanto, deve ser a maior reverência, e esta é a mensagem às crianças que a presença de ministros de Eucaristia, membros não-ordenados dentre os fiéis procura insistentemente minar. Uma vez que, além disso, a custódia exclusiva do sacerdote sobre a Eucaristia tem sido tradicionalmente um dos aspectos que mais fascinava os jovens meninos no sagrado ofício, o uso dos ministros de Eucaristia pode apenas afastá-los do mistério do sacerdócio que tanto os atraía. (Por que tanto sacrifício associado à vida de sacerdote se o Sr. Silva pode alimentar o rebanho tanto quanto você e eu?).
É esta enfermidade espiritual que nos assedia de todos os lados, e que está praticamente institucionalizada através da vida paroquial norte-americana (porém, não apenas ali, N.T.), e que as pessoas que participam da Missa Latina procuram evitar. Elas fazem grandes sacrifícios para participar de tais Missas, freqüentemente viajando horas ou mudando-se a fim de que a ‘velha’ Missa (ou Missa de sempre) se torne mais acessível. Bispos e pastores que se desviam do caminho para demonstrar a sua “compreensão pastoral” aos Católicos divorciados ou recasados, dissidentes, feministas – a lista se torna cada vez pior – nada têm a oferecer àqueles Católicos que estão simplesmente tentando viver a Fé que seus pais e avós lhes transmitiram, e que por seus meios procuram resistir às obsessões da cultura para a dessacralização e profanação que os bispos e pastores deveriam primeiro resistir ao invés de serem tão indulgentes.
Que os Católicos tenham que discutir com seus próprios pastores em tal combate é um fato suficientemente bizarro e desmoralizante, mas que devem fazê-lo no contexto da Missa tradicional é um fato inescusável. Tal profanação mostra total desconsideração para as sensibilidades dos presentes e se torna um escândalo para as crianças. Há mais do que um toque de fanatismo naqueles que, enquanto aquiesce ou encoraja positivamente tais espetáculos como histeria carismática, a chamada “catedral” de Los Angeles, e as danças litúrgicas ‘ecumênicas’, permitem com reticência a Missa tradicional da própria Igreja – e mesmo assim impõem aos fiéis infelizes uma das inovações mais impiedosas e destrutivas desde o Vaticano II, aquela que viola claramente todo o etos do rito antigo e visão tradicional do sacerdócio – isto é, a única que os santos reconheceriam. Essas pobres criaturas não poderiam ser deixadas em paz?
(Thomas E. Woods Jr., possui bacharelado em História pela Harvard e Ph. D. pela Universidade de Columbia. Seus artigos apareceram em Investor’s Business Daily, the Christian Science Monitor, Modern Age e dezenas de outros periódicos. É professor de História da Suffolk Community College da Universidade Estadual de Nova York e editor associado da revista The Latin Mass).
Sobre o sacerdócio exclusivamente masculino (que constitui serviço e responsabilidade e não privilégio ou poder), podemos citar dois documentos do Magistério: “Declaração sobre a Questão da Admissão das Mulheres ao Sacerdócio Ministerial” da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (15 de outubro de 1976) e Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis” do Papa João Paulo II sobre a ordenação sacerdotal reservada apenas aos homens.
Ora, foi pela desobediência que o pecado entrou no mundo:

“Uma gotícula da simples obediência vale um milhão de vezes mais que um vaso cheio de contemplação escolhida”. (Sta. Maria Madalena de Pazzi).

As mulheres, ao reivindicarem a igualdade com os homens acreditam estar se elevando. Ora, quem é a criatura humana mais bem-aventurada? É a Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa! As mulheres não perceberam que almejar a igualdade com os homens representa o seu ‘rebaixamento’?!

Se observarmos atentamente as críticas contra a Santa Igreja Católica, estas são insistentemente direcionadas a todas as matérias fundamentais da própria fé Católica, a sua essência, o seu tesouro. Prescindindo delas, seríamos simplesmente “mais uma religião”, igual a milhares de outras criadas pela mente humana, segundo suas leis, seu capricho e sua mediocridade, uma religião voltada ao homem e não a Deus…

Há quanto tempo não nos surpreendemos, nem nos sentimos estupefatos com as maravilhas de Deus? É preciso recuperar o verdadeiro significado do sagrado e da reverência!

Ser convertido, para mim é retornar às origens do cristianismo, não apenas sonhar, mas viver uma sociedade humana verdadeiramente santa, uma sociedade onde o bem comum está acima de qualquer interesse individual, porém, onde se respeita a individualidade, as virtudes e os dons de cada um a serviço do próximo, onde a Santíssima Trindade é o centro de tudo, onde podemos experimentar antecipadamente a glória do céu na presença do Cristo Nosso Senhor e da Sua Santíssima Mãe!

“Não queremos, como dizem os jornais, uma Igreja que se move com o mundo… Queremos uma Igreja que move o mundo… E é através deste teste que a história realmente julgará qualquer Igreja, seja ela verdadeira ou não”. (G. K. Chesterton).

Ecumenismo:
“O diálogo com o mundo só é possível quando baseado em uma identidade clara; que se pode e se deve ‘abrir’, mas somente quando se assumiu a própria identidade e, portanto, se tem algo a dizer. A identidade firme é condição da abertura”. (Cardeal Joseph Ratzinger – A Fé em Crise?, E.P.U., 1985).

Finalmente, agradeço ao Professor Orlando Fedeli e ao pessoal da Montfort a oportunidade de poder participar semanalmente da Missa de sempre e espero sinceramente que com a sua liberação pelo Papa, todos os católicos possam recuperar o sentido de reverência, respeito, pudor, responsabilidade, autenticidade e o valor da verdadeira Fé.

Marcos Tetsuji Morita

Muito prezado  Marcos,
Salve Maria.

     Agradeço-lhe palavras tão boas na defesa da verdadeira religião e do verdaderio sacrifício estabelecido por Cristo: a Missa de sempre. 
     Rezemos pelo Papa, que volte a dar plena liberdade para a celebração dessa Missa que nunca deveria ter sido posta de lado, permitindo-se tantos abusos e profanações.
     Recomendo-lhe que siga sempre a doutrina católica, jamais assistindo, de modo algum, cerimônias de falsas religiões.
     Que Deus o guarde em seu santo serviço e em sua graça.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: O pleito pela Missa Latina - Orlando Fedeli

Notícias e Atualidades: Único italiano não curial entre os novos Cardeais celebra Missa Tridentina: é Mons.Bassetti, Arcebispo de Perugia

Artigos Montfort: ´A missa nova é católica?` - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais