Montfort Associação Cultural

2 de setembro de 2012

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Em defesa da Ágape, do Pe. Marcelo Rossi

Autor: Alberto Zucchi

À Equipe Montfort,

Após ler o artigo acerca da obra escrita por Padre Marcelo, senti-me provocado a expressar minha opinião sobre a abordagem que dela se fez no artigo que passo  a comentar:

Não deixa de ser curioso que um site de confissão católica dedique tanto espaço para atacar membros da própria Igreja que julga incoerentemente defender.

Assim como os mais progressistas não precisam atacar idéias conservadores como se elas necessariamente fossem atraso, os mais conservadores também não precisam atacar concepções de mundo e de fé mais “progressistas” como se elas fossem, de fato, ameaça à história que a Igreja não construiu no passado, mas que constrói a todo tempo, inclusive neste em que vivemos, porque a Igreja não pertence ao passado, não ficou  nele e nem deve.

Se o livro de Padre Marcelo não é um primor teológico nem descreve com propriedade o que é a verdadeira ÁGAPE, por outro lado, não se vê no comentário que se faz no artigo dedicado a ele qualquer interesse em ser luz esclarecedora a esse respeito, isto é, que transmita a correta compreensão da verdadeira ágape.

Descrédito não somente à obra, mas a pessoas cuja expressividade de seus atos, de alguma forma, ensinam que amor é muito mais do que determinação a cumprimento de mandamento da Igreja ou da Escritura, mas que recebem desse artigo insultos de que poderia aproveitar o espaço para transmitir lições de amor ou de misericórdia, se dela ao menos os admiradores desses a quem chama-se de ‘hereges” necessitassem. Antes, porém, se ocupa a classificar injustificadamente de “más companhias” pessoas cuja suposta mentalidade moderna parece incomodar  mentalidades que pela contraposição, indiretamente se identificam como retrogradas, cuja suposta heresia que apontam aos “modernistas” nada parece ser senão incômodo à inevitável passagem do tempo e reformulações de concepções próprias da evolução da ciência, do direito e da visão de mundo. Talvez, por isso elenca ao lado de “grandes santos” como São Tomás, Santa Terezinha e o Cura D´Ars (a quem não se nega a santidade), de maneira inglória Zilda Arns, Nelson Mandela e Gandhi, pela “notável’ razão que os torna menos dignos: a mentalidade moderna, entendida como “herética”.

Curioso, por exemplo, rotular Gandhi (que nem era adapto do cristianismo) como um “herege’, algo nada razoável, já que não era sua ocupação disputar a ortodoxia de temas religiosos com quem visse neles algo capital à fé cristã.

Outrossim, o que essas mentes modernas (Zilda Arns, Nelson Mandela e Gandhi) trouxeram de herético para o mundo, o serviço que cada um prestou para nos fazer enxergar o outro?

Veja-se, uma das grandes maldades que Padre Marcelo ensina por intermédio de seu livro, segundo esse artigo é: “… o livro tem uma visão fortemente antropocêntrica:   tudo deve ser feito em função do homem’.

Ora, se isso é reprovável, esse site deveria condenar também a Deus e á Escritura, pois, onde se encontrará um discurso mais antropocêntrico do que este: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único filho, para que TODO AQUELE (ser humano) que nele crer não perece…”? (Jô 3,16)

Aí tudo não foi feito por Deus “em função do homem”?

Senhores, “Não foi tampouco aos anjos que Deus submeteu o mundo vindouro, de que falamos. Alguém em certa passagem afirmou: Que é o homem para que dele te lembres, ou o filho do homem, para que o visites?” (Hb 2,5-6)

“Em Ágape a importância dada ao homem chega a extremos quando  Padre Marcelo afirma: “o poder só se justifica se tiver como preocupação central a pessoa humana”.

No que isso é condenável? Será que o conceito cristão de poder é domínio? Se é, Cristo era um herege, pois que, para ele, o poder verdadeiro se traduz em serviço ao próximo. “Jesus, porém, os chamou e lhes disse: ‘Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso servo’” (Mt 20,25-27).

Se o poder não tiver como preocupação atender à necessidade humana serve para quê?

Enquanto Padre Marcelo preocupa-se em falar de vida (tal como Jesus), a  crítica nada feliz pensa em doutrina e na Igreja não como comunidade de fé, mas como instituição de poder, pois só consegui pensar no “Papa, que tem o supremo poder na terra…” como se para o Papa atender a Deus precisasse antes negligenciar o homem.

Talvez o autor de 1 Jo, tenha blasfemado (inspirado pelo Deus a quem blasfemou) quando escreveu: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê’” (1Jo 4,20).

Enquanto o Novo Testamento faz correlação entre amor a Deus (que também se expressa no serviço a ELE) e amor ao próximo (que também se expressa no serviço ao ser humano), frases tomadas fora de contexto criam o ar de rebeldia em quem simplesmente repete o que Cristo, em essência, ensinou.

E, no artigo, na ânsia de atacar gratuitamente, por suposta defesa à ortodoxia, chega-se ao absurdo de fazer do Gênesis compêndio de ciência que supostamente tem por objetivo se opor à teoria do evolucionismo, como se o autor do livro sagrado pretendesse fazer ciência ou explicar cientificamente a origem do mundo. Isso nada é, senão resultado da triste constatação de que apesar dos desastrosos episódios envolvendo Giordano Bruno, Galileu Galilei e Igreja, quando essa última ainda não havia se dado conta de que a Bíblia não é livro de verdade cientifica, fez que cometeu gigantescos desatinos, quando supostamente imaginava defender  a Escritura, razão que gerou como fruto, além do descrédito da Igreja perante o mundo ao longos dos séculos, uma exposição desnecessária da Bíblia ao ridículo, tudo para fazer parecer ser a Escritura algo que ela mesma não pretende ser (e não é): livro de verdade cientifica.

Ou a primorosa apologética ou exegese dos senhores consegue explicar racionalmente, por exemplo, Gn 1,6-8 sem fugir do óbvio, ante uma notória concepção cosmológica comprovadamente incorreta, quanto a imaginada solidez da abóbada que formava o firmamento (céu) e que separava as águas do imaginado mar celeste, da superfície, mas que para escoar sobre ela  num dilúvio, supostamente, carecia de que as imaginadas comportas do céu se abrissem, dada a solidez do firmamento? (Gn 7,11)

A verdade bíblica não pressupõe historicidade dos fatos nela narrados nem pretensões que extrapolem o âmbito da fé e das verdades de fé. E quem ensina aos incautos a ler a bíblia (ou ouvir, como preferem alguns) de maneira fundamentalista, em nada contribui para que se descubra a beleza e a riqueza da palavra de Deus que não violenta a faculdade humana para ser transmitida, nem precisa ensinar verdades cientificas para ser divina. Porém,  a relutância em compreender isso incentiva a ilógica discussão entre fé e ciência (que são campos de saberes diversos), para fazer quem não acredita na verdade bíblica (a qual persiste no conteúdo da mensagem, não na embalagem dela),  motivo de chacota, por parte de quem acaba, por esse tipo de postura fundamentalista, fazendo aqueles que usam da razão ver na Bíblia nada além de um livro ultrapassado (não por real falha deles, mas por falha daqueles que insistem em forçar uma leitura irrefletida e literalista do texto, cuja própria forma em que se apresenta, certamente não demonstra que foi escrito para ser lido como se lê uma matéria de  jornal ou uma reportagem de  revista).

Esse mundo da ingenuidade (que parece ser o dos sonhos) de quem se ocupa a atacar quem mais está defendendo a dignidade da palavra de Deus (por respeitá-la tal como ela é) e preservando-a do ridículo, já não cabe no mundo em que aos poucos se descobre que a verdade e a beleza da Escritura não são comprometidas pela faculdade limitada dos homens que se colocaram com suas limitações a serviço de Deus, para transmitir a mensagem da forma como podia ser compreendida à época, mas que hoje, somente o será se respeitarmos o texto, dialogando com ele; pois que, pensar não é pecado, é dom que Deus concedeu a seus filhos, para que esses, pela fé e pela razão mais se aproximassem Dele.

Grato pela atenção, e aguarda resposta,

Damião Bonfim.

Prezado Sr. Damião Bonfim

É com alegria que respondo sua carta dirigida à equipe Montfort, a respeito do meu artigo sobre o livro Agapé de Padre Marcelo Rossi.  Recebemos diversas cartas comentando o artigo, dentre elas a sua que, além de conter muitos dos temas tratados nas demais, tem ao final a afirmação de que espera uma resposta. Desta forma, julguei que, respondendo ao senhor, atenderia muitos dos leitores de nosso site.

O senhor inicia sua missiva acusando-nos de incoerência por atacar um membro da Igreja Católica. Curiosamente, ao final da sua carta afirma o seguinte:

“Isso nada é, senão resultado da triste constatação de que apesar dos desastrosos episódios envolvendo Giordano Bruno, Galileu Galilei e Igreja, quando essa última ainda não havia se dado conta de que a Bíblia não é livro de verdade cientifica, fez que cometeu gigantescos desatinos, quando supostamente imaginava defender  a Escritura, razão que gerou como fruto, além do descrédito da Igreja perante o mundo ao longos dos séculos, uma exposição desnecessária da Bíblia ao ridículo, tudo para fazer parecer ser a Escritura algo que ela mesma não pretende ser (e não é): livro de verdade cientifica”. (os grifos são meus)

Parece que o respeito que o senhor exige ao Padre Marcelo não deve necessariamente ser aplicado à Igreja…  Veja que é o senhor que acaba por cair na incoerência que pretende me atribuir. Triste começo para quem pretende ter um Bonfim.

Vamos adiante.

Talvez para sua surpresa, começarei esta resposta com um elogio ao Padre Marcelo: ele sem dúvida possui uma equipe de propaganda de altíssima eficiência.

Estive outro dia na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, falo sim da renomada escola de negócios, conhecida em todo o Brasil. O senhor não pode imaginar o que encontrei na livraria: o “Agapinho” do Padre Marcelo. Realmente surpreendente! Que equipe de marketing este padre possui! Que força é esta que é capaz de colocar o Padre Marcelo na capa de “Veja” e na livraria da Fundação Getúlio Vargas? Pois é… Aos pragmáticos homens de negócio da FGV é oferecida a gnosesinha do Padre Marcelo.

Estaria eu novamente exagerando e vendo Gnose em todo o lugar?

Na verdade em todas as cartas que recebemos não existe uma única linha contestando a afirmação de que o Ágape do Padre Marcelo tem por trás uma teoria gnóstica. Aliás, neste ponto, o senhor mesmo me dá, ao menos em parte, certa razão. Vejamos:

“Se o livro de Padre Marcelo não é um primor teológico nem descreve com propriedade o que é a verdadeira ÁGAPE, por outro lado, não se vê no comentário que se faz no artigo dedicado a ele qualquer interesse em ser luz esclarecedora a esse respeito, isto é, que transmita a correta compreensão da verdadeira ágape”. (novamente o grifo é meu)

Coloquei na citação o parágrafo inteiro para que não se pudesse afirmar que o tirei do contexto. Assim, no início do parágrafo, o senhor admite que exista um erro doutrinário na concepção do Ágape do Padre Marcelo, e não contesta que essa mesma concepção tenha elementos gnósticos.

O senhor se limita a queixar-se de que não tratei do que é a compreensão da “verdadeira Ágape”. De fato não tratei disto, não era o objetivo do artigo. Creio que uma explicação detalhada de um termo que é tão deturpado hoje em dia, necessitaria de um livro inteiro e não somente de um artigo e, realmente, como não sou nem filosofo nem teólogo, não creio que estaria capacitado para tanto. Porém, isto de maneira nenhuma invalida as críticas feitas ao livro.

Para não deixar de atendê-lo, porém, recomendo ao senhor a Encíclica do Papa Bento XVI “Deus Caritas Est”. Veja que estou lhe propondo um autor com muita idade, mas certamente não muito antigo… Será que o senhor o considera meio ultrapassado? E, se me permite um aconselho adicional, leia também o artigo do Professor Orlando Fedeli, que se encontra em nosso site, sobre essa mesma Encíclica: http://www.montfort.org.br//index.php/blog/artigos-da-montfort/nao-ha-caridade-sem-a-verdade/. O senhor compreenderá que não existe verdadeira caridade sem a verdade. Este sim será um bom começo para quem deseja tem um Bonfim.

Entretanto, sua observação revela que também neste ponto o senhor me dá alguma razão pois, se reclama que meu artigo não dá uma “luz esclarecedora”, é porque o livro de Padre Marcelo realmente está em uma escuridão perturbadora.

Escuridão perturbadora que também aparece em vários pontos de sua carta. Veja, por exemplo, este parágrafo:

“Enquanto o Novo Testamento faz correlação entre o amor a Deus (que também se expressa no serviço a ELE) e o amor ao próximo (que se expressa no serviço ao ser humano), frases tomadas fora de contexto criam o ar de rebeldia em quem simplesmente repete o que Cristo, em essência ensinou.”

Quais foram as frases tiradas do contexto? Aquelas extraídas do livro do Padre Marcelo, o qual o senhor mesmo admitiu não ser um primor teológico? O trecho da Epístola de São João, na qual ele afirma que não se pode esquecer da doutrina na prática da caridade para com o próximo,  que cito em meu artigo, e que o senhor simplesmente ignora? Certamente, neste ponto o senhor deveria ter se explicado melhor,  transcrevendo as frases tiradas de seu contexto, e apresentando o verdadeiro contexto em que elas se inserem.

Prossigamos. O senhor em sua carta, em mais um parágrafo confuso, considera, em relação as minhas críticas às “más companhias” de Padre Marcelo, que “nada parece ser senão incômodo à inevitável passagem do tempo e formulações de concepções próprias da evolução da ciência, do direito e da visão do mundo”.

De fato, todo o erro deve incomodar, porque toda falsa doutrina e toda mentira se opõem a Nosso Senhor e à Igreja Católica.  Se o senhor notou que me sinto incomodado, agradeço-lhe pelo elogio, mas o que está sendo discutido não é o meu incômodo. O senhor, como os modernistas, justifica os inúmeros erros que se apresentam hoje contra a doutrina católica afirmando, ainda que de forma confusa, que tudo evolui e que, por isso, a doutrina católica deveria acompanhar, ou melhor, estar subordinada a esta evolução.

O Site Montfort está repleto de citações demonstrando como isto sempre foi condenado pelos Papas. Como está carta está longa apresento somente uma citação da Encíclica Humani Generis do Papa Pio XII, publicada em 1950.

“A essas correntes se vem juntar um falso historicismo que se atém somente aos acontecimentos da vida humana e subverte os fundamentos de toda e qualquer verdade ou lei absoluta, seja no campo da filosofia, seja no dos dogmas do cristianismo”.

Veja, que aqui também sua tese da “passagem do tempo” fica condenada. Na Igreja existem verdades e leis absolutas. Ou será que o Senhor considera que 1950 é algo muito antigo porque anterior ao Concilio Vaticano II e, portanto, não precisa ser levado em consideração?

Neste ponto cabe um esclarecimento: o senhor me atribui a afirmação de que Gandhi era herético e, na verdade, isto não consta do artigo. É claro que não sendo católico ele não poderia ser herege. Também não afirmei que Zilda Arns e Nelson Mandela eram hereges, o que afirmei é que eles representam a mentalidade moderna, esta sim, uma mentalidade com  doutrina herética. Neste caso a doutrina errada presente na mentalidade moderna é o ecumenismo que considera que todas as religiões são iguais e que em todas elas os homens podem se salvar. É assim que Gandhi, tão bem descrito por Churchill,  é visto pelo mundo moderno, e é porque possivelmente o senhor tem a mentalidade ecumênica que não gostou do ataque a Gandhi.

Chegamos então, após este longo caminho, ao ponto fundamental. O senhor pergunta:

“Aí tudo não foi feito por Deus ‘em função do homem’”?

A resposta é muito simples e causa espanto somente àqueles que têm uma mentalidade profundamente antropocêntrica, que é a base da Gnose:  tudo que existe tem, como objetivo final, a Deus e não o homem. A citação do Evangelho que o senhor mesmo transcreve em sua carta é prova disto.

“Todo aquele que nele crer não perecerá”. Ou seja, aquele que não crer perecerá. Portanto, o fundamento é crer em Deus e não agradar ao homem. Deus amou o homem e por isto lhe concede a salvação,  mas com uma condição: crer em Deus. Quem não crer perecerá, ou seja, seu destino é a condenação eterna. Explicando melhor: é o inferno, tão contestado na teologia e ciência moderna.

Portanto, o amor que devemos ao homem está subordinado ao amor que devemos a Deus. Por isto a frase de Padre Marcelo de que “o poder só se justifica se tiver como preocupação central a pessoa humana” é errada. Veja, aliás, que ele diz a pessoa humana, um ser abstrato e não o homem, um ser concreto. Será que Padre Marcelo acredita na salvação individual ou ele tem a visão escatológica da salvação coletiva da humanidade? Bem simpática esta tese da salvação coletiva, pois diminui bastante a responsabilidade de quem joga vídeo-game, enquanto deveria estudar a doutrina católica.

O que Cristo ensinou foi que a autoridade se justifica tendo como origem a Deus. Por isto Deus diz a Pilatos:

“nenhum poder terias sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso aquele que me entregou nas tuas mãos é réu de maior pecado”.

E veja que Pilatos estava muito longe de ser um bom governante, desses preocupados com a educação, saúde e transporte. Ao menos, Pilatos não era cínico como alguns políticos que talvez o senhor conheça.

Dom Duarte Leopoldo e Silva, primeiro Arcebispo de São Paulo até 1938, (será que sendo desta época o senhor julgaria que ele tem uma mentalidade medieval?), no livro Concordâncias dos Santos Evangelhos comenta este trecho da seguinte forma:

“Todo o poder vem de Deus, por isto não devia temer o governador as ameaças do povo, mas a ira daquele a quem deverá das contas da sua gestão. Os judeus, que tinham as Escrituras [como o Padre Marcelo], que presenciaram os milagres de Jesus [como o Padre Marcelo] e ouviram a sua doutrina [aqui já não saberia dizer se é o caso do Padre Marcelo] cometeram maior pecado, ainda que também Pilatos não estivesse livre de culpa”.

Para encerrar sua carta o senhor faz uma longa exortação em defesa da ciência, sobretudo no que se refere ao Genesis, apresentando a ciência como superior à Igreja,  uma vez que, na sua opinião,  caberia à Igreja se adaptar à ciência.

Sobre a questão do Genesis novamente recomendo a leitura do site Montfort. Veja por exemplo o artigo de Dies Unus: considerações sobre um dia da Criação http://www.montfort.org.br//index.php/category/autor/fabiovanini/. Neste artigo o senhor verá como a Igreja, ao longo dos tempos, foi sábia na interpretação das Sagradas Escrituras e que a tese de que a ciência desmentiu a religião é completamente falsa. Tese repetida pelos modernistas que, assim como os cientistas materialistas, têm como objetivo destruir os dogmas da Igreja Católica.

Porém, estariam os cientistas isentos de um pensamento filosófico ou mesmo religioso em suas idéias? Veja a citação a seguir de David Bohm, que foi aluno de Oppenheimer, desenvolveu o enriquecimento do urânio para bombas atômicas e trabalhou com Einstein em Princeton:

“O Universo é um Ser-Luz infinito, superpoderoso, dotado de um conteúdo informacional e de uma vontade consciente e criativa, capaz de decidir projetar-se a si mesmo sob a forma finita das partículas… As pessoas intuem uma forma de inteligência que, no passado, organizou o universo, e a personalizaram, chamando-a Deus” (citado em Villaverde, Universo vivo) .

Atribuir ao universo as qualidades de Deus é científico? Quais as provas de uma afirmação tão tola? Será que este cientista está entre aqueles sábios citados em sua carta que “ usam da razão [para] ver na Bíblia nada além de um livro ultrapassado…” Se David Bohm tivesse conhecimento do livro de Padre Marcelo, provavelmente acrescentaria à sua conclusão: “O universo é Ágape”…

Finalmente, o senhor conclui, em sua batalha em preservar a Sagrada Escritura do “ridículo” de levar a sério o que escreveram em sua “faculdade limitada (…) homens que se colocaram com suas limitações a serviço de Deus”:

“um mundo de ingenuidade (que parece ser o do sonhos) de quem se ocupa a atacar quem mais está defendo a dignidade da palavra de Deus (por respeitá-la tal como ela é)”.

Respeitar a palavra de Deus não consiste em escrever uma gnose bajuladora à ciência e ao mundo moderno desprezando o ensinamento da Igreja Católica.

Um mundo sempre mais secularizado e que parece voltar irremediavelmente às costas a seu Criador e Salvador” (Padre Nicola Bux à FSSPX).

Para se ter um Bomfin é necessário agradar a Deus antes que aos homens, à ciência e ao mundo. Este é o Bomfin que a Montfort espera ter, e é o que eu sinceramente lhe desejo e espero que Nossa Senhora, sempre tão ausente no pensamento modernista, lhe conceda, meu caro Damião.

Alberto Zucchi

 

 

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