Montfort Associação Cultural

4 de janeiro de 2005

Download PDF

Educação católica, mais sobre dignidade humana, Walfare State, etc.

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcelo
  • Localizaçao: Florianópolis – SC – Brasil

Que a graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam sempre convosco!

Foi com muita satisfação que li a resposta a minha mensagem. Em Cristo, agradeço a generosidade de ter encontrado comentários sobre todas as questões que levantei. De fato, é grande o meu interesse em crescer na graça e no conhecimento; tomar parte na vida divina que, em Cristo, nos é dispensada. Sobretudo, a fim de crescer no conhecimento, necessitamos do precioso auxílio dos irmãos que já perfizeram as estradas que estamos começando a trilhar, de maneira que “o caminho seja brando a nossos pés”, como consta de uma bonita oração de bênção dos nossos irmãos do oriente, os ortodoxos.

Sem dúvida, nas minhas “incursões” pelas livrarias católicas de minha cidade, nunca encontrei documentos pontifícios pré-conciliares. Por outro lado, já encontrei alguns livros que iriam arrepiar os cabelos, que já não são muitos, do Cardeal Ratzinger.

Com toda sinceridade, eu penso que, dada a diversidade, a complexidade, a pluralidade do mundo em que vivemos, o clero acaba preferindo passar uma mensagem de fé e esperança, em suas homilias, sem tocar em determinados signos “polêmicos” (apesar de para nós não o serem), como infalibilidade papal, por exemplo. A educação escolar e universitária, não há como negar, contribui para isto. Diga-se, aliás, que o relativismo moral encontra uma de suas bases na formação estudantil. Nos colégios católicos de minha cidade, um estudante, por certo, pode sair tão pagão quanto entrou… justamente onde se poderia buscar uma formação cristã… triste, não?

Quando me referi ao direito à educação não quis, de forma alguma, dizer que ele é elemento constitutivo de nossa dignidade humana, a lição de Leão XIII é irreparável. Quis dar a minha frase o exato sentido da frase da Lumen Gentium que citei… No mais, com relação aos direitos sociais, entendo que, antes de mais nada, apesar de obviamente terem a vocação de auxiliar o mais carente, eles não se traduzem enquanto direitos de um sujeito coletivo: trata-se de direitos que concernem a todos, indistintamente, e, portanto, a cada um. Do ponto de vista jurídico, se a Constituição não faz restrições, a princípio, não estamos autorizados a fazê-las. E, apesar da educação pouco comprometida com os valores cristãos que se apresenta, não podemos negá-la a ninguém, bem como os outros direitos sociais. Em última análise, vivemos em um Estado laico, portanto, a responsabilidade da evangelização toca aos cristãos, e não às escolas… c”est la vie… Redobremos o ânimo evangelizador, na força do Espírito Santo, e ao trabalho… Tomemos a sério o sentido de catequese: um processo contínuo, dinâmico e abrangente de educação na fé. Que possamos bem servir a Cristo, nossa paz, utilizando o púlpito, os meios de comunicação católicos, as pastorais catequéticas, as intuições de ensino católicas, os movimentos leigos…o nosso olhar e nosso sorriso, nosso sotaque galileu…

Reconheço que os direitos de liberdade e o de propriedade, uma “primeira gereção” dos direitos humanos, tem natureza antinômica com relação aos direitos sociais, típicos do nosso século (México-1917 e Weimar-1919…). Uma mais perfeita implementação de uns, minora a implementação dos outros. Reconheço também que prefiro o tão criticado Welfare State… ou o que se puder salvar dele… se bem que nunca o tivemos no Brasil. Isto devido ao descaso com que se tem tratado os direitos sociais. No que se refere a política e a economia, costumo orientar-me pela mediania.

No que se refere aos juízos errôneos do mundo contemporâneo, que muitas vezes são ensinados por professores, como o relativismo moral, bem como o papel da Igreja na História e na atualidade, concordo com o senhor… sob o slogan da “qualidade de vida”, que supostamente não se tinha outrora, um estilo de vida pernicioso tem se formado. Vai se perdendo o sentido do pecado, e simultaneamente o sentido da reconciliação, como já disse um Sumo Pontífice. Uma mentalidade herege ergue-se, estruturando-se sob algumas “regras”: quem sabe de minha vida sou eu; o certo e o errado dependem de cada um; o que importa é o ter; não preciso nem de padre nem de Igreja, minha relação com Deus é “pessoal”; pouco importa se transformo meu corpo em uma sexy machine (acredite se quiser, isto é o nome de uma marca famosa)…

Por favor, qualquer objeção as idéias que expressei, peço que a exponha.

Gostaria de conhecer sua opinião sobre estes temas:
a) Maçonaria;
b) Renovação Carismática Católica e Comunidades Eclesiais de Base;
c) Opus Dei (o Sr. participa dele?);
d) Como o Sr. aborda dois temas que, não raro, são levantados (muitas vezes como “boas desculpas” para deixar a religião de lado): A Igreja no Medievo e a Santa Inquisição (Bibliografia sobre o tema).
e) Fale um pouco mais sobre Ecumenismo…afinal, a próxima Campanha da Fraternidade será promovida pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, bem como SS. João Paulo II até uma Carta Encíclica, a Ut Unum Sint, já destinou ao tema.

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo! Paz e Bem!
Florianópolis, 5 de janeiro de 2000.
Marcelo

vivemos em um Estado laico, portanto, a responsabilidade da evangelização toca aos cristãos, e não às escol

Muito prezado Marcelo, Salve Maria.

É um prazer receber e ler suas mensagens, não só por seu bom nível intelectual, mas especialmente por sua boa vontade e sincero desejo de defender a Santa Igreja e vir a conhecer melhor sua santa doutrina.

Há em nosso site algumas encíclicas importantes, como por exemplo a Mortalium Animos de Pio XI, a que lhe fiz referência.
Recomendo-lhe muito que leia as encíclicas Pascendi (sobre o Modernismo), que esperamos em breve publicar no site, e Sobre os erros do Sillon (Carta Apostólica) de São Pio X.
Se você quiser fazer um estudo sistemático do que os Papas têm ensinado para combater os erros modernos, deve começar pelos textos de Gregório XVI (Mirari Vos, contra o liberalismo); de Pio IX (Syllabus e Quanta Cura contra o Liberalismo); e as encíclicas de Leão XIII e São Pio X. Esses documentos são imprescindíveis para que tenhamos uma base doutrinária sólida e séria.
Se você não os encontrar, escreva-me, que irei xerocando algumas encíclicas por vez, para você.
Alguns desses documentos você encontrará, em castelhano, no endereço
http://www.multimedios.org/bec/magister.htm

Você se referiu ao fato de que os sacerdotes, de modo geral, preferem acentuar a esperança e o amor, em suas homilias, sem tocar em pontos polêmicos. A seguir você me diz que os colégios católicos dão uma formação tão deficiente, do ponto de vista religioso, que os alunos saem deles tão pagãos quanto se tivessem freqüentado colégios laicos ou ateus.
Isso é verdade também para os colégios de São Paulo e de todo o mundo, e mostra o triunfo da Maçonaria, que conseguiu fazer dos colégios católicos centros de formação pagã e laicista.
Não seria então o caso de perguntar se não está errado o método seguido, de evitar polêmicas e acentuar apenas os lados positivos, de esperança, união e amor?

Dou-lhe minha experiência pessoal. Lecionei História durante 40 anos em Colégios do Estado. Adotei sempre o método oposto: acentuei os pontos polêmicos, sem descurar de incentivar a esperança na misericórdia de Deus. Nos Colégios do Estado, normalmente, até 30% dos meus alunos começavam a praticar a religião seriamente. Quando dei aulas em Colégios católicos (Irmãos Maristas) consegui que apenas 5 ou 6 alunos em 1600 passassem a praticar seriamente a religião (eles se julgavam já muito bons, e não queriam assistir aulas de religião, porque o Colégio já as dava…daquele jeito… ).
Usando um método de combate e de enfrentamento, graças a Deus, consegui converter muitos protestantes, ortodoxos ateus e pagãos ao Catolicismo. O doente só aceita fazer uma cirurgia radical se o médico lhe prova que ele tem câncer e que morrerá se não se deixar operar. Ninguém aceita ser operado se está convencido que não está doente, e que, se não for operado, morrerá certamente.
Por isso, só se consegue converter as pessoas se provarmos a elas que, se não se tornarem católicas, se perderão. “Extra Ecclesia nula salus” (Fora da Igreja não há salvação). Este dogma, definido pelo IV Concílio de Latrão, tem que ser proclamado, se quisermos salvar as almas dos que estão fora da barca de Pedro.
Nossa Senhora de Fátima, para converter as crianças, mostrou-lhes o inferno, mandou que rezassem o terço e fizessem penitência. Não é este o método normalmente utilizado pelos sacerdotes de hoje. Por isso, não só o apostolado deles é normalmente um fracasso, mas crescem as apostasias.
Não o convido, por isso, a percorrer um caminho brando. Pelo contrário, repetindo as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu o convido a tomar o caminho estreito e difícil, porque a estrada da perdição é larga e suave a princípio, mas conduz ao abismo.

Mudando para o tema da educação, é claro que todo homem tem direito de conhecer a verdade e aperfeiçoar seu intelecto. Nosso Senhor disse: “Ide e ensinai“. Desse mandado nasceram as escolas católicas e as Universiddaes medievais.
Entre fundar uma escola católica ou uma igreja, São Pio X dizia que era melhor fazer primeiro a escola, pois a igreja seria feita necessariamente como efeito dela.
Os grandes males da educação atual são o laicismo e o igualitarismo. Exige-se igualdade para todos, no ensino, como se todos tivessem a mesma capacidade intelectual. Resultado: nivela-se por baixo. A educação e a cultura morrem.

Agora, aqui em São Paulo, é praticamente proibido reprovar ou castigar um aluno, e os governos tucanos, paulista e brasileiro, querem todo o mundo na escola, e todo o mundo aprovado. É o ensino democratizado; é a multidão diplomada e emburrecida. E paganizada.
Deseja-se acabar com o analfabetismo. Todo mundo tem que saber juntar as letras. Para ler, tantas vezes, gibis ou pornografia. Resultado: poucos universitários sabem realmente ler, e quase ninguém sabe pensar.
Você, levado por seu entusiamo, me diz que se deve catequizar do “púlpito”. Pois desde o Vaticano II e a Lumen Gentium, o púlpito foi abolido. E os sermões ficaram cheios de gírias, de política e de economia mal digerida. As missas se transformaram em shows e em “viras de Jesus”…

Meu caro Marcelo, você muito generosa e humildemente me pediu que corrigisse qualquer idéia que você expusesse e que fosse errada. Permita-me, pois, usar desta liberdade que você me deu – repito: tão correta e tão humildemente — e aplicar com você meu método polêmico, que não foge das questões dolorosas e que se recusa a escondê-las.

Você me diz que confessa preferir o Welfare State.
Mas não vê você que esse welfare state é o oposto do catolicismo? Não nos disse Jesus: “Não vos preocupeis com o que haveis de comer e de vestir. São os pagãos que pensam nisso.”?
O Welfare State é o Pagan State que devemos combater. E é falso que o Welfare Satate trouxe a felicidade, e que pode nos dar a paz . O Welfare State só tem trazido uma falsa segurança e, mesmo em questão de satisfação material, ele é falso.
Ele parte do pressusposto de que o homem é um animal cujo aparelho digestivo deve ser preenchido.
O Welfare State não nos dá razão pela qual devamos morrer e, por isso, não nos dá uma razão pela qual viver.
Veja por exemplo a França, que é bem rica. É o país em que há mais alto índice de suicídios juvenis. Veja os USA. Em Miami, há um bairro riquíssimo (Coral Gables). Lá, contaram-me, há o mais alto índice de fuga de casa por parte de adolescentes. E os Welfare States estão morrendo: neles a natalidade é baixíssima, a força de trabalho decai, e o sistema de aposentadorias está próximo do colapso. O State do Walfare State é muito pouco prometedor, mesmo em questões materiais. A maior parte dos países desenvolvidos estão com os dias contados. Calcula-se que, se não houvesse uma mudança radical, muitos deles deixariam de existir em curto prazo, por falta de nascimentos. O Walfare State é pagão e é o triunfo do egoísmo.

No final de sua simpática missiva você me pede que trate de vários temas, cada um dos quais exigiria uma longa exposição. Tratarei deles, um por um, em mensagens futuras, se Deus quiser.
Desde já, porém, eu o remeto a textos de nosso site.

Quanto à RCC e à Teologia da Libertação, evidentemente sou contrário. Nas respostas a perguntas, em nosso site, há vários textos, longos, tratando dos erros dessa duas formas de apostolado.
Não sou do Opus Dei.
A Maçonaria é um tema gigantesco. É a grande inimiga da Igreja. Sobre ela, Leão XIII tem uma encíclica excelente: a “Humanum Genus”, que lhe recomendo.
Sobre a Igreja na Idade Média também há muita coisa em nosso site. Não preciso dizer-lhe que sou entusiasta da Idade Média, embora contrário a uma visão romântica desse período áureo da História.
A Inquisição — tão caluniada quanto é elogiado o Vaticano II — foi uma instituição excelente, embora tenha tido erros, como todo tribunal humano. Recentemente foi publicado, no Brasil, um livro interessante sobre esse tema: “A Inquisição em seu Mundo” do Professor da USP João Bernardino Gonzaga (editora Saraiva). Recomendo-o, apesar de ter ele algumas falhas. Há outros livros também muito importantes sobre ela, em francês e inglês. Você lê essas línguas?
O Ecumenismo é um tema que devemos tratar longamente. Para começar recomendo que você leia, em nosso site, a encíclica Mortaliun Animos de Pio XI, que trata desse tema.

Não pense que quis evitar polêmica, dando apenas estas linhas gerais sobre os temas que você me pediu. Pelo contrário. Quero tratar deles longamente, e como esta carta já está longa demais, deixo-os para outra ocasião.

No próximo mês de março, durante o carnaval, faremos um Congresso de nossa Associação aqui em São Paulo. O programa trata de muitos temas sobre os quais você me pede informações. Se você pudesse vir a nosso Congresso, tenho certeza de que você teria grande proveito. O programa e as condições de inscrição serão postos no site da Montfort, logo mais(*).

Aguardando sua resposta, subscrevo-me, bem contenete por tê-lo conhecido,

in Corde Jesu semper,
Orlando Fedeli.

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Uso do incenso na Santa Missa - André Palma

Cartas: Purgatório

Artigos Montfort: Sobre a caridade, a que alguns tanto apelam e cuja carência me recriminam

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais