Montfort Associação Cultural

7 de abril de 2005

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Economia Liberal, Capitalismo e Socialismo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Felipe Cola
  • Idade: 21
  • Localizaçao: Vitória – ES – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Prezado Prof. Orlando:

Salve Maria!

Parabenizo-o uma vez mais pelo excelente trabalho desenvolvido pelo site da Montfort em divulgar a fé católica e em solucionar as muitas dúvidas que costumam perturbar a nós, integrantes do corpo da Igreja. A pena da Montfort é como a espada das Cruzadas, sempre corajosa. E a sabedoria nos textos presente é manifestação inegável de mentes abençoadas. Endereço a este site e ao Professor Orlando Fedeli meu reverente respeito e minha incontida admiração. Deus os ilumine sempre nesta missão!

Minha dúvida é (desta vez) a seguinte: tenho lido atentamente os textos publicados no site que enfocam a crítica ao liberalismo. Tenho notado também que essa crítica se dirige mais especificamente ao aspecto humanista e à permissividade religiosa da doutrina liberal. Conheço e estudei as origens filosóficas do liberalismo como um movimento único, mas gostaria de conhecer mais especificamente a posição da Montfort sobre o liberalismo econômico.

Sei que doutrinas como fascismo e socialismo são incompatíveis com a fé católica. Mas minha dúvida é: se somos favoráveis à propriedade privada, isso importaria necessariamente em sermos favoráveis ao direito de livre gestão dos indivíduos sobre seus bens e propriedade?

Note bem o ilustre Professor que nem estou falando na escravidão do homem pelo dinheiro, que, aliás, parece atingir muitas mentes viciadas em nossa sociedade. Gostaria apenas de saber o que o Sr. pensa quanto ao liberalismo enquanto modelo macroeconômico de governo, em contrapartida a formas coletivistas e marxistas de gestão do Estado. Seria ele anti-cristão? Não sei se me faço entender bem: seria, por exemplo, anti-cristão, um regime que adotasse características privatistas no campo econômico, mas que fosse conservador nos campos moral e político?

E mais, se não abuso da paciência do nobre Professor, o Sr. acredita que existe algum modelo econômico compatível com o Cristianismo?

Agradeço-lhe antecipadamente. É sempre uma dádiva contar com as lições e com a sapiência de um verdadeiro Professor.

Que Deus o abençoe!

Cordialmente,

Felipe Cola.

Muito prezado Felipe,
Salve Maria!
 
    Pio XI também declarou que “Ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Encíclca Quadragesimo Anno).

    Isso não significa que a Igreja aprove o capitalismo, sem restrição ou condenação, como se fosse uma escolha excelente. A Igreja sempre fez crítica ao capitalismo.

    Sua pergunta coloca um dilema — que não existe — entre socialismo e capitalismo, como se fôssemos obrigados a escolher ente esses dois sistemas econômicos, considerando um ótimo, e o outro péssimo. O capitalismo é ruim. O socialismo é péssimo.

    Na realidade, o capitalismo é pai do socialismo e do comunismo, assim como a democracia liberal é mãe da tirania comunista.

    Tudo isso requer uma explicação um tanto mais longa.

    No crepúsculo da Idade Média, por se ter colocado o bem estar na vida terrena acima da salvação da alma, por se ter colocado o Reino da Terra acima do Reino dos Céus, começou-se a buscar, antes de qualquer coisa, a riqueza material. Esse desejo, aliado ao Absolutismo Monárquico, levou os Reis a favorecerem um novo sistema econômico, que foi o Mercantilismo, o precursor do Capitalismo atual, uma espécie de Capitalismo embrionário.

     O Mercantilismo colocou o fim do homem no ouro. O capitalismo é filho do mercantilismo e da Reforma protestante, especialmente de Calvino, como foi demonstrado por estudiosos do tema.

    Não é preciso dizer — vários autores o salientaram, como, por exemplo Max Weber (Ética Protestante e Capitalismo) –a relação profunda entre a Teologia protestante, particularmente a calvinista, e a busca de lucro acima de tudo. A “santificação” calvinista pelo trabalho, ia colocar o dinheiro como sinal da salvação, o êxito econômico como sinal de eleição divina. Como se o homem tivesse sido criado para trabalhar e não para servir a Deus em tudo o que faz.

    Foi do Mercantilismo que nasceu o sistema capitalista, triunfante com a Revolução Francesa e com a chamada Revolução Industrial. E com o fim de toda ordem feudal, na Revolução Francesa, os antigos artesãos perderam seus meios de defesa, quando a Revolução extinguiu o seu feudo econômico, as Corporações, que eram bem diversas dos atuais sindicatos. O artesão foi transformado em operário, em proletário.

    A Revolução Francesa instituiu o reino do Número, isto é o da Quantidade. Foi o fim da Qualidade artesanal, e o triunfo da produção em quantidade, de onde vai nascer a produção em série. A Revolução Francesa instaurou o regime liberal na política e o capitalismo na economia

    O capitalismo é o liberalismo na economia. Portanto, assim como o liberalismo político gera o comunismo, assim o capitalismo gera o socialismo na economia.

    Para o capitalismo, “time is money”. Traduzindo isso, dever-se-ia melhor dizer que, para o capitalismo, “life is money”. A vida, não o tempo, é dinheiro.

    Com o capitalismo, vive-se para ter dinheiro.

    Politicamente, esse triunfo do número vai significar o governo da maioria, que se aufere pela contagem de votos, e pelo sufrágio universal, isto é, pelo sistema democrático liberal, que muito pouco tem a ver com a democracia, tal como a entende a Igreja Católica.

    Economicamente, a instituição do número como supremo valor, não só vai causar a Revolução Industrial e a produção em série, como significará a busca do lucro acima de tudo.

    E, do mesmo modo que o sistema liberal separou a Igreja do Estado, pela Liberdade de Religião, assim também se separou a Economia da Moral: desde que se obtivesse lucro, pouco importava, para o Capitalismo, triunfante com a Revolução Francesa, que meios eram usados. Dai, nasceu a tendência a reduzir, o quanto possível, o salário dos que trabalhavam, e a fazer produção de objetos em série, pouco importando a decadência de sua qualidade. Importava só o lucro, e o quanto antes. Dai a velocidade das coisas modernas: velocidade de produção (Taylorismo), velocidade de consumo, velocidade de uso.

    Disto resultando a velocidade da vida atual, e a idéia dela decorrente de que tudo tem que mudar sempre.

    Assim nasceu a Moda. Assim nasceu o macaco de Darwin. Pois o Darwinismo, muitos o demonstraram, é uma aplicação do pensamento liberal e capitalista na biologia: a livre concorrência entre as espécies, como se fez a livre concorrência entre os produtores. Hitler despontava já do darwinismo, imaginando a criminosa “livre concorrência” das raças, com os fornos assassinos de Auschwitz. Que agiam visando a produção de crimes em série. Em linha de… destruição criminosa em massa.

    Portanto, esse foi, e é, o principal ponto negativo do Capitalismo, que a Igreja sempre condenou: a separação entre Economia e Moral, que foi uma conseqüência da separação entre Igreja e Estado.

    Um segundo ponto negativo do Capitalismo — que a Igreja sempre condenou também — foi a Livre Concorrência Absoluta na Economia. Assim como na Democracia Liberal, nascida da Revolução Francesa, se deu a liberdade religiosa completa, acabando-se com a distinção entre verdade e mentira, assim como se deu livre concorrência ao erro e à verdade, assim também, na Economia, se dava a livre concorrência absoluta, com o falso raciocínio de que sempre venceria o melhor produto.

    Ora, a livre concorrência entre a verdade e a mentira só pode favorecer a mentira, porque a mentira não traz obrigações, enquanto a verdade traz duros deveres.

    Assim também, a livre concorrência absoluta vai favorecer o produto que dá mais lucro ao fabricante, isto é, o de pior qualidade. Prova é a difusão de bebidas de certo refrigerante americano, e de alimentos fast food, bebida e comidas tipicamente capitalistas, de produção em massa, e de baixo valor. Até na Itália, hoje, desgraçadamente, há quem misture refrigerantes ao vinho, e soja com azeite…

    A livre concorrência absoluta vai fazer triunfar não o melhor produtor, mas sim aquele que tem mais dinheiro, aquele que tiver supremacia no número, na propaganda, na quantidade. A livre concorrência absoluta, junto com o amoralismo do Capitalismo, vão fazer triunfar o grande produtor, o grande comerciante, que vai eliminando todos os concorrentes menores. O Super Mercado devora o empório do seu Manoel da esquina. A livre concorrência absoluta, separada da Moral, a longo prazo, extingue toda a concorrência e cria os grandes trusts e os grandes monopólios. A Livre Concorrência Absoluta concentra todo o poder econômico nas mãos de alguns apenas, e assim prepara o socialismo, que concentra tudo nas mãos do Estado. Portanto, os dois pontos negativos do capitalismo são:

    1) a separação entre Economia e Moral;

    2) a Livre Concorrência Absoluta,

    Esses dois erros na economia, ambos, foram frutos amargos e péssimos da Liberdade de Religião, como foram, a seguir, as duas causas econômicas do Socialismo. Nova York preparou Leningrado. Wall Street financiou o Stalinismo e o Nazismo, as duas mais importantes formas de socialismo do século XX. Roosevelt deu o triunfo a Stalin, em 1945. E o Concílio Vaticano II, favorecendo a Liberdade de Religião, favoreceu a expansão do Castrismo, através da Conferência de Medellin. Dai, a Teologia da Libertação nascer especialmente alimentada pelos textos do Vaticano II.

    Se o Capitalismo tem esses dois pontos negativos, ele manteve, entretanto, dois pontos positivos:

    1) ele continuou a admitir o direito de propriedade particular, que é um direito natural, direito que a Igreja sempre defendeu;

    2) o capitalismo permite a livre iniciativa. Cada um trabalha no que quer, onde quer, quanto quiser.

    Muitos pensam, erradamente, que o capitalismo se opõe ao comunismo.

    Isso só é verdade em parte, porque o comunismo leva ao extremo o que deseja o capitalismo: a igualdade social e econômica. Repito: o capitalismo é o pai do comunismo. A oposição entre eles é apenas de grau, mas a doença, os princípios deles, são os mesmos.

    O Socialismo, nascido dos erros do Capitalismo, vai atacar exatamente os dois pontos positivos que ainda restam no Capitalismo.

    O Socialismo vai combater:

    1) o direito de propriedade particular, o que faz do socialismo um sistema anti natural, essencialmente mau;

    2) vai combater também a livre iniciativa, ao fazer do Estado o controlador da economia, e, do operário, apenas uma peça do sistema econômico.

    Esses dois erros essenciais do Socialismo é que vão gerar a ditadura do partido comunista, porque o socialismo é o HIV da AIDS comunista.

    Da mentalidade capitalista se originou, como aborto monstruoso, o marxismo, ensinando que se a vida é para ter riquezas, “o homem é um animal que trabalha“, na estúpida definição de homem, feita por Engels, definição que, muitos anos atrás, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, dirigida então por um católico esquerdista e socialistóide, impôs — graças sempre à liberdade de pensamento e de consciência — aos professores de História de todos os colégios do Estado.

    E se os homens são animais que trabalham — as formigas, já que elas são animais que trabalham — as formigas seriam então humanas?  Os homens poderiam então ser tratados como animais de carga?

    Da mesma forma que o capitalismo normalmente gera o socialismo, a democracia liberal gera a ditadura socialista e comunista. Porque, se todos são iguais e todos tem que ter as mesmas oportunidades, como se explica que uns sejam mais ricos que os outros? E se na democracia liberal deve haver livre concorrência política, nas eleições, essa livre concorrência política é impedida pela propaganda maciça dos candidatos mais ricos, propaganda que afoga os candidatos mais pobres. Nas eleições capitalistas vence quem tem mais propaganda, isto é, quem tem mais dinheiro. Por isso, na democracia liberal, normalmente vencem os mais ricos. No liberalismo, político ou é rico, ou vai ficar rico.

    Se a democracia liberal quer fazer a igualdade política, só se conseguirá essa igualdade política, fazendo-se a igualdade econômica: do liberalismo nasce o comunismo. Foi o que se constatou já na Revolução Francesa, quando os “enrajés” de Hébert e Chaumette defenderam a igualdade econômica e social, para que fosse realmente possível a igualdade política. E o desejo de igualdade a todo custo, levou ao Terror. A Igualdade guilhotinou a Liberdade.

    Como você vê, meu caro Felipe, não se trata de escolher entre Capitalismo e Socialismo. Nem se trata de escolher entre Liberalismo e Comunismo. Um é causa do outro, do mesmo modo como a gripe causa a pneumonia, como o câncer de pele — um carcinoma não cuidado — poderá causar um câncer interno. Nenhum câncer é bom. Entre dois males, entretanto, havendo que escolher, deve-se escolher o mal menor, aquele que dê mais possibilidade de cura, o mal que permite ainda a existência de uma certa ordem e de um certo bem.

    Assim, entre a democracia liberal e a tirania comunista, é preferível a democracia liberal, como menos má. O que não significa a aprovação de seus erros profundos, como o ideal igualitário, a liberdade de religião, a idéia de que o poder vem do povo, e etc. Do mesmo modo, entre Socialismo e Capitalismo, é preferível o Capitalismo, porque permite ainda que se tenha propriedade particular, e que se tenha liberdade econômica. Sem esquecer os males profundos do capitalismo que vão gerar o câncer mais profundo do socialismo.

    É o que explica que tantos “milionários” capitalistas e tantos “”burgueses” abastados apóiem o comunismo.

    Veja como sempre os Estados Unidos apoiaram, desde o princípio, “os grandes acontecimentos que se deram na Rússia”, em 1917, como disse um presidente capitalista dos “States”… Repare a política seguida por Roosevelt, na Segunda Guerra Mundial…

    Aqui mesmo, no Brasil, temos um senador infeliz que tem um nome de família milionária, e — na medida em que ele pensa — é marxistóide. E sua ex esposa, idem…

    O liberalismo econômico mantém ainda alguns valores que o socialismo vai destruir, como o direito à propriedade particular, que, como explica Leão XIII, é um direito natural, e o direito natural à livre iniciativa, cada um trabalhando no que quiser, como quiser e quanto quiser. Por isso, no capitalismo, a Igreja aprova o reconhecimento do direito natural a ter propriedade particular, assim como o direito de livre iniciativa, contra o coletivismo e o dirigismo socialista.

    Entretanto, a Igreja condena, e sempre condenou, no capitalismo, a separação entre economia e moral, típico principio liberal, como condena também a livre concorrência absoluta e sem freio, que, de fato, acaba com a própria concorrência, criando monopólios preparadores da socialização da economia.
Esperando tê-lo atendido, me subscrevo atenciosamente

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.


Hoje, e aqui, limito-me a citar um texto de Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno:

“Católico e socialista são termos antitéticos.(…) Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios. Ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Quadragesimo Anno, Denzinger, 2270).

Erram então os que pensam que a Igreja apóia o socialismo, em que pesem as idéias heréticas de Frei Betto e do ex Frei Leonardo Boff.

Erram os que pensam também que a Igreja apóia o capitalismo sem nenhuma restrição.

Se a Igreja condenou o comunismo ao ensinar que “Intrinsecamente mau é o comunismo” (Pio XI, encíclica Divini Redemptoris), ela também sempre fez críticas ao capitalismo.

O capitalismo — como todo liberalismo — tem o grave erro de separar a economia da moral objetiva e natural. O lucro passa a ser um fim a ser obtido de qualquer forma. Assim como o liberalismo separou o Estado da Igreja, assim também o capitalismo –aplicação do liberalismo à política — separou a economia da moral. Isto é o que produz todas as injustiças do capitalismo que os marxistas, a CNBB sovietizada, e os demagogos políticos exploram para propulsionar o socialismo.

O segundo ponto negativo do capitalismo liberal, a que aludi mais acima, é a livre concorrência absoluta, que, ao final, elimina toda concorrência, criando oligopólios controladores totais do mercado.O que facilita, afinal, o triunfo do socialismo.

O socialismo tem a mesma filosofia materialista e evolucionista do comunismo: o materialismo histórico de Karl Marx.

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