Montfort Associação Cultural

16 de julho de 2005

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Eclesiologia do Vaticano II

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: x
  • Localizaçao: – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Seminarista Católico
  • Religião: Católica

Caro Prof. Orlando Fedeli,

Salve Maria!

Saiba que nutro grande admiração pelo senhor; quando visito o site “Montfort”, alegro-me sobremaneira com o que nele encontro. De fato, a alegria provém da contemplação da verdade (gaudium de veritate); vejo que a obra que a Associação Montfort leva a cabo é importantíssima, pois que, além de séria, trata com rara profundidade os temas que dizem respeito à compreensão da reta fé católica. Vejo o site como uma luz na nebulosa do erro; luz verdadeira porque procura entender e expressar a autêntica doutrina católica, aquela que a Santa Igreja sempre ensinou.

O tema que me leva a escrever-lhe é eclesiológico. Como católico, sempre professei –e professo– que Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens, pois o Verbo encarnado levou a cabo a obra de nossa Redenção. Em Jesus, Deus nos disse tudo que pretendia dizer-nos, de modo que já não devemos esperar por nenhuma revelação pública. Sempre professei também -e desejo nesta fé viver e morrer – que a Santa Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro, foi fundada por Cristo para difundir entre os povos a verdade e a graça de sua Revelação. Sim, a Igreja, como sempre ensinou a Tradição, é inseparável de Cristo, pois Ele quer comunicar-nos os frutos de sua obra redentora por meio dela. A Igreja não é um mero acessório no Cristianismo, mas elemento essencial. Por sábia disposição divina, a salvação se dá sob uma economia que bem podemos chamar de sacramental, isto é, Deus houve por bem comunicar-nos sua graça por meio de sinais sensíveis, o que é bem ao modo da natureza humana, natureza essa que não é puro espírito, mas a um só tempo, consta de espírito e matéria. Ora, na economia sacramental, temos por primeiro a humanidade de Cristo, unida à natureza divina na única pessoa do Verbo, como sinal e instrumento da Divindade; depois temos a Igreja, que, com seus sacramentos e seu ensinamento, é o instrumento pelo qual Deus dispôs difundir a verdade e a graça. Desse modo, vê-se que a Igreja é necessária à salvação, de modo que quem nela não quiser entrar ou nela perseverar, a não ser por ignorância invencível, não poderá salvar-se. Quem quiser encontrar a Cristo, deve submeter-se aos termos que Ele mesmo estabeleceu para esse fim: a incorporação à Igreja, que se faz pelo batismo.

Muito bem. O Concílio Vaticano II, ao que parece, quis ensinar esta mesma doutrina, o que se depreende dos dizeres seguintes: “[...] a Igreja é em Cristo como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano [...]” (Lumen Gentium, n. 1); e também, de modo ainda mais claro: “Em primeiro lugar o Santo Sínodo volta seu pensamento aos fiéis católicos. Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação. O único Mediador e o caminho da salvação é Cristo, que se nos torna presente no Seu corpo, que é a Igreja. Ele, porém, inculcando a necessidade da fé e do batismo (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 5), ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo como por uma porta. Por isso, não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja Católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disto não quiserem nela entra r ou nela perseverar” (ibid., n. 14, grifos nossos). E no número 8 a mesma Constituição dogmática ensina ainda que a Igreja de Cristo é única e subsiste na (subsistit in) Igreja Católica entregue a Pedro e seus sucessores, ou seja, a Igreja Católica Romana.

Essa expressão subsistit in rendeu muita discussão, é verdade. Mas parece que a mente dos Padres conciliares quis ensinar, seguindo a Tradição, que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Por que, então, alguém perguntará, não se diz est em vez de subsistit in. Ratzinger explica que os Padres quiseram matizar a expressão, de modo a fazê-la afirmar, ao mesmo tempo, o ensinamento da Tradição, de que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, e, não obstante, reconhecer que fora dos quadros visíveis da Igreja Católica há elementa ecclesiae, em maior ou menor número, conforme a Comunidade eclesial. Veja o que diz a respeito a Dominus Iesus em nota de pé de página referente ao seu n. 17, onde se afirma que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica; eis a nota:

“É, portanto, contrária ao significado autêntico do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. O Concílio, ao invés, adotou a palavra subsistit precisamente para esclarecer que existe uma só subsistência da verdadeira Igreja, ao passo que fora de sua composição visível existem apenas elementa Ecclesiae, que – por serem elementos da própria Igreja – tendem e conduzem para a Igreja Católica” (Declaração Dominus Iesus. São Paulo, Paulinas, 2000, p. 31).

Infelizmente o texto da Lumen Gentium não usa o advérbio somente, o que possibilitou interpretações destoantes da doutrina católica. Entretanto, o Decreto Unitatis Redintegratio afirma:

“Somente através da Igreja católica de Cristo, auxílio geral da salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios de salvação” (n. 3, grifo nosso).

Ora, pela boa hermenêutica pode-se concluir que:

1) o Concílio quis reafirmar a tradicional doutrina — nem poderia ser diferente sob pena de heresia — segundo a qual a Igreja é necessária para a salvação;

2) que esta Igreja é a Igreja Católica Romana, embora tenha usado o verbo subsistit para expressar ao mesmo tempo que há elementa Ecclesiae fora de seu quadro visível;

3) que a Igreja é como que o sacramento universal da salvação – aqui os Padres empregaram o conceito de sacramento analogicamente, para dizer que a Igreja é o sinal visível e credenciado de Cristo entre nós.

Pois bem. Ao que tudo indica, uma boa interpretação do Concílio não nos permitiria lesar a doutrina tradicional. Corrija-me se me engano. No entanto, sabemos que houve interpretações absurdas. E mais: que essas interpretações fizeram escola nos institutos de teologia. Não é sem vaias e acusação de “tradicionalismo” que se pode defender a reta doutrina nas aulas de “teologia” que se vêem por aí. A má recepção da Declaração Dominus Iesus prova suficientemente que muitos se apartaram da doutrina tradicional, o que é lamentável. Mas eu perguntaria ao senhor: será que uma interpretação honesta dos textos do Vaticano II teria permitido esse seríssimo desvio? Ao que parece, pelos textos citados acima, o Concílio quis justamente reafirmar a doutrina tradicional, se bem que com matizes que, não pretendendo lesar em nada a reta fé, expressassem uma certa abertura em vista do diálogo ecumênico (até que ponto esses matizes foram felizes é uma questão a ser estudada; mas eles, de per si, parecem não permitir o afastamento da sã doutrina). Não seriam esses “teólogos” (Boff e Cia.), que destoam da doutrina tradicional apelando para o Concílio, grandes falsários, deturpadores inconseqüentes dos textos do Concílio? Lamento que as autoridades eclesiásticas nada ou quase nada façam para deter esses loucos que atentam contra uma verdade divinamente revelada. Ainda recentemente deparei-me com o seguinte texto, que se propõe interpretar o conceito de “Igreja-sacramento da salvação” apresentada pelo Vaticano II:

“[...] sendo o Cristo a própria salvação, a Igreja se define como sacramento de Cristo. Como Jesus é o sacramento primordial do encontro com Deus, a Igreja é o sacramento de Jesus Cristo. Ora, essa definição leva a uma descentralização radical da Igreja (sic!). É exatamente no mistério de Jesus Cristo que ela encontra seu centro. Poderíamos dizer: Jesus é o mistério absoluto; a Igreja, o mistério derivado e relativo (sic). Tal definição do mistério da Igreja contribui para superar certos conceitos, como o da encarnação continuada de J. Moeller, que levava prontamente, a uma inflação eclesiológica. Seguindo coerentemente a definição conciliar do mistério da Igreja, chega-se, numa visão lógica, a uma perspectiva cristocêntrica global que elimina o enfoque eclesiocêntrico (sic)” (Jacques Dupuis. Introdução à cristologia. São Paulo, Loyola, 1999, p. 196-197).

Ora, parece-me que a tentativa de interpretação de Dupuis não é nada clara, e é mesmo, a rigor, inteiramente absurda, embora ele faça apelos à uma “visão lógica”. Afirmando que pelo fato de a Igreja estar em dependência de Cristo, como seu sacramento (o que é aceitável), conclui pela “descentralização radical” da Igreja, e pela sua relativização (o que é ilógico). Se a Igreja é o sacramento de Cristo, ela pode, sim, ser dita relativa, mas relativa a Cristo, e não relativa simpliciter, como o texto de Dupuis pode dar a entender. Como sacramento de Cristo e via pela qual Cristo quer dispensar-nos sua graças, a Igreja é absolutamente necessária para nós. Relativa a Cristo, mas absoluta e central em vista de nossa salvação, uma vez que sem Igreja não há Cristo para nós. O conceito de sacramento da salvação não permite nenhuma “descentralização radical” da Igreja. Tendo uma reta compreensão do dogma católico, não se vê a contraposição entre o que Dupuis chama de cristocentrismo e eclesiocentrismo, pois que Cristo quis a Igreja e sem a Igreja não há acesso autêntico a Cristo. A interpretação de Dupuis parece dizer justamente o contrário do que o conceito de Igreja-sacramento quer dizer, pois sem o sinal de Cristo (Igreja-sacramento) não há Cristo sinalizado para nós. À Igreja cabe, portanto, um papel central no plano da salvação, em virtude da disposição de Deus. São textos como esse de Dupuis que podem levar muitos ao erro. Por favor, faça-me considerações a respeito.

O que me leva a escrever ao senhor é quase um desabafo. Quando estive pessoalmente com o senhor, pudemos conversar sobre vários assuntos, os quais me levam a refletir bastante. Muito lhe devo pela ótima hospitalidade e pelas excelentes aulas. Deus, tenho certeza, lhe recompensará. Mas a pergunta que gostaria de fazer-lhe é a seguinte: esses “teólogos” que induzem ao erro eclesiológico, quando não propõem o próprio erro, não seriam eles pessoas inteiramente de má-fé? Ou realmente os textos do Concílio oferecem margens a esses desvarios eclesiológicos? A mim, simples diácono, sem nenhuma especialização teológica, parece que os textos do Concílio não pretenderam ferir a doutrina tradicional. Entretanto, lendo seu comentário sobre o livro de Romano Amerio, o Iota Unum, vi o que disse inescrupulosamente a respeito dos textos conciliares o “P. Schillebeecks, um dos maiores responsáveis pela introdução da fumaça de Satanás na Igreja: Nós o exprimimos de modo diplomático, mas após o Concílio nós tiraremos as conclusões (p. 93)”. Então fico angustiado. Pergunto: que fazer? Não seria hora da autoridade eclesiástica competente botar todos os pingos nos ii e acabar de vez com a confusão? Como ela poderia fazê-lo?

Agradecido pela atenção, despeço-me.

X.

PS.: Sobre o Vaticano II gostaria de poder conversar mais com o senhor, quem sabe fazendo-lhe nova visita.

Muito prezado X,

Salve Maria!

Como me dá alegria receber uma carta como a sua, tão séria e tão preocupada com a Fé.

Fico bem feliz, pelas suas palavras sobre o valor do site Montfort. Tomara que ele faça bem a muitos seminaristas de reta intenção, como você, para que Deus Nosso Senhor tenha, de novo, muitos santos sacerdotes que o sirvam corretamente. Que Nossa Senhora o guarde em sua vocação, pois poucas vezes conheci pessoa com a vocação de sacerdote que fossem tão sérios como você. Deus o mantenha e guarde.

Antecipo-me à ordem de sua carta, para lhe significar que você pode vir a São Paulo quando quiser. Sempre que tiver possibilidade, venha, que estarei sempre pronto a ajudá-lo. Quem sabe organize, para você e outros, toda uma série de palestras sobre o Vaticano II, a fim de estudarmos sua doutrina e sua história. Creio que em 4 dias seria possível ver praticamente o essencial. Nós já temos as palestras preparadas, pois demos um Congresso sobre esse tema.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli


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