Montfort Associação Cultural

3 de dezembro de 2012

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Ecclesia Dei: qual é a verdadeira cabeça?

 O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé parece ser uma das pessoas menos indicadas para conduzir o processo de recondução da Missa de sempre, assim como dos grupos a ela ligados, ao lugar a que tem direito no seio da Igreja. Em seus livros, ele tinha defendido opiniões teológicas bem pouco ortodoxas – ainda que tenha se retratado, após ser acusado pela Fraternidade São Pio X, em uma entrevista que foi muito pouco divulgada. Suas relações com a Fraternidade, enquanto Arcebispo de Ratisbona, foram mais do que tensas. Finalmente, ainda depois de assumir a Doutrina da Fé, ele não economizou ataques aos tradicionalistas, acusando-os mesmo de “heresia”, e dando por encerrado, em fracasso, o processo de reconciliação com a Fraternidade São Pio X. Ora, como é possível que tal homem seja a autoridade responsável por um assunto em que tanto empenho tem mostrado Bento XVI? A história dos percalços por que passou a estrutura da Comissão Ecclesia Dei, relatada pelo colaborador de Rorate Coeli e próximo à FSSPX, Côme de Prévigny, esclarece algo da situação.

A sombra da Ecclesia Dei

Côme de Prévigny

Em Roma, a questão dos tradicionalistas é tão quente quanto a da Comissão que a gerencia e a evolução estrutural dessa última permitiria preencher sozinha dezenas de páginas! Aparecendo às vezes como um dicastério autônomo, por vezes, como um escritório ligado a uma congregação, ela é às vezes pilotada por um cardeal, por vezes, por um simples monsenhor, agora por um arcebispo. A hierarquia que é sobreposta a ela pode se mostrar coercitiva como pode parecer, em outros casos, puramente simbólica. Que papel desempenha realmente a dupla Müller – di Noia nesta comissão cujo objetivo é, por um lado, lidar com as relações da Santa Sé com a Fraternidade São Pio X, e por outro lado presidir o mundo tradicional regularizado?

Dom Gerhard Mueller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

Dez anos atrás, todo mundo concordava em ver no Cardeal Dario Castrillon Hoyos o verdadeiro mestre desses casos. Acumulando os cargos de Prefeito da Congregação para o Clero e Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, esse prelado tipicamente latino deixou o primeiro  no outono de 2006 para lidar exclusivamente com o último. A tarefa não era pequena na medida em que Bento XVI recebera algumas semanas antes Dom Fellay  a fim de proceder “por etapas” para resolver a disputa com Ecône. Embora simples secretário e supervisionado por um prefeito, aquele da Congregação para a Doutrina da Fé, Monsenhor Guido Pozzo parecia ser, a partir de 2009, o verdadeiro interlocutor da Fraternidade. O Papa Ratzinger confiou esta questão que era tão cara a seu coração, a seus próximos, seus ex-colaboradores do Santo Ofício, mesmo se o Cardeal Levada, oficialmente presidente da Ecclesia Dei, não estava envolvido no assunto diariamente. Deve-se pensar que o equilíbrio manteve-se o mesmo quando esses dois prelados foram substituídos, respectivamente?

Tudo sugere que sim. Dom Müller é, como seu antecessor, em grande parte monopolizado pela enorme Congregação para a Doutrina da Fé, da qual Ecclesia Dei é apenas um satélite. Por outro lado, o responsável em tempo integral da pasta não é mais um simples sacerdote, ele é arcebispo. Além disso, não é só o secretário, seu título é vice-presidente. Dom di Noia era anteriormente secretário  de um dicastério quase tão prestigioso, o do Culto Divino e tudo permitia prever que ele iria dirigir um grande escritório romano, alguns o vendo até mesmo substituir o Cardeal Levada. O fato de que ele foi nomeado apenas poucos dias antes de Dom Müller sugere fortemente que a pasta Ecclesia Dei foi ostensivamente retirada deste último para confiá-la de fato a um responsável de envergadura para desarmar a bomba da nomeação do Bispo de Regensburg, bastante mal visto nos meios tradicionalistas junto aos quais ele havia multiplicado os desencontros.

Dom Joseph Augustine Di Noia, Vice-Presidente da Comissão Ecclesia Dei

Desde então, vários sinais parecem refletir a divisão dos papéis.

1. Durante o verão, o bispo Müller deu várias entrevistas em que ele aborda a questão da Fraternidade. Em um deles, ele prevê firmemente que “não haverá compromissos” sobre o Concílio, acrescentando “não pensar que haverá mais discussões” com a Fraternidade. Essa firmeza parece se chocar com o conteúdo do comunicado da Comissão Ecclesia Dei, de 27 de outubro, que convida, ao contrário, a “ter paciência, serenidade, perseverança e confiança” nas negociações entre a Santa Sé e a obra fundada por Dom Lefebvre. Aparentemente, o pensamento do presidente titular não parece ter influência sobre a redação dos escritos da comissão …

2. Em 3 de novembro, um grupo de associações ligadas ao missal tradicional organizou uma Missa Pontifical na Basílica de São Pedro, em Roma. Obviamente, em face de um evento como esse, a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei estava particularmente implicada e seus membros dificilmente poderiam perder este encontro. Dom di Noia e seus vários assistentes figuravam na longa procissão que avançava em direção ao altar da Cátedra de Pedro. No entanto, faltava um membro importante, já que o presidente titular, Dom Müller não assistiu a essa cerimônia.

3. Na manhã de 19 de novembro, o Papa Bento XVI recebeu em sua biblioteca privada, todos os membros da Comissão Ecclesia Dei. Todos? Não exatamente, faltava  precisamente o presidente, a saber, Dom  Müller, que se acabaria quase por esquecer que faz parte dela.

Dentro da Ecclesia Dei, o presidente não parece ser mais que uma sombra. Que reflexo ela exerce sobre o trabalho da comissão? Por enquanto, nada está escrito. Os sinais parecem contrariar os fatos. O que é certo é que a autonomia da era Castrillon  tinha pelo menos o mérito de clareza.

 

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