Montfort Associação Cultural

24 de agosto de 2011

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Dúvidas (sinceras) sobre o movimento em Aristóteles

Autor: Guilherme Chenta

  • Consulente: Vinícius Contado Scarpa
  • Localizaçao: Palaiseau – Franca
  • Religião: Católica

Boa tarde, professor Orlando Fedeli.

Que a paz de Cristo esteja e parmaneça contigo.

Sou católico e acredito em Deus somente pela minha fé. Para mim, Deus é um “mistério”, termo utilizado pelo senhor na vídeo-aula.

Porém o senhor diz que Deus não é mistério que podemos provar isso com nossa razão. Assisti somente até o 3º vídeo pois houve um momento que não me convenci, e que peço a você melhores explicações para que eu compreenda o fato e possa achar motivação para continuar o raciocínio.

A parte que não concordo é com a prova de que a série de mudanças que aconteceram e acontecem no mundo é finita. O senhor utiliza 3 argumentos para tal, e tentarei descordar de um a um, agora (não me leve a mal por isso):

1 – Segundo o senhor, a série é composta de mudanças individuais, e como o infinito não é divisível, ela não pode ser infinita, sendo, portanto, finita. O infinito é sim divisível, não por 2 como citado no vídeo, mas o infinito é divisível infinitamente. Olhe os números: sabemos que há um número infinito de números inteiros, porém podemos dividí-los 1 a 1, e contarmos 1, 2, 3 ,4, …, n. Pois bem, o infinito é uma sequência de infinitas coisas; no caso, o infinito podereia ser uma sequência de um número arbitrariamente grande de “mudanças”, o que para mim, utilizando somente a razão, faz sentido.

2 – Segundo o senhor, a série é finita pois se fosse infinita não haveria o 1º, nem o 2º, e assim por diante, concluindo que não haveria nenhuma mudança, o que não vai de encontro com nossa percepção de que há mundanças no mundo. Acho esse pensamento induzido, pois pensemos novamente no conjunto dos números inteiros: há infinitos números, desde um número “grande” negativo até um número “grande” positivo. Não sabemos qual é o primeiro ou o segundo desta sequência, porém sabemos que todos existem. O fato é: para provar que uma coisa existe não basta dizermos que ela está ordenada e não há um primeiro elemento. E esse contra exemplo não se trata somente de matemática: imagine um saco com balas, infinitas balas. Não existe primeira nem última no saco, mas posso colocar a mão dentro e pegar uma, o que quebra a sua conclusão que tratando dessa maneira não haveriam mudanças.

3 – “Cada movimento faz algo passar de POTENCIA para ATO, mas para haver movimento o ATO deve existir antes da POTENCIA”. Isso é a própria definição de uma série infinita. Você explica que sempre haveria uma potência na ponta mas que deveria haver um ATO para fazer mudança nessa POTENCIA. Não sei se aqui consegui ser muito claro. O fato é: Se Deus é ATO puro, somente pela minha razão não consigo provar que não deva existir ATO antes de Deus que o tenha auxiliado a transformar toda sua POTENCIA em ATO.

Infelizmente o texto acabou ficando longo demais, mas espero anciosamente por uma resposta. Deixo claro que acredito em Deus e pratico minha fé. Para mim, não há dúvidas que Deus existe. O que discuto é somente o raciocínio utilizado, pois não acredito que podemos provar que Deus existe pela razão. Além disso, o ponto chave do raciocínio é esse e acredito que passou meio despercebido para muitos no vídeo. Para mim Deus é mistério, algo acima da inteligência humana que nunca poderemos provar.

Agradeço desde já a discução.

Que a paz de Cristo esteja com todos vocês!

São Paulo, 30 de abril de 2010
 
Prezado Vinícius, salve Maria.
 
Agradecemos seus apontamentos, que se mostram sinceros, a nossa vídeo-aula sobre as provas da existência de Deus.
 
E parabéns pelo verdadeiro testemunho de fé que é sua carta, pois você afirma crer na existência de Deus sem que as cinco vias tomistas, expostas pelo Prof. Orlando, lhe pareçam probantes.
 
Antes de responder as suas objeções, e tendo em vista sua situação de fiel católico e manifesta boa vontade, gostaria de estabelecer alguns limites sobre a questão de Deus ser um “mistério”, exatamente como você a coloca.
 
Vinícius, o fato de você não compreender as provas que a razão natural nos fornece a respeito da existência de Deus não faz dEle um mistério. O problema está em você que, por alguma deficiência – muito mais provavelmente de estudos que de capacidade intelectual propriamente dita –, não é capaz de atinar ao argumento apresentado. A força das cinco vias não depende de Vinícius.
 
Não por outra razão, pode o Concílio Vaticano I (1870) declarar excomungado todo aquele que nega poder Deus ser conhecido com certeza pela luz natural da razão a partir do exame das coisas criadas.
 
É exatamente por isso (ou também por isso), aliás, que acusamos o Padre Fábio de Melo de herege, quando diz, no mínimo, beirando à blasfêmia, que “Deus não se prova, experimenta-se”. Se o tal padre é limitado ou deixou – ao contrário de você – culpavelmente de estudar metafísica para fofocar nas clínicas de estética ou se exercitar no canto, o problema é dele (e de todos aqueles que o seguem e acreditam nas mentiras que ele espalha aos quatro ventos).
 
Por fim, para encerrar essa abordagem preliminar do assunto “Deus” de acordo com a doutrina católica, recordo que o próprio São Tomás, autor das cinco vias, explica na Suma Teológica (II, IIae. Q. 2, Art. 4, Resp.) o seguinte:
 
É necessário que o homem receba pela fé não só aquilo que supera a razão, mas também o que pode ser conhecido pela razão. E isso por três motivos:
 
1.      A fim de que o homem chegue mais rapidamente ao conhecimento da verdade divina. Com efeito, à ciência cabe provar que Deus existe e outras coisas a Ele referentes, mas ela é o último objeto a cujo conhecimento chega o homem por pressupor muitos outros conhecimentos anteriores. Assim, só depois de muitos anos de vida, o homem chegaria ao conhecimento de Deus.
 
2.      Para que o conhecimento de Deus seja mais generalizado. De fato, muitos não podem avançar no estudo das ciências ou por incapacidade mental ou porque estão envolvidos por outras ocupações e pelas necessidades da vida temporal ou ainda porque não têm o desejo de se instruir. Ora, essas pessoas ficariam privadas do conhecimento de Deus, se as verdades divinas não fossem propostas pela fé.
 
3.      Por causa da certeza. A razão humana é muito deficiente no conhecimento das realidades divinas. É o que se depreende da experiência dos filósofos, que perscrutaram as coisas humanas, e erraram sobre muitos pontos mantendo opiniões opostas. Portanto, para que haja entre os homens um conhecimento de Deus que seja indubitável e certo, foi necessário que as verdades divinas fossem transmitidas pela fé, como sendo ditadas por Deus, que não pode mentir”.
 
Estabelecidos esses limites, passemos às suas objeções, se as pude compreender bem, apesar se seu texto, se você me permite, bastante confuso.
 
Você acerta em cheio quando diz que provar não ser essa série de movimentos (mudanças) infinita é o ponto chave do argumento.
 
(Aliás, posso lhe garantir, pela minha curta experiência, que as pessoas – quase literalmente – empacam em geral nesse ponto mesmo. Também para mim, ele foi o mais difícil).
 
É o ponto chave, pois, se a série é finita, necessariamente temos de concluir a existência de um primeiro motor imóvel, causa primeira de toda mudança existente no universo. Se ela não o for, porém, não há por que falar nele.
 
Resposta à primeira objeção
 
Trata-se de um problema conceitual: você está confundindo infinito com indefinido, empregando a palavra “infinito” para se referir a algo que é, na realidade, “indefinido”. Infinito é aquilo que não tem nem começo nem fim. Já o indefinido é aquilo cujo começo e/ou fim não podemos determinar. Ao infinito, nada podemos acrescentar ou tirar, caso contrário, não seria, por definição, infinito. Ao indefinido, por outro lado, sempre algo pode ser acrescentado. A sequência numérica, que você cita, Vinicius, porque passível de acréscimo, não é infinita. Portanto, seu exemplo numérico é descabido.
 
Em contrário, podemos dizer que a natureza do todo não pode ser diferente da natureza das partes. Ora, se os seguimentos de mudança, que constatamos na realidade, são finitos, toda a série de mudanças o há de ser.
 
Logo, a série de mudanças é finita.
 
Resposta à segunda objeção:
 
Assim como, na primeira objeção, o exemplo dos números era descabido, assim também agora o é o do saco de balas. Pois, ao contrário do que ocorre na série de movimentos que estamos estudando aqui, uma bala não é causa da existência da outra bala.
 
Além disso, se essas balas existissem, não é preciso se remeter à ordenação dos seres para se provar a sua existência. Se elas, de fato, existissem, isso seria algo evidente que, por definição, não se prova. Pois o que é evidente se vê e se constata imediatamente da realidade, sem raciocínio, processo pelo qual chegamos ao conhecimento certo de uma terceira verdade a partir de duas anteriores.
 
O que ocorre é o seguinte. Constatamos que as mudanças (movimentos) que observamos na realidade são ordenadas, pois nenhum ser, que vemos na realidade, é causa de si mesmo. Para facilitar, pensemos num único ato, o da existência. Sempre há um primeiro ser que transmitiu a existência a um segundo. Você, Vinicius, por exemplo, recebeu a existência de seus pais, que, por sua vez, a receberam de seus avós e assim por diante. Ora, se nenhum dos seres que vemos é causa de sua existência, eles a devem necessariamente a um ser anterior, que tem a existência em ato sem a ter recebido de outro para a transmitir aos demais. A esse primeiro ser, chamamos Deus, causa não causada.
 
Reposta à terceira objeção:
 
Se Deus é ato puro, Ele não pode ter tido nenhuma potência atualizada.
 
O ato puro jamais pode ter carecido de nenhuma qualidade (ato).
 
E justamente porque ato puro, não causado, Ele é o primeiro ser da série de seres, que, por ter um começo, é finita.
 
Comentário geral sobre suas objeções:
 
Você normalmente confunde os planos lógico (da abstração) e ontológico (do ser). Temos de raciocinar a partir do ser, da realidade. Saiba você, por exemplo, que o indefinido numérico não existe na realidade, mas apenas no plano lógico. Os números não existem senão nos seres. Se não existisse uma mesa, uma laranja, um ovo, um não-sei-o-que-lá nós não teríamos a ideia de 1. E de 2, 3, 4 e assim por diante se não existissem vários 1 (uns).
 
 
Espero, Vinícius, ter respondido suas objeções. É muito bom nos depararmos com dúvidas sinceras. Tenho lido cada absurdo nos comentários que nos enviam sobre nossos vídeos! Por vezes, e tristemente, obscenidades.
 
No novo site, na seção de vídeos, haverá um espaço para nossos amigos postarem suas dúvidas, que responderemos por meio de outro vídeo, e não como eu fiz agora, por escrito.
 
Por fim, como você demonstra vontade sincera de aprender, recomendo-lhe assistir novamente à aula.
 
A seguinte frase sua “O fato é: Se Deus é ATO puro, somente pela minha razão não consigo provar que não deva existir ATO antes de Deus que o tenha auxiliado a transformar toda sua POTENCIA em ATO” denuncia bem seu não entendimento da explicação dada pelo Prof. Orlando.
 
Em síntese, embora repetindo um pouco o que já dissemos acima, podemos afirmar que o que nos leva a concluir a existência de Deus é o seguinte: tem de haver, fora desta sequência de seres contingentes, seres esses em que a potência precede o ato, um ser que não tenha nenhuma potência e seja apenas ato; a esse ser chamamos Deus. Por isso, não faz sentido sua colocação de que não se consegue provar não existir um ato antes de Deus que O tenha auxiliado a transformar toda sua potência em ato. Digamo-lo assim: se esse ser a quem você atribui a palavra Deus tem ou teve potência, ele não é Deus.
 
Contamos com suas orações.
 
Abraço,
Guilherme Chenta
Coordenador do projeto Legado Montfort

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