Montfort Associação Cultural

8 de maio de 2011

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Dois pesos, duas medidas: a Missa e a Pessach

Autor: Alberto Zucchi

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Recebemos algumas informações de pessoas de diferentes regiões de São Paulo que testemunharam a realização de uma cerimônia denominada “Ceia Judaica”, feitas de forma muito discreta, em paróquias católicas.  O fato que para nós se apresentou como algo surpreendente, na realidade está divulgado até na Internet, como por exemplo, em um site que se apresenta como sendo de uma comunidade católica da cidade de Boituva:

NO DIA 18 DE ABRIL A PAROQUIA DE SÃO ROQUE DE BOITUVA, CELEBROU A SUA CEIA JUDAICA, COM A PRESENÇA DE CATEQUISTAS E MINISTROS.REALIZA A MUITOS ANOS, ESSE RITUAL DO PESSACH, LEMBRANDO A HISTORIA DE PESSACH E VIVE COM TODA A PREPARAÇÃO E ENCENAÇÃO DA CEIA JUDAICA, SEGUINDO AS ORIENTAÇÕES DO MANUAL, E ASSIM TODOS PARTICIPAM E ENTENDEM O QUE ESTA CELEBRANDO.OS MINISTROS E CATEQUISTAS FIZERAM UMA PREPARAÇÃO NO DIA 11/04/2011, PARA PODER BEM CELEBRAR COM MUITA DEVOÇÃO A CEIA JUDAICA” .http://www.tribunacatolica.com.br/2011/04/ceia-judaica-na-paroquia-sao-roque-de.html)

A idéia destas cerimônias era realizar a festa judaica de Páscoa, a chamada Pessach, que é uma das mais antigas festas do calendário judaico.

Para esta celebração foram elaborados panfletos onde constavam as orações rezadas pelos judeus nesta ocasião, em hebraico, com a devida tradução para o vernáculo ao lado. Juntamente com as traduções havia a transcrição fonética das orações para que os que estivessem presentes pudessem acompanhar a correta pronuncia dos vocábulos hebraicos. O que houve, portanto, foi a realização de um rito judaico.

Antes de uma análise do grave erro doutrinário em que incorrem os católicos que organizam e mesmo que estejam simplesmente presentes neste tipo de cerimônia vale a pena ressaltar dois pontos.

O primeiro deles é a constatação da existência da mesma cerimônia em diferentes localidades, e de que, portanto, essa não foi fruto do acaso, ou da excentricidade de apenas um indivíduo, mas de um trabalho organizado para divulgar e realizar este tipo de cerimônia, o que de fato, pode indicar a existência de um movimento discreto, senão mesmo secreto, de divulgação deste tipo de cerimônia.

O segundo é que apesar da publicação do Motu Proprio Summorrum Pontificum de Bento XVI, reconhece a todos os padres o direito de celebrar a Missa de São Pio V, existe uma grande resistência dos Bispos em geral em  admitir celebração dessa Missa em suas dioceses, apesar do direito, afirmado pelo Papa, dos padres e dos fieis.

As alegações, sempre repetidas, como orquestradamente, são de que se trata de um rito ultrapassado que serve apenas a alguns saudosistas e que o povo não entende o latim. Entretanto, a cerimônia da Pessach é sem dúvida bem mais antiga que a missa de São Pio V e o hebraico muito menos conhecido que o latim, mas não se ouviu, até o presente, de nenhuma autoridade eclesiástica, as mesmas críticas a celebração desse ritual da Pessach.

O grave erro doutrinário que os católicos incorrem em realizar este tipo de cerimônia pode ser compreendido ao se analisarem algumas passagens das Sagradas Escrituras nas quais fica claro que os antigos preceitos da lei judaica tinham como finalidade, através de símbolos,  preparar a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, e portanto, com a vinda de Cristo foram abolidos.

Veja-se, por exemplo, o que consta nos Atos dos Apóstolos 10, 10:

“E (São Pedro Apóstolo), como tivesse fome, quis comer. E, enquanto lho preparavam, caiu em êxtase; e viu o céu aberto, e descer uma espécie de vaso que, como um grande lençol, suspenso pelos quatro cantos, era mandado do céu para a terra, no qual havia de todos os quadrúpedes, e répteis da terra e aves do céu. E ouviu esta voz: levanta-te, Pedro, mata, e come. Mas Pedro disse: Não, Senhor, porque nunca comi nada de comum e impuro. E a voz tornou-lhe segunda vez a dizer: Não chames impuro ao que Deus purificou. E isto repetiu-se três vezes; e logo o vaso foi retirado para o céu.”

É importante notar que São Pedro toma como impuros os animais, pois essa era a prescrição na religião judaica, no entanto o que Deus ensina através desta visão, é que deve haver um abandono das regras judaicas. A lição que fica é que aqueles que pertencem a Igreja de Cristo não apenas não estavam mais obrigados a seguir os preceitos lei mosaica, mas que, pelo contrário, não deviam mais segui-los, já que fazê-lo podia enfraquecer a convicção de que chegada a realidade, o sacrifício perfeito de Cristo, cessava a época dos símbolos .

Ainda nos Atos dos apóstolos são relatadas as discussões que ocorreram entre os primeiros cristãos que envolveram São Paulo e São Barnabé sobre a necessidade de os gentios serem circuncidados. A resposta foi dada por São Tiago no concílio de Jerusalém:

“Por isso eu sou da opinião que não se devem inquietar os que, dentre os Gentios, se convertam a Deus. Mas que se lhes escreva que se abstenham das contaminações dos ídolos, e da fornicação, e das carnes sufocadas, e do sangue.” (atos 15-19)

Apesar do distanciamento tanto da doutrina quanto da liturgia entre a Igreja nascente e as regras da religião judaica expresso no Primeiro Concílio, de Jerusalém, ainda persistiam os que continuavam a ensinar doutrinas que exigiam o cumprimento dos preceitos judaicos. São Paulo nas epístolas aos Colossenses afirma que estes preceitos eram na realidade figuras que preconizavam a vinda de Cristo e que, portanto, não havia mais sentido em condenar alguém por não observar estas práticas:

“Ninguém, pois, vos condene pelo comer ou pelo beber, ou por causa dum dia de festa, ou duma lua nova, ou dum sábado, coisas que são sombra das vindouras; mas o corpo (ou a realidade delas) está em Cristo.” Ou seja, os ritos judaicos existiram em referência aos ensinamentos futuros de Cristo, após a Vinda de Cristo não devem mais serem observados, dados que são imagens daquilo que torna-se realidade em Cristo”.(Colassenses 2,14)

Na epistola aos Hebreus São Paulo demonstra que com a vinda de Cristo o sacerdócio que existia no antigo testamento havia sido mudado para a Igreja e que, portanto, também a regras e preceitos religiosas foram alterados:

Portanto, se a perfeição tivesse podido ser realizada pelos sacerdócio levítico (porque sob este é que o povo recebeu a lei), que necessidade havia de que surgisse depois outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (ou seja Cristo), e não segundo a ordem de Aarão? Pois, mudado que seja o sacerdócio, é necessário que mude também a lei. Porque (Cristo), aquêle de que isto se diz, pertence a outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar. Porque é notório que Nosso Senhor nasceu da tribo de Judá, tribo a qual Moisés nunca atribuiu o sacerdócio. E isto ainda é mais manifesto, se se levanta outro sacerdote à semelhança de Melquisedec, o qual foi feito (sacerdote) segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude duma vida indissolúvel. Porque (Deus) declara: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisec.

Assim é abolido o mandamento precedente (relativo ao sacerdócio levítico), por causa da sua fraqueza e inutilidade;” Epístola aos Hebreus 7,11.

Os ensinamentos dos apóstolos deixam evidente que com a vinda de Cristo as antigas cerimônias e preceitos da lei judaica foram abolidos, assim, e que manter tais preceitos e cerimônias é,  no mínimo, insinuar que Cristo não é o Messias prometido, que Seu sacrifício não redimiu os homens e que, portanto, Ele não fundou a Igreja. Em última análise, que Ele não é Deus.

Enganam-se aqueles que pensam que foi suficiente o ensinamento dos apóstolos para impedir que esses erros doutrinários fossem extirpados da Igreja. Santo Irineu na obra Contra Haereses a respeito dos Ebionitas (uma seita judaizante) escreveu:

Aqueles que se denominam Ebionitas consentem, na verdade, que o mundo foi feito por Deus (…) utilizam somente o que está no evangelho de São Mateus e recusam o Apóstolo Paulo dizendo que ele foi apóstata da Lei. Esforçam-se por expor mais cuidadosamente as coisas proféticas, e perseveram em seus costumes que são de acordo com a Lei e levam uma vida de caráter judaico, de modo que veneram Jerusalém como se fosse casa de Deus” (S. Irineu, Contra Haereses, I, XXVI, 2; Migne,P.G.Vol., VII, col. 686-687).

O texto de Santo Irineu – repetido por S. Hipólito (cfr.Philosophumena,VI,34) – ensina que os hereges Ebionitas eram tidos, pelos primeiros cristãos, como judaizantes e negavam a autoridade de Cristo, pois , se Cristo não era Deus não tinha autoridade para alterar os preceitos de culto e adoração de Moisés. Os preceitos e rituais judaicos deveriam ser mantidos.

No renascimento houve uma verdadeira renovação dos estudos judaicos com a cabala cristã conforme explica Frances Yates no livro Giordano Bruno e a Tradição Hermética. Em nossos dias estes erros persistem em  alguns teólogos que procuram aproximar o catolicismo ao judaísmo, como, por exemplo  Johann Baptist Metz teólogo alemão e um dos mentores da Nova Teologia.

Constate-se, portanto, que, levada a suas últimas consequências, a repetição dessas cerimônias judaicas, por parte dos católicos, implicaria na negação da divindade de Cristo, que não teria o direito, nem o poder de abolir os antigos preceitos da lei judaica.

Não se pode afirmar que todos que participam dessas cerimônias tenham essa compreensão.

Mas e seus mentores? O que os leva a trabalhar – e “a (sic) muitos anos” – para difundir essa cerimônia pelas paróquias?

E os párocos? O que os leva a permitir uma cerimônia tão antiga, numa língua tão desconhecida?

E, com todo o respeito, os Bispos? O que os leva a não usar contra ela os mesmo argumentos que tão frequentemente empregam contra a Missa – nunca abolida – de São Pio V?

São perguntas que não se podem deixar de fazer. Nem negar que, com a realização dessa cerimônia, fica plantado entre os católicos mais uma a semente de heresia que, com maior ou menor velocidade, não deixará de produzir seus péssimos frutos.

Alberto Luiz Zucchi

08 de maio de 2011

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