Montfort Associação Cultural

18 de março de 2016

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Doação de órgãos pós-eutanásia cada vez mais aceita nos Países Baixos

Mascara-se o grave pecado da eutanásia sob uma aparência de bem: a perda de uma vida teria salvado cinco vidas. Na verdade, o homem não tem direito de dispor da própria vida nem da dos outros, ainda que para ser “reaproveitado” em pedaços.

Fonte: Le blog de Jeanne Smits

Tradução Montfort

 

Apenas alguns anos atrás, se colocava a pergunta, nos Países Baixos, se os candidatos à eutanásia também poderiam doar seus órgãos: era moralmente aceitável? O dilema ético foi de curta duração. O procedimento está agora se tornando cada vez mais comum: já houve quinze casos no total. O primeiro exemplo remonta a 2012; em 2015, estava-se em oito “eutanásias seguidas de doação de órgãos” e as objeções dos médicos parecem ter em grande parte evaporado.

O primeiro caso de 2016 ocorreu no Hospital Erasmus de Rotterdam que, anteriormente, tinha recusado tal procedimento em um homem, pela razão de que ele não era tratado habitualmente por suas equipes e seu percurso não lhes era suficientemente conhecido.

Desta vez, trata-se de um homem que tinha se dirigido à “Clínica de Fim de Vida” – o Levenseindekliniek – que é responsável pela avaliação dos pedidos de eutanásia para pessoas que não conseguiram obter o procedimento de seu médico pessoal, e que os executa, se necessário. Isto permite contornar a objeção de consciência ou dúvida do médico quanto ao respeito dos requisitos da lei, para não incorrer em acusações criminais depois da eutanásia.

A imprensa holandesa apresenta esta morte, que não poderia ser mais “útil”, em termos muito positivos. O jornal Algemeen Dagblad traz a manchete: “Único: uma só eutanásia permite salvar cinco vidas através da doação de órgãos. ”

No Erasmus MC de Rotterdam, tudo foi calculado milimetricamente. O paciente destinado à eutanásia foi instalado em um quarto, os cinco destinatários esperavam em cinco mesas, prontos para a operação. Bastava apenas passar ao “ato”, depois transferir o eutanasiado para uma sala de operação vizinha, e pronto! Já se poderia recuperar o seu fígado, rins, pâncreas e outros dois órgãos cuja natureza não foi especificada.

Para isso era preciso que o eutanasiado estivesse em boa forma física, razão pela qual não se pode levar em consideração propostas de doação de órgãos de cancerosos. Neste caso em questão, tratava-se de um homem que não podia suportar as consequências de uma hemorragia cerebral, logo a qualidade de órgão era boa. Ele não queria mais viver? Tanto mais que sua morte poderia servir a alguém, como ele desejava…

Cercado por familiares, amigos e funcionários do hospital, o homem recebeu a morte do médico da Clínica de Fim de Vida, autorizado nessa ocasião a praticar a sua “arte” entre as paredes do Hospital – algo único nos anais da eutanásia na Holanda. Os parentes tinham cinco curtos minutos para dizer “a Deus” (supondo que eles acreditam Nele), antes que o “morto” partisse para a sala de cirurgia. E … pronto!

Ele estava realmente morto? Surge a pergunta: para ser verdadeiramente eficaz, é importante retirar órgãos vitais, com o coração batendo, contentando-se com uma “morte cerebral”. Mas neste caso, as indicações dadas à imprensa não conseguem mostrar uma consciência tranquila. Sabe-se apenas que um homem “conseguiu salvar outros cinco.”

Outras questões permanecem, como aquelas apresentadas por um responsável da ética do Erasmus Hospital: que fazer diante de uma pessoa que procura a eutanásia precisamente para doar seus órgãos? Como saber? E sobre a pressão que pesa sobre o futuro eutanasiado que, teoricamente, pode sempre desistir, até o último segundo? Mas o mesmo responsável Gert van Dijk faz parte da equipe que elaborou um protocolo regional, informal e provisório, da eutanásia seguida de doação de órgãos para o Hospital da Universidade de Maastricht. Mas a coisa agora é feita em muitos lugares na Holanda, sem que haja  proibição nem autorização formal.

O especialista em ética Gert van Dijk acaba de assinar um artigo no American Journal of Transplantation para gabar a “legalidade e a possibilidade médica” da doação de órgãos associada à eutanásia que “muitos médicos e pacientes não conhecem.”

Um pequeno golpe publicitário?

 

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