Montfort Associação Cultural

17 de abril de 2011

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Do e-mail esquecido pelo Padre Daniel Maret e do que realmente importa: notas sobre o editorial da FSSPX no Brasil

Autor: Alberto Zucchi

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

DO E-MAIL ESQUECIDO PELO PADRE DANIEL MARET E DO QUE REALMENTE IMPORTA

Notas sobre o Editorial da FSSPX no Brasil

 


(Padres Alejandro Rivero, Daniel Maret e Anibal Götte, no Priorado Padre Anchieta da FSSPX em São Paulo)

 

Após a reprodução dos artigos do Padre Marcelo Tenório e do Frei Tiago de São José no site Montfort, passamos alguns dias sendo “caridosamente” citados em diversos blogs, sites, e outras denominações da Internet, onde sobejam os teólogos formados nas universidades de auto-conhecimento.  Algumas dessas citações se referiam a nós de forma direta e muitas outras mencionavam apenas, num tom escandalizado, um “grupo de leigos”, quase como se fosse uma grave falta ser um “grupo de leigos”. Chegou-se ao ponto de insinuar que os críticos da FSSPX colaboram para o advento do Anticristo.

Com a graça de Deus, não estivemos sozinhos nessas citações, mas acompanhados dos dois sacerdotes acima citados, companhia que foi uma grande surpresa para aqueles que afirmam que não consultamos padres e nem pedimos sua orientação.  A justiça nos manda ser mais exatos, pois o correto é afirmar que nós fazíamos companhia a eles nessa onda de críticas, pois foram seus excelentes artigos que produziram a cólera desses opositores.  Precisamos ainda notar que alguns dos que atacaram a esses dois sacerdotes não cansam de exigir respeito e reverência quando se trata de sacerdotes que eles denominam como da Tradição, mas para estes dois padres tais formalidades foram dispensadas. Enfim, cumpre notar que se houve críticas contra esses padres, não houve, de fato, nenhuma resposta séria aos seus artigos.

Mas, talvez por terem sido infrutíferos os ataques da periferia, nesta última sexta-feira (15/04), coube-nos a honra máxima de termos o nome da Montfort citado no editorial da FSSPX no Brasil. É verdade que em alguns trechos o nome Montfort foi substituído por “certo blog de leigos”, mas outras citações deixam claro que era a nós que eles se referiam.

O citado editorial da FSSPX tem como foco principal acusar o Frei Tiago de caluniar ao Padre Maret, mas não perde a oportunidade de  nos comparar aos a inimigos da cristandade, como Voltaire, e ainda insinuar que o nosso método seria o da Maçonaria. Sem dúvida, são afirmações bastante próprias para alguém que se queixa de ter sido caluniado. Por último, como não poderia deixar de ser, em nota do Webmaster (sobre o qual aguardamos a informações se se trata de padre ou leigo, para lhe prestar o devido respeito) solicita-se que se releia o artigo do Padre Joel Danjou, contra o Professor Orlando Fedeli.

Em vista disso, tivemos contato com o Frei Tiago que nos informou que a troca de emails com o Padre Daniel Maret foi publicada no editorial de forma incompleta, faltando o último e-mail enviado pelo próprio Padre Maret. Talvez devido aos seus muito afazeres, ele se esqueceu de publicar este último email, no qual, sem dúvida, constam as ameaças que Frei Tiago menciona. Vejam o texto abaixo:

De: Daniel Maret [mailto: padre.maret@...]
Enviado em: Monday, April 11, 2011 10:25 PM
Para: frei.tiago@…
Assunto: o que se passa?

Reverendo Padre.

Espero que faça logo uma retratação pública daquilo que o Senhor publicou. Estou esperando sua resposta, senão teremos que tomar atitudes sérias sobre isto…

Aguardo sua resposta

União de oração

Pe Daniel

(As reticências são do e-mail do Padre Maret).

Sem dúvida tal afirmação dá toda base aos receios que Frei Tiago relatou em sua carta:

“…deparei-me também com uma série de e-mails do Pe. Daniel Maret exigindo que eu me retratasse publicamente e, inclusive, me ameaçando de uma série de represálias.

Confesso que tive medo, pois, não sei até que ponto pode chegar o potencial vingativo daqueles que se sentem feridos em seu orgulho, convencidos que estão de que nunca jamais alguém poderá ousar criticá-los..”

O receio de Frei Tiago é, portanto, totalmente justificado, não só pelo próprio texto que lhe foi enviado, mas agora também pelo esquecimento da publicação desse e-mail no editorial da FSSPX.

Foi uma pena o Padre Maret ter esquecido esse último email, pois sua publicação não só teria poupado a Frei Tiago mais esse dissabor, mas teria evitado aos leitores da FSSPX a impressão de que Frei Tiago estava mentindo. Em compensação, não teríamos tido o nome da Montfort incluído no rol da fama do site da Fraternidade São Pio X. Veja-se que de um mal Deus sempre tira um bem.

Frei Tiago, portanto, passa de caluniador a caluniado, mas ele, em sua simplicidade, não pensa em exigir desculpas de ninguém. Não conhecemos as consciências das pessoas para poder afirmar que cometeram pecado, mas creio ser oportuno aos internautas de plantão, que acusaram Frei Tiago, fazer um bom exame de consciência.

Curioso ainda notar que, do Padre Marcelo Tenório, não foi exigido nenhum pedido de desculpas, talvez porque suas experiências passadas, quando foi alvo de muitas críticas injustas e infundadas dos seguidores da FSSPX, o tenham tornado imune a esse tipo de ameaças.  O belo e espirituoso estilo de seu artigo e a ausência de respostas objetivas as suas críticas nos fizeram lembrar os artigos do nosso saudoso Professor Orlando Fedeli, a quem sempre chamávamos simplesmente de Professor.

Entretanto, tudo isso tem bem pouca importância. A troca de acusações pessoais é absolutamente irrelevante diante da magnitude da atual crise da Igreja, e foi exatamente por essa razão que o Professor não quis responder às calunias absurdas que constam do trabalho do Padre Danjou acima citado. Responder ao Padre Danjou seria atacar a FSSPX no delicado momento em que se iniciavam as negociações da FSSPX com o Vaticano, negociações que a Montfort, esquecendo-se dos ataques pessoais, sempre desejou  que chegassem a bom termo, para o bem da Igreja e das almas.

Não somos nós que transformamos as questões doutrinárias em pessoais. São aqueles com quem polemizamos que, de início, se declaram ofendidos e por isso dispensados de travar o debate conosco. Em pouco tempo, é a terceira vez que isso ocorre. Parece até que se trata de um método.

Assim, o que se deve discutir são outros pontos das afirmações levadas a público por Frei Tiago. Como, por exemplo, importante e fundamental, a afirmação da exigência pela FSSPX de uma nova ordenação de Frei Tiago: “Chegaram a me exigir ordenação sub-conditione”. Ora, exigir de um Padre uma nova ordenação sob condição significa colocar em dúvida todos os sacramentos realizados por esse Padre. Todas as missas rezadas por ele poderiam, pois, ser sacrílegas e idolátricas.

Isso ultrapassa em muito a questão levantada até agora se seria correto aconselhar, ou mesmo, muitas vezes, exigir que os católicos não frequentem as missas de São Pio V celebradas dentro do Motu Proprio Summorum Pontificum, promulgado por  Bento XVI. Até estas últimas informações, essa era a questão central dos artigos do Frei Tiago e do Padre Marcelo Tenório. As novas questões agora levantadas são mais graves e mais profundas.

Não é necessário lembrar que a ordenação do Frei Tiago seguiu o mesmo ritual de muitíssimas outras ordenações de Padres no Brasil e no mundo. Segundo a FSSPX, seriam duvidosas todas elas? Em caso afirmativo, fica desfeita a contradição aparente da FSSPX, que nós em ocasiões anteriores havíamos apontado: oferecer ao Santo Padre um milhão de rosários para que este permitisse a Missa de são Pio V, para, em seguida, proibir aos fiéis que fossem assistir a essas mesmas Missas. Pois, se para a FSSPX ,as ordenações são duvidosas, apesar de seguirem o ritual correto, todas essas missas poderiam ser inválidas, pois nelas não haveria realmente um sacerdote.

Entretanto, se se desfaz a contradição, tal posição da FSSPX conduziria a um problema doutrinário muito mais grave:  a possível invalidade de milhões, para não dizer bilhões, de sacramentos aplicados no mundo inteiro. Pior do que um odor de “sede-vacantismo”, a exigência de uma reordenação “sob condição” tem um forte sabor de “eclesio-vacantismo”, conduzindo à idéia de que , possivelmente, a Igreja visível, de fato, existiria apenas na FSSPX.

Tal tese também faria compreender a largueza do conceito do “estado de necessidade” que hoje a FSSPX adota. Anular casamentos, dispensar votos religiosos, intervir em institutos religiosos, criticar todos os institutos ligados a Eclesia Dei, tudo seria lícito e válido,  dada a dúvida da existência de uma Igreja visível. É possível imaginar um “estado de necessidade” maior do que a ausência de uma Igreja visível?

E se a Igreja de Roma têm um clero duvidoso, como seria possível um acordo com ela? A única coisa a fazer seria exigir dessa  pseudo igreja que reconhecesse, através de Bento XVI, todas  os direitos, qualidades e virtudes da FSSPX e, por fim, que a ela se convertesse.

A frase de Dom Williamson de que os Papas pós-conciliares não são católicos ganharia sentido, se adotada a premissa absurda de que as ordenações atuais são, no mínimo, duvidosas.

Para voltarmos à origem de toda esta discussão, poderíamos perguntar se será exigido do Padre Leonardo Holtz que seja reordenado sob condição.

Enfim, devemos reconhecer que o editorial da FSSPX pelo menos em algo acerta: nós somos um grupo de leigos. Mas é preciso lembrar que, como tais, temos o direito de ser ensinados pela hierarquia da Igreja. Ensinar quer dizer transmitir a verdade. Portanto, é dever dos padres da Fraternidade esclarecer esse ponto fundamental e não se mostrarem sensíveis e chocados quando são questionados.

Por último, cabe ressaltar que não é com alegria, mas com profunda tristeza e preocupação que redigimos este artigo. Nós também reconhecemos todo o bem que a FSSPX e, sobretudo Dom Lefebrve, fez  no que se refere ao combate em defesa da Missa e contra os enormes erros do Vaticano II. Mas isso não é justificativa para apoiarmos a atual posição, que acreditamos ser de alguns setores da Fraternidade, e que traz como conseqüência o desaparecimento da igreja visível e a sua redução à FSSPX.

Também Dom Mayer teve papel importante na defesa da Missa. Nós, que tivemos a oportunidade de conviver muito próximos a ele, sabemos que em vida ele esteve muito distante das atuais convicções da FSSPX.  Também muitos padres orientados por Dom Mayer colaboram em sua luta, mas isso não nos obriga a apoiar seus erros atuais.

Cabe ainda lembrar, embora muito de passagem, o papel do Professor Orlando Fedeli nessa luta. Hoje ,os grupos dos quais a Fraternidade procura se aproximar e entre os quais busca atrair adeptos, com exceção da diocese de Campos, todos foram formados pelo Professor. Foi pela graça de Deus, que se utilizou do trabalho e do apostolado dele, que a Missa antiga está espalhada pelo Brasil e, sem esse apostolado, a própria freqüência na Capela da FSSPX em São Paulo seria muito reduzida. É por causa dos ensinamentos e exemplos do Professor que alguns de seus alunos aceitam com paciência serem injustiçados por causa da defesa incondicional da Missa de São Pio V. Por uma questão de justiça, seria bom que todos os adeptos da Missa de São Pio V e que a própria FSSPX reconhecessem isso.

Afirmar que a “FSSPX é a principal coluna da Tradição” talvez seja verdadeiro se for considerada sua história no mundo inteiro. De fato, meus conhecimentos sobre a história recente da Igreja não me permitem nem confirmar nem negar essa afirmação. Mas aplicá-la  ao que ocorreu com a Missa Antiga no Brasil é, no mínimo, uma imprecisão muito grande. Basta ainda lembrar que ninguém, no Brasil, foi tão odiado pelos modernistas, como o nosso saudoso Professor.

Nós, continuando a acreditar nas promessas de Nossa Senhora em Fátima – “por fim meu Imaculado Coração Triunfará” -, e a rezar para que Nossa Senhora proteja a Igreja e o Papa, abençoe o Brasil, o clero e todos os “grupos de leigos”, depositamos toda nossa confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo que, ainda quando pareça adormecido, fará, apesar de toda a tempestade, que o navio da Igreja volte, conduzido pelo Papa, ao porto seguro que são as colunas da Eucaristia e da Devoção a Nossa Senhora.

São Paulo, 17 de abril de 2.011, Domingo de Ramos, quando o Evangelho de São Mateus nos recorda do sofrimento da paixão de Nosso Senhor, das falhas e traições de são Pedro, que apesar disso, permaneceu como cabeça dos apóstolos.

Alberto Luiz Zucchi

Anexo: e-mail do Padre Daniel Maret para Frei Tiago de São José que foi omitido na defesa apresentada pela FSSPX-Brasil, tal qual nos foi fornecido pelo Frei Tiago.


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