Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Divindade de Cristo e riqueza da Igreja

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: João Felipe
  • Localizaçao: – Brasil

Prezado sr,

Gostaria de saber, a vossa opinião, sobre os não Cristãos…

A Igreja Católica ( a organização, não a crença) é uma das organizações mais ricas do mundo, sendo Cristo um marcineiro, pobre e humilde, (com certeza um mestre, mas não a Encarnação de Deus na terra), e a igreja gasta milhões por ano em luxos, sendo que populações inteiras passam fome, o que a igreja poderia amenizar com certeza, se abrisse mão de certos luxos. Acho que Cristo, foi um mestre, pois se negou ao luxo, curando pessoas e espalhando paz.

Certo de que terei resposta,

Obrigado.

João Felipe

Prezado João Felipe,
salve Maria.

Respondo com prazer a seu e mail, procurando atender à sua solicitação.

Você tem uma idéia de Jesus Cristo que não corresponde ao que Ele foi, e quis que fossemos.

Você lembra que Ele foi um marceneiro, pobre e humilde. “Cristo, foi um mestre, pois se negou ao luxo, curando pessoas e espalhando paz”. Mas acrescenta que “não foi a encarnação de Deus” na terra.

Esta última asserção sua é a primeira que quero contestar, e provar que está errada.

Nosso Senhor foi, sim, a encarnação de Deus. Ele é o Verbo de Deus feito homem.

Certamente você não meditou bem no que disse, nem considerou o que conta o Evangelho.

Cristo ressuscitava os mortos, ressuscitou Ele mesmo, curava os cegos, expulsava os demônios, mandava nos ventos e nas tempestades, e perdoava os pecados, coisa que só Deus pode fazer.

Esse homem — que você reconhece como Mestre — afirmou que era igual a Deus Pai.

Ora, se Ele não fosse Deus, Ele teria afirmado uma loucura ao dizer-se igual a Deus. Ou seria um charlatão. Como então você o considera um Mestre ?

Se Ele, de fato, fez tantos milagres, e foi um Mestre perfeito, quando Ele se afirmou Deus, Ele não mentiu. Logo, era Deus encarnado.

Gostaria de lhe sugerir que lesse a demonstração de São Tomás sobre o Verbo de Deus, na qual o Doutor de Aquino prova que o Filho de Deus, o Verbo, se encarnou em Cristo. Este tinha duas naturezas — divina e humana — mas uma só Pessoa, a do Filho, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Você poderá encontrar essa demonstração da Divindade do Verbo, aqui mesmo, no site Montfort, no artigo As Processões em Deus, onde resumo essa demonstração de São Tomás, feita na Suma Teológica. Creio que você tirará proveito dessa leitura.

É seu erro, negando a Divindade de Cristo, que o faz ver nEle um simples mestre humano, pobre, sem luxo, que prega a paz e cura as pessoas. Essas afirmações deixam patente que para você o mal é apenas o luxo de alguns (causador da probreza de outros), a falta de paz e de saúde.

Prezado João Felipe, você é um naturalista, que não crê senão no que vê. E o pior é que você não vê muito longe . E vê mal . E vê pouco.Muito pouco. Desconfio até que você é cego para o que está acima da concretude dos tijolos.

Por isso lê mal.

Você diz que Cristo espalhou a paz.

Ora, Cristo disse exatamente o oposto, e preveniu contra o erro que você afirma, pois disse:

“Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra”( Mt X, 34).

Então meu caro? Que paz trouxe Cristo ?

Certamente, Ele afirmou também que trouxe a paz, mas não a paz do mundo:

“Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo” ( Jo. XIV, 27).

A paz do mundo consiste simplesmenete na ausência de guerra, “muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”

Isso, meu caro João Felipe, é puro naturalismo, ou ateísmo prático.

Para você, Cristo foi um humilde marceneiro, e por, isso, você se escandaliza com as “riquezas da Igreja”.

Cristo não ordenou que todos fossem pobres, aconselhou a pobreza para alguns, mais perfeitos. Por essa razão, na Igreja, existem ordens religiosas que vivem na pobreza. Você se esquece de São Francisco?

Já vejo você me perguntar: “E o Papa ? E as riquezas do Vaticano ?”

Que quereria você ? Que o Vaticano vendesse a Pietà de Michelângelo para um Museu ? Repito; você se preocupa só com a matéria, e não leva em conta que se deve a Deus honra e glória.

No Antigo Testamento, Deus exigia que o sangue dos bodes sacrificados no Templo fosse recolhido em vasos de ouro. Se o sangue dos bodes ofertados a Deus devia ser recolhido em vasos muito ricos, em que vasos se deve recolher o sangue de Cristo, na Missa?

Esse argumento, irrefutável, não é meu. É do Abade Suger, apontado como um dos inventores da maravilha que é o estilo gótico, com que a Igreja enriqueceu o mundo. Por que a Igreja enriquece o mundo e os povos principalmente com a virtude e com a cultura. Foi ela que fundou as Universidades para ensinar a verdade, e os hospitais, as Santas Casas, para os doentes. E tudo gratuitamente, na Idade Média.

E você esquece que, com suas riquezas, a Igreja manteve e mantém tantas obras de caridade, tantos hospitais e escolas, e asilos, e orfanatos.

É verdade que hoje, desgraçadamente, os padres da Teologia da Libertação — que pensam como você da riqueza do Vaticano — acabaram com as obras de caridade que a Igreja sempre teve, para substituí-las pelas obras de agitação revolucionária, em auxílio do Partido Comunista. Hoje, a preocupação dos “teólogos” da Libertação não é a de atender os pobres, mas de querer acabar com a pobreza. O ex frei Boff escreveu um livreco com o título: “pelos pobres, contra a pobreza”

Coitado… Ele se esqueceu que Deus disse: “A pobreza é péssima no dizer do ímpio ” (Eccli. XIII, 30).

Esses padres que falam contra a riqueza do Vaticano, esquecem que a Igreja tem que ser rica — para honrar a Deus e para cuidar dos pobres — mas convém muitíssimo que os padres sejam pobres, e que vivam pobremente. Muitos padres naturalistas, que falam contra as riquezas do Vaticano, tem TV no quarto, automóvel próprio, telefone celular, aparelho de som, TV a cabo, casa de praia, etc. Eles deviam começar imitando a Cristo pobre, caminhando a pé, como Cristo. Andar ao modo do Evangelho…e não assistir a novela das oito, mas rezar mais.

Você me fala de Cristo pobre, esquecendo-se de que, se Ele nasceu num estábulo, pobremente, recebeu dos Reis mirra, incenso e ouro. Cristo pobre recebeu ouro, para demonstrar que a Igreja poderia ter ouro para honrar a Deus e para ajudar os necessitados.

Você me fala de Cristo marceneiro, mas esquece de que Ele foi também Príncipe da Casa de Davi.

Você se esquece, que, se Ele andava pobremente pelas estradas da Judéia e da Galiléia, usava um manto inconsútil, próprio do Sumo Sacerdote, manto tão rico que atiçou a cobiça dos soldados, que não o dividiram entre si, no Calvário, mas lançaram dados sobre ele, para ver quem o ganhava inteiro.

Esse manto sem costura — rico — usado por Cristo, era símbolo da doutrina Católica que não tem costura , nem remendos.

E isso me leva a responder à primeira questão de seu e mail: qual a minha opinião sobre os não cristãos.

Meu caro, eu não tenho opinião sobre os não cristãos. Só quero ter, sobre eles, e sobre todos os temas em que a Igreja ensina, a verdade que ela afirma.

Opinião é palpite de “intelectual”, ou expressão de dúvida, e jamais certeza de verdade que é dada pela Fé.

Que ensinou Cristo sobre os não cristãos ?

Ensinou que se deveria ensinar-lhes a a verdade, e batizá-los em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ensinou que quem não crer, e não for batizado, não entrará no Reino dos Céus. Ensinou ainda que, entre os pagãos, poderia ser encontrada, por vezes mais fé do que entre os filhos de Israel. Por isso a Igreja ensina que “fora da Igreja não há salvação“, mas que os pagãos que não puderam conhecer o cristianismo, mas praticaram a lei natural, estes podem salvar-se porque obedecem à alma da Igreja. Mas isto exige abandonar o culto dos ídolos, pois “todos os deuses dos pagãos são demônios” (Ps. XCV, 5).

E isto que diz o Salmo XCV não é opinião minha: É a verdade infalível ensinada pelo Espírito Santo nas Escrituras

Esperando ter respondido as sua dúvidas, e rogando a Deus que lhe dê a graça da Fé sobrenatural, me despeço in Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli.

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