Montfort Associação Cultural

2 de janeiro de 2006

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Discurso do Papa à Cúria Romana com o balanço de 2005

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Pe. Emilson José Bento
  • Localizaçao: Campo Grande – MS – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação em andamento
  • Profissão: Sacerdote Católico
  • Religião: Católica

Esstimado Orlando Fedeli,

Acompanho seus escritos com fidelidade. Admiro de modo especial a especial clareza de sua argumentação, em quaisquer situações – de detalhes a grandes elocubrações teológicas.

Não é uma pergunta específica, mas gostaria de ver publicado no site a sua opinião sobre o discurso feito pelo papa Bento XVI, à Cúria Romana, discurso este que está sendo chamado em alguns sites de “balanço 2005″.

Gostaria de ouvir sua opinião, especificamente sobre o trecho em que ele fala sobre os 40 anos do Concílio Vativano II e as duas hermenêuticas que giram em torno deste Concílio.

Fico agradecido pela atenção que me será dispensada.

Em Cristo Jesus, com o propósito de oração e bênção,

Pe. Emilson José Bento

Muito reverendo Padre Emilson,
salve Maria!
 
     Agradeço suas palavras bondosas a meu respito. Devo advertir de que não sou teólogo. Nunca estudei Teologia e nem Filosofia. Sou professor de História, e católico que estuda o Catecismo e as encíclicas papais.
    Estou exatamente, neste momento, lendo e estudando o Discurso do Papa à Cúria Romana com o balanço de 2005, e um esboço de seu programa de governo. Desde já, porém, lhe digo que esse discurso deixa patente a condenação da linha declaradamente modernista dos que pretendem seguir o “espírito do Vaticano II”, a “hermenêutica da descontinuidade” com a Igreja de sempre, e que querem a ruptura com a Igreja Católica, fundando uma Nova Igreja:a Igreja Conciliar.
    Só essa condenação, feita por Bento XVI, embora pronunciada num simples Discurso protocolar, que tem posicionamento mais político, e que não é de jeito nenhum um pronunciamento ex cathedra, já deve ter causado muita revolta no seguidores do “espírito do Concílio Vaticano II”.
    Talvez, mesmo que a entrega a O GLOBO do diário de um Cardeal brasileiro sobre o Conclave seja um efeito disso. Por que um Cardeal entregaria as notas que tomou durante o conclave, caindo em excomunhão, e informando ao jornal que o Cardeal Ratzinger, através de outros Cardeais, manipulou politicamente o Conclave, senão para tentar desmoralizar a autoridade pessoal do Papa Bento XVI?
    Ao mesmo tempo, como se anuncia que o Papa vai liberar a Missa de sempre, sairam agora duas extravagantes “excomunhões” episcopais contra os que assistem essa Missa: uma foi a do Bispo de Corrientes, outra exatamente a do Bispo de Campo Grande. 
 
    Ora, essas “excomunhões” são absolutamente sem base, pois o Vaticano reconheceu o direito dos fiéis de assistirem essa Missa, e os chamados Lefrevistas, — dos quais estou separado, mas não por causa da Missa de sempre — nunca foram sede-vacantistas, e seus sacramentos sempre foram considerados válidos pela Santa Sé. Portanto, as fundamentações do Bispo de Campo Grande são completamente sem base objetiva. (Não conheço as fundamentações do Bispo de Corrientes)
    Também se anuncia que o Papa Bento XVI está em diálogo com a Fraternidade de São Pio X, e que teria aceito suas duas condições prévias para um diálogo sobre os erros do Vaticano II e os da Nova Missa, a saber, a liberação universal da Missa de São Pio V, que jamais foi proibida, e o levantamento das excomunhões de Dom Lefebvre e de Dom Mayer. Ainda agora, o Cardeal Hoyos, encarregado do diálogo com os lefrevistas, declarou que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, não está em heresia, e que não é cismática por causa das ordenações dos seus Bispos, feitas por Dom Lefebvre e Dom Mayer.
 
 
     Por que então agora essas duas excomunhões episcopais?
 
 
    Anunciam-se, também, novos decretos de Bento XVI, e um deles já saiu, condenando as extravagâncias litúrgico-doutrinárias do Neo Catecumenato de Kiko Arguelo e Carmem Hernandes. Fala-se de outros decretos, e se anuncia a primeira encíclica de Bento XVI a ser publicada, dizem, em 6 de Janeiro e cujo título já causou grande controvérsia para ser traduzido: Deus Charitas est.
    E por que tanta controvérsia para traduzir frase tão simples? 
    Não é fácil entender que Deus é Caridade?
    A controvérsia, porém, não é sobre a tradução da palavra Charitas, mas sobre o conceito de Charitas.
    Charitas é Amor.
    E está escrito na Escritura que Deus é Amor.
    Problema é que a palavra amor, hoje, tem outro sentido muito diverso do Amor =Charitas.
    E lá entram as hermenêuticas conciliares, para fazer confusão. Veja aí, padre, a causa do mal: o uso pelo Vaticano II de uma linguagem dúbia, que causou leituras diversas sobre as quais ninguém se entende, porque cada um lê os textos com hermenêutica diversa.
    A palavra amor está, hoje, prostituída. O amor está prostituído. E o que o povo vai entender por Deus é Amor ( Charitas) é totalmente diverso do que quer dizer o Amor (Charitas).
    Os padres da linha da ruptura entendem amor até em sentido puramente físico, e como repartição dos bens materiais, como havendo oposição essencial entre a propriedade privada e o amor. Amor seria só o do Chê Guevara.
    Os da linha moderada podem entender amor até como puro sentimento romântico, com musiquinhas sentimentais na Missa. Enquanto Charitas é o amor a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo por amor de Deus.
    E que significa, hoje, amar o próximo por amor de Deus?
    Quem entende que se deve amar o próximo fundamentalmente porque em sua alma há uma imagem de Deus? 
   Quantos sacerdotes, infelizmente mal formados em seminários que ensinam tão mal a Teologia, e que a ensinam errada, sabem o que é o Verbo de Deus? O que é a imagem de Deus no homem?
    Alguns pensam até que a imagem de Deus no homem poderia ser vista na cara que inventaram para o liberal Tiradentes, ou na foto romanticamente retocada do assassino terrorista Chê Guevara: “Hay que endurecerse sin perder la ternura”. Isto é, matar os outros cinicamente.
    Desejando-lhe um ano novo cheio de graças, e rogando a sua bênção sacerdotal me subscrevo atenciosamente,
 
In Corde Jesu, semper,
 
Orlando Fedeli

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