Montfort Associação Cultural

5 de janeiro de 2005

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Dignidade humana, direitos sociais e ecumenismo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcelo
  • Localizaçao: – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Que a graça e paz de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam convosco!

Foi com grande alegria que visitei a home-page da Associação Cultural Monfort. Alegro-me com empenho demonstrado na difusão da Palavra do Senhor Deus, fundamento do Magistério da Santa Igreja. Entretanto, gostaria de expor algumas inquietações que me ocorreram durante a leitura de alguns artigos e de algumas notícias.

É certo que devemos demonstrar as falácias do discurso marxista, os perigos da doutrina maçônica, bem como desmascarar o”criticismo” barato de alguns pseudo-intelectuais, que se alegram em ofender, das mais variadas e cruéis formas, a Igreja de Jesus Cristo. Mas não seria também fundamental dirigir críticas ferozes contra as “desigualdades iníquas que atingem milhões de homens e mulheres e se acham em contradição aberta com o Evangelho”, na letra do Catecismo da Igreja Católica, dado em 1992 por SS. João Paulo II? Por exemplo, não seria conveniente um artigo condenando os meios utilizados pelo MST, assim como suas finalidades políticas, mas reclamando uma política agrária centrada na valorização da pessoa humana, que possibilitasse o acesso à terra aos que têm vocação para dela retirar seu sustento? Isto não é um discurso socialista, a rigor, é reconhecer que da mesma maneira que não nos interessa a barbárie socialista, também nos traz repulsa o capitalismo selvagem. A Lumen Gentium lembra que a “igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais eqüitativa”. Clama-se por justiça social. Bastante se comenta sobre o direito de propriedade, não me oponho a ele. Mas será que não se destinou muito espaço a defesa deste direito e pouco espaço ao enaltecimento dos direitos sociais, sobretudo, saúde, educação e trabalho: a Campanha da Fraternidade, destinada à questão do desemprego, por exemplo, sequer vi ser citada. Se os direitos patrimoniais devem ser defendidos, os sociais também devem. A meu ver, ainda com maior entusiasmo.

Outro ponto: não vejo o ecumenismo, na acepção que se vem dando ao termo, como um perigo, mas como a necessidade de um diálogo respeitoso entre as Igrejas Cristãs. A próxima Campanha da Fraternidade será levada a cabo pelo CONIC. É induvidoso que só uma, e não mais que uma, Igreja foi revelada pelo bom Jesus e que o ecumenismo não deve esmorecer a santa fé católica, mas dialogar é fundamental na sociedade pluralista em que, inegavelmente, vivemos. Não seria também interessante um artigo que viesse expor os pontos positivos do ecumenismo, e condenar uma série de exageros (ou mesmo heresias) que se tem cometido em nome do ecumenismo?

Pude ler vários documentos importantes, mas não encontrei os documentos do Concílio Vaticano II, bem como Puebla e Santo Domingo: por mais que se discorde deles, se bem que não discordo, não se pode deixar de citá-los e, se pretendemos chamar uma seção “DOCUMENTOS”, expô-los. Não são eles doutrina da Santa Igreja?

No mais, fica minha saudação em Cristo, meu elogio por vosso ânimo apostólico, vos desejo Paz e Bem.

Marcelo

Ilha de Santa Catarina, 1 de janeiro de 2000

Em tempo: 1) Sou jovem do Movimento de Emaús da Arquidiocese de Florianópolis. Estudante de Direito na Universidade Federal de Santa Catarina, membro do Programa Especial de Treinamento/Direito, desta mesma Instituição. Sirvo a Santa Igreja na Pastoral Catequética da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus; e 2) Gostaria de saber se minhas ponderações guardam, enfim, no vosso entendimento, alguma relevância e em que sentido podem contribuir na condução das vossas atividades apostólicas.

Prezado Marcelo.
Salve Maria.

Agradecemos muito cordialmente suas considerações generosas sobre nosso site.
Por outro lado, queremos reconhecer e louvar seu desejo de examinar, com equilíbrio e ponderação, questões bem delicadas. Esse equlíbrio, principalmente num jovem universitário, é realmente louvável.

Verificamos, por sua mensagem, que você tem preocupação e interesse no estudo da doutrina católica. Constatamos também, que, como muitos jovens de hoje, você não teve a oportunidade de conhecer documentos fundamentais da Igreja, para compreender perfeitamente a crise atual do mundo. É natural isso, porque hoje, nas livrarias católicas, raramente se encontram os documentos pontifícios anteriores ao Vaticano II. Nelas se acham — como constatamos até na Livraria da Gregoriana, em Roma — livros de ioga, macumba, taoísmo, esoterismo etc, de tudo, exceto os documentos dos Papas anteriores ao Vaticano II. Como se o Vaticano II, Concílio meramente pastoral, tivesse “enterrado” tudo o que os Papas ensinaram antes.

A falta de conhecimento do que os Romanos Pontífices têm ensinado desde a Revolução Francesa impede que se compreenda a crise atual, e faz incorrer em erros de apreciação.

Permita-me tomar um exemplo de sua própria carta.
Você me fala da ” igual dignidade da pessoa humana”, citando a Lumen Gentium.
Entretanto, não deixa claro em que consiste essa “igual dignidade da pessoa humana”. É verdade que a citação que você faz da Lumen Gentium acrescenta que essa igual dignidade “postula a que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa”. E você, explicitando o que considera vida mais humana, nos diz que se deveria enaltecer “os direitos sociais, sobretudo saúde, educação e trabalho”.

Ora, o que os Papas entendem e ensinam sobre dignidade da pessoa humana não tem por elemento constitutivos “educação, saúde, trabalho e direitos sociais”.
Veja, meu caro Marcelo, o que ensinou Leão XIII sobre o que consiste a dignidade da pessoa humana:

“… segundo as doutrinas do Evangelho, a igualdade dos homens consiste em que todos, dotados da mesma natureza, são chamados à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus, e que todos, tendo o mesmo fim, cada um será julgado pela mesma lei e receberá o castigo ou a recompensa que merecer. Entretanto, a desigualdade de direitos e de poder provém do próprio Autor da natureza” (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris, 1878,Vozes, Petrópolis, p.28-29).

Como estudante de Direito, você compreende que deve-se fazer uma distinção entre direitos naturais — que são iguais para todos — e direitos acidentais, que são diferentes, visto que os homens são desiguais em seus acidentes. O erro em que se incorre normalmente, seguindo a famigerada Declaração de Direitos da Revolução Francesa, obra maçônica, é o de afirmar que os homens são iguais, quando na verdade somos semelhantes, e não iguais (permita-me fazer referência ao estudo sobre desigualdade, editado em nosso site, onde você poderá encontrar muitos argumentos defendendo a desigualdade de direitos acidentais, e condenando o igualitarisnmo do mundo moderno, cujo título é “Desigualdade & igualdade: considerações sobre um mito“).

É claro que isso não significa defender que a miséria é de acordo com a dignidade da pessoa humana. Mas, para ser filho de Deus — essência da dignidade humana — não é preciso ter saúde, dinheiro, ou diploma.

Tome, meu caro Marcelo, o caso da educação. Você é universitário, e sua carta demonstra que você é bom aluno e tem cultura. Entretanto, seu caso é bem excepcional.
Em nossas escolas, o que se ensina normalmente ? Ensina-se o materialismo, o evolucionismo, a negação de que existe uma verdade absoluta; ensina-se que a Igreja cometeu crimes imensos na História e outras baboseiras e calúnias contra Cristo e sua santa Igreja.
A primeira vez em que entrei numa sala de professores, disputava-se um concurso sobre quem conhecia mais palavrões, em várias línguas. Eram poliglotas… do baixo calão.
Isso foi em 1955. Hoje, a disputa deve ser só no vernáculo…Pobres diplomados!

Ter educação , hoje, muitas vezes é ter aprendido a juntar as letras para ler gibis, novelas impressas ou pornografia, ainda que seja pornografia premiada com troféus literários maçônicos. Hoje, os diplomados lêem Paulo Coelho. Um desses diplomados leitores de Paulo Coelho se chama Clinton.

Ser desse nível de educação é ter a dignidade própria do filho de Deus?

Você me fala de “direitos sociais”. Parece-lhe que há mesmo um sujeito coletivo de direito social? Ou o sujeito de direito — mesmo de um direito “social” — não é sempre um homem concreto?
Seria um tema interessante a debater.

Na verdade, a defesa dos direitos sociais, hoje, provém de uma preocupação exagerada de não ficar a reboque dos marxistas, que, afirmando a tese da luta de classes — tese condenada pela Igreja — apresentam o proletariado como sujeito coletivo de direitos, sem levar em conta a pessoa.

Justiça, você sabe, é quicumque suo tribuere. Dar a cada um o que é seu. Isso é a justiça. Mas dar a cada um o que é seu não consiste nunca em dar a todos igualmente, muito pelo contrário. E também não consiste em atribuir a uma classe, como um todo, direitos coletivos iguais, como se ela fosse um bloco monolítico formado por peças e não por pessoas humanas. Uma classe social pode ter direitos e privilégios próprios, mas o sujeito desses direitos será sempre o homem, a pessoa concreta e não um ente social abstrato. Uma ênfase excessiva em direitos sociais acaba por anular, na vida concreta, os direitos pessoais – e a distinção desses direitos de acordo com o merecimento de cada qual – e conduz facilmente ao totalitarismo. Foi uma das lições que a humanidade aprendeu com tanto sofrimento da escravidão estabelecida pelos regimes totalitários.

Evidentemente, concordamos com você na condenação, quer do socialismo, quer do capitalismo selvagem, pai do socialismo. As desigualdades excessivas, de fato, são injustas, e elas são muitas vezes criadas de propósito, para justificar a defesa da igualdade. Vendo as desigualdades econômicas excessivas existentes, hoje, na sociedade capitalista, os comunistas de todos os naipes argumentam que a solução é a igualdade completa. Clamam os socialistas contra os degraus excessivamente desiguais e desproporcionados da escala social. Só que a solução que apresentam é eliminar a escada. E assim ninguém mais pode subir socialmente..

A solução verdadeira seria – não a de eliminar a escada — mas sim diminuir a altura dos degraus sociais, pela multiplicação deles. Precisa-se de mais desigualdades, mas de menores desigualdades. O dinheiro e a pseudo-educação não podem ser os critérios únicos de classificação social.

Você me fala de vida mais humana. É um slogan muito em voga, atualmente. E que se entende por vida mais humana? (não afirmo que você pense assim).
Entende-se por vida mais humana — como disse um socialista tupiniquim — “ter direito a comer pizza e beber uma cervejinha” . Ou ter televisão em casa (a TV, essa prostituta eletrônica e corruptora da moral familiar). Com antena parabólica, como se vê em muitos barracos de nossas favelas… Vida mais humana seria ter o direito de comer no McDonalds, de ser consumista, de ir praticar nudismo nas praias. É claro que não atribuo a você esse hedonismo pagão, mas é esse hedonismo e esse paganismo que se esconde por trás do slogan das lojas a respeito de vida mais humana, ou de “qualidade de vida”. Jamais se inclui nesse conteúdo de vida mais humana a posse da verdade e da verdadeira fé, nem a prática da virtude. Vida mais humana é um slogan equívoco.

Você estranha que não publiquemos os Documentos de Puebla e de São Domingos.
Esses documentos não são ex-cathedra. Você mesmo não citou o Documento de Medellin, que defendeu o uso da violência armada contra a violência social capitalista, e que Puebla corrigiu. Porque a política de João Paulo II foi um tanto diferente da preconizada por Paulo VI… E também Medellin não foi um documento infalível. Portanto, foi um documento falível, tal como o de Puebla e o de São Domingos. Sendo falíveis, poderiam ter erros. Nenhum católico é obrigado a seguí-los, como hoje ninguém segue Medellin. E se ninguém é obrigado a seguí-los, não somos obrigados a citá-los (a menos que se faça um estudo sobre eles).

Também você afirma que deveríamos salientar os pontos positivos do ecumenismo.
Não existindo o mal absoluto, nem o erro absoluto, é claro que se poderiam encontrar alguns pontos positivos até nas piores doutrinas.

Permita-me, caro Marcelo, dialogar com você — você vê que não sou contra o diálogo com os que discordam de meu modo de ver, quando revelam boa vontade — contando-lhe um exemplo.

Se tenho em casa um leão preso por uma corrente de aço grossíssima, evidentemente não corro perigo. Mas se um dos elos se rompeu, e se eu o substitui por um nó feito com linha de coser camisas, é claro que você me clamará que o leão está solto.
Se eu lhe contestasse dizendo: “Marcelo, você é um negativista e um pessimista. Havendo 50 elos de aço de 5 kg cada um prendendo o leão, por que você foi ver exatamente o único elo feito com linha de costura? Você é um exagerado, pois só olha o único ponto negativo. Só vê o único defeito da corrente que prende o leão”!
Nesse caso, falando assim, eu estaria completamente errado. A força da corrente é equivalente à do elo mais fraco, e o leão estaria, de fato, solto.

Aplique esse exemplo ao caso do ecumenismo e você verá que se existe algum ponto positivo, a quase totalidade dos elos da corrente ecumênica é de fio de costura, e o ecumenismo deixa livre o leão da heresia relativista.
O resultado desse relativismo é patente nas milhões de apostasias produzidas pelo ecumenismo, depois do Vaticano II.
Nessa questão, recomendamos que você leia a encíclica Mortalium Animos de Pio XI, que já está em nosso site, e a condenação da heresia americanista por Leão XIII, na encíclica Testem Benevolentiae.

Pelos frutos se conhece a árvore, disse Nosso Senhor Jesus Cristo. E os frutos do diálogo ecumênico e do Ecumenismo têm sido trágicos. Contra fatos não argumentos, caro Marcelo.

Minha resposta já está longa demais. E para um bom entendedor, tal como você revelou ser em sua carta, o que lhe disse é suficiente, se não para responder a todas as suas d

úvidas, pelo menos para iniciar um diálogo bem amigo. E para esse diálogo estaremos à sua disposição, In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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