Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

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Dificuldades com o Gênesis e com o Dilúvio

Autor: Fábio Vanini

  • Consulente: Marta
  • Idade: 47
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Escolaridade: 2.o grau concluído
  • Religião: Católica

Prezado Sr Orlando Fedeli

Salve Maria.

Sua devoção a Maria, Nossa Mãe, me causa muita admiração. Li este mês a Revista Galileu que trata do tema “Deus na Ciência”. Estou impressionada com o fato de que os criacionistas, comprometidos com a literalidade do Gênesis, espertamente omitem as seguintes contradições do livro : (a) que o Sol teria sido criado depois da Terra (Gn 1:15) : (b) que os vegetais foram criados, floresceram e deram frutos antes de haver Sol (Gn 1:11): (c) que a Terra girou sozinha no espaço, à razão de um giro a cada 24 horas e entrou em sua órbita ao redor de um tardio Sol sem qualquer impacto gravitacional que lhe arrancasse os mares ou lhe fizesse mudar a velocidade de giro em torno do seu eixo.(Gn 1:13) É muito para o meu gosto. Será que o Sr me ajuda a conciliar estas passagens bíblicas com a razão pura e simples ?

Sobre o Dilúvio, um protestante me mostrou que os peixes também foram extintos pois antes do Dilúvio Deus, zangado com os homens, disse que destruiria “toda a carne” e após o Dilúvio disse estar arrependido de “haver ferido todo vivente”. De fato, isto inclui os peixes na lista dos excluídos. Como foi que Noé salvou um casal de cada espécie de peixe? Será que ele providenciou aquários e os peixes vieram até a arca, saltitando, cada macho com sua fêmea e entraram na arca e seus aquários ?

Cara Marta, salve Maria,

Agradeço pela consulta e, em primeiro lugar, pelo reconhecimento quanto à devoção à Ssma.Virgem. É graças a Sua intercessão que temos tido algum sucesso na difusão e defesa da Fé Católica.

E, devido ao imenso número de cartas que chegam diariamente a este site, somos obrigados a dividir a tarefa de atender a todos os consulentes. Por isso peço sua compreensão por ter de responder sua carta no lugar do prof. Orlando Fedeli, mas espero poder ajudá-la.

Em primeiro lugar, considere o nome da revista que consultou, que lhe levou a ter tais dúvidas com relação à autenticidade das sagradas escrituras. É uma homenagem a um cientista cuja fama foi construída sobre um mito de martírio pela verdade científica, contra o “obscurantismo” da Igreja Católica na história. Não há menção aos reais motivos pelos quais tal cientista foi julgado, sua história e como terminou o caso. Porém, este é outro tema, e fugiríamos do ponto em questão.

O que importa é que revistas e periódicos como esse, de “divulgação científica”, na verdade são feitos para jogar os leitores despreparados contra a Igreja, difundindo a errônea idéia de que Deus o Cristianismo podem ser destruídos pela “razão pura e simples”, pelo microscópio e pela luneta. Não há um só volume dessas revistas que não tragam um artigo contra a Fé Católica. Por outro lado, defendem os extra-terrestres, Atlântida, homeopatia, acupuntura e a Evolução das espécies. Estes mitos não podem ser feridos.

Ora, na verdade a Igreja sempre estimulou a ciência e a prova disso é que foi o cristianismo quem fez as Universidades, pois Cristo mandou: “Ide e ensinai”. E a revista Galileu conta isso? Em 1540 já havia Universidade no Peru, trazida pelos jesuítas espanhóis. Portanto, defender a tese de que o cristianismo é contra a ciência é propriamente uma calúnia histórica e uma “falácia” científica.

As suas dúvidas mostram claramente como atua a imprensa inimiga da Igreja, confundindo os menos avisados com sofismas baratos, sem responder verdadeiramente a questão. O leitor é levado a aceitar, por exemplo, a teoria da Evolução, com suas contradições e fraudes, no mínimo para não passar vergonha entre os colegas.

Você nos pergunta sobre relatos do Livro do Gênesis. Em primeiro lugar, tal livro não pode ser lido como um manual de física ou livro-texto de biologia. É como se desse a “Metafísica” de Aristóteles para uma pessoa sem noção de filosofia. Ele diria que o autor é louco. Imagine se, além de não querer entender, o inimigo tem a pretensão de julgar a Sagrada Escritura e ainda difundir seu parecer “imparcial” contra ela. Eis a “ciência moderna”.

Pois então: como Deus teria feito a Terra antes do Sol, se a ciência mostra, com base em evidências, que o Sol é mais antigo?

A palavra “terra”, nas Sagradas Escrituras, é um termo análogo, que pode significar “matéria”, o astro em que vivemos, o solo em que pisamos ou, num sentido mais profundo o homem, ou ainda o povo judeu. O Gênesis dá uma ordem de importância ontológica à sua descrição. E, quando se constrói uma casa, não se começa pela lâmpada. Porém, se tomarmos o termo terra como matéria, então é óbvio que a “terra”, inclusive a do Sol é anterior a ele. Não dá para ler o Gênesis como se lê a “Galileu” e se ter uma conclusão “brilhante” como a de tal revista.

Contudo, a interpretação ontológica não contraria a biológica, física, etc.

Quanto aos vegetais terem sido criados antes do sol, o leitor atento veria que para os animais Deus disse: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn, 1, 22). Não disse o mesmo para as plantas, no terceiro dia. Portanto, não se pode afirmar que elas já cresciam, davam frutos e se multiplicavam. Como biólogo, posso lhe garantir que não é possível para uma planta crescer sem luz e muitas delas não se reproduzem sem animais polinizadores. O que se lê nos textos bíblicos é que a forma das plantas, enquanto tal, é que foi criada: “E a terra produza erva verde que dá semente segundo a sua espécie”. Não está dito que as plantas se multiplicavam, mas que tinham tal capacidade. E, na seqüência, lê-se: “E a terra produziu erva verde, e que dá semente segundo sua espécie (Gn 1,12). Os tempos verbais das orações determinam que as plantas que foram produzidas pela terra são uma categoria de ser que dá sementes segundo sua espécie.

São Tomas de Aquino, defendendo a posição de S. Agostinho, ensina que as plantas não foram propriamente criadas em ato no terceiro dia, mas apenas em suas causas (Suma Teológica, I q 69 a.2). Isso seria esclarecido na passagem sobre o repouso de Deus, após a criação “Tal foi a origem do céu e da terra, quando foram criados, no dia em que o Senhor Deus fez o céu e a terra, e toda a planta antes que nascesse da terra, e toda erva antes que germinasse; porque o Senhor Deus não tinha (ainda) feito chover sobre a terra, nem havia homem que a cultivasse” (Gn 2, 4-5). Nesse último trecho se vê que as plantas não poderiam estar dando flores, sementes e frutos no terceiro dia, embora já possuíssem tais atributos.

As plantas não poderiam crescer e multiplicar sem ter propriamente função ecológica, uma vez que Deus fez as coisas com ordem e sabedoria. É a teoria da Evolução que diz que uma proteína, característica ou organismo pode existir sem ter função, antes ou fora de uma ordem vital, por efeito estocástico.

Contra a Evolução das espécies está dito mais: a descendência é igual aos parentais. Não há “descendência modificada”, como Darwin conceituava a evolução. Essa essência se mantém, e isso Deus afirma por dez vezes durante a narração da criação, quando diz que os animais e plantas deixam descendentes “segundo sua espécie”.

Afirmar que os organismos dão descendentes segundo a sua espécie é uma maneira belíssima de se ensinar o princípio de identidade, primeiro princípio fundamental da metafísica, que diz que todo ser é o que é. Darwin dizia que o ser é o que não é. E isto sim é irracional. Os editores da revista “Galileu” não devem achar isso “superinteressante” ou “fantástico”.

Quanto à rotação da Terra, lhe pergunto eu: onde está escrito, no livro do Gênesis, que o dia tem 24 horas? Essa revista devia trazer a citação. O termo “dia” é tratado no Gênesis antes de haver Sol, Terra e sistema solar. Na carta de S. Pedro se lê: “um dia, diante do Senhor, é como mil anos” (II Pd, 3,8). Portanto não se pode concluir que havia rotação de 24 horas sem haver ao menos Sol e Terra. Também não se pode concluir, como fazem os criacionistas comumente, que Deus criou o Universo em 6 dias de 24 horas. A separação entre dia e noite, propriamente, se deu no quarto dia, quando tais astros já existiam. Os termos “tarde” e “manhã”, ou melhor traduzidos “indistinção” e “distinção” não são termos unívocos que nos obrigam a aceitar um dia do Gênesis como uma rotação da Terra.

Já a questão dos peixes diluvianos é uma diversão à parte. Seu amigo protestante se mostra uma pessoa pouco esclarecida em termos de folclore, pois “como pode um peixe vivo viver fora d”água fria”? Os animais, as “carnes”, mortos no dilúvio, não morreram de frio ou fome, mas dentro d”água fria. Morreram afogados. Peixes, por incrível que pareça, estão isentos dessa aptidão. Não morrem afogados, lhe garanto.

Novamente, a palavra “carne” ou “vivente” é palavra análoga, com sentidos diferentes, semelhantes entre si. Possuem sentido simbólico para ensinar algo mais elevado para o homem. Ou será que um pecado contra a “carne” seria também esquecer de dar comida para um canário numa gaiola.

E Deus, que feriu todo “vivente”, matou também as milhões de bactérias e fungos que habitam o interior ou a pele dos animais?

O texto bíblico também diz que “toda a carne tinha corrompido seu caminho sobre a terra” (Gn 5,12). Os pobres patinhos e ursinhos teriam corrompido seu caminho e ofendido a Deus?

Lê-se: “toda a carne que se movia sobre a terra foi consumida” (Gn 7, 21). “Sobre a terra” (o grifo é nosso) é uma expressão utilizada por seis vezes quando se refere à categoria de animais que foram exterminados. Por que então se pensar que os peixes, que vivem “sob as águas”, morreram afogados também?

Não adianta dar pérolas para um mundo que anda “sobre a terra”, se nem com microscópio ou luneta se quer vê-las. Não são os católicos que omitem um fato de aparente contradição, mas a imprensa e os inimigos da fé que pretensamente o julgam, de olhos fechados ao sol do meio-dia.

Espero que possa ajudar-lhe essa e outras vezes, uma vez que foi a minha intenção. Mas lhe deixo um conselho: não queira olhar tudo à razão pura e simples, pois o racionalismo é uma fé irracional na razão. Deus Nosso Senhor nos revelou muitas coisas que nem a revista “Galileu”, nem você, nem eu poderemos compreender. Essa é a nossa fé, que não pode ser contrária a razão humana, também feita por Deus.

In Corde Iesu,

Fábio Vanini

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