Montfort Associação Cultural

24 de março de 2006

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Diálogo com os mortos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Valquíria
  • Idade: 36
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior incompleto

Prezado Senhor Fedeli

          Observei em um Site, um pronunciamento do Papa e uma entrevista do Padre Gino Concetti, comentarista do «Observatore Romano», o diário oficial do Vaticano, a respeito da comunicação com os Espíritos. Gostaria de saber se tais fatos são verídicos ou se não. Trata-se do seguinte :

1) O Papa João Paulo II, perante mais de 20.000 pessoas na Basílica de São Pedro, em 2 de Novembro de 1983, disse :

“O diálogo com os mortos não deve ser interrompido, pois, na realidade, a vida não está limitada pelos horizontes do mundo”.

2) O Padre Gino Concetti, fala do “Mais Além” de uma nova maneira. O Padre é irmão da Ordem dos Franciscanos Menores, um dos teólogos mais competentes do Vaticano. É comentarista do «Observatore Romano», o diário oficial do Vaticano.

A intervenção do padre Concetti, é muito importante, porque, aqui se vêem as novas tendências da Igreja a respeito do paranormal, sobre o qual, até agora, as autoridades eclesiásticas haviam formulado opiniões diferentes. Sustenta ele que, para a Igreja Católica, os contactos com o “Mais Além” são possíveis, e aquele que dialoga com o mundo dos defuntos não comete pecado se o faz sob inspiração da fé.

Vejamos pois, alguns extractos da entrevista, do Padre Gino Concetti ( P.G.C ) publicada no Jornal Ansa, em Itália, em Novembro de 1996 :

P.G.C. – «Segundo o catecismo moderno, Deus permite aos nossos caros defuntos, que vivem na dimensão ultraterrestre, enviar mensagens para nos guiar em certos momentos de nossa vida. Após as novas descobertas no domínio da psicologia sobre o paranormal a Igreja decidiu não mais proibir as experiências do diálogo com os trespassados, na condição de que elas sejam levadas com uma finalidade séria, religiosa, científica.»

P – Segundo a doutrina católica, como se produzem os contactos ?

P.G.C – «As mensagens podem chegar-nos, não através das palavras e dos sons, quer dizer, pelos meios normais dos seres humanos, mas através de sinais diversos; por exemplo, pelos sonhos, que às vezes são premonitórios, ou através de impulsos espirituais que penetram em nosso espírito. Impulsos que se podem transformar em visões e em conceitos.»

P – Todos podem ter essas percepções ?

P.G.C – «Aqueles que captam mais frequentemente esses fenómenos são as pessoas sensitivas, isto é, pessoas que têm uma sensibilidade superior em relação a esses sinais ultraterrestres. Eu refiro-me aos clarividentes e aos médiuns. Mas as pessoas normais podem ter algumas percepções extraordinárias, um sinal estranho, uma iluminação repentina. Ao contrário das pessoas sensitivas podem raramente conseguir interpretar o que se passa com elas no seu foro íntimo.»

P – Para interpretar esses fenómenos a Igreja permite-lhes recorrer aos chamados sensitivos e aos médiuns ?

P.G.C – «Sim, a Igreja permite recorrer a essas pessoas particulares, mas com uma grande prudência e em certas condições. Os sensitivos aos quais se pode pedir assistência, devem ser pessoas que levam as suas experiências, mesmo aquelas com técnicas modernas, inspiradas na fé. Se essas últimas forem padres é ainda melhor. A Igreja interdita todos os contactos dos fiéis com aqueles que se comunicam com o Mais Além, praticando a idolatria, a evocação dos mortos, a necromancia, a superstição e o esoterismo; todas as práticas ocultas que incitem à negação de Deus e dos sacramentos»

P – Com que motivações um fiel pode encetar um diálogo com os trespassados ?

P.G.C – «É necessário não se aproximar muito do diálogo com os defuntos, a não ser nas situações de grande necessidade. Alguém que perdeu em circunstâncias trágicas, seu pai ou sua mãe, ou então seu filho, ou ainda seu marido e não se resigna com a ideia do seu desaparecimento, ter um contacto com a alma do caro defunto pode aliviar-lhe o espírito perturbado por esse drama. Pode-se igualmente endereçar aos defuntos se se tem necessidade de resolver um grave problema de vida. Nossos antepassados, em geral, ajudam-nos e nunca nos enviarão mensagens nem contra nós mesmos nem contra Deus.»

P – Que atitudes convém evitar durante contactos mediúnicos ?

P.G.C – «Não se pode brincar com as almas dos trespassados. Não se pode evocá-las por motivos fúteis, para obter por exemplo um nº do Loto. Convém também ter um grande discernimento a respeito dos sinais do Mais Além e não muito enfatizá-los. Arriscar-se-ia a cair na mais suspeita e excessiva credulidade. Antes de mais nada não se pode abordar o fenómeno da mediunidade sem a força da fé.» 

          Na expectativa de um esclarecimento a respeito desse assunto que me intriga, aguardo anciosa uma resposta da parte de V.Sas.

Atenciosamente

Valquíria 

Muito prezada Valquíria, salve Maria.

Tem havido muitas loucuras nas últimas décadas, mas confesso que ao ler os textos que você me manda, atribuidos ao Padre Gino Concetti, fiquei estarrecido. Ainda que ele seja teólogo, e que escreva no Osservatore Romano, as loucuras citadas por ele em sua carta são inacreditáveis. Tão inacreditáveis que se tende a por em dúvida a veracidade delas.Tanto mais que não existe um jornal chamado Ansa. Esse é o nome de uma agência de notícias, e não de um jornal ou revista.

Estando acostumado a ouvir as maiores loucuras dos que hoje se dizem “teólogos” não duvidaria que pudesse existir um tal Frei Gino Concetti, e mesmo que existisse um frade louco, lider de algum novo movimento chamado, por exemplo, Teologia da Libertação Espiritual e Mediúnica.

Mesmo assim, o que se diz que ele afirmou na tal entrevista ultrapassa o crível.

Examiemos o que se lhe atribui.

Frei Gino teria afirmado que ele se baseia no catecismo moderno. Mas ele não dá a página onde o tal “catecismo moderno” registra a loucura que ele cita.

Não achei tal citação no “catecismo moderno”, que suponho ser o novo e moderno Catecismo da Igreja Católica. Nele, não aparecem, no índice remissivo, nenhum termo relacionado com o que diz a entrevista: nem espiritos, nem consulta aos mortos, nem vida ultraterrestre. Nesse ponto, parece pois, que há uma inverdade clara Além disso, há contradições no texto que intrigam.

De um lado, Frei Gino defenderia grosseiramente a consulta aos mortos, coisa condenada nas Sagradas Escrituras como necromancia, e sempre condenada pela Igreja Católica.

Provo-lhe isto com uma citação: “Quando tiveres entrado na terra que o Senhor teu Deus te há de dar, guarda-te de querer imitar as abominações daquelas gentes (…) não consultarás os necromantes, ou advinhos ou indague dos mortos a verdade. Porque o Senhor abomina todas estas coisas e por tais maldades exterminará estes povos à tua entrada” (Deuteronômio, XVIII, 9-13).

O que Frei Gino defende é aquilo que a Sagrada Escritura chama de abominação.

Por outro lado, na entrevista Frei Gino diz, segundo o texto que você me envia: “A Igreja interdita todos os contactos dos fiéis com aqueles que se comunicam com o Mais Além, praticando a idolatria, a evocação dos mortos, a necromancia, a superstição e o esoterismo; todas as práticas ocultas que incitem à negação de Deus e dos sacramentos». A contradição é tão grande — total — que deve-se perguntar, se não houve alguma deturpação de jornalista nessa entrevista, se tudo não é invenção de espíritas, ou então se Frei Gino enlouqueceu.

De toda forma, o que está na entrevista de Frei Gino é totalmente condenado pela doutrina Católica.

Quanto ao texto atribuído a João Paulo II, ele deixa também muitas dúvidas sobre sua autenticidade: não é citada a fonte da citação, mas só o mês em que o “discurso” teria sido feito, o que é muito estranho. Em todo o caso, a frase atribuída ao Papa poderia ser entendida no sentido que, após a morte, através da comunhão dos santos e pelas orações, e missas pelos almas dos falecidos, pode haver uma comunicação de méritos para as almas dos que estão no purgatório. Nunca uma comunicação pela invocação das almas. Guarde desta carta o princípio que deve guiá-la nestes problemas: o que a Igreja e a Sagrada Escritura condenaram como pecado, nunca deixa de ser pecado. Nenhum padre, Bispo ou mesmo Papa pode aprovar o que o próprio Deus condenou. São Paulo ensinou que, se um anjo do céu viesse ensinar algo diferente do que está no Evangelho, deveria esse anjo ser amaldiçoado. (Cfr. Epístola aos Gálatas, I, 8)

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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