Montfort Associação Cultural

26 de janeiro de 2005

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Deus é “AMOR”

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Paula Castro Leite
  • Idade: 25
  • Localizaçao: Belo horizonte – MG – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação em andamento

Se Karls é islâmico e Orlando é católico, ambos acreditam em Deus, eu suponho. E eu Paula, também acredito em Deus, e acredito que a melhor palavra que o representa é AMOR. Se o nome desse deus è Alá ou Santíssima Trindade,ou outro nome que seja, respeitemos aqueles que os ama.E lembrem-se que tanto Jesus como Mohamed queriam que os homens se respeitassem, nenhum deles desejava IMPOR sua religião,essa é uma questão de Deus e o coração de cada um de nós. Que cada homem use seu precioso tempo para descobrir dentro do seu coração o verdadeiro Deus.

Desejo, sinceramente, muito amor e a verdadeira paz para e entre vocês!

Paula

Muito prezada Paula, salve Maria!

Recebi sua carta, na qual você expõe as “suas” idéias sobre Deus e o “AMOR”.

Noto, porém, que “suas” idéias sobre Deus e o a”AMOR” são exatamente as “idéias” de todo o mundo.

Essa unanimidade em repetir o que todo o mundo diz não a leva a desconfiar que você está sendo conduzida a ser uma mera repetidora?

Será que essa repetição mecânica do que “todo mundo diz” não a faz perceber que a estão usando como xerox intelectual ?

Você, como “todo o mundo” passou pela máquina xerox da escola liberal e marxistizada. Pior ainda, passou pela linha de produção da Universidade fabricadora de pensamento estandardizado, da qual saem diplomados “intelectuais” que repetem sempre e só o que ouviram, e que temem sair fora do “modelo”, como se ter coragem de pensar por si mesmo, fosse uma deformação. Os “intelectuais” diplomados tem que ser de acordo como modelo, bem uniformes, bem unânimes. Bem “xerocados”.

O que você apresenta como “sua idéia” a respeito de Deus, é o que se ouve em qualquer sermão, hoje em dia, e, principalmente em qualquer comentário radiofônico ou televisivo, isto é, o que se martelou nas cabeças de iniciados em certas lojas….

Para você, “Se o nome desse deus é Alá ou Santíssima Trindade,ou outro nome que seja, respeitemos aqueles que os ama”.

Para você, então, as palavras não têm importância.

Lamentável ler isso numa carta de uma pessoa que tem curso superior, e está fazendo pós graduação. Se as palavras não têm importância, nada do que você aprendeu ou diz, tem valor, pois só se aprende com palavras, e só ensinamos com palavras.

Minha cara sua tese é auto destruidora.

Acabo de receber, pela Internet, uma entrevista do Cardael Georges Cottier, teólogo do Papa João Paulo II, entrevista da qual extraio uma frase que poderá lhe fazer bem. Porque só viso fazer-lhe bem.

A frase é a seguinte:

“A meu ver, a coisa mais útil é a capacidade de distinguir, que é própria de toda a tradição tomista. A renúncia a reconhecer o que é distinto leva à confusão e acaba até por negar aquilo que no início se queria defender”. (Cardeal Georges Cottier, entrevista a Gianni Valente, in Trenta Giorni, 15 de maio d 2.004. O sublinhado é meu).

Peço-lhe que reflita sobre essa excelente frase do Cardeal Cottier, também porque muito dificilmente ele diz coisas tão boas…

Justamente porque você não faz distinção entre a Santíssima Trindade e Allah, ou qualquer outro nome com que se designe a divindade, você prova ter idéia confusa do que é Deus, e, portanto, prova que não crê em Deus nenhum. Desse modo, você não defende a Deus, mas, por relativizar o sentido da palavra Deus, prega um ateísmo disfarçado em crença.

Aliás, sinceramente lhe digo, essa “sua” idéia me dá indício veemente de que você não sabe nem o que é Deus, nem o que é a Santíssima Trindade, nem o que é pessoa em Deus, nem o que o Corão diz de Allah.

Muito provavelmente você jamais leu o Corão, e que, sobre Maomé, “suas” idéias são o xerox do que se lê num compêndio de História Geral de ginásio, do que diz um professor de História em cursinho, o qual, em meio a piadinhas picantes, ensina a fazer cruzinhas no lugar certo, no vestibular, ou ainda o que repete um locutor marxistóide de uma rádio de poucas letras que retoca as notícias e informações.

E se você com raiva de mim, por dizer-lhe sinceramente o que penso, se você for correndo ler o Corão, para provar que errei em minha suposição, você só provará a você mesma, que acertei supondo que você desconhece o Corão. E sua raiva também provará a você mesma que em seu “AMOR” cabem raivas…

E quer você outra prova de que “suas” idéias são erradas?

Se cada um deve ser deixado sossegado em sua crença sobre Deus, porque você não respeitou a minha concepção de Deus, concepção que, segundo você, eu teria forjado no “íntimo de meu coração”?

Você que prega respeito a todas as formas de crença, não tolerou a minha crença.

Você me diz ainda que a palavra que melhor representa a Deus é o “AMOR”.

E haveria textos bíblicos que confirmariam sua tese, assim como inúmeros teólogos, — desses, que passaram os anos no seminário de mãos dadas com coleginhas — proclamariam que você tem razão.

Só que a palavra “AMOR” — mesmo escrita só com maiúsculas — está muito prostituída, encaixando-se nela uma multidão de sentidos diferentes.

(Ainda ontem, soube eu da expulsão de dois estudantes de teologia, de um grande seminário brasileiro, porque eles foram surpreendidos, na capela do seminário, beijando-se. Eles também se justificariam dizendo que Deus é “AMOR”).

Os esquimós tem um sem número de palavras para designar os vários tipos de neve e gelo.

Nós temos uma só palavra para designar as várias formas de amor.

Como disse recentemente um professor, bem inteligente, em palestra, na USP, essa redução de palavras para designar as multiplas formas de amar, é assustadora, pois indica o triunfo do ódio.

E também no ódio haveria que fazer muitas distinções.

Em suma, minha cara Paula, uma das coisas que distingue um verdadeiro intelectual de um xerox ideológico é a capacidade de fazer distinções apropriadas.

Quando se chama de Deus a qualquer ídolo, o que se está fazendo é relativizar um conceito, como aliás foi feito pelos ecumenistas, no Concílio Vaticano II, cujo resultado foi essa apostasia geral triunfante, hoje, até, nas paróquias católicas.

Esperando que você compreenda que, atacando as fábricas produtoras de “intelectuais” em linha de montagem, eu tenha desejado mais ajudá-la do que criticá-la, — tanto mais que você é mais vitima dessa fábrica do que culpada — me despeço

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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