Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Declaração do Papa à RCC

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: carismático anônimo
  • Localizaçao: – Brasil

Conferência Internacional da Renovação Carismática acontecida na Itália em outubro de 1998.

“Dou graças a meu Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é preconizada a vossa fé.”(Rm1,8). A Renovação Carismática Católica tem ajudado muitos cristãos a redescobrirem a presença e o poder do Espírito Santo em suas vidas, na vida da Igreja e do mundo; e esta redescoberta tem levantado neles uma fé em Cristo cheia de alegria, um grande amor pela Igreja e uma generosa dedicação a sua missão evangelizadora. No ano de 1998 em que dedicamos ao Espírito Santo, eu me uni a vocês no louvor à Deus pelos preciosos frutos que Ele quis trazer à maturidade em suas comunidades e através delas, às Igrejas particulares.
Como líderes da Renovação Carismática Católica, uma de suas primeiras tarefas é a de preservar a identidade das comunidades carismáticas espalhadas pelo mundo inteiro, incentivando-as sempre a manter uma ligação estreita e hierárquica com os bispos e com o Papa. Vocês pertencem a um movimento eclesial; e a palavra “eclesial” implica uma tarefa precisa de formação cristã, envolvendo uma profunda convergência de fé e de vida. A fé entusiástica que dá vida às suas comunidades deve ser acompanhada por uma formação cristã que seja abrangente e fiel ao ensinamento da Igreja. De uma formação sólida surgirá uma espiritualidade profundamente enraizada nas fontes da vida cristã e capaz de responder às perguntas cruciais colocadas pela cultura de nossos dias. Em minha encíclica “Fé e Razão”, faço uma advertência contra o fideismo que não reconhece a importância do trabalho da razão não apenas por compreensão de fé, mas até por um ato de fé em si mesmo. O tema da Conferência, “Deixa o fogo cair de novo!”, lembrou-me as palavras de Cristo. “Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho ei a desejar se ele já está aceso? (Luc 12,49). Quando olhamos para o Grande Jubileu, estas palavras ressoam com toda salva. No limiar do Terceiro Milênio da era cristã, quão grande é o desafio evangélico”: Vai trabalhar hoje na vinha!” (Mt 21,28). Acompanhei a Conferência com as minhas orações, confiando que ela produzirá ricos frutos espirituais para a Renovação Carismática Católica no mundo inteiro.
Que Maria, a noiva do Espírito e Mãe de Cristo, proteja tudo o que vocês fazem em nome de seu filho. Para todos vocês, para suas comunidades e para os que vocês amam, com alegria concedo a minha Benção Apostólica.”
JOÃO PAULO II

Deus concedeu-me a benção de ler esta carta, a qual tirou muitas dúvidas da minha cabeça. Não acredito que seja de mesmo efeito para vocês da associação, porém peço aos senhor, providos de um site tão numericamente visitado que publiquem a declaração feita pelo Papa. Pois com certeza ensine muitos carismáticos a serem carismáticos, talvez ela ensine muitos tradicionalistas a serem respeitosos com relação a fé e o movimento eclesial do proximo.

Fiquem com Deus
Faço questão de não me identificar.

Prezado senhor carismático anônimo.
Salva Maria.

Podemos publicar muito bem esta declaração do Papa João Paulo II. Primeiro, porque ela é do Papa; segundo, porque nela se adverte os carismáticos sobre grandes erros que envenenam esse movimento:
1) a independência da hierarquia.
2) o fideísmo e a auto suficiência.

O discurso – que o senhor nos mandou como se fosse um ato do Magistério pontifício – é um mero discurso de recepção aos participantes de um Congresso Carismático.
Sem dúvida esse discurso mostra que o Papa não condena o movimento carismático. Ele disse mesmo, como era de se esperar, palavras de incentivo aos congressistas.
Mas o núcleo do discurso, e seu objetivo central, foi o de advertir esse movimento contra os seguintes posicionamentos que alarmam a Santa Sé:

1) A independência que os carismáticos assumem face à Hierarquia.
Disse o Papa que uma tarefa essencial de um movimento eclesial é “manter uma ligação estreita e hierárquica com os bispos e com o Papa”.
Por que o Papa fez essa advertência?
Evidentemente, porque um movimento que se presume diretamente guiado pelo Espírito Santo não tem necessidade alguma de se deixar dirigir pelos Bispos, e mesmo pelo Papa.
Essa independência dos carismáticos é constatada em todos os lugares em que existem. Em toda a parte os carismáticos levam vida praticamente independente, recusando muitas vezes obedecer às autoridades e desenvolvendo atividades à margem da vida eclesial.
E isso sempre foi assim, porque na raiz dessa tendência está o protestantismo que deu origem ao carismatismo dos “despertados da Baviera”, por exemplo, que foram condenados pela Igreja.
Contra essa independência é que o Papa falou, temperando sua chamada de atenção com alguns elogios e incentivos.

2) Contra o fideísmo, sempre latente, em todo carismatismo.
Os carismáticos, supondo-se guiados diretamente pelo Espírito Santo, tendem a não se preocupar com a defesa da Fé fundada em argumentos racionais.
Tendem a considerar os fenômenos místicos como sendo universais e iguais para todos.
Ora, é evidente que se assim fosse, ninguém teria que se preocupar em defender a Fé – virtude sobrenatural intelectual, com argumentos de razão.
A fé carismática se transforma mais em uma experiência interior do que numa adesão da inteligência ao que Deus nos revelou e a Igreja nos ensina. Nisso consiste exatamente o fideísmo, erro condenado pela Igreja em muitas oportunidades.
Por exemplo, o Concílio Vaticano I decretou:
“Se alguém disser que a revelação divina não pode tornar-se crível por sinais externos, e que, pela razão, portanto, devem os homens mover-se para a fé somente pela experiência interna de cada um, e pela inspiração privada, seja anátema” (Cfr. Concílio Vaticano I, Denziger, canon 1813.).
E não é porque a maioria dos carismáticos atuais não entenda esse texto de um anatematismo que eles ficam isentos dessa heresia. Podem cair nela, tanto quanto quem não entenda de medicina ou química pode ser contaminado e morto pela ação de um virus do qual ele não entende o modo de atuar.
Por essa razão o papa João Paulo II advertiu os carismáticos: “faço uma advertência contra o fideísmo que não reconhece a importância do trabalho da razão não apenas por compreensão de fé, mas até por um ato de fé em si mesmo”.

3) Tendência à auto suficiência
Os carismáticos , supondo-se agraciados com dons especiais do Espírito Santo, tendem a não se preocupar com a vida sacramental.
Pois se o fim da vida sacramental é a participação na graça de Deus, e sendo o Espírito Santo o doador dessa graça, quem tem o Espírito Santo com certeza tem a graça e não necessita de sacramentos. Sua salvação estaria praticamente garantida. Daí a auto suficiência carismática.

Contra tudo isso o Papa advertiu o movimento carismático.

O senhor, prezado carismático anônimo, certamente argumentará que, embora tudo isso seja verdade, o papa de fato elogiou o carismatismo por seus frutos.
Sem dúvida , o Papa fez esse elogio.
Mas repare que um elogio do Papa, em um discurso meramente protocolar, não tem valor dogmático.
São Pio X, que também foi Papa – e Papa santo como poucos houve – certa feita elogiou o movimento do Sillon. Ora, anos depois, ele condenou energicamente esse movimento por seu igualitarismo e ecumenismo relativista. E no documento de condenação do Sillon (Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique”) São Pio X confessa que foi enganado pelo Sillon.

Logo, o fato de um Papa elogiar um movimento, num mero discurso protocolar, não significa que esse movimento não tenha erros, porque o Papa não é infalível ao fazer discursos meramente protocolares.
De modo que o documento papal que o senhor nos apresenta adverte os carismáticos exatamente sobre os erros de que temos acusado a RCC.
Sentimo-nos confirmados em nosso modo de ver.

Agradecendo sua cooperação, despedimo-nos
in Corde Jesu semper, Orlando Fedeli.

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