Montfort Associação Cultural

10 de novembro de 2011

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De Imitatione Christi: as lições de um acadêmico do século XXI.

 

Antonio Emilio Angueth de Araujo

 

 

Pois é. Eu renovo toda vez minha disposição de não ler prefácios e introduções de obras religiosas antigas editadas pela Vozes, Paulus, Loyola, etc. (Vejam aqui um dos comentários que fiz sobre isso.) Nunca tenho a disciplina para cumprir o meu objetivo inicial. Aconteceu de novo. Comprei Imitação de Cristo com os comentários e orações de São Francisco de Sales, Editora Vozes, 2ª edição, 2011. Herdei um exemplar deste livro de meu pai; Editora Paulinas, 1958, tradução, da década de 1930, de Pe. José Maria Cabral. Comprei a edição moderna pelos comentários do santo.

 

Não li o livro ainda, nem sequer o folheei, porque cometi o erro de ler a Apresentação da obra, de autoria de Faustino Teixeira. O Sr. Faustino, devo dizer Dr. Faustino, é professor da UFJF e está ligado ao PPCIR. Também não sabia o que era PPCIR e olhei no Google: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião. A área do professor é teologia das religiões, diálogo inter-religioso e mística comparada. Suspeito que ele faça parte da linha de pesquisa Religião e Diálogo, que possui os seguintes projetos: Pluralismo e diálogo, Ecumenismo, Buscadores do diálogo, Estudos de mística cristã e islâmica, Religião e laicidade, Religiões e filosofias da Índia. Achei charmosíssimo o projeto “buscadores de diálogo”; que coisa mais moderna, mais século XXI!

Mas, vamos em frente! O que nos diz o Dr. Faustino na sua peça de apresentação do extraordinário livro de Kempis. O leitor fica informado de várias coisas surpreendentes ao ler as três páginas da apresentação. Por exemplo, o doutor nos conta que o livro Imitação de Cristo é obra da Idade Média. Ai, meu Jesus Cristo! Toda vez que leio o que dizem da Idade Média, fico com urticária. Os povos de tal época, segundo Dr. Faustino e “grandes historiadores” que ele cita, cultivavam grandes medos: medo da miséria, do além, do outro, da violência e das catástrofes. Ele nos diz ainda que “a questão da morte dominava as consciências, e junto a ela a consciência da impotência da consciência humana. Como desembaraçar-se de sua terrível situação sem a ajuda de Deus?” O que nos faz responder com um suspiro: é mesmo, como? Mas esses medievais, como eram primitivos esses povos! Nós, por exemplo, não temos mais medo da miséria, do além, do outro, da violência e das catástrofes. Não, nós somos seres do século XXI; onde já se viu? Hoje, temos medos muito mais sofisticados: da AIDS, do aquecimento global, do colesterol, do triglicérides, de comer gordura, de comer açúcar, de não freqüentar uma academia (que hoje, no ilustrado século XXI, significa uma sala com um punhado de aparelhos de ginástica), de fumar, de tomar cerveja, de ser politicamente incorreto, da água do mundo acabar (ela vai evaporar um dia e não vai voltar mais!), das sacolas plásticas de supermercado, de ficar velho e não poder fazer uma cirurgia plástica, de… Mas, medo da morte? Quem tem medo da morte? Hoje, não se fala mais nisso; é assunto proibido. Isso era importante só na Idade Média. Hum, aqueles medievais!

 

Hoje nós temos opções: podemos ser espíritas e acreditar que quando morrermos, vamos para um lugar lindo, uma cidade ou uma fazenda, ficaremos vivendo lá até reencarnarmos de novo. De vez em quando, damos uma fugidinha e visitamos alguns que estão ainda vivos. Podemos ser budistas e teremos o objetivo de, depois de muitas encarnações, entrarmos no Nivarna, que é literalmente NADA. Não teremos o medo da morte e almejaremos o NADA; não é muito mais ilustrado que a atitude medieval de temer a morte? Poderemos nos converter ao Islã e ter um Deus irracional, que nos subjugará para sempre. Hoje temos opções, somos homens do diálogo.

 

Mas, prossigamos, guiados por Dr. Faustino. Ele nos diz que a respostas desses traumas, desses medos medievais foi a busca da interioridade e que a Imitação de Cristo expressa isso. Resumindo: Kempis era um medroso e por isso se recolheu e escreveu o livro.

 

Dr. Faustino ainda nos alerta para uma coisa que ninguém deve ter percebido antes: o acentuado traço cristocêntrico da obra. Uau! É de tirar o fôlego! Então a Imitação de Cristo é uma obra cristocêntrica!? Ele diz: “no Livro II vem reforçada a piedade cristocêntrica…” É incrível.

 

Mas não é só. O doutor nos informa: “a espiritualidade presente na obra Imitação de Cristo é a expressão de uma época, tendo iluminado a dinâmica litúrgica de um tempo que sofreu inúmeras modificações.” Esta frase vem terminada com uma nota de rodapé que nos informa que as orações diversas contidas na edição francesa da obra com os comentários de São Francisco de Sales são mantidas “com o intuito de conservar uma memória, ainda que o seu conteúdo seja próprio de uma época anterior ao Vaticano II.”

 

Bem, vamos por partes. Kempis viveu nos Países Baixos sob a influência de um misticismo proveniente da Alemanha, principalmente de Mestre Eckhart, João Tauler e Henrique Suso. As idéias de Eckhart foram condenadas por João XXII, dois anos após sua morte. Há traços de panteísmo e gnose nas idéias de Eckhart, principalmente sua idéia de uma centelha divina habitando no interior do homem.[1] Será então que é possível afirmar que De Imitatione Christi é caudatária desse caldo cultural. A julgar pelas evidências históricas e pela opinião de grandes historiadores, um dos quais citados pelo Dr. Faustino, isto é exatamente o que esse livro não é. Um dos historiadores citados na apresentação em tela é Johan Huizinga e sua obra O Outono da Idade Média. Vamos ver o que Huizinga tem a dizer do livro (pag. 369-370, Ed. Cosacnaify, 2010).

 

“Porém é desses círculos que provém a obra mais forte e bela dessa época, a Imitatio Christi. Trata-se do homem que não era teólogo nem humanista, não era filósofo nem poeta, e na verdade nem mesmo místico, e que escreveu esse livro, que por séculos haveria de servir de consolo para as almas. Tomás de Kempis, o homem quieto, introvertido, cheio de ternura pelo milagre da missa e com a concepção mais estreita sobre a orientação divina, (…). E o seu livro de sabedoria simples sobre a vida e a morte, endereçado às almas resignadas, transformou-se num livro atemporal. Nele, todo o misticismo neoplatônico fora deixado de lado, baseando-se unicamente na voz do amado mestre Bernardo de Claraval.”

 

Caem por terra algumas coisas ditas pelo Dr. Faustino. Que o livro seja “datado”, pois ele se elevou acima e além de sua época; é atemporal. Que ele esteja numa linha direta com certa “nova espiritualidade” vinda dos Países Baixos. Que há influências agostinianas no livro – Kempis era monge agostiniano. Onde ele vê influências de Santo Agostinho deve-se procurar a influência de São Bernardo de Claraval.

 

Huizinga continua: no livro “tudo é constante e melancólico, tudo é mantido em um tom menor: há somente paz, calma, a espera tranqüila, resignada e a consolação. (…) E mesmo assim as palavras desse homem apartado do mundo, como as de nenhum outro, conseguem nos fortalecer diante da vida.” Que belas palavras que não foram ditas pelo Dr. Faustino!

 

Voltemos ao comentário sobre a espiritualidade do livro de Kempis. Fala-se de espiritualidade como uma expressão de época, não como algo real, verdadeiro enquanto tal; espiritualidade seria algo construído pelo ser humano, diferente em cada época. No caso, esta espiritualidade do livro de Kempis foi uma reação aos medos medievais. Ou seja, a dimensão espiritual do homem é algo criado pelo homem. Mas o melhor de tudo é que as duas primeiras frases da apresentação do Dr. Faustino são: “A Imitação de Cristo é uma das obras mais difundidas da espiritualidade cristã, e sua popularidade é impressionante, só sendo ultrapassada pela Bíblia. É o livro que vem alimentando o mundo cristão há muitos séculos, enquanto expressão da devoção moderna.” Ou bem o livro é uma expressão de uma espiritualidade verdadeira e por isso eterna, ou bem é uma obra datada. Há que se decidir. Huizinga e a história já se decidiram. Falta apenas o Dr. Faustino.

Mas o que dizer da referência ao Concílio Vaticano II; “uma época anterior ao Vaticano II.” Vocês sabem, não é mesmo?, o CVII mudou tudo; antes está a coisa primitiva, depois a modernidade. Antigamente os santos diziam assim: “meu Deus, eu sou um miserável pecador e só vou me salvar se o Senhor tiver misericórdia de mim. Como sou pecador, vou procurar, através de penitências e mortificações, pagar um pouco de minha dívida. Esta é impagável, eu sei, mas aceite, meu Deus, eu suplico, estes pequenos sacrifícios. Vou ainda, com sua graça, procurar imitar seu Filho dileto. Livre-me, eu suplico, do Inferno.” Hoje, depois do CVII, isso é interioridade, é ser cristocêntrico e, sobretudo, é produto de vários medos. Todo católico teme a morte, não porque não exista nada do lado de lá, mas porque do lado de lá existe a Justiça Divina e nunca estamos seguros de nos salvar. Isto é o temor de Deus, que é o pré-requisito de toda a sabedoria, segundo Santo Agostinho. Os medievais temiam a morte porque eram racionais; nós tememos o aquecimento global porque somos irracionais. Escolha logo o seu temor, caro leitor, enquanto é tempo.

 


[1] Para os mais observadores, é interessante um trecho do livro que talvez revele uma possível influência verbal de Eckhart sobre Kempis, que obviamente não mancha a obra com nenhuma suspeita de heresia. Aliás, a publicação desta obra, na maioria das suas edições, possui tanto o IMPRIMATUR, quanto o NIHIL OBSTAT. Por acaso, a edição em tela, não possui nenhuma das duas declarações eclesiásticas. Mas, vamos ao trecho em questão, que se encontra no Livro III, Cap. LV Em latim, temos: Nam modica vis, quæ remansit, est tamquam scintilla quædam latens in cinere. Hæc est ipsa caro naturalis, circumfusa magna caligine, adhuc judicium habens boni et mali, veri falsique distantiam, licet impotens sit adimplere omne quod probat, nec pleno jam lumine veritatis, nec sanitate affectionem suarum potiatur. Em português (Edições Paulinas, trad. Pe. J. Cabral, 1958): Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma centelha (scintilla) coberta de cinzas (cinere). É a mesma razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal, e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso; todavia sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade, nem a pureza dos seus afetos.

 

Publicado na terça-feira, 8 de novembro de 2011 no Blog do Angueth

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