Montfort Associação Cultural

8 de janeiro de 2013

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D. Leone: O Modernismo

Publicamos em tradução Montfort, a partir do site americano Rorate Caeli,  um interessante estudo de Don Pietro Leone Monselice. O brilhante sacerdote que utiliza esse pseudônimo celebra a Missa tridentina em uma diocese italiana e não julga conveniente assinar com seu nome para não “enfrentar um mau tempo com o seu Bispo ou Superior” com o risco de vir a “perder seu apostolado”. É pena, porque ele faz, de fato, observações muito pertinentes sobre o veneno profundo do Modernismo, que consiste não em negar verdades da Fé, mas em negar a própria existência de verdades.  

MODERNISMO

Don Pietro Leone Monselice

Em seu livro “Atanásio”, o Bispo Rudolf Graber, de Regensburg, explica como o Maligno no curso dos tempos tem atacado a Santa Igreja Católica através de formas cada vez mais refinadas, insidiosas e íntimas. Ele começou a atacar os fiéis através das perseguições, mas vendo que essas levavam, ao contrário, a um aumento da Fé, ele adotou outro método: o de atacar a própria Fé.

Com as heresias de Martinho Lutero ele conseguiu retirar um grande número de pessoas da Igreja Católica; com as heresias que compõem o Modernismo, ele tem de fato conseguido atualmente contaminar a Fé de um grande número de pessoas dentro da própria Igreja.

O que é o Modernismo? São Pio X o define em sua encíclica Pascendi como “a síntese de todas as heresias”. O Código de Direito Canônico (CIC. 751) define heresia como: “a negação obstinada, depois de receber o batismo, de uma verdade que se deve crer com Fé divina e Católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela …”

A propósito, o que é definido pelas palavras “uma verdade que deve ser crida com Fé divina e católica” é o Dogma Católico. Nós observamos que o Modernismo, de fato, tem um âmbito mais amplo do que o dogma católico como aqui definido, na medida em que ele se estende a todas as doutrinas tradicionais católicas, mesmo que ainda não tenham sido definidas como dogmas. Em outras palavras, o Modernismo inclui a negação não só de todos os dogmas, mas também de toda a doutrina católica tradicional.

Para os propósitos deste ensaio devemos entender “heresia” em um sentido amplo, como a negação obstinada de qualquer doutrina católica tradicional (ou a dúvida pertinaz a seu respeito).

Primeiramente, vamos apresentar duas características particulares do Modernismo: 1. A ubiquidade, 2. A obscuridade.

 

I – As características do Modernismo

1. A ubiquidade (ou onipresença)

A ubiquidade diz respeito à extensão da heresia.

No passado a Igreja sempre condenou as heresias, e aproveitava a oportunidade para formular suas doutrinas mais profundamente e com mais clareza. Consequentemente, o ramo podre e herético da Igreja era cortado de seu tronco saudável; e o tronco saudável, alimentado por um novo afluxo de luz da Verdade, era capaz de florescer ainda mais gloriosamente do que antes.

Nos últimos 50 anos, por outro lado, as heresias do Modernismo deixaram de ser condenadas, ou se foram condenadas, foram muito raramente, debilmente, e sem sanções. Como resultado, quase que a árvore inteira da Igreja está infestada pelo erro.

Essa infestação se alastra a partir do próprio Magistério, a partir do ensinamento da Igreja: da hierarquia e do clero. Dessa forma o ensino passa a ter um uso ilegítimo do munus docendi confiado à Igreja por Nosso Senhor Jesus Cristo: um uso ilegítimo e, portanto, um uso que também excede a competência daqueles que a exercem: um uso que vem extra vires (uma força externa).

Nesse ponto, observa-se que entendemos o termo ‘Magistério’ como o órgão ou instrumento do munus docendi da Igreja, e podemos distinguir dois sentidos para o termo: um sentido positivo, que se refere ao seu legítimo exercício, e um sentido neutro, que é o sentido em que nós o entenderemos neste ensaio, que se refere ao seu exercício simplesmente, sem especificar se é legítimo ou ilegítimo.  Que o Magistério pode ser exercido de uma forma ilegítima será demonstrado pelos exemplos apresentados a seguir. Isto é óbvio, e só pode ser negado por um ideólogo.

O Modernismo dentro da Igreja é difícil de combater, por várias razões:

2. Obscuridade

A obscuridade diz respeito à comunicação da heresia. A heresia é a negação obstinada, ou dúvida, de um dogma católico. [1].

No passado, a heresia era explícita. Exemplos são as 95 Teses de Martinho Lutero postadas na porta da catedral de Wittenberg. Hoje em dia, por outro lado, no contexto do Modernismo, a heresia é implícita: é indireta, insinuada, sugerida, favorecida pela obscuridade.

Essa obscuridade opera de duas maneiras principais: por silêncio ou por equívoco (ambiguidade). Pelo silêncio uma dada doutrina não é mais ensinada; pelo equívoco se expressa de uma forma que promove a heresia.

Vamos considerar uma de cada vez.

  1. O Silêncio:

Muitas doutrinas são postas de lado, no silêncio, ou seja, aquelas que são consideradas “negativas” como a existência do inferno, o pecado mortal, e a Comunhão sacrílega. Vejamos sobre a Comunhão sacrílega. Essa doutrina quase nunca é ensinada ou pregada mais. Na verdade, a passagem de São Paulo, que a condena, e que aparece no Rito Romano Antigo na Festa de Corpus Christi e na Quinta-feira Santa, foi suprimida no Rito Novo [2].

Claramente esse silêncio, como de fato o silêncio sobre qualquer artigo de doutrina, não é apenas algo neutro: é o fracasso de se realizar um ato, mas algo categórico: um ato verdadeiro, um ato de negação. Porque, se alguém é encarregado de pregar uma doutrina como um princípio moral e não a prega, a única explicação possível é que ele não a considera necessária para a conduta moral e, portanto, para todos os efeitos, ele a nega.

Se um trabalhador notifica o diretor de uma escola que há um cabo elétrico de tensão solto em certa sala de aula, e adverte-o para alertar os alunos a não entrarem por medo de eles serem eletrocutados, mas o diretor omite em avisá-los, o seu silêncio, para todas as intenções e propósitos, equivale a uma negação do fato em questão.

Ao silêncio dos modernistas sobre as doutrinas católicas, podemos aplicar a declaração do Papa Felix III sobre o Patriarca Acácio no século VI: “Erro cui non resistitur approbatur, et veritas quae minime defensatur, opprimitur: o erro que não se opõe, é aprovado, e a verdade que é defendida apenas minimamente, é oprimida”.

  1. O equívoco:

O segundo método de obscurecer a doutrina é o equívoco. Vamos colocar esse equívoco em seu contexto.

Assim para testemunhar a Fé, um católico concorda com o que uma doutrina declara e nega o que ela nega: diz sim ao sim e não ao não, como o próprio Senhor nos ensina (Mt 5,37): “Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa, além disto, vem do maligno”. O herege do passado, pelo contrário, diz sim para o não e não ao sim, enquanto o herege moderno, por meio do equívoco, diz sim e não para o sim e sim e não para o não.

Quanto à epistemologia, pode se dizer que, se a força do dogma está na sua clareza, a força do Modernismo está na sua confusão. A clareza ilumina a mente para aceitar a verdade, enquanto a confusão confunde a mente para aceitar a falsidade.

Vamos em seguida dar três exemplos de equívocos.

i)                    Os fins do Matrimônio [3]. Até bem recentemente, a Santa Igreja Católica ensinava que o fim primário do casamento é a procriação, e o fim secundário a assistência recíproca, ou amor, entre os cônjuges. Ao passo que, no Concílio Vaticano II, no novo Código de Direito Canônico, e no Catecismo da Igreja Católica, e em várias encíclicas recentes, o amor agora é colocado em primeiro lugar e a procriação em segundo (sem, contudo, definir explicitamente o amor como “o objetivo primário”, nem a procriação como “o fim secundário”). Façamos a nós mesmos as seguintes perguntas: era a doutrina do passado verdadeira e a doutrina do presente falsa? Ou era a doutrina do passado falsa e a doutrina do presente verdadeira? Ou era a doutrina do passado verdadeira até então, mas é falsa agora? Ou era a doutrina do passado verdadeira em um sentido e é a doutrina do presente verdadeira em outro sentido? E, neste caso, por que a doutrina do presente tem precedência sobre a do passado? E não se chega à resposta alguma.

ii)                  A Santa Missa: Na versão final do artigo 7 º da Institutio Generalis Missalis Romani (n. 27 na edição de 2000 típica da Instrução Geral do Missal Romano), a introdução oficial do Novus Ordo Missae, a Santa Missa é apresentada nestes termos : “Missa seu Cena dominica …. Memoriale Domini seu sacrificium eucharisticum: a Missa ou Ceia do Senhor [...] Memorial do Senhor ou Sacrifício Eucarístico”. Em outras palavras, a Santa Missa é identificada com a Ceia do Senhor, em primeira instância e com o Memorial do Senhor no segundo. Isso, no entanto, é um equívoco. A Santa Missa é a Ceia do Senhor e o Memorial do Senhor (que é o Calvário) em certo sentido (não essencial), mas apresentando a assim simplesmente sugere que é de fato essencial: o que é uma posição protestante [4]. Em outras palavras, apresentar a Santa Missa em termos carregados de um sentido protestante é apresentá-la em um sentido protestante.

iii)                O Papado: O Professor Romano Amerio, em sua contribuição no Congresso Teológico “Sim, sim, não, não’” “O deslocamento da função do Magistério” cita a seguinte iniciativa expressa em um documento oficial sobre o ecumenismo: “para descobrir uma forma de exercício do papado, que, embora não renunciando a qualquer coisa essencial da sua missão, abre-se a uma nova situação” e ele comenta: “Isso significa: ele não pode ser renunciado, mas ao mesmo tempo pode ser renunciado. É um princípio absoluto, mas não é um princípio absoluto. A infalibilidade do Papa é uma rocha imutável  “mas” … e quando você diz o “mas” a mudança já foi feita”.

c)       A natureza da obscuridade:

Em resumo, temos dado vários exemplos a fim de mostrar como o Modernismo obscurece a doutrina católica: ele obscurece a doutrina católica sobre a Comunhão sacrílega; sobre a ordem dos fins do Matrimônio; sobre a natureza do Sacrifício da Santa Missa, e sobre o primado de Pedro.

No entanto, ele não apenas obscurece essas doutrinas, mas as obscurece em favor da heresia, já que manter o silêncio sobre o sacrilégio é o mesmo que negá-lo, a inversão ao listar as finalidades do matrimônio insinua uma inversão de seu valor; apresentar a Santa Missa em termos protestantes favorece a teologia protestante sobre a Eucaristia; e modificar aquilo que é absoluto é relativizá-lo.

Esse obscurantismo pode ser considerado como uma espécie de eclipse parcial ou total da fé. É parcial quando ele consiste de um equívoco que não equivaleria a uma contradição formal, é total quando submete a doutrina católica ao silêncio, ou quando ele expressa a doutrina em termos contraditórios: uma vez que a negação do princípio da não-contradição a respeito de uma determinada doutrina é a negação da própria possibilidade de sua verdade. O resultado de tal negação é uma Fé sem verdade: a fé determinada meramente por sentimentos e atitudes subjetivas, o que já não é mais Fé.

II – As consequências do Modernismo

Se a heresia do passado é como “uma punhalada” nas palavras do Abbé Dulac, a heresia modernista é como um veneno lento, de tal forma que se pode ir para a cama à noite com a Fé e acordar na manhã sem ela.

O Modernismo age como um veneno lento na medida em que, ao obscurecer um dogma, ele enfraquece a virtude da Fé: isto é, enfraquece a adesão da vontade à verdade revelada. Desta forma o Modernismo dissemina a dúvida sobre todos os dogmas da Fé.

Como resultado, os dogmas são rotulados como “problemas”: “o problema da Ressurreição”, “o problema do pecado original”, “o problema do Inferno”, etc . No entanto, os dogmas da fé não são problemas: ao contrário, eles são verdades sobrenaturais [5]. Eles são problemas apenas para aqueles que negam a Fé.

A Fé se torna um problema, então, e é relegada a um lugar ao lado de outras religiões, ou é tratada como um tema entre uma variedade de outros. Deste modo, a Fé é substituída por “fábulas”: “eles se recusarão a ouvir a verdade e se voltarão para as fábulas”: a veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur  (2 Tim.4.4.).

Os membros da hierarquia e do clero, então, em um exercício ilegítimo de seu munus docendi, dão importância a outras confissões cristãs ou religiões, ou, alternativamente, abandonam em grande medida o ensino da verdadeira Fé em favor de assuntos como a antropologia, a sociologia, a psicologia, ou a política. Abandonando as definições e anátemas, eles em suas declarações oficiais recorrem a uma enxurrada de palavreado intelectualizado e impenetrável e em seus sermões às historinhas e piadas.

O vazio desse ensino, uma vez despojado de sua sofisticação, se manifesta muito claramente na catequese das crianças. Que visões da verdade e da santidade são dadas a elas nos dias puros de sua infância para enraizá-las na Fé e na vida dos sacramentos e das virtudes, e para chamá-las nas horas finais de suas vidas para o abraço da Divina Misericórdia? [6].

Obscurecendo a doutrina, em especial, ao negar o princípio da não-contradição, tem um e ainda mais notável efeito, na medida em que não só obscurece a Fé em sua totalidade, mas também a própria noção de verdade. Porque as Doutrinas Católicas são Verdades, Verdades objetivas. De fato, elas são Verdades absolutas mais certas do que as verdades dos sentidos; e ao afirmar que, ao mesmo tempo e da mesma forma elas podem ser verdadeiras e falsas, é negar a própria possibilidade da Verdade.

Quanto mais alguém se afasta da concepção de verdade e realidade objetivas, mais perto se aproxima daquela verdade e realidade subjetivas. Ao fazê-lo, no entanto, se pega a estrada que leva à loucura, porque a loucura nada mais é do que abraçar a realidade subjetiva.

A ordem da Verdade se rende à ordem do Bem. A Verdade não é mais considerada um guia para o comportamento, mas o “amor”: o amor, no entanto, que não é mais definido pela realidade. Esse amor, na medida em que é racional, manifesta-se no humanismo, um humanismo levemente colorido pelo cristianismo, com uma tendência para o ativismo; na medida em que é emocional, manifesta-se em sentimentalismo e na preocupação excessiva com as sensibilidades dos outros.

Dessa forma o objetivo se rende ao subjetivo, e o rio do Modernismo reflui para o vasto oceano do subjetivismo, de onde ele veio.

[Modernismo: um ensaio de Don Pietro Leone Monselice]

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Notas:

1. Ou, no sentido amplo em que entendemos heresia neste artigo, uma doutrina tradicional católica.

2. Essa é uma referência para a passagem de Coríntios I. 11,23-29 no rito antigo, onde os versos 27-29 foram omitidos no Novo Rito.

3. A Doutrina Católica sobre as finalidades do matrimônio não é um dogma, mas sim uma Certa Sententia, mas como dissemos acima, o Modernismo se estende a todas as doutrinas tradicionais católicas.

4. De acordo com Martinho Lutero a Santa Missa é a “Ceia do Senhor” e uma mera comemoração do Calvário, em contraste com a doutrina católica que ensina que a Santa Missa é essencialmente o Sacrifício do Calvário.

5. Um número deles também são mistérios, mas isso não os torna problemas ou: mistérios são insondáveis para a razão, mas defensáveis por ela.

6. O mérito do Catecismo de São Pio X, que explica com simplicidade e clareza exemplar as doutrinas centrais da fé, que eram memorizadas pelos católicos incontáveis até duas gerações atrás. Nos tempos atuais, que são ainda mais perigosos para as almas do que no passado, as crianças são privadas dessa assistência mais preciosa para a sua salvação.

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