Montfort Associação Cultural

27 de abril de 2006

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Cruz de Caravaca

  • Consulente: Joaquim Messias Marques Da Silva
  • Idade: 32
  • Localizaçao: Brasília – DF – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Professor
  • Religião: Católica

Prezado Sr. Orlando Fedeli
Salve Maria!

Em primeiro lugar, agradeço a resposta do meu e-mail.
Em segundo lugar, comunico o meu contentamento pelo nosso novo papa Bento XVI, que com certeza continuará a obra do nosso querido papa João Paulo II e seus predecessores.

A minha pergunta é sobre a cruz de Caravaca.

Quando eu era adolescente, eu ganhei uma cruz dessa em forma de chaveiro, mas fiquei sabendo que era cruz de “macumba”. Eu a guardei e a esqueci. Acho que ela sumiu e nunca mais me lembrei dessa cruz.

Há poucos dias, porém, em um sebo, eu vi um livrinho de orações sobre essa cruz. Dei uma folheada rápida, e ao que parece, as orações eram crstãs (novena, ladainha, orações diversas).

Fiquei curioso sobre a procedência dessa cruz e dei uma pesquisada na internet e encontrei algumas informações sobre a mesma, mas infelizmente, não em sites católicos, e por isso ainda estou inseguro sobre o assunto

Transcreverei então um texto que encontrei no site http://www.sobrenatural.org/Site/Religiao/caravaca/Introducao.asp

“Caravaca é uma antiga cidade do interior da Espanha. Conta a lenda que o Príncipe Mouro Ibn-Hud conhecido por Muhammad ben Yaquib (os mouros dominavam a região na época) desejava conhecer a fé cristã. Quando soube que um de seus prisioneiro era o pároco Gines Perez Chirinos, ordenou lhe que celebrasse uma missa. Seus servos limparam uma sala do castelo de Alcázar e montaram um altar de acordo com a lista e especificações do sacerdote preso. No dia escolhido para a celebração estavam presentes não só o príncipe mulçumano, mais toda a sua família, seus servos e alguns soldados. Logo de início Perez Chirinos sentiu falta da cruz, por seu esquecimento ela não foi colocada na lista. Apreensivo, teve que explicar a todos que não poderia continuar o rito. Ibn-Hud ficou muito decepcionado e frustrado. Diante desta situação um milagre aconteceu: surgiram pela janela dois anjos que trouxeram uma cruz até o altar.

O Principe Ibn-Hud, sua família e todos os mulçumanos que estavam no local se converteram ao cristianismo. O pároco e os prisioneiros foram libertados.

A Santa Cruz apareceu no Castelo Alcázar de Caravaca em 3 de maio de 1232, desde então a sucessão de inúmeros milagres, fizeram a devoção a Cruz de Caravaca conquistar fiéis no mundo inteiro.

Este poderoso amuleto passou a ser adotada também pelos cruzados, templários e missionários como símbolo de proteção. Esotéricos e bruxos também a usam em seus rituais.

A cruz de Caravaca chegou no Brasil trazida pelos primeiros colonizadores, na esquadra de Martin Afonso de Souza.”

Pergunta: a cruz de Caravaca é verdadeiramente cristã? Um católico pode usá-la como um sacramental? Ou é apenas um amuleto ou talismã pagão usado em feitiçarias?

Aguardo respostas

Muito obrigado e fique com Deus

Prezado Senhor Joaquim, salve Maria!

Um símbolo é uma representação sensível de uma realidade de ordem superior. Todo símbolo, dada a amplitude inerente à analogia, pode prestar-se a interpretações ambivalentes. Assim, a serpente é um animal criado por Deus, e como tal em si mesmo bom, como vemos em Gen, I, 25. No entanto, a serpente pode simbolizar o demônio, pelo seu modo sinuoso e pelo seu veneno, e sob esse aspecto é amaldiçoada em Gen, III, 14. Ainda, a serpente é símbolo de Cristo, e assim benéfica em Num, XXI, 9.

Do mesmo modo, a cruz, instrumento de suplício ignominioso, é para nós cristãos símbolo e penhor de salvação. “Arbor una nobilis”, a mais nobre das árvores, é chamada a cruz na liturgia da Sexta-feira Santa, e saudada como o madeiro do qual pendeu a salvação do mundo.

A cruz de Caravaca, pela forma – com dois braços horizontais – é típica cruz patriarcal, a denotar sua origem oriental. Foi ao que parece, mesmo orginalmente, um relicário cruciforme, contendo um fragmento do verdadeiro lenho – uma relíquia da Santa Cruz de Cristo. É, assim, uma “Vera Cruz”.

A devoção à Santa Cruz de Caravaca, no santuário homônimo em Múrcia, na Espanha, e em toda a Europa, esteve muito difundida nas Idades Média e Moderna. Também a narrativa legendária sobre seu transporte maravilhoso, ligado à conversão do taifa mourisco Ibn Hud, é tradicional. Grandes santos, como Santa Teresa de Ávila prestaram-lhe devoção, estando a cruz que lhe pertenceu num convento carmelita da Bélgica.

Em 1934 a cruz original desapareceu, roubada provavelmente por republicanos anti-católicos, tendo sido posteriormente restaurada com a doação, pelo Papa Pio XII, de dois fragmentos do verdadeiro lenho.

O Papa João Paulo II promulgou um jubileu a ser comemorado a cada sete anos. Sendo assim, sua veneração é perfeitamente regular e ortodoxa.

Maiores informações podem ser encontradas no site: http://www.corazones.org/lugares/espana/caravaca/caravaca.htm

Com a expansão colonial espanhola, a devoção à Cruz de Caravaca espalhou-se por todo o mundo hispânico, constando ainda ainda que chegou ao Brasil trazida por Martim Afonso de Souza. Grandes divulgadores foram os jesuítas, que a levaram à Alemanha e Polônia, e, provavelmente, às Missões Jesuíticas dos sete povos, onde ainda existe – em São Miguel das Missões – um grande exemplar em pedra, ali conhecido como “Cruz Missioneira”.

Acima: Ruínas de São Miguel das MIssões – RS

Ao lado: Detalhe da Cruz Missioneira

No entanto, no contato com povos pagãos, a devoção regular às vezes deturpou-se em sincretismo, com a confusão, em certas culturas, entre o sagrado e o mágico. É o que sucede, também, com a adoção de imagens de santos, no candomblé, para representar orixás dos cultos animistas, o que, evidentemente, nada tem a ver com a devoção católica legítima a esses mesmos santos.

A profanação, sempre pecaminosa, não desautoriza o culto regular, no qual a veneração dos santos, o uso de sacramentais e símbolos sagrados refere-se sempre à verdadeira adoração do Deus önico, como meios de aproximação da compreensão humana dos insondáveis Mistério da Trindade, da Encarnação e da Redenção.

Portanto, a legitimidade da veneração da Cruz de Caravaca e uso das devoções a ela conexas está indissoluvelmente ligada ao culto católico regular. Qualquer emprego desse objeto sagrado como talismã, amuleto, ou como símbolo cabalístico em rituais mágicos de qualquer tipo está, evidentemente, vedado ao católico.

O uso regular de medalhas, imagens, bentinhos, fitas, etc., prende-se à profissão pública da fé católica, e serve primordialmente a estimular no portador a lembrança permanente de seu batismo e adesão à Igreja de Cristo, seu compromisso com a própria salvação e com o Evangelho, e a exortá-lo a emular as virtudes dos santos de sua devoção, que são o exemplo de vida por ele escolhido. Apenas nesse sentido é que eles são capazes de conferir-lhe proteção contra o Maligno, e não por qualquer “poder” que eles tenham em si mesmos.

Mesmo no caso de relíquias de venerável devoção – como é o caso do próprio Santo Lenho –, de objetos associados com uma promessa de graças especiais – como o Escapulário e a Medalha Milagrosa -, ou de locais, águas ou imagens com inegável histórico de incontáveis milagres – como é que sucede principalmente com centros marianos tais como Fátima, Lourdes, Guadalupe, Aparecida e outros -, deve-se entender sempre que tais suportes materiais são meros canais de manifestação da Graça Divina, manancial inesgotável cuja operatividade está na estrita dependência da disposição interior do seu destinatário.

Vitor Peregrino

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