Montfort Associação Cultural

26 de janeiro de 2005

Download PDF

Cristo “tolerante”

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Moisés Oliveira
  • Idade: 24
  • Localizaçao: Salvador – BA – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: economista
  • Religião: Católica

Caro Sr. Orlando,

Estou escrevendo pela segunda vez pois acho que ainda não esclareci algumas coisas. Bem, sou economista e estou fazendo dicernimento vocacional na Companhia de Jesus e por isso nos últimos meses venho lendo tudo oq cai nas minha mãos especialmente a respeito da História da Igreja. Encontrei esse site e venho lendo seus estudos, respostas e todo seu conteúdo. Realmente ele se demonstra muito educativo e de grande ajuda para aqueles que desejam conhecer melhor a Igreja. Porém venho lendo também todas as críticas que tanto o Sr. faz como recebe, não venho aqui discutir questões históricas, interpretações bíblicas ou qualquer assunto parecido até pq me considero no princípio do caminho e não possuo conhecimento teórico ainda para isso.

Minhas dúvidas advem do fato que para mim Jesus sempre pregou o entendimento e a humildade e mesmo que senhor tenha a melhor das intenções suas declarações por diversas vezes tem como o objetivo tentar colocar uma verdade única e que muitas vezes se quer é a verdade da Igreja. Digo isso pq não entendo como o senhor que defende sobre maneira a autoridade do Papa, da qual eu também sou adepto, não concorde com as decisões de um Concílio. Quando o senhor se levanta contra as decisões de um concílio não estaria indo de encontro as decisões da Igreja? Até porque o senhor mesmo fala aqui que os ensinamentos da Igreja devem ser aprendidos e seguidos e não discutidos.

Esse site acredito que realmente tem a melhor das intenções de fortalecer a Igreja e pregar os ensinamentos de Jesus, mas por muitas vezes parece que para o senhor a Igreja em si é mais importante que a figura de Jesus e o que ele pregou. Jesus pregava fazer o bem e amar a todos, não acho que va de encontro a ele aqueles que exploram as diversas formas de ajudar aos mais necessitados como a Canção Nova e a Renovação Carismatica.

O catecismo da Igreja é sem duvida importante, mas mais que isso é o exemplo de Jesus, o exemplo de aceitação e de compreensão. A Igreja Católica é grande e forte justamente por ser um porto seguro para as mais diversas vocações, não impotando de onde venham.

Também gosto da missa com cantos gregorianos, não faço parte da Renovação Carismatica por não gostar muitas vezes daquela atmosfera muito adrenalizada, prefiro uma missa mais calma mas nem por isso me acho no direito de achar que oq vem de la não presta so pelo fato de ter se originado em outra crença. O trabalho social que eles fazem é inegável e isso é que importa, Deus se satisfaz com isso.

Sabe senhor admiro seus conhecimentos e espero um dia chegar a esse nível mas também espero manter meu corção aberto a todos aqueles que praticam o bem.

Gostaria muito de receber sua resposta desde de que venha da mesma forma repeitosa e educada desse comentário que lhe envio. Digo isso porque algumas vezes o senhor responde com uma certa ironia e arrogancia a alguns comentários que não compactuam de suas ideias.

Peço também que os textos na parte de Ciência e Fé sejam escritos de uma forma mais clara e com menos retórica, acho que é outra pessoa ate que os escreve.

De qualquer forma agradeço pela oportunidade de discutir essas questões ja que só assim chegaremos a um entendimento e a uma Igreja Católica mais forte pois acredito que essa seja a vontade de Deus.

Grato

Moisés Oliveira

Muito prezado Moisés, salve Maria!

Deixe-me, primeiramente agradecer-lhe o reconhecimento da boa intenção do site Montfort ao defender a Igreja Católica, embora o senhor faça objeções ao modo como eu realizo essa boa intenção.

Porém, antes de responder às suas críticas a meu estilo e à minha pessoa, creio que é bem mais importante elucidar suas objeções de fundo doutrinário. Aliás, parece-me que elas são frutos de uma visão um tanto romântica de Nosso Senhor, que o deixa incapaz de entender meu estilo e o modo de combater do site Montfort. Essa mesma visão explica certas contestações de fundo liberal àquilo que defendo, e que é sempre o que ensina a Igreja, pois qualquer idéia pessoal minha não tem qualquer importância.

Vamos então, inicialmente, analisar o seu sentimentalismo romântico.

Não se assuste, peço-lhe, com a qualificação de romântica para a visão que o senhor tem de Nosso Senhor.

Hoje, quase todo o mundo, queira ou não, é deformado por essa visão romântica do mundo. A cosmovisão romântica triunfou e domina a sociedade em que vivemos, e nós todos a absorvemos como que pelos poros, infelizmente.

Cito algumas afirmações suas, a respeito de Nosso Senhor, que demonstram essa influência sentimental:

1 - “Jesus sempre pregou o entendimento e a humildade”.

2 - “O catecismo da Igreja é sem duvida importante, mas mais que isso é o exemplo de Jesus, o exemplo de aceitação e de compreensão”.

3 - “Jesus pregava fazer o bem e amar a todos, não acho que va de encontro a ele aqueles que exploram as diversas formas de ajudar aos mais necessitados como a Canção Nova e a Renovação Carismatica”.

Na frase número um, tenho que discordar da tese de que Jesus sempre pregou o “entendimento”.

Foi justamente o contrário que Jesus fez em muitas oportunidades.

Ele não admitiu que nem um til fosse tirado da lei. Ele não buscou acordo com os fariseus, mas os amaldiçoou claramente.

Um dia, tendo sido convidado a comer na casa de um fariseu, durante o almoço Cristo chamou os fariseus — grupo a que pertencia o dono da casa que o convidara a comer — de “néscios” e “malditos” (Luc XI, 40 e 42-43 e 44).

E quando um Doutor da Lei, presente nesse banquete, protestou contra o que Cristo dizia da hipocrisia dos escribas e fariseus, chamando-os de néscios, hipócritas e de malditos, dizendo: “Mestre, falando assim ofendes também a nós, (doutores da lei)” (Luc, XI, 45), Jesus Cristo não buscou fazer um”entendimento” com eles, mas sem temor, e sem acomodações “diplomáticas”, amaldiçoou também os Doutores a lei , bradando contra eles: “Malditos também vós, Doutores da lei” (Luc XI, 45).

Você vê, meu caro Moisés, que estava bem longe de Nosso Senhor a tática e o método de fazer acomodações e de buscar “entendimento” com todos.

E quando Ele entrou no Templo, fez um chicote com uma corda e fustigou os vendilhões e derrubou suas mesas.

Ele não dialogou com eles. Não estabeleceu uma Comissão Apostólica para o diálogo com os vendilhões ou com os Fariseus. Amaldiçoou e chicoteou. Meu caro Moisés, peço-lhe que não feche seus olhos a essas cenas evangélicas tão esquecidas pela mentalidade sentimental moderna.

E Jesus nos disse:

“Não julgueis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada e a divisão” (Mt. X, 34).

Então meu caro Moisés, poderia você me citar uma frase de Cristo que diga: ” Eu quero que busqueis o entendimento”?

Tal recomendação não existe no Evangelho.

É verdade que Nosso Senhor mandou amar os inimigos, mas não entender-se com eles, aceitando os seus erros.

E Nosso Senhor nos disse: “Quem não está comigo, está contra Mim” (Mt.XII, 30).

Nosso Senhor não mandou os seus discípulos — suas ovelhas — fazerem “entendimento” com os lobos. Pelo contrário: preveniu-os contra os lobos.

E São Paulo nos recomenda: “Não vos conformeis com este mundo” (Rom XII, 2). O que quer dizer: Não entreis em entendimento com o mundo. E Jesus não confiava em seus inimigos e nem no homem, genericamente falando. Veja o que está escrito no Evangelho de São João:

“Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no coração do homem” (Jo. II, 24).

Perdoe-me dar-lhe tantas citações do Evangelho, mas elas são fundamentais para destruir em você, e em tantos outros, essa crença falsa de que “Jesus pregou sempre o entendimento”. Isso é falso.

Jesus não pregou sempre o entendimento. Você me diz que está se preparando com os Jesuítas. Os Jesuítas são a Companhia de Jesus, isto é o batalhão combatente de Cristo. Os Jesuítas são, por excelência, a Ordem religiosa militante, combatente. Jesuítas pelo “entendimento” levaram a Companhia exatamente ao desastre em que ela está hoje: na própria Espanha, berço da Companhia, há apenas 701 jesuítas, com idade em média próxima dos 68 anos. Isto é, a Companhia de Jesus agoniza. Fazendo “entendimentos”.

***

É claro que Cristo pregou a humildade. Resta saber o que é humildade.

Humilde, hoje, é o tolo, o murcho que não reage. Ora, a humildade consiste na verdade, isto é, em atribuir a Deus todo o bem que temos, e a reconhecer nos outros os bens que receberam de Deus. A humildade exige que reconheçamos nossas limitações e nossos pecados.

Mas a humildade não consiste na mentira, na capitulação, no renunciar à verdade, no renunciar a defender os direitos de Deus.

A humildade exige que busquemos a maior glória de Deus, e não a nossa.

“Ad majorem Dei gloriam”.

Por isso, a humildade manda defender, ainda que com nossa humilhação, ainda que contra o mundo inteiro, ainda que ninguém nos compreenda, a glória de Deus, a glória da Igreja.

Você note, rogo-lhe, que não o ataquei pessoalmente. Não o desprezei.

Mas não respeitei o seu erro.

Combater o erro de alguém é fazer-lhe caridade, assim como combater um câncer num doente é querer salvar-lhe a vida. Ensinar os que erram é caridade. É obra de misericórdia espiritual, ensinar o catecismo. E as obras de misericórdia espirituais são superiores às materiais.

Vale mais ensinar a verdade e combater um erro, do que dar comida a um faminto, porque a fome de verdade é mais nobre e superior à fome estomacal.

A verdade é bem superior a um hambúrguer.

***

Estando esclarecido o erro da primeira frase sua, que citei, passemos à segunda.

2 – “O catecismo da Igreja é sem duvida importante, mas mais que isso é o exemplo de Jesus, o exemplo de aceitação e de compreensão”.

Considerar o exemplo de Jesus de “aceitação e de compreensão”? Perdoe-me, mas atrevo-me a lhe perguntar: “Aceitação” de que?

Compreensão” de que?

Jesus não aceitou nem o farisaísmo, nem o saduceísmo, nem o paganismo.

O que Ele aceitou fora do que lhe ordenou Deus Pai?

Jesus só aceitou o que o Pai lhe ordenou que cumprisse. Ele só pregou a verdade sem nenhuma conciliação, sem nenhum compromisso. Sem nenhuma “diplomacia”, falando francamente e duramente a quem devia falar assim. Falando com misericórdia e com doçura aos pecadores arrependidos.

Ele perdoou a mulher adúltera, mas lhe disse: “Vai e não peques mais”. Ele não aceitou o adultério. Ele não teve “compreensão” e tolerância com o pecado. Só foi misericordioso com o castigo.

E no Juízo Final, meu caro Moisés, Jesus fará algum “entendimento”?

Aceitará alguma “negociação”?

Aceitação, compreensão, são palavras que soam como conciliação, como concessão, como capitulação, como afrouxamento.

Ora, nem a verdade, nem a lei podem ser amaciadas, amolecidas, desfibradas.

Cristo é infinitamente misericordioso.

Mas isso não o torna semelhante a um pai ou a um professor tolerante e mole. Além de infinitamente misericordioso, Ele é infinitamente justo, e terminou a sua vida na Cruz dizendo: “Tudo está consumado”.

Sem “abatimentos”, sem concessão nenhuma ao mal e ao erro.

***

Passo ao exame da terceira frase sua que citei acima:

3 – “Jesus pregava fazer o bem e amar a todos, não acho que va de encontro a ele aqueles que exploram as diversas formas de ajudar aos mais necessitados como a Canção Nova e a Renovação Carismatica”.“O trabalho social que eles fazem é inegável e isso é que importa, Deus se satisfaz com isso”.

Sem dúvida, Jesus nos mandou fazer o bem a todos. E minha afirmação de que a verdade é bem superior a qualquer outro bem material, vem agora a propósito. Cristo não organizou os Apóstolos em Agência de Assistência aos necessitados. Ele não deu ordem aos Apóstolos: “Ide e alimentai os famintos”. Ele lhes ordenou, antes de tudo: “Ide e ensinai”.

Certamente, ele teve pena da multidão faminta, que o seguia há três dias para aprender a boa doutrina do Divino Mestre. Ele, durante três dias, não multiplicou os pães e peixes, exatamente para nos ensinar que é melhor passar fome com a verdade do que ficar empanturrado com a mentira, ou ignorante da verdade.

Que adianta ter barriga cheia e ser ignorante da verdade?

Que adianta estar bem alimentado e bem enganado?

Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse:

“Que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt. XVI, 26).

Claro que a caridade material é excelente e necessária. Mas é um erro bem grave, e bem comum, hoje, considerar que fazer o bem é fazer “assistência social”. Hoje, procura-se fazer apenas “assistência social”, enquanto as almas perecem pela fome da verdade, que praticamente ninguém sacia. O mundo tem mais fome da Verdade do que fome de pão. E é bem mais miserável aquele que ignora a Jesus do que quem não tem o que comer.

Conheci o dito de um certo Padre, muito rico, que dizia: “Nos seminários, em vez de ensinar Teologia, devia-se ensinar contabilidade”.

É claro que esse Padre se preocupava mais como dízimo do que com a virtude e com a ortodoxia de seus paroquianos. Era um pastor que se preocupava mais em tosquiar as suas ovelhas do que em salvá-las. Hoje, desgraçadamente, ninguém conhece o catecismo, e há teólogos que ignoram os mandamentos. Os sermões dominicais que tratam mais de política e de economia do que de religião provam que se desconhece o que é a Verdade e qual é a sua importância.

Em certas paróquias mais se faz filantropia do que caridade verdadeira, de tal modo que elas se parecem mais com a loja “Tolerância e Amor” do que com uma igreja católica.

É claro, repito, que se deve fazer também a caridade material. Desde que não se a coloque acima, ou antes, da caridade espiritual. Repare, meu caro Moisés, que Jesus primeiro ensinou três dias aquela multidão, e só depois multiplicou cinco pães e dois peixes (na primeira multiplicação dos pães.– Mt.XIV, 1321).

E por que cinco pães e dois peixes?

Era o que tinham os Apóstolos. Era o que tinham os judeus.

Com cinco pães e com dois peixes eram alimentados os judeus.

E já que “nem só de pão vive o homem” (Mt. IV,4) — ao contrário do que diz a Teologia da Libertação, hoje — veja como São Jerônimo, que era um polemista bem violento, explica esses números:

Cinco eram os livros de Moisés, que alimentavam as almas dos judeus, como o maná que caía do céu. E a Torah era completada por duas outras partes: os Salmos e s Profetas. Ora, Cristo não veio abolir a lei, mas cumpri-la. Ele veio realizar plenamente o que cantaram os Salmos e o que profetizaram os Profetas. Ele veio aperfeiçoar a Lei, tornar claras as verdades dos salmos e realizar as profecias. Por isso ele multiplicou os cinco pães — a Lei — e os dois peixes (salmos e Profecias). Até alimentando fisicamente o povo, Jesus ensinava.

Evidentemente, é claro o significado eucarístico da multiplicação dos pães, do qual não trato, pois importa mais, agora, explicar-lhe a superioridade da verdade sobre o alimento.

E você me fala do bem material feito pela chamada Canção Nova e da RCC.

Que vale o bem material feito aos estômagos, se esses movimentos não dão a verdade ao povo?

Padre Jonas Abib, em seus livrecos, envenena as almas com erros bem graves. E a RCC é fruto da arvore má do protestantismo mais fanático. Daí os seus delírios que você chama de “adrenalizados”.

E como pode a árvore má dar bom fruto?

Teria Cristo mentido, quando nos preveniu contra os frutos da árvore má?

E se seu argumento fosse admissível, você teria que aceitar também a filantropia dos espíritas e das lojas maçônicas que ajudam os pobres materialmente, “por amor ao homem”. Peço-lhe que leia o quadro de São Tomás sobre amor e ódio, absolutos e relativos, que expliquei em carta a um leitor do site Montfort.

Depois disso, espero que não seja preciso analisar a sua conclusão de que é o “O trabalho social que eles fazem é inegável e isso é que importa, Deus se satisfaz com isso”. Deus não se satisfaz com o trabalho social coisa nenhuma. E não é o trabalho social o que importa. Isso é programa do Lyons Club.

Nunca da Igreja Católica.

O que importa, para Deus, é, acima de tudo, a busca da glória de Deus, pela aceitação da Fé e prática das boas obras por amor de Deus, e não do homem. O que importa, acima de tudo, é salvação das almas, e não “buxo cheio”, como diz nosso metalúrgico Presidente.

***

Examinadas as frases que deixam patente sua visão romântica, sentimental, e bem naturalista, de um Cristo “tolerante”, “compreensivo”, pronto a fazer “entendimentos”, um Cristo um tanto filantrópico, passo a examinar, agora, outras objeções suas.

E a primeira trata de uma pseudocontradição minha entre obediência irrestrita ao Papa e crítica ao Concílio Vaticano II.

O Papa é o Vigário de Cristo na Terra, a fonte da Verdade. Foi a Pedro e a seus sucessores que Cristo confiou a Igreja, e ninguém pode julgar o Papa, e todos lhe devem acatamento na Fé e obediência na lei. E nessa Fé e nessa lei quero viver e morrer.

O Magistério papal pode ser:

1 – Magistério Extraordinário — ou ex cathedra – e aí ele é sempre infalível, ou

2 – Magistério Ordinário . Neste caso, embora ele sempre mereça acatamento e respeito, nem sempre o Magistério Ordinário é infalível. Ele será infalível, quando tratar de temas universais de Fé e de Moral repetindo o que sempre a Igreja ensinou. Caso contrário, será Magistério ordinário não infalível, merecendo, todavia, todo respeito, mas não fé divina e católica que é exigida para o Magistério infalível.

Quando um Papa trata de política, de casos concretos etc, ele pode errar.

O papa não é infalível até quando ele espirra.

Ainda no Pontificado de João Paulo II temos um exemplo claro disso: o Papa João Paulo II, em carta aos bispos da CNBB, em abril de 1986, declarou que a Teologia da Libertação era “útil, necessária e oportuna”. Depois, ele fez condenar a Teologia da Libertação, graças a Deus. Quando ele havia sido infalível, no elogio ou na condenação da teologia da Libertação?

O Vaticano II recusou ensinar qualquer coisa infalivelmente. João XXIII e Paulo IV o declararam um Concilio Pastoral e não infalível.

Disse Paulo VI:

“Há quem se pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quis atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de março de 1964, confirmada a 16 de novembro desse mesmo ano: dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do supremo Magistério ordinário” (Paulo VI, Discurso a Audiência Geral em 12 de janeiro de 1966. O itálico é do original reproduzido em Compêndio do Vaticano II — Constituições- Decretos- Declarações, editora Vozes, Petrópolis, 1968, 14a edição, p. 31).

Portanto, meu caro Moisés, não há contradição nenhuma na aceitação irrestrita da autoridade do Papa, e a crítica a um Concílio pastoral que um Papa, Paulo VI, declarou, em Magistério oficial Ordinário, que era um Concílio não infalível, que nada decretou como dogma. E se o senhor aceita a autoridade do Papa, tem que aceitar também esse pronunciamento do Papa Paulo VI, negando que o Vaticano II seja infalível e dogmático.

Foi Paulo VI quem disse: “dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade”.

Eu só repito o que disse Paulo VI sobre o Vaticano II, tirando as conseqüências do que ele disse.

***

O senhor me objeta ainda: “para o senhor a Igreja em si é mais importante que a figura de Jesus”. Meu caro Moisés, Cristo é Deus. É Deus feito homem, no seio de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo.

A Igreja é a esposa de Cristo. A Igreja Una e Santa é o Corpo místico de Cristo. Ela não é Deus. Somos gerados Filhos adotivos de Deus por Cristo e pela Igreja.

Não existe oposição — e nem pode haver oposição — entre Cristo e a Igreja. E o Papa, chefe da Igreja, é o doce Cristo na terra, como dizia Santa Catarina de Siena.

Separar-se de Cristo é separar-se da Igreja. Separar-se da Igreja é separar-se de Cristo.

***

O problema da Missa não é o de ser calma ou “adrenalizada”. O problema é de doutrina. E é de respeito.

O Padre Maurice Zundel, amigo de Paulo VI, chamava a Hóstia consagrada de ídolo, e de faraó. Dizia ele que o padre, ao consagrar, não transubstancia a hóstia no Corpo de Cristo, e em o vinho no Sangue de Cristo, mas que transubstancia a comunidade e o mundo em Cristo.

E isso é herético.

Sobre as missas “adrenalizadas, — as missas show — o Papa João Paulo II anunciou que se fariam Decretos romanos contra elas. Mas os modernistas têm conseguido transformar a promessa do Papa em uma encíclica em palavras sem efeito. O que é gravíssimo.É assim a obediência dos dogmatizadores do Vaticano II. Depois de desobedecerem frontalmente ao Papa, alguns há que exigem obediência absoluta a si mesmos.

Ainda há pouco, o Cardeal Ratzinger editou um livro, no qual condena as Missas-show, que o senhor chama de “adrenalizadas”.

[O senhor deve ter tido notícia de que o Padre Marcelo Rossi, - maior one man show de Missas da RCC -- realizou agora o Carnaval de Jesus... Só falta fazer o inferninho de Jesus. Se o senhor me permite a ironia, que não é contra o senhor. E o carnaval de Jesus merece mais do que ironia. ].

***

Finalmente, passo a examinar suas criticas e objeções contra mim, e contra meu estilo.

O senhor me pede que o trate com respeito e sem ironias. Pois, o senhor tem nesta minha resposta respeitosa para com o senhor, uma prova de que a ironia eu a reservo para aqueles que atacam a Igreja e a sua doutrina. Reservo-a para aqueles que me atacam injuriosamente.

Este é um site de combate em defesa da Fé. E combates se fazem com armas. Não com flores. Num combate apologético, as armas são os argumentos e a arte de esgrimir manda que se usem os argumentos, como os vários tipos de armas brancas, de modos diversos.

Desafiado pelos inimigos da Igreja, deixo a eles a escolha das “armas” e o modo de combater. Se atacam a tacape, respondo-lhes a tacape. Se atacam a florete, a resposta é a florete. Se a sabre, o combate será a sabre. Machado, a machado se combate.

A ironia é uma espada afiada e bem cortante. Os inimigos de Deus sempre a usaram contra os católicos, que não ousavam combater senão com flores e cortesias, supondo erradamente que a ironia seria contra a caridade.

Nada mais falso. Basta ler as polêmicas dos grandes santos e Doutores da Igreja para ver como — a exemplo de Cristo contra os fariseus — eles atacavam rijamente os inimigos de Deus e da Fé.

[Ainda há pouco, tive que interromper esta resposta para atender um telefonema de um Neo Catecumenal que me ameaçava de interdição do site Montfort, e que caridosamente me disse que sou "horrível e louco". É claro que esse neo catecumenal quer proibir que eu fale ou escreva, e isso em nome do ecumenismo, da liberdade de religião, da democracia. É claro que ele muito provavelmente, como católico liberal, é contra a Inquisição e se afirma contra Stalin... Para ele, sim, caberiam as ironias].

E é impossível que o senhor, tendo lido muito o site Montfort, não tenha encontrado cartas em que trato as pessoas até com carinho. É impossível que não tenha visto cartas de insultadores de minha pessoa que me pedem desculpas e que se tornam, graças a Deus, até meus amigos.

Mais que isso. Muitas conversões de protestantes houve, ocasionadas, graças a Deus, pelas polêmicas que tive, defendendo a honra de Nossa Senhora, como aquela contra o pastor Saul da Lagoinha. E vários sacerdotes me deram parabéns pelo ardor de minhas polêmicas, havendo até um que me aconselhou a usar sempre a ironia conta os inimigos de Deus.

Mas se o senhor tiver um exemplo em que pretendi impor um a opinião minha como verdade absoluta, aponte-me o caso concreto, que me retratarei com certeza, porque minhas opiniões não têm nenhum valor. A única coisa que almejo é defender o que a Igreja sempre ensinou, nunca o que eu penso por mim mesmo.

Esperando tê-lo atendido sem ter-lhe feito nenhuma ofensa ou falta de respeito para com sua pessoa, esperando, — quem sabe? — tornar-me seu amigo, me despeço

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

TAGS

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais