Montfort Associação Cultural

24 de janeiro de 2005

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Conversão na hora da morte

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Ricardo
  • Idade: 38
  • Localizaçao: Porto Alegre – RS – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Caro Senhor Fedeli: Por pura curiosidade li todas as perguntas e respostas onde o senhor trava, com muita habilidade, discussões “eletrônicas” com leitores, que mais ou menos furiosamente, tentam defender o Espiritismo e, de quebra, solapar a sua crença nos preceitos católicos. Mas no tocante ao artigo acima mencionado, me chama a atenção quando o senhor afirma que: “Tomara que esse tal de Chico Xavier se tenha arrependido de tanto mal que fez, antes de morrer, e possa assim ter se salvado. Mas, objetivamente falando, ele fez o mal, e não o bem.”
Baseado nesta afirmação e levando em conta o espírito crítico, que acredito, deve nortear nossa busca pelo conhecimento, eu pergunto:

1) O senhor acredita realmente que o simples fato de que um grande pecador se arrependa na hora de sua morte é suficiente para salvá-lo da condenação ao inferno, mesmo que ele tenha causado muito mal?

2) Seria este expediente justo para com aquele pecador que, tendo causado males, por um infortúnio, morreu subitamente e não teve tempo de se arrepender, restando apenas a opção de tomar o caminho das masmorras demoníacas?

3) Como se aplicaria a Sabedoria Divina neste caso?

Agradeço se o senhor puder me ajudar nesta dúvida.

Um Abraço Fraterno

Ricardo

Muito prezado Professor Ricardo, salve Maria!

Sim, acredito que um ato sincero de arrependimento possa obter de Deus o perdão total. E acredito nisso, porque Cristo e a Igreja Católica ensinam tal coisa. Meu caro professor, o senhor com certeza deve se lembrar de que, na Cruz, Cristo era ofendido por um dos ladrões, que, com isso, visava agradar aos judeus, e assim talvez salvar a sua vida. Ele perdeu a vida e a alma. O outro ladrão, pelo contrário, disse:

“Nem tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? Nós estamos, na verdade, justamente, porque recebemos o que merecem as nossas ações, enquanto este não fez nenhum mal.

E dizia a Jesus:

“Senhor, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.”

Jesus disse-lhe:

“Em. verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso” (MT XXIII,40-43).

Esse ladrão foi perdoado por Cristo Deus, na hora da morte, porque reconheceu a Divindade de Cristo, já que o chamou de Senhor, reconheceu os seus pecados e a justiça de sua punição.

Na História há inúmeros casos do mesmo tipo.

Por isso a Igreja canta no “Dies irae”:

 ”Qui Mariam absolvisti,               (Tu, que absolveste Maria Madalena,
et latronem exaudisti,                  e atendeste ao ladrão
mihi quoque spem dedisti”           a mim também deste esperança).

Sim, caro Professor Ricardo, a misericórdia de Deus é infinita, e por isso tenho esperança, eu também, de que Ele me perdoará meus inúmeros pecados.

Mais. Creio que muitíssimas pessoas que vivem mal, se arrependem no último momento, e são salvas pela bondade infinita de Deus, que quer a salvação do pecador e não a sua punição.

É claro que muitos abusam dessa misericórdia infinita, e adiam o seu arrependimento. Desses é de temer que se percam.

Mesmo assim, em minha vida — que se aproxima do fim — vi inúmeros pecadores se arrependerem, na hora da morte.

Confiemos, pois, na infinita misericórdia de Deus, sem jamais abusar dela, e entreguemo-nos a Nossa Senhora que é nossa Mãe de Misericórdia.

Gosto muito, por isso, de uma canção de São Luís de Montfort, padroeiro da Associação, que tenho a honra de presidir, e que canta:

“Vous êtes, o Vierge Mère,          ( Vós sois, ó Virgem Mãe,
après Dieu, mon suport.               depois de Deus, o meu apoio.
“Je sais qu´Il est mon Pére,          Eu sei que Ele é meu Pai,
mais vous êtes montfort”.              mas vós sois meu forte”)

(Perdoe-me traduzir essa estrofe, mas o faço, pelos demais leitores, que não conhecem francês. E de propósito copiei errado mon fort = meu forte, colocando montfort, nome de São Luís, tornando claro o trocadilho pelo qual São Luís exprimiu sua união com Nossa Senhora).

Quanto à questão do tempo do arrependimento, deve-se levar em conta que Deus está fora do tempo, e que, por isso, Ele pode dar ao pecador graças extraordinárias, no próprio momento da morte. Conto-lhe, para que compreenda isso, um caso que aconteceu com o Santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, no século XIX.

Esse santo, atendia as pessoas, no confessionário, 20 horas por dia. Sua fama de santidade era tal que a fila, para falar ou se confessar com ele, era longuíssima, as pessoas tendo que aguardar sua vez, durante muitos dias.

Nessa fila imensa, certa vez, havia uma senhora aflitíssima. Em dado momento, São João Maria Vianey saiu do confessionário e, indo até ela, lhe disse: “Confia filha, entre a ponte e o rio, seu marido se converteu”. Essa Senhora estava aflita, porque seu marido se matara, jogando-se num rio. Mesmo nesse momento fugidio, Deus o salvou.

Finalmente o senhor me pergunta como se aplica, então, a Sabedoria de Deus nesse encontro da misericórdia e da justiça infinitas?

Respondo-lhe com São Tomás de Aquino, que explica que a misericórdia e a justiça são virtudes irmãs. Uma não pode existir sem a outra. Elas são como dois arcos góticos que formam a ogiva: um arco sustenta o outro. Assim, se não existir misericórdia, a justiça se transmuda em crueldade. E a misericórdia desacompanhada da justiça desmorona como moleza.

Justiça e misericórdia se encontraram e se beijaram as faces.

Aproveito ainda para agradecer suas palavras de elogio a meu trabalho no site Montfort. Reze a Nossa Senhora que me coloque na boca as palavras que transpassem seus inimigos ou que os toquem para convertê-los.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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