Montfort Associação Cultural

22 de dezembro de 2005

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Considerações sobre o Opus Dei e Monsenhor Escrivá

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Rodolfo B. Canônico
  • Localizaçao: Rolândia – PR – Brasil
  • Religião: Católica

Prezado Orlando Fedeli,
A Paz do Senhor.

Tomei a iniciativa de escrever ao senhor por ter ficado bastante descontente com algumas coisas que li recentemente em seu site. Antes gostaria de dizer que, embora tenha uma divergência com o senhor em alguns pontos importantes, creio que não posso deixar de enaltecer a coragem na defesa da Fé principalmente contra os não-católicos, o que é um trabalho valoroso.

O que me motivou a escrever foram as duas recentes cartas publicadas no site referentes ao Opus Dei. Infelizmente o senhor fez um juízo precipitado, motivado, talvez, pela leitura do livro “Opus Dei – os bastidores”. Porém, nota-se claramente um desconhecimento da vasta obra de São Josemaria e também do carisma do Opus Dei. Inicialmente, gostaria de comentar alguns pontos levantados pelo senhor, e em seguida fazer comentários mais gerais.

Primeiramente, sobre a afirmação “o Opus não faz nada”. O senhor referiu-se à atuação na esfera pública do Opus Dei, porém comete um equívoco grave. Lendo qualquer obra de Escrivá nota-se facilmente que não era isso que ele desejava da Obra (quando falar Obra, estou me referindo ao Opus Dei). O fundador dizia que os membros teriam liberdade para pensar da maneira que lhes fosse conveniente quando o assunto era política, sempre agindo com prudência. Obviamente que essa liberdade é restrita apenas ao que a Igreja impõe: por exemplo, claro que não há ninguém no Opus que seja comunista, posto que um católico não pode ser comunista. Portanto, o senhor não viu e nunca verá nenhuma campanha “do Opus Dei”. Mas garanto ao senhor que em muitas delas o senhor verá membros da Obra lá, atuando fortemente. Um exemplo é o aborto. Mas nessa questão não há nem o que divergir: todos católicos devem ser contra. Não há nem haverá uma campanha iniciativa *do* Opus Dei, porém seus membros estão certamente envolvidos nesta nobre luta em defesa da vida assim como o senhor. O fato de não haver manifestações públias do Opus Dei remete ao carisma do mesmo, o que de maneira alguma quer dizer que seus membros sejam omissos. Muito pelo contrário. Isso não é esconder-se. Isso é algo que veio junto com a fundação do Opus Dei, e que não mudará, penso eu.

Outro ponto, a formação interna do Opus Dei nao é estranha. É perfeitamente coerente com a Doutrina Católica. Nada a mais, nada a menos.

O senhor também fez uma comparação totalmente descabida entre o Opus Dei e a TFP. Ora, o Opus Dei é uma prelazia pessoal da Igreja, tem um clero próprio e um bispo prelado (D Javier Echevarria), além de dezenas de milhares de membros pelo mundo, sem contar cooperadores e amigos. A TFP não tem clero próprio, muito menos bispo prelado. Aliás, a TFP não é uma instituição da Igreja, como a Obra é. Enfim, não vejo como comparar essas duas instituições com diferenças tão gritantes.

Como disse acima, o Opus Dei não tem interesse político nenhum. Os membros tem uma grande liberdade de pensamento político, restringida apenas pelo que a Igreja orienta. Portanto, não vejo como o senhor pode dizer que há interesse poilítico no Opus Dei. Interesse econômico também não entendo. Doa dinheiro à Obra quem quer, e sabe que estará ajudando uma instituição que aproxima muitas pessoas de Deus, fornece uma direção espiritual maravilhosa. Enfim, o grande interesse lá é o apostolado, e não o dinheiro e a política, como senhor afirma.

Outra coisa que me entristeceu foi o fato de o senhor ter afirmado que no Opus Dei se celebra a missa o Rito Romano Antigo. Além disso o senhor garante ter ouvido o testemunho de várias pessoas garantindo isso, afirmando ousadamente: “mentiram eles ou você está por fora?”. Infelizmente, o senhor colocou essas pessoas na condição de mentirosas. No Opus Dei, quando se está apenas com pessoas que saibam bem o latim (geralmente os membros), a missa é celebrado no RITO NOVO, porém em latim e “versus Deum”. Daí a confusão dos que testemunharam ao senhor, achando que se tratasse do Rito Antigo, sendo apenas o Rito Novo bem celebrado.

No mais, dizer que o Opus Dei tentou enganar o Papa é demais. Desde Pio XII à Bento XVI, todos os Papas admiraram a Obra e mostraram publicamente seu incentivo ao apostolado da mesma.
Especificamente, foram estes os pontos que eu gostaria de salientar. Porém, é importante destacar que o apostolado do Opus Dei não se constitui em atividades públicas, mas é um chamado “apostolado da amizade”. Um apostolado pessoal, feito de amigo para amigo, que leva muito em conta o nosso testemunho para aproximar as almas de Deus. Nota-se que esse apostalado é muito eficaz, pelo grande número de conversões e de católicos que se aproximam do Opus Dei.

Individualmente, esse carisma talvez fosse insuficiente, porém é apenas mais um dentro das vários na Igreja, e penso que ambos se complementam e são muito úteis na evnagelização das pessoas, tendo um alcance profundo.

Por fim, penso que o senhor tenha sido muito imprudente referindo-se ao fundador do Opus Dei, dizendo que até mesmo os membros duvidam de sua santidade. Ora, basta ler qualquer biografia de Escrivá (e olha que se tem muitas por aí) que nota-se o grande santo que este homem foi, vivendo de maneira heórica as virtudes evangélicas. No mais, creio na infalibilidade da Igreja na canonização, e confio na Graça Divina em não permitir que a Igreja, Mãe, nos dê um caminho errado para seguir a Cristo.

Também gostaria de recomendar algumas leituras, pois o senhoir emitiu juízos devido a leitura de livros calaramente contra o Opus Dei, de caráter muitas vezes subjetivo. Há um livro de Vittorio Messori chamado “Opus Dei: uma investigação jornalística”, onde o autor busca abordar o assunto de maneira objetiva. Creio que o senhor conheça o autor e seja desnecessário eu dar as boas referências dele. Também seria útil que o senhor lesse algo sobre Escrivá, para poder entender o que é o Opus Dei, e qual foi a intenção de sua fundação, seu apostolado, essas coisas. A bibliografia sobre esse assunto é vasta, e penso ser necessário o conhecimento para tentar dizer algo sobre o Opus Dei e vitar os graves equívocos cometidos pelo senhor.

Encerrando, peço que, por justiça, o senhor publique esta carta.

No mais, desejo ao senhor e à sua família muita saúde e que a Paz do Senhor reine em seu lar. E um Feliz Natal a todos os membros da Montfort.

Alegria e Espernça,
Rodolfo B. Canônico


Muito prezado Rodolfo,
salve Maria!  

Antes de tudo, devo lhe agradecer por suas palavras elogiosas a meu trabalho e à minha pessoa. Sua generosidade supera sua objetividade a meu respeito. Peço-lhe então que você reze a Deus por mim, para que realmente mereça eu, um dia, diante de Deus Nosso Senhor, os elogios que você bondosamente me faz.  

Gostaria de lhe pedir mais. Divergimos, sim, a respeito do Opus. Mas creio em sua reta intenção, como espero que creia na minha, apesar de meus defeitos e de minhas misérias.  

E quereria que relevasse meu estilo, e não tomasse o modo como escrevo como uma tentativa de feri-lo pessoalmente  

Você é a segunda pessoa ligada ao Opus Dei — por que chamar o Opus Dei de “Obra”, apenas, que é um nome vago e genérico? — que me escreve, queixando-se.  

E é quase certo que você é apenas um simpatizante do Opus Dei.  

E, sendo você apenas um simpatizante do Opus — (melhor em latim do que me português) –, acredito muito em sua boa fé e em sua sinceridade. O Opus Dei atrai pessoas muito boas, insatisfeitas com a decadência da prática da religião. Mas um numerário não discutiria sobre o Opus. E jamais diria que é um numerário. Afinal, o Opus Dei é quase secreto (aliás, que estranho nome o de numerário, e mais estarnho o de supernumerário. É o único super que é infra no mundo).

E é por isso que o Opus, em geral não responde aos numerosos ataques e denúncias feitas por ex membros da entidade, e que são concordes em seus testemunhos e em suas acusações.  

Agora, soube que o Opus Dei, contrariamente à sua política normal, respondeu ao Lauand.   

Na sua resposta, o Opus não contesta os fatos concretos que Lauand acusa, refutando-os com testemunhos contrários. Limita-se a citar elogios de João Paulo II ao Opus Dei — o que nada têm a ver com os fatos acusados –e recomenda ler livros do Opus ou a favor do Opus.   

Ora, uma refutação séria deveria provar, com testemunhos opostos, a falta de verdade do que escreveram Lauand e outros.    

Você me diz que desconheço o Opus, e que fui precipitado em meu julgamento.  

Você se engana .  

Tenho lido muitos livros do Opus, e sobre o Opus, e há tempos examino o Opus Dei.  

Li vários livros de Monsenhor Escrivá. E não gostei deles. 

Não gostei do título Surco — em francês Sillon… (Sillon era o nome de um movimento católico liberal condenado por São Pio X, na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique).  

Não gostei do Questões Atuais do Cristianismo, onde Monsenhor Escrivá afirma a um maometano:     

És filho de Deus como eu” (Cfr. Mons José Maria Escrivá, Questões Atuais do Cristianismo, Quadrante, São Paulo, 1986,  3a. edição, p.128).” (Cfr. Mons José Maria Escrivá, , Quadrante, São Paulo, 1986,  3a. edição, p.128).  

Isso está errado. É o Batismo que torna o homem filho adotivo de Deus, e um maometano não é batizado, e, por isso mesmo, não é filho de Deus como o é um batizado. E, além de batizado, Monsenhor Escrivá era sacerdote.  

 Li também o livro de Monsenhor Escrivá intitulado Amigos de Deus, no qual ele escreveu:  

Pensemos que o Todo-Poderoso, aquele que governa o Universo através de sua providência, não deseja servos forçados, prefere filhos livres. Introduziu na alma de cada um de nós — embora tenhamos nascido proni ad peccatum,  inclinados para o pecado, pela queda de nossos primeiros pais — uma centelha de sua inteligência infinita, a atração pelo que é bom, uma ânsia de paz perdurável.” (Mons. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Homilias, Quadrante, São Paulo, 1979, p.25. O destaque é meu). 

Essa tese de que Deus colocou “uma centelha de sua inteligência infinita” é inaceitável, pois é a própria tese da Gnose e da Cabala. 

E falando em Gnose, acho estranhíssimo que Monsenhor Escrivá e o Opus tenham como selo a rosa e a cruz…  

Que esquisito!…  Além da sociedade secreta Rosa Cruz, que é gnóstica, Lutero também usava esse símbolo.  

Nesse mesmo livro, Amigos de Deus, Monsenhor Escrivá escreve:

“Por isso não é correto falar de liberdade de consciência que equivale a considerar como de boa categoria moral a atitude do homem que rejeita a Deus” ( Mons. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, p.24. O destaque é do autor).  

Ora, na página seguinte, ele escreveu o oposto:  

Eu defendo com todas as minhas forças a liberdade de consciência, que denota não ser lícito a ninguém impedir que a criatura preste culto a Deus” (Mons. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, p.25. O destaque é do autor).

 E não faça acrobacias semânticas para harmonizar esses textos contraditórios.  

 No mínimo, há pouca clareza nesses posicionamentos, se não quiser admitir a contradição.  

 Li a Biografia de Mons. Escrivá, O Fundador do Opus,de Andrés Vazques de Prada. E muitos outros livros que não vou analisar, porque não me interessa abrir uma polêmica com o Opus, que no Brasil, é conservador. Estou apenas respondendo ao que você me escreveu Ainda agora, Dom Javier Etchevarria, Prelado do Opus Dei, respondendo a questões de Patrícia Mayorga, de El Mercurio, de Santiago de Chile, em 21 de Janeiro de 1996, declarou: 

“Nos textos do Vaticano II, ouve-se o eco de muitas idéias pronunciadas pelo fundador do Opus Dei, São Josemaría Escrivá por volta dos anos trinta. Todos os Concílios formam uma unidade de magistério, onde não há contradição. Mas — se é que se pode falar assim — dir-lhe-ia que o Opus Dei tem, no Concílio Vaticano II, a sua pátria doutrinal, composta ao mesmo tempo de tradição e novidade (www. opusdei.org – artigo impresso de:http: //www.opusdei.org/art.php?=34&p=11445).

Que pena! E que lamentável!  

 Você me diz:  

O fundador dizia que os membros teriam liberdade para pensar da maneira que lhes fosse conveniente quando o assunto era política, sempre agindo com prudência. Obviamente que essa liberdade é restrita apenas ao que a Igreja impõe: por exemplo, claro que não há ninguém no Opus que seja comunista, posto que um católico não pode ser comunista”.  

Estranho que uma entidade católica dê liberdade de pensar a seus membros como lhes aprouver, mesmo com a restrição que você coloca. Um católico deve pensar somente como a Igreja ensina. Não somos ovelhas selvagens soltas no mundo. Pertencemos ao redil de Cristo e somos obrigados a pensar e a viver como a Igreja ordena.  

E eu mesmo, meu caro Rodolfo, lembro-me de ter discutido com um rapaz espanhol do Opus Dei, lá pela década de 1960, que defendia idéias marxistas… E o Lauand é bem liberal.  E o Padre Panikar era bem modernista.  

São Pio X dizia que os católicos devem atuar de bandeira desfraldada. E você me confessa que:  

o senhor não viu e nunca verá nenhuma campanha “do Opus Dei”. Mas garanto ao senhor que em muitas delas o senhor verá membros da Obra lá, atuando fortemente. Um exemplo é o aborto”.   

Essa é a confissão de que o Opus recusa tomar posição pública. O Opus só atua de “bandeira enrolada”. O que é lamentável.

Na questão do aborto, de fato, alguns do Opus tomaram posição individualmente. Em geral, eu não os tenho visto defendendo a lei de Deus, mas apenas a Constituição, a lei positiva. Isso é muito pouco, porque o aborto é mau, sobretudo por contrariar a lei de Deus e a lei natural. Mas o Opus sempre atua escondendo o “Dei”.  

E se a lei positiva mudar? A defesa do Opus ficará no ar.  

E isso não é correto: devemos defender a lei de Deus de modo claro, e não esconder que somos católicos.

Afinal o Opus é Dei, ou não?

Uma política de escamoteios não agrada a Deus.  

Você me tira toda esperança de mudança, quanto a essa política de camuflagem do Opus, ao dizer-me: “O fato de não haver manifestações públicas do Opus Dei remete ao carisma do mesmo, o que de maneira alguma quer dizer que seus membros sejam omissos. Muito pelo contrário. Isso não é esconder-se. Isso é algo que veio junto com a fundação do Opus Dei, e que não mudará, penso eu”.  

Portanto, você admite que os membros do Opus não são omissos. Mas que o carisma do Opus é o da camuflagem, atuando através de seus membros, e nunca assumindo a luta e a responsabilidade. E você chama isso de “o carisma do Opus”? 

Sem querer magoá-lo, devo dizer-lhe: Deus me livre desse carisma.

Repito: a diferença entre o Opus e a TFP é que a TFP, em certas coisas, não atuava somente através de seus membros. Com todos os erros e defeitos que havia lá, seria negar a verdade não reconhecer que, pelo menos, a TFP muitas vezes atuou desassombradamente no terreno público. 

E outra diferença com a TFP é o emprego do palavrão.

Mas no mais, pelo que contam Lauand e outros, a formação da TFP e a formação dada pelo Opus Dei são muito, mas muito parecidas. Ainda que um seja prelazia e outra não é, ou ainda não é…

E não coloquei ninguém como medroso. Só mostrei que alguns do Opus dizem uma coisa, outros dizem outra.

Você afirma que lá dentro do Opus se reza a Missa versus Deum, mas que é a Missa nova.

E por que fora do Opus rezam versus populum?

A contradição continua.

Eu acusei a contradição.Não chamei ninguém de mentiroso.

No mais, estou disposto a reconhecer sua boa vontade e a manifestação de sua boa intenção, da qual não tenho motivos para duvidar.  Lembro-lhe de novo que só tratei disto tudo forçado por essa sua carta. Não ia tocar no assunto, pois não aprovo muito do que disse o senhor Lauand.

Que Deus lhe conceda um santo Natal e que nos una realmente na defesa da Fé de modo público e claro.   

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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