Montfort Associação Cultural

29 de outubro de 2007

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Concílio Vaticano II: nem dogmático, nem pastoralmente correto

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Carlos Alberto Santos Pinheiro
  • Localizaçao: Recife – PE – Brasil
  • Religião: Católica

Caríssimo professor Orlando Fedeli,
salve Maria!

     É sempre um prazer escrever-lhes novamente. Agora, acerca de algumas reflexões minhas sobre o Concílio Vaticano II.
     Há quarenta anos que se espera o “ar fresco” entrar na Igreja de Cristo. Mas a bem da verdade, de lá pra cá, vivemos progressivamente em uma crise sem tamanho! Isso é inegável.
     Inegável também é que tudo isso triunfou a partir do Concílio Vaticano II.
     Vejamos, por exemplo, o que disse em 1984, o então cardeal Ratzinger:

O problema dos anos sessenta era adquirir os melhores valores aparecidos na era da cultura ‘liberal’. São valores que mesmo nascidos fora da Igreja, podem encontrar seu lugar depois de depurados e corrigidos, na sua visão do mundo. É o que foi feito.” (Revista “Jesus”, novembro de 1984, pág 72. Em: Dom Lefebvre, M., Do Liberalismo à Apostasia: a tragédia conciliar; Ed. Permanência, 1991; pág. 130. Sublinhado meu). 

     Realmente todos os problemas concentram-se em torno do que foi feito.
     Admitamos, agora, que os textos (letra) do Vaticano II em nada contradizem todo o ensinamento de sempre da Igreja (esforcemo-nos).
     Analisemos, enfim, o que foi feito…
     Muito se comentar que a Igreja, depois do Vaticano II, não abraçou os princípios (erros) do mundo moderno. Mas, os tratou de uma forma particular, diferente de como outrora eram tratados, apenas isso.
     Certamente, o Concílio Vaticano II tratou os erros do mundo moderno de uma forma diferente. É o que afirma o Papa João XXIII:

A Esposa do Cristo prefere recorrer ao remédio da misericórdia a brandir as armas da severidade. Ela estima que, ao invés de condenar, ela responde melhor às necessidades de nossa época, colocando em evidência as riquezas de sua doutrina” (Joannes XXIII PP., Discours d”Ouverture de la première session, 11 octobre 1962, inLes documents du Concile Oecuménique Vatican II, Padoue, Gregoriana Editrice, 1967, pp. 1079. Em: O Concílio Vaticano II em questão: reflexões sobre o valor dos documentos do Vaticano II, Simpósio Teológico de Paris, Sim Sim Não Não, nos. 146 e 147.
http://www.permanencia.org.br/SimSimNaoNao/146/art1.htm).

     E o Papa Paulo VI explica:
 
cit., p. 1095. Em: O Concílio Vaticano II em questão: reflexões sobre o valor dos documentos do Vaticano II, Simpósio Teológico de Paris, Sim Sim Não Não, nos. 146 e 147. Parece-nos que chegou a hora em que a verdade que diz respeito à Igreja do Cristo deva ser cada vez mais explorada, ordenada e expressa, não talvez através dessas fórmulas solenes chamadas definições dogmáticas, mas através de declarações pelas quais a Igreja diz a si própria, num ensinamento mais explícito e autorizado, o que ela pensa de si mesma” (Paulus VI PP., Discours, d”Ouverture de la deuxième session, 29 septembre 1963, inLes documents du Concile Oecuménique Vatican II,http://www.permanencia.org.br/SimSimNaoNao/146/art1.htm).

     Com todo respeito devido, estas afirmações são estranhas. Enfim, como pode a Igreja de Cristo ser conduzida a tratar de assuntos de uma relevância enorme – erros do mundo – de uma forma diversa daquela que sempre foi costume?
     Isso é no mínimo temerário.
     Que grau de certeza tinham os Papas João XXIII e Paulo VI sobre a eficácia deste novo “método” aplicado no concílio, com o qual trataram os erros do mundo moderno?
     Na Suma Teológica, São Tomás, tratando da “Infidelidade em geral” (IIa. IIae., q. 10), afirma:

La costumbre de la Iglesia constituye uma autoridad de gran peso y se la debe seguir siempre e en todo. Porque hasta la enseñanza misma de los grandes doctores de la Iglesia recibe de ella su peso de autoridad, y por esa razón hemos de atenernos más a la autoridad de la Iglesia que a la de San Augustín, San Jerónimo o de cualquier otro doctor”.

     Ora, imitando o seu Divino Mestre, a Igreja sempre foi inimiga dos erros do mundo, e sempre os acusando! Logicamente, não pensando em condená-lo; mas, salvá-lo.
     Nosso Senhor disse:

Eu não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo. XII, 47).

     E também:

O mundo me odeia porque Eu testemunho contra ele e suas obras más” (Jo. VII, 7).

     Foi o que Seu Corpo Místico ao longo da história sempre fez!
     O Catecismo Romano deixa bem claro isso…
 
A Igreja Militante é a Sociedade de todos os fiéis que ainda vivem na terra. Chama-se militante porque está obrigada a manter uma guerra incessante contra os mais cruéis inimigos: o mundo, a carne e o Diabo”.

     Se o Concílio Vaticano II continua afirmando a doutrina de sempre – portanto não abraçando os erros do mundo moderno – então, o que foi feito?
     No mínimo, ecoou um grande brado de “cessar fogo!”. Onde está a guerra? Cadê os militantes?
     Infelizmente, o Vaticano II introduziu na Igreja de Cristo (combatente e militante) uma forma nova de lidar (se não de abraçar) com os erros deste mundo perverso: 

ao invés de condenar, ela responde melhor às necessidades de nossa época, colocando em evidência as riquezas de sua doutrina”.


     A Igreja Católica, Esposa fiel de Cristo, nunca combateu os erros de tal maneira. Se é que se pode chamar isso de combate!
     Acredito, portanto, que demonstrar que os textos (letra) do Vaticano II não contradizem a doutrina de sempre não é o mais importante; haja vista, sua ambigüidade. Difícil é demonstrar que elementos novos (forma de lidar com os erros do mundo, abandono da Escolástica, uso de expressões textuais equívocas, etc.) trazidos pelo Concílio não são coisas maléficas ao Depósito da Fé.

Infelizmente esses amantes de novidades passam facilmente do desprezo da teologia escolástica ao pouco caso e até ao desprezo do próprio Magistério da Igreja, que dá com sua autoridade tão notável aprovação a essa teologia” (Pio XII, Humani Generis, 1950).

     Muito nos ensina São Paulo na carta a Tito sobre a forma de lidar com os erros mundanos: 

Com efeito, há insubmissos, verbosos e enganadores, especialmente no partido da circuncisão, aos quais é preciso calar, pois pervertem famílias inteiras, e, com objetivo de lucro ilícito, ensinam o que não tem direito de ensinar. (…)
repreende-os, portanto, severamente, para que sejam sãos na fé (…)” (Tt. I, 10-11, 13). 

     O inverso nos ensina o Vaticano II.


     Eis a questão: para onde este “método” conciliar nos levará? Até a fraternidade Universal? Até a civilização do amor? Até a paz mundial sem o reinado social de Nosso Senhor?
     Que Deus nos livre!
     Que Nossa Senhora nos faça combatentes e militantes!
     Despeço-me,

Auxílium Christianórum, ora pro nobis.
Carlos Pinheiro.

Muito prezado Carlos,
Salve Maria.
 
    Que excelentes considerações você fez em sua carta sobre o novo método adotado pelo  Concílio Vaticano II. Você deixou bem claro, como essa ambigüidade dos textos do Vaticano II foi maléfica. Nosso Senhor nos preveniu que a letra mata e o espírito vivifica. Ora, Bento XVI condenou o espírito do Vaticano II. Se o espírito do Vaticano II já foi condenado, e a letra, — por sua ambigüidade, — trouxe tantos males, que resta do Vaticano II? Nada.
    Foi isso que argumentei com uma pessoa, que se declara minha amiga, e que escreveu-me (particularmente), dizendo que todo o mal do Vaticano II veio da ambigüidade de sua letra. 
    Noticiou-se agora que o Cardeal Biffi lançará, terça-feira próxima, seu livro de memórias no qual critica fortemente o Vaticano II, exatamente o que você denuncia: a mudança de método adotado pelo Concílio: falar pastoralmente, e não dogmaticamnete. Pretender não condenar os erros, mas usar só da misericórdia, como se corrigir os que erram e condenar heresias fosse contra a caridade. 
    No Catecismo se ensina que corrigir erros e condenar doutrinas contra a Fé é ato de misericórdia espiritual.
    O Cardeal Biffi acusa particularmente a omissão do Concílio Vaticano II em relação à heresia comunista. O Vaticano II nada disse contra os erros gravíssimos do comunismo, nem contra os seus crimes. Omitiu-se. Calou-se. E se calou porque João XXIII concordou em assinar o Acordo de Metz com a URSS, aceitando que o Concílio nada dissesse contra a União Soviética e o Comunismo, em troca da permissão de irem ao Vaticano II alguns observadores da Igreja russa, escolhidos entre os homens de confiança do Partido Comunista Soviético.
    Uma vergonha.
    Dessas omissões cúmplices, e dessas ambigüidades, João XXIII esperava uma renovação da Igreja e Paulo VI esperava uma nova primavera. Vieram a auto demolição da Igreja e a introdução da fumaça de Satanás no templo de Deus. Isso foi explicitamente admitido por Paulo VI. 
    Pelos frutos se conhece a árvore, e os frutos do Vaticano II foram uma grande apostasia e a confusão geral entre os católicos. O esvaziamento das igrejas e a profanação das missas.
    Infelizmente, alguns teimam em afirmar que o Vaticano II foi infalível e o tem como super Concílio.
    Mas disse o Cardeal Ratzinger contra os fundamentalistas do Concílio Vaticano II:

A verdade é que o próprio Concílio não definiu nenhum dogma e conscientemente quis expressar-se em um nível muito mais modesto, meramente como Concílio pastoral; entretanto, muitos o interpretam como se ele fosse o super dogma que tira a importância de todos os demais Concílios.”
(Cardeal Joseph Ratzinger, Alocução aos Bispos do Chile, em 13 de Julho de 1988, in Comunhão Libertação, Cl, año IV, Nº 24, 1988, p. 56).
 
    Sobre isso, o próprio Papa Paulo VI decidiu a questão da pseudo infalibilidade do Vaticano II, tratando explicitamente do tema, em seu discurso de encerramento do Concílio Vaticano II.
    Disse o Papa Paulo VI, nesse discurso:
 
“Há quem se pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quis atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de Março de 1964, confirmada a 16 de Novembro desse mesmo ano: dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade. Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do supremo Magistério ordinário” (Paulo VI, Discurso no encerramento do Concílio, 12 – I 1966. Apud Compêndio do Vaticano II, Editora Vozes, Petrópolis, 1969, pg. 31).
 
    Ora, se o Vaticano II fosse realmente Magistério Ordinário Universal, ele teria sido infalível, porque o Magistério Ordinário Universal é infalível também.
    Paulo VI, negando que o Vaticano II tenha se pronunciado dogmaticamente, — ["dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade",] declarou que ele nem Magistério Ordinário Universal foi, pois nada quis definir, expressando-se pastoral e até ambiguamente, coisa inadmissível para a essência de um magistério. Todo magistério tem que ser claro, pois, senão, só produzirá discussões e não a compreensão dos fiéis.
    Está aí, meu caro Carlos: o próprio Paulo VI declarou que o Vaticano II não se arrogou valor dogmático infalível. O Vaticano II não formulou nenhum dogma. 
    Portanto, não exige adesão de fé divina e católica, porque pretendeu ser só pastoral. E, como demonstra o Cardeal Biffi, nem pastoral foi, corretamente.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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