Montfort Associação Cultural

21 de fevereiro de 2005

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Concílio Vaticano II

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Renato
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Religião: Católica

Prezado Orlando Fedeli

Em seu artigo “Viva o Papa”, o senhor escreveu:

“O Papa, não é demais repetir, só é infalível quando ensina “ex- cathedra”. Fora disso, pode errar. Por isso, é legítimo rejeitar os erros do Vaticano II e tudo o que se tem feito com base neles, na medida em que contrariam os ensinamentos de todos os Papas anteriores.

Por exemplo, a famosa jornada de orações pela paz, realizada em Assis por João Paulo II, em 1986, se opôs frontalmente a tudo o que a Igreja sempre ensinou quando, em reiterados pronunciamentos dos Papas, condenou o intercofessionalismo e o indiferentismo. Tal jornada é inaceitável.”

“Mas o próprio Papa reinante deve ter devoção ao Papado. Também João Paulo II tem obrigação de aceitar tudo o que os Papas anteriores a ele ensinaram “ex- cathedra”.

Com tal modo de pensar o senhor dá a entender que não aceita o Concílio do Vaticano II e reprova a atuação do atual papa João Paulo II, dando a entender que tanto o citado concílio quanto o atual papa rejeitam os ensinamentos dos papas anteriores. Acho que o senhor está sendo muito radical.

Não quero polemizar com o senhor, que considero uma pessoa idônea, honrada, de reta intenção, mas penso que nenhum concílio ecumênico nega em termos de fé e de moral o que foi declarado nos concílios anteriores, pelo contrário, cada concílio não só confirma o que foi definido anteriormente mas continua transmitindo o depósito da fé numa linguagem atualizada para a época do respectivo concílio, e com os novos conhecimentos científicos, teológicos, arqueológicos, históricos, etc. passa a ter uma compreensão maior deste tesouro de valor infinito que é a fé católica sem nunca negar o que foi definido anteriormente.

Sugiro que leia o livro de Justo Collantes – “A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja, Da Origem até os Nossos Dias”, Diocese de Anápolis, Goiás, Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro. Pedidos às Edições Lumen Christi – Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, Rua Dom Gerardo, 68, Centro CEP 20090-030, Rio de Janeiro, RJ, Telefone: (0**21) 2291-7122, Ramal 283.

O fato de o papa João Paulo II ter se reunido em Assis com vários líderes de outras crenças e religiões, não significa que ele considere todas as crenças e religiões iguais e que esteja negando o que os papas anteriores ensinaram “ex- cathedra”. Ele apenas quis nos mostrar que todo o católico deve ter a humildade de reconhecer que embora esteja na verdade (isto é a fé católica é a única verdadeira) não deve tratar aqueles que não são católicos com desprezo ou violência, mas deve acolhê-los e dialogar com eles do mesmo modo que faria Jesus. Penso que a ação do papa em Assis foi um exemplo de evangelização e não uma atitude de relativismo religioso. O senhor leu o documento da Congregação para a Doutrina da Fé – “Declaração Dominus Iesus” sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, 2a edição, 2000, assinado pelo cardeal Joseph Ratzinger e pelo arcebispo Tarcisio Bertone? Sugiro que o leia.

O senhor já teva a oportunidade de ler os documentos redigidos pelo papa João Paulo II para conhecer melhor os riquíssimos ensinamentos deste magnífico papa? Sugiro que o faça.

Como católicos devemos ter a humildade para aceitarmos com alegria e obediência aquilo que o atual Magistério da Igreja Católica nos propõe em termos de fé e de moral mesmo que seus pronunciamentos não sejam do tipo “ex- cathedra”. Rejeitar tais ensinamentos porque não são “ex- cathedra” não seria uma atitude de desobediência e de falta de amor para com o papa e por fim para com o próprio Jesus? O próprio Magistério da Igreja Católica reconhece que infelizmente muitos entenderam de modo errado os ensinamentos do Concílio do Vaticano II e cometeram erros graves e até abusos em termos de doutrina de fé e de moral. O Magistério da Igreja Católica continuamente tem procurado corrigir tais erros de interpretação dos ensinamentos do citado concílio e coibido os abusos.

Um grande abraço

Renato Colonna Rosman

Muito prezado Renato,
Salve Maria!
 
    Você sabe que há quem defina o homem como animal político. Todo homem faz política. Toda instituição humana — por ser feita de homens — faz política.    
    Exceto o Opus.
    É no que você inocentemente acredita.
    Você me garante, com três livros do Opus na mão, que o Opus não faz política.
    Dir-se-ia que o Opus é constituído por anjos…
    Entretanto, os anjos também fazem “política”, e guerreira, já que combatem os demônios.
    Depois de defender o Opus, tentando provar-me de que ele é a única instituição humana que não faz política, você faz sua política, passando ao ataque contra a mim e a Montfort. 
    E garante-me que não quer polemizar comigo.
    Como seria bom encontrá-lo!….
    Indo ao Rio, gostaria de conversar com você. Ao vivo. 
    Creio que ficaríamos amigos.
    Você descobriu que sou contra o Vaticano II !
    Essa é uma descoberta fácil de ser feita.
    Não digo que você descobriu a pólvora, mas que ouviu sua explosão.
    Meu caro Renato, eu escrevi expressamente que o Vaticano II aprovou teses modernistas condenadas por São Pio X. E, escrevendo isso, só repeti o que Jean Guitton admitiu. 
    Você não leu minha resposta ao Instituto Paulo VI de Brescia? 
    Sou contra, sim, e bem contra, o que ensinou pastoral e erroneamente o Vaticano II.
    Nessa resposta que dei ao Instituto Paulo VI de Brescia, condenei bem claramente o que ensina pastoralmente o Vaticano II.
    Isso já faz uns dois anos, ou pouco mais, e o Instituto Paulo VI, depois de dizer que ia incumbir um teólogo de estudar meus ataques ao Vaticano II, a fim de refutá-los, ainda permanece em silêncio. 
    Procura-se um teólogo.
    Será que você quer responder minhas críticas ao Vaticano II, em nome desse Instituto, por enquanto mudo ?
    Há mais.
    Vou publicar, em breve — já está prontinha — uma crítica ao livro “Vaticano II, Análise e Perspectivas”, livro no qual um punhado de teólogos modernistas confessa em umas trezentas páginas, que o Vaticano II inventou uma nova eclesiologia, um novo conceito de Fé, uma nova moral, etc, tudo diferente do que sempre ensinou a Igreja Católica. Em suma, que fez uma nova Igreja. 
    A qual nasceu moribunda.
    Peço-lhe que aguarde esse trabalho, para você ter mais material para defender o Vaticano II e seus erros modernistas, e me criticar.
    Em seguida, você me acusa de algo, distorcendo completamente o que eu disse e digo: você escreveu  que reprovo “a atuação do atual papa João Paulo II, dando a entender que tanto o citado concílio quanto o atual papa rejeitam os ensinamentos dos papas anteriores”. 
    Meu caro Renato, discordar de um ato político ou pastoral de um Papa não é o mesmo que reprovar um Papa. Você forçou minhas palavras e distorceu o que penso, interpretando de modo um tanto malévolo o que eu quis dar a entender em meu artigo VIVA O PAPA!
    O Papa também é um homem. E assim ele também age politicamente.
    Devemos então distinguir o que o Papa faz como Papa e infalivelmente, o que o Papa faz como Papa falivelmente, e o que ele faz enquanto homem. 
    Um bom católico não pode reprovar um Papa, quando ele atua infalivelmente. Deve acatar também o que ele ensina em seu magistério ordinário, desde que não contrarie o que todos os Papas sempre ensinaram. E quando ele, por acaso, atua politicamente ou, dizendo o contrário do que sempre a Igreja ensinou, pode haver discordância, permanecendo o fiel com aquilo que sempre os Papas anteriores ensinaram.
    Você foi muito radical em sua afirmação: você diz que ou se aceita tudo o que diz um papa, até falando de futebol ou de Bob Dylan, ou se reprova o Papa enquanto tal.
    Aliás, o Papa atual elogiou Bob Dylan. 
    Você gosta de Bob Dylan?
    Se você não gosta de Bob Dylan, você reprova o Papa João Paulo II? 
    Claro que não.
    A chamada  Jornada de Assis, eu a considero à luz da condenação de Leão XIII ao Parlamento das Religiões de 1893, em Chicago, ou da proibição, feita pelo mesmo Papa, do Congresso Mundial de Religiões de 1900. 
    E daí?
    Leia a encíclica Mortalium Animos de Pio XI, e veja se você reprova o Papa Pio XI. 
    Se dois Papas têm atitudes diametralmente opostas, por que seria eu forçado a aprovar um que fez o oposto do que todos os demais Papas fizeram e ensinaram? 
    Você bem amigavelmente me escreve dizendo-me que me considera “uma pessoa idônea, honrada, de reta intenção”.
    Ora, como seria eu “idôneo, honrado e de reta intenção” se eu fosse herege, cismático e rebelde ao Papa?
    Você me escreve:
    Penso que nenhum concílio ecumênico nega em termos de fé e de moral o que foi declarado nos concílios anteriores, pelo contrário, cada concílio não só confirma o que foi definido anteriormente mas continua transmitindo o depósito da fé numa linguagem atualizada para a época do respectivo concílio, e com os novos conhecimentos científicos, teológicos, arqueológicos, históricos, etc. passa a ter uma compreensão maior deste tesouro de valor infinito que é a fé católica sem nunca negar o que foi definido anteriormente” (Os destaques são meus).
    Meu caro, Renato, você está completamente equivocado. O IV Concílio de Éfeso — chamado o Latrocínio de Éfeso — foi Concílio Ecumênico que negou o que fora ensinando anteriormente por outros Concílios e foi todo ele excomungado por São Leão Magno. Desse Concílio só foi aprovada como infalível a carta do Papa São Leão Magno a São Flaviano, que o Concílio negou, e matou São Flaviano.
    O III Concílio Ecumênico de Latrão, em 1179 determinou:
 
    “Como diz o Bem Aventurado Leão (Epist. ad Turibium):
    “Se bem que a disciplina da Igreja, satisfeita com o juízo sacerdotal, não executa castigos cruentos, entretanto, ela é ajudada pelas constituições dos Príncipes católicos, de modo que amiúde os homens buscam remédio salutar, quando temem lhes sobrevenha um suplício corporal. Por isso, como na Gasconha, no território de Albi e de Toulouse e em outros lugares, de tal modo se implantou a condenada perversidade dos hereges que uns chama de cátaros, outros de patarinos, outros de publicanos, e outros com outros nomes, que já não exercitam ocultamente, como outros, a sua malícia, mas que publicamente manifestam seu erro e atraem a seu sentir aos simples e fracos, decretamos que eles e seus defensores, e os que os recebem estejam submetidos ao anátema, e sob anátema proibimos que ninguém se atreva a recebê-los em suas casas ou em suas terras, nem a favorecê-los, nem a exercer com eles comércio” (III Concílio de Latrão, canon 27, O negrito é meu. Denzinger 491).
 
    Se você realmente aceita todo Concílio Ecumênico, tem que aceitar o III Concílio de Latrão e o que ele determinou sob anátema: que é proibido ter contato ou ajudar hereges. 
    Ora, como fica então o ecumenismo do Vaticano II face ao III Concílio Ecumênico de Latrão ?
    Fica mal.
    Ou melhor, fica bem condenado.
    Como conciliar esses dois Concílios Ecumênicos que ordenaram coisas opostas?
     É que o Vaticano II foi Concílio pastoral, e não infalível, e, por isso mesmo, podia errar. 
     E errou.
    Você simplifica muito a questão dos Concílios ecumênicos, colocando-os todos no mesmo nível. Há Concílios infalíveis e os há falíveis. Mesmo nos infalíveis, só é infalível o que o Papa decretar diretamente como infalível e sob anátema.
    O grande erro atual é querer fazer passar como infalível o Vaticano II, que expressamente recusou ensinar com infalibilidade.
    Você me escreve ainda:
    ”O próprio Magistério da Igreja Católica reconhece que infelizmente muitos entenderam de modo errado os ensinamentos do Concílio do Vaticano II e cometeram erros graves e até abusos em termos de doutrina de fé e de moral”. 
    Meu caro, se há tanta discussão sobre o que ensinou realmente o Vaticano II, é porque esse Concílio não foi claro.
    Ora, quando a Igreja ensina infalivelmente, ela ensina claramente. O que é ensinado ambiguamente não é infalível. 
    E se há tanto erro sobre o que realmente ensinou o Vaticano II, um Papa, um dia, dirá o que deve ser aceito dogmaticamente em tudo isso, e o que não deve ser reprovado. 
    Por enquanto, comparo o que disse o Vaticano II com o que a Igreja sempre ensinou claramente, e fico com aquilo que foi sempre ensinado e claramente.
    Por exemplo, o Syllabus condenou a liberdade de religião.
    O Vaticano II a aprovou, a ponto de o Cardeal Ratzinger ter escrito que o Vaticano II é um anti-Syllabus. 
    Fico com o Syllabus, e reprovo o Vaticano II.
    Você reprova Pio IX e rejeita o Syllabus?
    Você rejeita o Syllabus para ficar com o Vaticano II, o anti Syllabus? 
    Ou você dialeticamente fica com os dois?
    Você me sugere ler um livro de um tal Justo Collantes, que não conheço. Vou procurar esse livro, vou lê-lo, e depois tratarei dele com você.
    E é claro que li os documentos de João Paulo II. 
    Pena que você more no Rio, pois convidá-lo-ia a ler juntos esses documentos.
    Quer uma sugestão? 
    Quer resolver um problema insolúvel para você, que julga que o Papa nunca erra, mesmo quando não usa do carisma dado por Cristo a seu Vigário na terra ? (E o Papa João Paulo II é o legítimo Vigário de Cristo na terra, a quem me submeto e obedeço como a Santa Igreja ordena, na medida em que o ordena).
    É evidente que o Vaticano II tomou e recomendou uma atitude de otimismo e confiança no homem. 
    É notório que o Papa João Paulo II seguiu, durante bastante tempo, essa linha de confiança no homem.
    Prova disso é o que está escrito na encíclica Redemptor Hominis, no número 12:
    “A atitude missionária começa sempre por um movimento de profunda estima por aquilo “que há no homem”( Jo. 2, 25)por aquilo que há no íntimo de seu espírito” (João Paulo II, encíclica Redemptor Hominis, n* 12, Paulinas, p.32).
    Ora, o Evangelho de São João capítulo II, versículo 25, ao qual remete esse texto diz:
    ”e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no homem”.
     Só que essa frase do versículo 25 é ligada à anterior que diz:
    “Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no homem” (Jo II , 24-25).
    Agora, explique-me você como conciliar o que diz São João que ”Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos”, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, “pois sabia por si mesmo o que havia no homem” e o que escreveu João Paulo II, na encíclica Redemptor Hominis: “A atitude missionária começa sempre por um movimento de profunda estima por aquilo “que há no homem” (Jo. 2, 25) por aquilo que há no íntimo de seu espírito” (João Paulo II, encíclica Redemptor Hominis, n* 12, Paulinas, p.32).   
    Afinal, como Jesus, não devemos nos fiar nos homens – como disse São João – ou devemos ter profunda estima por aquilo “que há no homem”, como escreveu João Paulo II ?
    Explique-me, meu caro Renato, como conciliar esses textos.
    Creio que você vai ter que fazer grande acrobacia para conciliar o que é inconciliável.
    Isso, entretanto, não impede que eu reconheça João Paulo II como Papa e lhe faça preito de vassalagem, de fidelidade e obediência filial, enquanto Vigário de Cristo, como, graças a Deus, tive ocasião de fazer, ainda recentemente.
    Todo católico deve fazer o mesmo. O que não significa aprovar como infalível um espirro do Papa, ou seu gosto por Bob Dylan, ou sua visão otimista do Homem.
    Há que fazer distinções, meu caro Renato.
    Com grande apreço por sua pessoa, e desejando-lhe todo o bem, inclusive a verdadeira devoção ao Papa, clamemos juntos e com São João Bosco, quando se opunha à política de Pio IX: Viva o Papa!
    In Corde Jesu, semper,
    Orlando Fedeli
 
PS Voltando de Roma, soube de uma entrevista do Cardeal Arns — aquele que chama Fidel Castro de queridissimo Fidel — sobre o Papa e as situação atual do papado. Nessa entrevista, o Cardeal Arns, defensor do Vaticano II, diz que o Papa deveria renunciar. Nessa entrevista, o Cardeal vermelho é bastante desrespeitoso para com João Paulo II. Seria bom você escrever algo contra a atitude do Cardael Arns. OF.

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