Montfort Associação Cultural

3 de janeiro de 2013

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Comunhão na mão: recusada pelos bispos em 1969 e imposta a (quase) toda a Igreja

Uma das práticas que acompanharam a Missa Nova mais destruidoras para a Fé: a comunhão na mão. Em tradução Montfort, publicamos hoje o documento Memoriale Domini, sobre a sobre a maneira de distribuir a Santa Comunhão, publicado pela  Sagrada Congregação para o Culto Divino, em 29 de maio de 1969.

 O texto é curto e merece ser lido integralmente. 

O documento relata a consulta feita aos bispos do mundo inteiro sobre a conveniência de se adotar a comunhão nas mãos, conforme o pedido que fora feito por “algumas conferências episcopais”. A esmagadora maioria dos bispos responde pela recusa em aceitar tal uso. A conclusão do documento parece atender à opinião dos bispos, rechaçando a nova “moda” sacramental, apesar de toda uma alegação  em favor do suposto costume antigo dessa forma de recepção da comunhão (dado histórico que foi duramente contestado mais recentemente).

Porém…  em uma tática que foi usada inúmeras vezes, na implantação das “novidades” modernistas,  uma aparentemente pequena brecha é deixada: a comunhão na mão “prevalece” nos locais em que já está implantada, pedindo-se todos os cuidados e um relatório a respeito para as Conferências Episcopais! Em outras palavras, quem primeiro fez e depois foi perguntar, fica premiado com a aprovação. 

O resultado não se fez esperar. Poucos anos depois, a comunhão na mão era tão generalizada no mundo católico que, no Brasil, por exemplo, muitos católicos jamais viram fazer de outra forma. E muitos, ao terem conhecimento do problema, tentando pedir o que deveria ser a regra – a comunhão na boca – sentem o peso da tirania da falsa norma: a negativa absoluta dos sacerdotes – ou dos (irregulares) “ministros da eucaristia” – temperada frequentemente com reprimendas e injúrias contra a tentativa de “retrocesso”!

O que pode desejar quem proíbe autorizando? Conhecer a forma distorcida e ardilosa  como se fizeram as coisas permite-nos ver melhor de que lado está o bem e a sã doutrina. Pois foi Nosso Senhor que nos ensinou: “Seja o vosso falar sim sim, não não. Tudo o mais provém do maligno” (São Mateus 5, 37).  Regozijarmo-nos com Bento XVI que, conforme foi anunciado, a partir da Festa de Corpus Christi de 2008, não dará mais a comunhão na mão a nenhum fiel, durante suas missas. Que seu exemplo seja seguido!

 Publicado em Communion in the hand

Tradução do inglês: site Montfort

Comentário Lucia Zucchi.

Memoriale Domini

 Instrução sobre a maneira de distribuir a Santa Comunhão

Sagrada Congregação para o Culto Divino

Emitido em 29 de maio de 1969

Quando a Igreja celebra o memorial do Senhor Ela afirma através do próprio rito sua fé em Cristo e sua adoração a Ele, de Cristo presente no sacrifício e dado como alimento para aqueles que compartilham a mesa eucarística.

Por essa razão, é uma questão de grande preocupação para a Igreja que a Eucaristia seja celebrada e compartilhada com a maior dignidade e fecundidade. Ela preserva intacta a tradição previamente desenvolvida que chegou até nós, tendo suas riquezas sido transmitidas aos costumes e à vida da Igreja. As páginas da história mostram que a celebração e a recepção da Eucaristia tomaram várias formas. Em nossos dias os ritos para a celebração da Eucaristia mudaram de muitas e importantes maneiras, trazendo-os mais para a direção das necessidades espirituais e psicológicas do homem moderno. Além disso, uma mudança ocorreu na disciplina que governa a participação dos leigos no sacramento. A Santa Comunhão sob as duas espécies, pão e vinho, foi reintroduzida. Ela tinha sido comum na Igreja Latina também, mas posteriormente foi sendo progressivamente abandonada. Esse estado de coisas tinha se tornado geral à época do Concílio de Trento, que o sancionou e o defendeu através do magistério dogmático como adequado às condições da época. [1]

Essas mudanças fizeram do banquete eucarístico e do fiel cumprimento da ordem de Cristo um símbolo mais claro e mais vital. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, uma maior participação na celebração eucarística através da comunhão sacramental fez surgir, em um lugar ou outro, o desejo de se retornar ao antigo uso de se depositar o pão eucarístico nas mãos do comungante, ele próprio então comungando, colocando-o em sua boca.

De fato, em certas comunidades e em certos lugares essa prática foi introduzida sem que uma aprovação prévia tivesse sido solicitada à Santa Sé, e, às vezes, sem qualquer tentativa de preparar adequadamente os fiéis.

É certamente verdade que o uso antigo já permitiu aos fiéis tomar esse divino alimento em suas mãos e colocá-lo em suas bocas eles próprios.

Também é verdade que, em tempos muito antigos eles foram autorizados a levar o Santíssimo Sacramento consigo, desde o lugar onde o Santo Sacrifício foi celebrado. Isto foi, principalmente, de forma a serem capazes de dar a si próprios o Viático, caso tivessem que enfrentar a morte por sua fé.

No entanto, as prescrições da Igreja e as evidências dos Padres deixam bem claro que se demonstrava a maior reverência ao Santíssimo Sacramento, e que as pessoas agiam com a maior prudência.  Assim, “que ninguém … coma desta Carne sem primeiro adorá-la” [2]. Ao mesmo tempo em que quando alguém toma (o Santíssimo Sacramento) ele é advertido: “… recebe-o: tenhas cuidado para que não se perca nada dele” [3] “Pois é o Corpo de Cristo”. [4]

Além disso, o cuidado e o ministério do Corpo e Sangue de Cristo foi especialmente confiado a ministros sagrados ou a homens especialmente designados para esse propósito: “Depois que o presidente recitou as orações e todo o povo proferiu uma aclamação, aqueles a quem chamamos diáconos distribuem a todos os presentes o pão e o vinho para o qual se havia dado graças, e eles os levam para aqueles que estão ausentes “. [5]

Logo a tarefa de levar a Eucaristia aos ausentes foi confiada somente aos ministros sagrados, como o melhor para garantir o respeito devido ao sacramento e para atender às necessidades dos fiéis. Mais tarde, com uma compreensão mais profunda da verdade do mistério eucarístico, do seu poder e da presença de Cristo nele, sobreveio um maior sentimento de reverência para com esse sacramento e sentiu-se que uma profunda humildade deveria ser exigida quando recebê-lo.  Assim foi criado o costume do ministro colocar uma partícula de pão consagrado sobre a língua do comungante.

Este método de distribuição da Santa Comunhão deve ser conservado, tendo em conta a situação atual da Igreja no mundo inteiro, não apenas porque tem muitos séculos de tradição por trás dele, mas especialmente porque expressa a reverência dos fiéis para a Eucaristia. O costume não prejudica de forma alguma a dignidade pessoal daqueles que se aproximam deste grande sacramento: é parte da preparação que é necessária para a recepção mais frutuosa do Corpo do Senhor [6].

Essa reverência mostra que não é uma partilha de um “pão e vinho ordinários” [7] que está envolvido, mas do Corpo e do Sangue do Senhor, através da qual “o povo de Deus toma parte no Sacrifício Pascal, renova a nova Aliança que Deus fez com o homem de uma vez por todas com o Sangue de Cristo, e na fé e na esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai “. [8]

Além disso, a prática que deve ser considerada a tradicional assegura, mais efetivamente, que a Santa Comunhão seja distribuída com o devido respeito, decoro e dignidade. Remove o perigo de profanação das sagradas espécies, em que “de uma maneira única, Cristo, Deus e homem, está presente todo inteiro, substancialmente e continuamente”.[9]  Finalmente, ela garante aquele diligente cuidado com os fragmentos do pão consagrado que a Igreja sempre recomendou: “. o que permitistes  cair, penses nisso como se tivesses perdido um de teus próprios membros” [10]

Quando, pois, um pequeno número de Conferências Episcopais e alguns bispos particulares solicitaram que a prática de colocar as hóstias consagradas nas mãos das pessoas fosse permitida em seus territórios, o Santo Padre decidiu que todos os bispos da Igreja latina deveriam ser questionados se eles achavam oportuno introduzir esse rito. Uma mudança em uma matéria de tal importância, com base em uma tradição mais antiga e venerável, não afeta somente a disciplina. Carrega certos perigos consigo que podem surgir de uma nova maneira de administrar a Santa Comunhão: o perigo de uma perda de reverência para com o augusto sacramento do altar, de profanação, de adulteração da verdadeira doutrina.

Três perguntas foram feitas aos bispos, e as respostas recebidas até 12 de março de 1969 foram as seguintes:

1. Você acha que deve ser dado atenção ao desejo de que, além da forma tradicional, o rito de receber a sagrada comunhão nas mãos deve ser admitido?

Sim: 597

Não: 1.233

Sim, mas com reservas: 315

Votos nulos: 20

2. É o seu desejo que esse novo ritual seja primeiramente experimentado em pequenas comunidades, com o consentimento do bispo?

Sim: 751

Não: 1.215

Votos nulos, 70

3. Você acha que os fiéis vão receber bem esse novo ritual, após uma adequada preparação catequética?

Sim: 835

Não: 1.185

Votos nulos: 128

A partir das respostas, fica claro que a grande maioria dos Bispos crê que a disciplina atual não deve ser alterada, e que, se fosse a mudança seria ofensiva aos sentimentos e à cultura espiritual desses bispos e de muitos fiéis.

Portanto, levando em conta as observações e os conselhos daqueles que “o Espírito Santo colocou para governar” as Igrejas [11], tendo em vista a gravidade da matéria e da força dos argumentos apresentados, o Santo Padre decidiu não mudar a forma existente de administrar a Sagrada Comunhão aos fiéis.

A Sé Apostólica, portanto, enfaticamente exorta bispos, sacerdotes e leigos que obedeçam cuidadosamente à lei que ainda é válida e que foi novamente confirmada. Ela exorta-os a ter em conta a decisão proferida pela maioria dos bispos católicos, do rito agora em uso na liturgia, do bem comum da Igreja.

Onde um uso contrário, o de colocar a Sagrada Comunhão nas mãos, prevalece, a Santa Sé-querendo ajudá-los a cumprir a sua missão, muitas vezes, difícil como é hoje em dia, estabelece às Conferências a tarefa de avaliar cuidadosamente qualquer circunstância especial que possa existir, tendo o cuidado de evitar qualquer risco de falta de respeito ou de opiniões falsas em relação à Santíssima Eucaristia, e de evitar outros efeitos adversos que possam se seguir.

Em tais casos, as Conferências Episcopais devem examinar cuidadosamente a matéria e devem tomar quaisquer decisões, por meio de voto secreto e com maioria de dois terços, que sejam necessárias para regular as situações. Suas decisões devem ser enviadas a Roma para receber a necessária confirmação, [12], acompanhadas com uma descrição detalhada das razões que as levaram a tomar essas decisões. A Santa Sé examinará cada caso com cuidado, tendo em conta as relações entre as diferentes igrejas locais e entre cada uma delas e a Igreja Universal, a fim de promover o bem comum e a edificação de todos, e que o bom exemplo mútuo possa aumentar a fé e a piedade.

Nota: na Acta Apostolicae Sedis (pp. 546-547) a Instrução foi acompanhada de uma cópia da carta (em francês), que foi enviada às hierarquias que solicitaram e receberam permissão para introduzir a prática da Sagrada Comunhão nas mãos. A carta apresentava as seguintes normas:

1. O novo método de administrar a comunhão não deve ser imposto de maneira que venha a excluir o uso tradicional.

2. O rito da comunhão nas mãos deve ser introduzido com discernimento. Com efeito, uma vez que as atitudes humanas estão em causa, isso está ligado à sensibilidade da pessoa que recebe a comunhão. Deve, portanto, ser introduzida gradualmente, começando com grupos mais instruídos e mais bem preparados. É, acima de tudo, necessário que uma adequada catequese prepare o caminho para que os fiéis entendam o significado da ação e o realizem com o devido respeito ao sacramento. O resultado desta catequese deve ser remover qualquer sugestão de dubiedade da parte da Igreja em sua fé na presença eucarística, e também para eliminar qualquer perigo ou mesmo a sugestão de profanação.

3. O fato de que o leigo é agora capaz de receber a Sagrada Comunhão nas mãos não deve sugerir a ele que isso é pão comum, ou apenas algum objeto sagrado. Ao contrário deve fortalecer o senso de sua dignidade como membro do Corpo Místico de Cristo, da qual o batismo e a graça da Eucaristia o tornam parte. Ele vai, assim, ter um aumento da fé na grande realidade do Corpo e do Sangue do Senhor, que ele toca com as mãos. Sua atitude respeitosa deve ser proporcional ao que ele está fazendo.

4. No que diz respeito à forma de administrar o sacramento, pode-se seguir o método tradicional, que enfatiza a função ministerial do sacerdote ou diácono, colocando eles próprios a hóstia nas mãos do comungante. Pode-se também adotar um método mais simples, permitindo o próprio comungante tomar a hóstia do cibório. Em qualquer caso, o comungante deve consumir a hóstia antes de voltar para o seu lugar, e o papel do ministro será enfatizado pela sua fala, “O Corpo de Cristo”, ao que o comungante responde: “Amém”.

5. Não importa qual método seja utilizado, deve-se ter cuidado para não permitir qualquer fragmento da hóstia cair…

6. Quando a comunhão é distribuída sob as duas espécies, nunca é permitido colocar nas mãos dos comungantes hóstias que tenham sido previamente molhadas no Sangue do Senhor.

7. Os Bispos que tenham sido autorizados a introduzir o novo rito de comunhão são solicitados a enviar um relatório à Congregação, daqui a seis meses, sobre o resultado.

Traduzido do Latim para o Inglês por Rev. Austin Flannery, OP da AAS 61 (1969), pp 541-547. Publicado em Communion in the hand

Tradução do inglês: site Montfort.

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Notas

1. Cf. Concilio de Trento, sessão 21, A Doutrina da Comunhão sob Duas Espécies: Denz. 1726-1727.

2. Santo Agostinho, Sobre o Salmo, 98, 9.

3. São Cyrilo de Jerusalem,  Catequese Mistagógica, V, 21.

4. Hippolytus, Tradição Apostólica, n. 37.

5. Justino, Apologia, 1, 65.

6. Veja Santo  Augostinho, Sobre o Salmo 98, 9.

7. Veja Justino, Apologia 1 66.

8. Instruction Eucharisticum Mysterium n. 3.

9. Ibid., n. 9.

10. São Cyrilo de Jerusalem,  Catequese Mistagógica, V, 21.

11. Veja Atos 20:28.

12. Veja Vatican II Decreto Christus Dominus, n. 38, par. 4.

 

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