Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

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Comunhão em comunidade

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Rodrigo
  • Localizaçao: – Brasil

Saudações senhor Orlando, agradeço por ter respondido ao meu e-mail, nela pude ver as preocupações que acerca sobre o livro de zoffolli em relação às possíveis heresias contidas nas “apostilas” de Kiko.

Minha preocupação é de lhe responder sobre algum mal entendido e também de mostrar o lado do caminho neocatecumenal com a minha experiência pessoal.

O senhor havia dito que: “E que significa Fé “adulta”? Esse adjetivo para a Fé é muito vago, e dá o que pensar…” Confesso que a frase ficou vaga, mas a fé adulta é no sentido de não misturar as doutrina de religiões com a doutrina cristã para que a religião se adapte a sua vida (em caso por exemplo de pessoas serem católica de batismo e dizerem que também são espíritas), fé adulta no sentido também da consciência do “ser Cristão”, de abraçar e seguir aquilo no que se acredita (no meu caso e no do senhor que é seguir a Cristo) e não simplesmente aparecer na igreja em dia de batizado ou em casamento. Ter consciência do valor dos sacramentos e principalmente ter a consciência da Eucaristia, o centro da vida de um cristão. Ter consciência dos dogmas e das doutrinas e nela seguir em sua vida, a consciência da caridade e da comunhão em comunidade. Ter consciência de que cristão é para servir ao próximo, de amar ao inimigo.

Outro mal entendido, que me desculpe por isso, que foi falha da minha parte é em relação à Virgilia Pascal. Nào é lei e muito menos obrigatório o jejum, assim como a lei da igreja tambem não o exige. Pode-se ser estranho em relação às práticas comum dos demais fiéis, o que não significa ser errado. A igreja não exige, mas se pode praticar o jejum conforme o seu limite, assim como muitas pessoas fazem jejum de algo que é prazeroso, como televisão, não usar isso ou aquilo etc. porque há um significado. O jejum tem o seu significado, não tem? que é renúncia, penintência. O jejum dentro do caminho não é obrigatório, mas as crianças aprendem a jejuar (dentro das possibilidades dela)para que se possa viver melhor a Páscoa. Certa vez um catequista meu nos falou que a Quaresma é o tempo de penintência, onde “morremos” com Cristo para na Páscoa ressucitarmos junto com Cristo.

Dentro do Caminho, numa etapa, os pais celebram as Laudes (saltério)no domingo, para logo a seguir catequisar os seus filhos, o que não é excluído a catequese para as crianças, que se encontram nas paróquias. O pai e a mãe ensinam seus filhos com mais profundidade a viver a fé cristã.

Somos pouco a pouco introduzidos (o que é diferente de induzido) à prática de orações diárias, seja ela individual ou coletiva, entramos pouco a pouco na vida da paróquia, como há irmàos que são ministro da eucarístia, outros participam das Pastorais e tantos outras funções desempenhada de forma ativa para a própria paróquia. Esses são exemplos concretos. Em minha vida atraves do caminho pude amar ainda mais a Igreja, onde a minha familia vive a fé cristã conscientemente, não sou diferente de outros jovens mas prefiro viver a minha fé do que perdê-la por baixas paixões, e isso não é somente um caso exclusivo meu, muitos jovens que caminham tambem têm a mesma conciência. O caminho não é uma ïgreja” querendo um cisma, é apenas um instrumnento para estarmos na verdadeira igreja de Cristo, a Igreja Católica. o caminho tem os seus frutos que suscitam a cada dia.

Tenho um monte de questionamentos: o problema é o caminho neocatecumenal, similar aos de outrora do inicio da igreja primitiva? ou o problema são as heresias de Kiko (juntamente com os iniciadores do caminho)? O senhor sabe em que situação e contextos foram extraídos aqueles textos? o senhor tem os textos inteiros? (de repente a parte que o senhor contem pode-se estar destextualizado do total). Esses questionamento, de antemão, não são nenhuma provocação ou tentativa de se debochar, são questionamentos sinceros de uma pessoa que quer saber a verdade. Em relação ao “deixa disso”, não estava querendo que o senhor largasse isso de lado e partisse para solucionar outros problemas…O que queria dizer que não é o senhor que irá determinar o certo e o errado e sim a Congregação para Doutrina e Fé, em que está auxiliando no regimento do estatuto.

O senhor presta um serviço de caridade e de anuncio da verdade da Fé católica e não tiro o seu mérito, tanto que eu mesmo, como havia dito anteriormente me utilizo de seus textos para fundamentar mais ainda os meus argumentos na Fé católica. Aguardo ansiosamente por sua resposta.

e que a paz de Cristo esteja sempre convosco.

Rodrigo

Muito prezado Rodrigo, salve Maria.

Creio que uma das vantagens que tive com essa discussão sobre o NC foi a de ter entrado em contacto epistolar com você, em quem reconheço muita boa vontade e um desejo de chegar à verdade, unidos à preocupação de ser caridoso.

Não se preocupe em se desculpar por expressar-se de modo não tão preciso. Na internet, a rapidez da comunicação, por vezes, nos faz cair em imprecisões. A rapidez não se alia muito com a exatidão. Compreendo bem sua boa intenção.

Permita-me, com toda a caridade e visando seu bem, dizer algo sobre expressões que você usa e que contém, sem você saber, um significado não tão bom, que você desconhece. E  portanto, você usa sem malícia, nem culpa alguma.

Veja, por exemplo. Você fala “da comunhão em comunidade”.

O sentido normal da palavra “comunhão” é o de receber a Hóstia consagrada, receber a Jesus sacramentado, estar em comunhão com Cristo.

Os membros do NC falam “da comunhão em comunidade”.

Ora, que quer dizer isso? É estranho, porque muda o sentido natural e normal da palavra comunhão.

Uma pessoa que frequentou o NC contou-me que, nas Missas, na hora da comunhão, todos recebiam a hóstia na mão – o que já não é bom – e, depois, comungavam todos ao mesmo tempo…

Esquisito…

Por que comungar todos ao mesmo tempo? Se comungassem em momentos diferentes, deixariam de receber Cristo?

Claro que O receberiam. Mas esse gesto simultâneo reforça a idéia de que a “comunhão” é com a Comunidade, e não com Cristo.

Ora, essa idéia é péssima e provém do Padre Louis Bouyer, ex-protestante, famoso especialista em Liturgia, que critica São Francisco de Sales, e elogia e diz adotar as idéias do Bispo luterano Brillioth, em matéria de Liturgia. Kiko afirma seguir as idéias de Bouyer.

Ora, para o Padre Bouyer, Cristo está presente também na comunidade, no sacerdote, na palavra e – ele o acentua bem menos e até combate o “exagero” dessa idéia — na Hóstia consagrada. Padre Bouyer critica a centralização da Missa na idéia da presença real de Cristo na Hóstia, salientando muito mais a presença de Cristo na comunidade. Essa substituição da presença de Cristo na Hóstia consagrada pela presença na “Comunidade” é mais do que suspeita de heresia. Cristo está realmente presente na Hóstia consagrada com o seu corpo, sangue, alma e Divindade. E na Comunidade isso não acontece de jeito nenhum.

Um padre italiano, que foi do NC, escreveu um documento, que publicarei no site Montfort, afirmando que saiu desse movimento quando teve ocasião de constatar como um outro padre do NC, na Itália, agia com as hóstias consagradas que haviam sobrado. Esse padre do NC tratava as Hóstias já consagradas, como se Cristo não estivesse realmente presente nelas. E Kiko afirma que não devemos ter preocupações com migalhas…

Isso é muito grave.

Outra expressão que encontro em seu texto –e que você usa sem compreener o que ela siginifica – é a tal “fé adulta”.

Você me explicou o que você entende por essa expressão. Mas, meu caro Rodrigo, essa expressão tem um sentido diferente daquele que você entende e usa. Você usa essa expressão — “fé adulta” –evidentemente porque a ouviu de outros no NC. Ela deve ser corrente nesses meios.

Ora, dizer que há uma “fé adulta” implica em afirmar que outros teriam uma fé infantil, não tão consciente.

Li bem o que você me explica que entende por essa expressão. Permita-me porém ponderar-lhe, sem pretender acusá-lo de nada, pois reconheço a sua boa fé, que uma pessoa ignorante pode ter muito mais fé do que eu. A virtude da Fé não depende do conhecimento superior que a pessoa tenha, embora um conhecimento mais profundo auxilie a aumentar a fé. Não é porém porque sou professor e conheço algo mais do que o povo que frequenta as igrejas, que devo me imaginar ter eu uma fé superior ao de uma velhinha ignorante, que mal sabe o catecismo. Essa velhinha pode muito bem ter mais fé do que eu, sem dúvida alguma.

Há na expressão “fé adulta” uma certa nota de menosprezo pelos que têm menos conhecimento. E uma acusação que se faz com freqüência aos membros do NC é a de se considerarem superiores aos fiéis comuns. Tenho certeza de que esse não é o seu caso, e sua preocupação em não ofender, nem a doutrina nem o interlocutor, me prova que você apenas repete uma expressão pouco conveniente.

E tanto mais inconveniente quanto essa expressão teve origem, ao que tudo indica, entre os hereges modernistas, que afrimavam que “o cristão deve pensar a sua fé”. Essa idéia de que o cristão deve pensar a sua fé não fui eu que a inventei. Foram os modernistas.

São Pio X, na encíclica Pascendi, que condenou o Modenismo, escreveu: “Segue-se daí esta vulgar expressão dos modernistas; o homem religioso deve pensar a sua fé” (São Pio X, Pascendi, n*11. O itálico é do Papa ).

Padre Bouyer era discípulo do modernista abbé Lambert Beauduin. E Kiko e Carnen citam o Padre Bouyer como fonte de suas idéias sobre Liturgia e sobre a presença real de Cristo na Hóstia. Natural é então que se fale entre os seguidores de Kiko em “fé adulta”.

Também a acentuação incomum que o NC dá a Vigília Pascal, assim como a questão que no NC se faz de assistir a Missa na noite do sábado para o domingo, tudo isso provém do Padre Bouyer e de sua idéia de que a Missa é a memória da Ressurreição de Cristo, muito mais do que a renovação do sacrifício do Calvário.

Estou errado nessa constação de que Kiko e o NC acentuam mais a idéia da ressurreição do que a de sacrifício do Calvário? Você sabe que não. O fato de você mesmo usar a expressão “vigília pascal”, dando uma forte ênfase a ela (jejuns, etc) mostra que você sofreu essa influência das idéias do Padre Bouyer no NC, através das pregações de Kiko e dos catequistas que leram as suas apostilas.

Arranjei alguns textos longos das apostilas de Kiko. Se só as apostilas completas elucidam o verdadeiro pensamento de Kiko, o NC tem o dever de publicá-las na íntegra, para que não haja dúvida sobre o que ele realmente pensa da Eucaristia e da presença real de Cristo na Hóstia consagrada, mesmo depois de cessada a Missa. Essa publicação das apostilas resolveria toda a questão.

Por que então não se as publica?

Estranho…

Recebi uma longa e inteligente carta de uma senhora pertencente ao NC, na qual ela me informa que leu as apostilas de Kiko, que lhe foram fornecidas por um Padre da região de Campinas.

Então as apostilas existem mesmo.

Por que tantos do NC negaram com tanta veemência que elas existiam?

Se eles as desconheciam, foram mantidos propositadamente nesse engano.

Por que os que sabiam da existência desses documentos permitiram que se negasse um fato real?

Isso não é agir com lealdade, nem com os membros ingênuos do NC, nem com aqueles que afirmaram a existência desses documentos, como, por exemplo, o Padre Zoffoli.

Essa senhora me enviou também um longo estudo de noventa e tantas páginas defendendo o NC, que comentei e publiquei no site Montfort.

Reitero a você, meu caro Rodrigo, toda a minha compreensão e respeito, e rezo para que cheguemos afinal a uma união completa e perfeita

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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