Montfort Associação Cultural

28 de janeiro de 2005

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Comentando o parecer de um Cônego

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Roberto Cavalcanti
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil

“A SEMENTE DIVINA NO HOMEM
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 
Está havendo, na Internet uma discussão acirrada a propósito de uma frase da Gaudium et Spes classificada como herética: “…proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja… (GS 3). Pediram a este articulista uma explicação.
 
De plano, não há heresia gnóstica alguma na expressão empregada pelos Padres Conciliares, uma vez que no latim clássico semen, do verbo sero foi empregada por Cícero e outros autores no sentido de princípio, termo que significa origem de algo, de uma ação ou de um conhecimento, como o conceitua a filosofia. O homem, ensina a Bíblia, foi criado à imagem [selem em hebraico] e semelhança de Deus (Gn 1,27). Imagem e semelhança têm o mesmo significado.  O homem é parecido com Deus (Gen 5,1), porque recebeu do Ser Supremo algo divino. Ele se assemelha ao Criador como o filho com seu pai e isto é doutrina claríssima na Escritura. Para São Paulo o homem é a “imagem de Deus e reflexo de sua glória” (1 Cor 11,7 e ss). Há um parentesco do homem com Deus. Os Padres gregos e latinos nunca deixaram de frisar esta verdade. O homem pode conhecer a Deus porque somente o símile conhece o símile. Apenas o semelhante pode, de fato, conhecer o semelhante e o conhecimento supõe a conaturalidade do sujeito e do objeto.  Para Santo Agostinho o homem é capax Dei tem capacidade de Deus por sua própria natureza, sendo dotado de razão, por sua imortalidade, pelo conhecimento natural de Deus. É particeps Dei – participante de Deus, mediante os dons sobrenaturais que o Onipotente lhe concedeu. Esta imagem de Deus que o pecado não destruiu foi recebida no momento da criação, como início ou germe de divinização, uma semente divina. Não se trata absolutamente de uma idéia com laivos de panteísmo ou gnosticismo, porque não se trata de emanação de Deus. Há, isto sim, uma conaturalidade da alma com o divino. Através da graça santificante existe até a participação da natureza divina como ensinou São Pedro – divinae consortes naturae. (2 Pd 1,4). Além disto, o termo bíblico semelhança significa divinização do homem, ou seja, um progresso espiritual na ação e no conhecimento. Há, deste modo, uma similitude geral do homem com Deus que inclui inteligência, vontade e poder. Quem penetra fundo no texto bíblico, no Talmud, na literatura midráxica e hassídica percebe que o homem é, realmente, um ser sagrado, fluindo isto da paternidade divina. É dentro desta perspectiva que se deve interpretar o texto conciliar que exprime uma verdade enraizada na Bíblia, nos Santos Padres e nunca refugada pela sã teologia.
São Gregório de Nissa deixou este texto precioso e esclarecedor: “Tendo presenteado as suas criaturas com um dom divino, o Criador depositou em sua imagem as semelhanças dos seus próprios bens; e por isso beneficiou-nos também por sua bondade, com os demais bens. Do nous e do entendimento não se pode dizer que tenham sido propriamente doados, senão que foram “condoados” (sic), ao proporcionar Deus à imagem o ornato de sua própria natureza”, ou seja, o homem possui uma semente divina! * Professor no Seminário de Mariana – MG. “.

 Muito prezado Roberto,

 salve Maria!
 
    Você teve a bondade de me enviar o artigo do ilustre Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, tratando da afirmação da Gaudium et Spes de que Deus teria colocado uma semente divina no homem.
    O assunto, conta o artigo, foi provocado por uma polêmica na Internet que moveu um Cônego, e Professor de Seminário, em Mariana, a escrever um artigo, para orientar as ovelhas no debate eletrônico. Evidentemente, essa estranha mistura de Cônegos de Mariana, ovelhas tão dispersas e tão desorientadas e Internet são frutos deste terceiro milênio terrorista e eletrônico, em plena Civilização do Amor, como anunciou Paulo VI.
    Você sabe muito bem, meu caro Roberto, que não é comum mover Cônegos, arrastando-os para polêmicas.
    Principalmente em Minas.
    E desconfio que seja um artigo meu que tenha suscitado tanta polêmica, que se alastrou pela Internet como fogo em mato seco, chegando até à pacata Mariana com suas belíssimas igrejas coloniais e seu antigo e vetusto seminário, onde sempre lecionaram eruditos, prudentes e sábios Cônegos.
    Esse artigo pastoral e magisterial do ilustre Cônego Vidigal, que você me enviou, eu o copio abaixo, para, depois, analisar e responder ao que ele diz.
    Lamento ter que discordar do respeitável parecer do Cônego Vidigal, e, mais ainda, lamento ter que afirmar que o texto da Gaudium et Spes, em causa, infelizmente, defende uma tese da Nova Teologia de caráter modernista e gnóstico, visto que considera haver na natureza humana – no homem, tomado genericamente – uma semente divina.
    Claro que esta minha afirmação – que já fiz em outros textos meus, na Internet, e aos quais, talvez, se refira o artigo do Cônego Vidigal – exige explicações mais detalhadas e aprofundadas.
    Mas, antes de fazê-las, quero citar aqui, na íntegra, o artigo do Cônego Vidigal, para que haja melhor entendimento do problema. (veja o artigo acima)
    Parecer que vem de Mariana, o coração católico de Minas. O que é um, por si mesmo, um penhor de simpatia. De Mariana que produziu tantas glórias para História da Igreja no Brasil.
    Antes de tudo, – e pro bono pacis – deixe-me concordar com algo que diz o senhor Cônego Vidigal, logo no início de seu sábio parecer. É sempre agradável concordar com um Cônego. Tanto mais que nestes tristes bem confusos dias pós Conciliares é tão difícil encontrar um Cônego, – “ils sont rares et peu fréquents” – e, mais difícil ainda, é poder concordar com eles em algo. Deixe-me, então, concordar com o ilustre Cônego, no início.  
    Pelo menos no início.
    Tem ele razão – no início – em dizer que:
    “no latim clássico semen, do verbo sero foi empregada por Cícero e outros autores no sentido de princípio,  termo que  significa origem de algo, de uma ação ou de um conhecimento, como o conceitua a filosofia”.
    Até aí, tudo bem.
    Tanto mais que o Cônego cita até Cícero!
    Tinha que ser em Minas! Um Cônego que cita Cícero!
    Em pleno Tertium Millenium inneuntem!
    Não dizia eu que isso é raro e pouco freqüente!
    Resta saber, agora, em que consiste esse semen, esse princípio.
    E temo eu que minha concordância com o senhor Cônego Vidigal pare nesse inneuntem.
    In Principio… concordantia!
    Somente in principio.
    Infelizmente.
 
    Logo depois deste ponto de concordância com Cônego Vidigal, já tenho que discordar dele, quando ele surpreendentemente afirma que o Divino Espírito Santo foi… redundante.
    E dizer isso do Divino!
    Um Cônego!
    Em Minas!
    Em Mariana!
    Não o saiba o bom povo de Minas!
 
    Pois, veja-se lá, o que escreveu o nosso ilustre Cônego de Mariana:
    “O homem, ensina a Bíblia, foi criado à imagem [selem em hebraico] e semelhança de Deus (Gn 1,27). Imagem e semelhança têm o mesmo significado”.                                        
    Perdoe-me, o ilustre e mui respeitável Cônego, mas imagem e semelhança não têm o mesmo significado. O Espírito Santo não cometeu uma redundância!
    Imagem não é sinônimo de semelhança.
    É o que ensina São Tomás, na Suma Teológica. É o que ensina São Boaventura, nos Solilóquios.
    Todas as coisas criadas por Deus se assemelham a Ele de algum modo, mas não do mesmo modo.
    Ensinou São Tomás:
    “A Deus se assemelham as coisas, em primeiro lugar, e de um modo muito comum, enquanto existem; em segundo lugar, enquanto vivem; e finalmente, enquanto sabem e entendem” (…) É pois evidente que, falando propriamente, somente as criaturas intelectuais são feitas à imagem de Deus” (São Tomás, Suma Teológica , I, q. XCIII, a. 2).
    E ainda nos disse o Aquinate: (cf. In II Sent. d. 16, q. 1, a. 3), ao se falar de imago Dei no homem, há que distinguir pelo menos dois sentidos diferentes:
    (a) a imagem de Deus que temos desde a Criação (imago creationis), que consiste em propriedades que pertencem à natureza do homem, como, principalmente, nossa inteligência;
    (b) a imagem de Deus que recebemos com a Redenção (imago recreationis), no batismo, a qual consiste na participação na vida divina de que fala São Pedro.
    A primeira, de fato, não foi destruída pelo pecado, mas apenas ferida. Afirmar que ela tivesse sido destruída seria cair na heresia de Lutero.
    Por outro lado, afirmar que não tivesse sido ferida seria cair na heresia pelagiana.
    Já a imagem de Deus no segundo sentido, que é aquela que não pertence à natureza do homem, mas que foi recebida gratuitamente por Adão no momento de sua criação (em suma, a vida sobrenatural), esta foi perdida, sim, pelo pecado de Adão, e foi recuperada somente por Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Ou seja, uma coisa é a razão humana que faz todos os homens, sem distinção, serem imagem de Deus (no primeiro sentido exposto acima, de imago creationis); outra coisa é a “semente divina no homem”, a graça santificante, a qual é possuída apenas pelos batizados (imago recreationis).
    Que a “semente divina” refira-se a algo sobrenatural, confirma-o o seguinte trecho da Suma:
     “Se, pois, o ato proceder da faculdade racional do homem, será chamado fruto da razão. Se, porém, proceder do homem por uma virtude mais alta, a do Espírito Santo, então, chamar-se-á ao ato do homem fruto do Espírito Santo, procedente de uma como que semente divina [quasi cuiusdam divini seminis], conforme aquilo da Escritura (I Ioan., III (9)): Todo o que é nascido de Deus não comete o pecado, porque a semente de Deus permanece nele.” (Santo Tomás, Suma Teológica, Ia-IIae, q. 70, a. 1, corpus).
[Mais adiante, analisaremos essa citação de São João, que Cônego Vidigal poderia ter usado para defender o Vaticano II. Ainda bem que não usou, pois ele a usaria mal, e erradamente].
    São Boaventura, usando outros termos e outro modo de exposição, ensina a mesma coisa.
Com efeito, diz São Boaventura que Deus colocou na natureza criada vestígios, imagem e semelhança dEle.
     “O mundo é uma espécie de livro em que se reflete, é produzida e se pode ler a Trindade que o produziu, segundo um tríplice grau de expressão, ou seja, por vestígio, imagem e semelhança; o motivo de vestígio é encontrado em todas as criaturas; o de imagem, em todos os intelectos espirituais de caráter racional; o motivo de semelhança, somente naqueles que são realmente conformes com Deus.”  (São Boaventura, Breviloquium, II, 12).
 
    Vestígios são marcas deixadas por um ser. Por exemplo, as marcas dos passos de um homem na areia de uma praia são vestígios dele, e não sua imagem. As cinzas e os restos de um cigarro são vestígios de um fumante, e não imagem dele. Os papéis amassados na cesta de lixo de um Cônego são vestígios de seus trabalhos intelectuais, mas não são sua imagem.
Assim, em toda a criação podemos encontrar vestígios de Deus, na ordem existente em todas as criaturas. A ordem atômica e a ordem celular são vestígios da Sabedoria de Deus nos seres inferiores ao homem. Assim também, o bem existente em todo ser é um vestígio da infinita bondade de Deus.    
 
    Imagem é mais que vestígio. Assim, a imagem de uma pessoa num espelho é mais do que os vestígios que ela deixa de seus passos em seu caminho. A fotografia do Cônego Vidigal, ao lado de um seu artigo, é imagem dele, e não vestígio dele.
Imagem, lembra São Tomás, exige que seja tirada de um modelo, imitando-o, de algum modo. E um ovo, por mais que seja parecido com outro ovo, não é imagem dele, porque não foi tirado dele. (Cfr. São Tomás, Suma Teológica, I, Q. 93, a. 1).
 
    Os homens e os anjos foram feitos à imagem de Deus, porque não só existem e vivem, como Deus, mas, porque, como Deus, conhecem e amam. Isso porque, nos anjos e nos homens há mais que vestígio de Deus: há imagem dEle, porque assim como, em Deus, há inteligência e vontade, também nos homens e nos anjos há inteligência e vontade.
    Os homens e os anjos são “capacci d´intellecto e d´amore” como poetou Dante.
    Deus nos criou à sua imagem, porque nos fez racionais.
    Nossa alma tem inteligência, vontade e sensibilidade. Estas são as potências de nossa alma e não partes dela, porque a alma sendo simples, não tem partes, e, por isso, é imortal. Assim como nós temos inteligência e vontade finitas, Deus também tem Inteligência e Vontade, mas infinitas. Por isso, por termos inteligência e vontade, temos, em nós, uma imagem de Deus. Somente os anjos e os homens são feitos à imagem de Deus.
    Entretanto, pondera São Boaventura que nos demônios e nos pecadores, permanece a imagem de Deus, pois que, apesar do pecado, continua a existir neles inteligência e vontade. Entretanto, já neles não há semelhança com Deus, porque esta consiste no ter a vida de Deus, pela graça santificante.
       
    Verdadeiramente semelhantes a Deus são apenas os anjos do céu e os homens que estão em estado de graça.
    Santo Agostinho, partindo do mesmo princípio de que na Sagrada Escritura não há palavra ociosa, percebe ainda um sentido ulterior nesta distinção entre imagem e semelhança:
 
E, em nota a esse texto, Mondin cita:
 
    “No De Genesi ad litteram [Liber imperfectus], nº 58, [Santo] Agostinho explica que o acréscimo “ad similitudinem” foi feito “ut ostenderetur eam quae imago dicta est, non ita similem esse Deo, quasi alicuius similitudinis participantem, sed hanc ipsam esse similitudinem, cuius participant omnia quae dicuntur esse similia”.” (ibid., p. 115, nota 60).
 
    Por isso, no Gênesis está escrito que Deus nos fez à sua imagem e semelhança, distinguindo imagem de semelhança. Termos que, infelizmente, Cônego Vidigal considerou como tendo o mesmo significado, como sinônimos, como se Deus tivesse cometido uma redundância, ou repetição inútil, no texto do Gênesis.
    Deus quis dar a Adão uma semelhança com Ele, através da elevação do homem à vida sobrenatural. Isso Deus fez, infundindo em Adão a graça sobrenatural, isto é, a participação na vida divina, que tornou Adão santo, como Deus é santo.
    Essa infusão da graça santificante no homem foi feita gratuitamente, daí se dizer graça. A graça santificante não é algo constitutivo da natureza humana, mas algo acrescentado a ela gratuitamente, e que possibilitou a Adão ter méritos sobrenaturais infinitos, pela vida de Deus em sua alma.
    Deve-se distinguir natureza e graça sobrenatural, para não se cair nem em Panteísmo, nem em Gnose.
    Daí ter sido preparado no Concílio Vaticano I o seguinte cânon:
    “Se alguém disser que a santidade e a justiça em que foi constituído o homem antes do pecado não era sobrenatural, que seja anátema!” (Cfr. edição da . Suma Teológica  de São Tomás de Aquino, Introdução às questões 94-97,  BAC,  Madrid, 1959, Volume III- 2, p. 618).
    Desgraçadamente, Adão, ao pecar, perdeu a graça santificante, perdeu a semelhança com Deus. Mas não perdeu a imagem de Deus, pois continuou a ter inteligência e vontade, embora decaídas. Recuperou a graça com o seu arrependimento. Mas só após a Redenção de Cristo, que pagou o seu pecado na Cruz, ele pôde entrar no céu com Jesus.
    Todos os homens são feitos, então, à imagem de Deus, por terem inteligência e vontade, mas só tem semelhança com Deus quem conserva a graça santificante, recebida no Batismo, graça santificante que é a vida de Deus na alma. Essa vida da graça e o que nos torna filhos adotivos de Deus, e membros da Igreja. Portanto, quem não é batizado não tem em sua alma a semelhança com Deus, tem na alma apenas a imagem de Deus. Quem peca mortalmente perde a graça santificante e, com ela, perde a semelhança com Deus.
     
    Infelizmente, Cônego Vidigal passou por cima dessas distinções capitais entre imagem e semelhança com Deus, que ele certamente aprendera no Catecismo. E esse passar por cima do aprendido no Catecismo, creio que por esquecimento, acarreta muito graves conseqüências, pois se acaba por não distinguir ordem natural de ordem sobrenatural.
    Tanto Cônego Vidigal, infelizmente, não distinguiu entre filiação divina por natureza e filiação divina por adoção, que escreveu:
    “O homem é parecido com Deus (Gen 5,1), porque recebeu do Ser Supremo algo divino. Ele se assemelha ao Criador como o filho com seu pai e isto é doutrina claríssima na Escritura. Para São Paulo o homem é a “imagem de Deus e reflexo de sua glória” (1 Cor 11,7 e ss). Há um parentesco do homem com Deus”.
    Não posso esconder minha estupefação em encontrar na pena do ilustre Cônego de Minas, a expressão “Ser Supremo” para designar a Deus.
    Isso lembra Robespierre, que montou a festa do Ser Supremo em 1794. Isso lembra textos – que a Igreja sempre condenou – e que falavam de Deus como Ser Supremo, ou como o Grande Arquiteto do Universo. Isso lembra documentos de padres da Inconfidência Mineira. Cônego Vidigal certamente é de Minas. Das gloriosas e altaneiras Gerais. Mas muito mais certamente nunca foi de inconfidências. Nem mineiras, nem paulistas.
    Como se lhe escapou esse bizarro “Ser Supremo”, para designar o Pai onipotente, criador do Céu e da Terra, Uno e Trino, que Ele adora e proclama no Credo, em todas as suas piedosas Missas?
    Que lapso!
    E depois, que confusão, que falta de “distinguo” teológico comete o Senhor Cônego, ao misturar os conceitos de filiação divina propriamente dita com filiação divina por adoção!
    Há “parentesco”, sim, entre o homem e Deus, mas por adoção, não por natureza.
    Filho de Deus, em sentido próprio, por ser consubstancial ao Pai, é um só, o Unigênito, o Verbo de Deus, em tudo igual ao Pai.
    Nós, homens, não somos propriamente filhos de Deus por natureza, mas apenas por adoção.
    Depois do pecado, os homens são elevados à condição de filhos adotivos de Deus – não filhos por natureza – pelo Batismo. Somente quem é batizado se torna filho adotivo de Deus, pela recepção da graça santificante, obtida pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Por essa razão Jesus disse a Nicodemos: 
    “Em verdade, em verdade te digo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne, é carne, e o que nasceu do Espírito, é espírito” (Jo. III, 5-6).
    A filiação divina, que nos faz semelhantes a Deus, não provém da carne, isto é, da natureza, mas de Deus. Por isso, nem todo homem é filho de Deus e semelhante ao Pai divino, pelo espírito. E, por isso, está dito no Evangelho de São João:
    “Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que crêem em seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo. I, 12-13).
    Portanto, nem todo homem é filho adotivo de Deus, mas só os que o recebem, os que crêem nEle.
    A natureza humana, de per si, não nos faz semelhantes a Deus como o filho se assemelha ao pai. Não é a carne, nem o sangue, nem a vontade do homem que possibilita a filiação divina. Não há nada na natureza do homem que seja capaz de elevá-lo à vida sobrenatural, à filiação divina.
    Não há, na natureza humana, nada de divino.
    Quem defendeu a tese de que a natureza humana exige a ordem sobrenatural, quem concebeu que na própria natureza residia algo de sobrenatural, foi o neomodernista Padre Henri de Lubac, cujos erros influenciaram mal – e muito mal! – o Concílio Vaticano II.    
    Para provar isso que dissemos de de Lubac, basta citar o que dele disse o Cardeal Siri: “Em 1946, ele  [o Padre Henri de Lubac] publicou seu livro “Sobrenatural”, que exprime todo o seu pensamento de então. Ela firmava que a ordem sobrenatural está necessariamente implicada na ordem natural” (Cardeal G. Siri, Reflexions sur le Mouvement Théologique Comtemporain, p.  41).
 
    Cônego Vidigal, fundado no que diz a Gaudium et Spes, insinua que Deus colocou na natureza humana algo de divino, o que cheira a Gnose.
    Que infelizmente nosso ilustre Cônego Vidigal caiu nesse erro, se confirma noutras frases desse infeliz artigo dele.
    Nova confusão entre o plano natural e o plano sobrenatural é feita pelo reverendo Cônego Vidigal, nas seguintes frases:
    “Para Santo Agostinho o homem é capax Dei tem capacidade de Deus por sua própria natureza, sendo dotado de razão, por sua imortalidade, pelo conhecimento natural de Deus. É particeps Dei participante de Deus, mediante os dons sobrenaturais que o Onipotente lhe concedeu. Esta imagem de Deus que o pecado não destruiu foi recebida no momento da criação, como início ou germe de divinização, uma semente divina.” (Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho. A SEMENTE DIVINA NO HOMEM. Sublinhado meu, negritos e itálicos do original.)
 
    Aí, o autor dá a entender que os “dons sobrenaturais” pelos quais somos “participantes de Deus” seriam parte da “imagem de Deus que o pecado não destruiu”! Ora, o que nos faz “participantes de Deus” é a graça santificante, sustentáculo dos mencionados “dons sobrenaturais”. Logo, o cônego parece dizer aí que a “imagem de Deus que o pecado não destruiu” seria não apenas a alma humana (com o “nous e o entendimento” de que fala São Gregório de Nissa), mas sim a própria graça santificante e os dons sobrenaturais!
    E é claro que dizer que a graça santificante não foi perdida com o pecado original é heresia! E heresia gnóstica.
    Claro que, sendo o homem racional, ele pode, pela luz natural da razão ter um certo conhecimento de Deus. Outra coisa é o ser “particeps Dei – participante de Deus, mediante os dons sobrenaturais que o Onipotente lhe concedeu”. (O sublinhado foi meu).
    A vida sobrenatural e os dons sobrenaturais são distintos da natureza humana, e estão acima dela. É pela graça santificante que o homem é elevado à vida sobrenatural. Não é a natureza que o faz possuidor desses dons sobrenaturais e participante de Deus.
    De novo o senhor Cônego Vidigal misturou duas coisas distintas, e que importa sumamente distinguir para não se cair na Gnose Modernista e da Nova Teologia de Henri de Lubac, condenada por Pio XII e que, apesar disso, foi triunfante no Vaticano II.
 
    Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho parece cair nesse mesmo erro do Concílio, em seu artigo “A Semente Divina no Homem”.
 
    Como vimos, ele diz que “Imagem e semelhança têm o mesmo significado” e, mais adiante, que “o termo bíblico semelhança significa divinização do homem”. Logo, para ele, imagem = semelhança = divinização. Ora, “divinização” é um termo dos Padres gregos para significar a vida sobrenatural. Assim, o autor parece estar dizendo que imagem de Deus que todo homem é, apenas por nascer, já inclui a divinização, isto é, a vida sobrenatural!
 
    Esse trecho do artigo do Senhor Cônego Vidigal é particularmente interessante, porque torna patente o contraste entre, por um lado, a atribuição de uma “semente divina” aos batizados, como faz a Sagrada Escritura, referindo-se à graça santificante, à vida sobrenatural; e, por outro lado, a atribuição de uma “semente divina” a todos os homens, como faz gnosticamente a Gaudium et Spes.
    Que o Reverendo Senhor Cônego Vidigal, data vênia, caiu em erro, se comprova ainda, nestoutra frase do artigo dele:
    “Esta imagem de Deus que o pecado não destruiu foi recebida no momento da criação, como início ou germe de divinização, uma semente divina”.
    Semente divina na imagem do homem?
    Como semente divina?
    Que tipo de semente é essa colocada na imagem de Deus no homem, sendo que essa imagem faz parte da natureza racional do homem?
    Claro que o pecado não destruiu a natureza racional do homem, que o faz à imagem de Deus, mas só a danificou.
    O que o pecado fez Adão perder foi a graça santificante, a vida sobrenatural, a participação na vida divina.
    O que o Cônego Vidigal afirma é que a imagem de Deus no homem – que, como já vimos é sua natureza racional –foi recebida no momento da criação, como início ou germe de divinização, uma semente divina”.
    Se fosse assim, o homem teria recebido, em sua criação, em sua própria natureza, um germe divino, que é exatamente o que diz a Gnose. O homem seria, por sua própria natureza, um Deus em semente.
    Mas se fosse assim, caríssimo Cônego, nenhum homem poderia se perder, pois que tendo uma substância divina em sua natureza, essa substância divina jamais poderia ser lançada no fogo eterno. No “caldeirão do Pedro Botelho”, como se diz em Minas, para evitar dizer o nome do diabo.
    Se todo homem tem, em sua natureza, uma semente divina, nem é preciso ser católico, para se salvar, idéia muito de acordo com o Vaticano II, mas muito contrária à doutrina católica.
    Para salvar-se, não seria preciso aceitar nem o que diz o Papa. (E, muito menos, nem o que diz o Senhor Cônego Vidigal).
    Se todo homem possui em si, em sua natureza, uma semente divina, como nos garantiu o senhor Cônego Vidigal, ele não deveria mais ter confessionário em sua igreja, pois que todos já estão salvos por natureza. Por sua natureza divina possuída e garantida pelo Vaticano II e pelo Cônego Vidigal.
    Será que Cônego Vidigal aboliu os confessionários em sua igreja, como fizeram muitos seguidores do Vaticano II, que crêem, de pés juntos, que no homem, em qualquer homem, há uma semente divina, isto é, que o homem, no fundo dos fundos, é Deus?
    Que Cônego Vidigal adotou o erro de Henri de Lubac – do qual trataremos mais adiante – se vê claramente também na seguinte frase dele:    
     “Além disto, o termo bíblico semelhança significa divinização do homem, ou seja, um progresso espiritual na ação e no conhecimento”.
    Mas em que Bíblia o Senhor Cônego Vidigal encontrou isso?
    Em que livro da Sagrada Escritura está dito que semelhança divina = divinização?
    Não conhecemos texto bíblico que diga isso.
    Verdade é que o ilustre Cônego, Professor do Seminário de Mariana, se apressa a nos elucidar, logo em seguida, que:
    “Quem penetra fundo no texto bíblico, no Talmud, na literatura midráxica e hassídica percebe que o homem é, realmente, um ser sagrado, fluindo isto da paternidade divina”.
    Mas, então, é no Talmud que se fundamenta o Ilustre Senhor Cônego Vidigal!?
    Que é isso?
    Já ouvi coisas incríveis de lábios sacerdotais, posteriores ao Vaticano II, mas uma coisa como essa jamais ouvira, ou lera, antes.
    Então, bem pior que o “Ser Supremo” – irmão gêmeo e eufemístico do Grande Arquiteto do Universo de Robespierre e do Venerável João das Quintas da loja Amizade e Perfeição – bem pior é fundamentar-se no Talmud, e na literatura midráshica e hassídica para defender o Vaticano II.
    Mas se é preciso recorrer a textos rabínicos e a textos do Talmud, para defender o Vaticano II, está comprovado que esse Concílio defendeu mesmo erros gnósticos.
    Pena que o Ilustre Senhor Cônego Vidigal não tenha citado quais textos talmúdicos garantem que “semelhança significa divinização do homem”, e que “o homem é, realmente, um ser sagrado, fluindo isto da paternidade divina”.
    Se nesta frase, O Ilustre Cônego Vidigal afirma que “foi da paternidade divina que fluiu um ser sagrado no homem como, linhas antes diz ele que:
    “Não se trata absolutamente de uma idéia com laivos de panteísmo ou gnosticismo, porque não se trata de emanação de Deus. Há, isto sim, uma conaturalidade da alma com o divino”.
    Afinal, senhor Cônego Vidigal, “fluiu”emanou – algo sagrado de Deus, um “ser sagrado” de Deus no homem, e que foi semente de divinização do homem, ou não fluiu, não emanou?
    Porque fluir significa sair de, emanar. E isso é Gnose. E Gnose talmúdica. Gnose midráxica. Gnose hassídica, e jamais doutrina católica.
    Em que águas e fontes rabínicas foi se abeberar nosso ilustre Cônego Vidigal!
    Como foi acontecer isso em Minas!
    Que tremenda fumaça de satanás entrou no templo de Deus como confessou, o próprio Paulo VI, depois do Vaticano II!
    E essa fumaça chegou até Minas!
    Na Minas tão católica de outrora!
    E em Mariana!
    No seminário de Mariana!
    Quem diria?!
    Nossa Senhora do Carmo, guardai Minas e seus Cônegos. Guardai-a mesmo de seus ilustres Cônegos. Para que nelas – nas queridas Minas Gerais – se sirva sempre Deus altíssimo, e não o Ser Supremo do Padre Rolim, e que jamais nosso bom católico mineiro se acredite divinizado.
    Imaginaram?
    Um mineiro divinizado?
    Pelo Vaticano II. Com a aprovação do Cônego Vidigal!
    Ut inimicos Sanctae Ecclesiae humiliari digneris, Te rogamus, audi nos!
    Por amor à justiça, e em atenção ao ilustre Senhor Cônego, queremos acrescentar algo a favor dele.
    O ilustre Senhor Cônego diz também, neste mesmo artigo que analisamos, que “Através da graça santificante existe até a participação da natureza divina como ensinou São Pedro – divinae consortes naturae. (2 Pd 1,4)”.
     Esse “até”, se interpretado benevolamente, pode significar que o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, apesar de tantos indícios em contrário, afinal de contas mantém ainda, no fundo de sua alma sacerdotal, a distinção entre a ordem natural e a ordem sobrenatural.
E queira Deus que assim seja.
 
***
 
    Depois de analisar o que disse nosso ilustre Cônego ao intervir na polêmica internetal, passarei a tratar do que disse o Vaticano II, na Gaudium et Spes, sobre a semente divina no homem.
    Diz a Gaudium et Spes:
    “Em nossos dias, arrebatado pela admiração das próprias descobertas e do próprio poder, o gênero humano freqüentemente debate os problemas angustiantes sobre a evolução moderna do mundo, sobre o lugar e função do homem no universo inteiro, sobre o sentido de seu esforço individual e coletivo e, em conclusão, sobre o fim último das coisas e do homem. Por isso o Concílio, testemunhando e expondo a fé de todo o povo de Deus congregado por Cristo, não pode demonstrar com maior eloqüência sua solidariedade, respeito e amor para com toda a família humana à qual esse povo pertence, senão estabelecendo com ela um diálogo sobre aqueles vários problemas, iluminando-os á luz tirada do Evangelho e fornecendo ao gênero humano os recursos de salvação que a própria Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe de seu Fundador. É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado na sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade, que será o eixo de toda a nossa explanação
Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação” (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n0 3. Os negritos e sublinhados são nossos).
    A citação é longa, enfadonha e um tanto misteriosa. Nela o Vaticano II propõe um diálogo entre a Igreja e o “Gênero Humano”.
    Compreende-se que a Igreja fale pela voz do Papa e do Episcopado.
    Mas, quem é o outro dialogante que representaria o “Gênero Humano”?
    A ONU?
    A Maçonaria?    
    Em todo o caso, todo o contexto se refere ao gênero humano, enquanto tal, ao homem enquanto tal, ao homem tomado genericamente, e não ao homem enquanto batizado, elevado à ordem sobrenatural.
    Portanto, quando o Vaticano II afirma que “Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina”, ele está se referindo ao homem considerado em sua natureza, ao homem enquanto tal.
Ora, dizer que no homem existe uma “semente divina” é defender uma tese de caráter gnóstico.
Nesse texto da Gaudium et Spes, não se está falando absolutamente da graça e da elevação do homem à ordem sobrenatural através do batismo. Fala-se de todo homem. E nem todo homem é batizado.
    O Vaticano II considera que em todo homem, naturalmente tomado, existiria uma semente divina. Sem dúvida, essa afirmação não é ortodoxa e sim gnóstica.
    É aqui que queremos dar uma ajuda ao ilustre Cônego, não para oferecer-lhe um sofisma, mas apenas como faz São Tomás na Suma, dar um argumento contrário à tese enunciada, a fim de tornar mais patente sua verdade.
    O Senhor Cônego de Mariana poderia ter citado o texto da Primeira Epístola de São João que diz coisa semelhante a propósito de ter Deus colocado uma semente divina no homem.
    Eis o texto de São João:
    “Todo aquele que nasce de Deus, não comete o pecado, porque a semente de Deus permanece nele, e não pode pecar porque nasceu de Deus” (I, Jo., III, 9).
    Eis aí um argumento de autoridade e de peso infinito: Deus colocou no que nasce de Deus uma semente divina.
    “Vai dizer, agora, esse professorzinho da Montfort, que acusa o Vaticano II de ter caído em Gnose, que também São João é gnóstico? Essa, não. Essa é demais!”, me diria não o ilustre Cônego Vidigal, que é bem educado e bem culto, para não dizer essa grosseria, nem essa heresia, mas um desaforado candidato ao Quadro de Honra do site Montfort.
    Então?
Como responder?
    Estaria São João de acordo com a Gaudium et Spes?
    Claro que não!
    Repare o paciente leitor que São João diz: “Todo o que nasce de Deus” é que tem a famosa “semente divina”. São João afirma que só tem a semente divina quem nasce de Deus. Enquanto que o Vaticano II afirma que todo homem tem essa semente divina.
    São João afirma que o homem batizado, que “nasceu de Deus”, que “nasceu da água e do Espírito, isto é, o homem batizado e elevado à ordem sobrenatural é que tem a “semente de Deus”, isto é a graça de Deus.
    Por isso, como já citamos, São João diz no Evangelho:
     “Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que crêem em seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo. I, 12-13).
    O Vaticano II afirma que o homem, naturalmente tomado, tem a semente de Deus. O que identifica a ordem natural e a ordem sobrenatural que era um dos erros da gnose Modernista, condenada por São Pio X na Pascendi.
    Para o Vaticano II, todo homem, mesmo o que “nasce do sangue e da vontade da carne” e da “vontade do homem” tem a tal semente divina.
    O que diz o Vaticano II é o contrário do que diz São João em sua Epístola e no seu Evangelho.
    Querem a confirmação do que digo?
     Aí vai a explanação de Santo Agostinho sobre a semente de Deus da qual fala São João em sua Primeira Epístola:
    “‘Todo o que é nascido de Deus, não comete o pecado, porque a semente de Deus permanece nele’. A ‘semente’ de Deus significa a palavra de Deus [Semen Dei, id est, verbum Dei], donde o Apóstolo dizer: ‘Fui eu que vos gerei em Jesus Cristo por meio do Evangelho’ (1 Cor 4, 15). ‘E não pode pecar, porque nasceu de Deus’.” (Santo Agostinho, Tractatus in Iohannis epistulam ad Parthos, Quinta Homilia, Nº 7).
    Para o Doutor da Graça, como se vê, a “semente divina” seria o Evangelho enquanto meio pelo qual os fiéis são gerados em Cristo. Portanto, trata-se novamente do princípio da vida sobrenatural nos batizados. E não de algo que existiria em todos os homens, como quer o Vaticano II.
 
    O Comentário da Bíblia da Universidade de Navarra a 1 Jo 3, 6-9, o qual citamos, apesar de sua extensão, em razão de sua extrema relevância à nossa questão (os negritos são nossos; os itálicos, do original) lembra que:
 
<<“Para entender bem as afirmações de São João, convém recordar a sua batalha doutrinal contra os falsos mestres – os gnósticos –: estes pretendiam enganar os fiéis (v. 7), aduzindo um conhecimento especial de Deus (gnosis), que os situava por cima do bem e do mal, de maneira que o considerado pela Igreja como pecado, era para eles indiferente e incapaz de lhes arrebatar a sua pretendida união com Deus.
    “Perante estes herejes, o Apóstolo faz-se eco das palavras do Senhor: ‘Pelos frutos se conhece a árvore’ (Mt 12,33). Assim, o verdadeiro cristão é conhecido pelas obras de justiça (v. 7), ou seja, pelo cumprimento dos mandamentos divinos, levando uma vida de santidade. Por isso são incompatíveis com o pecado as qualidades que definem a existência cristã: a filiação divina – ‘quem nasceu de Deus’ (v. 9) –, a união vital com Cristo – ‘quem permanece nEle’ (v. 6) –, a graça santificante junto com as virtudes infusas e os dons do Espírito Santotal parece ser o sentido da expressão “germe divino” (v. 9). Deste modo se entende como ‘quem permanece nEle (Cristo) não peca’ (v. 6).
    “Mais ainda, enquanto ‘o germe divino permanece nele… não pode pecar’ (v. 9). É evidente que São João não pretende afirmar que o cristão seja impecável; ao começo da carta tinha dito: ‘Se dissermos que não temos pecados, enganamo-nos a nós próprios’ (1,8). O que quer deixar claro é que ninguém pode justificar o seu próprio pecado sob o subterfúgio de se proclamar filho de Deus; a justiça dos filhos de Deus reflete-se nas suas obras, enquanto ‘o que peca, esse é do Diabo’ (v. 8), visto que pelo próprio pecado rompeu com Deus e submeteu-se à escravidão do Demônio.
    “A antiga heresia voltou a brotar, de alguma maneira, na nossa época: há quem afirme que a transgressão dos mandamentos divinos, mesmo em matéria grave, não rompe a união com Deus, enquanto se mantenha a ‘opção fundamental’ por Ele. Contra este erro, o Magistério da Igreja recorda que ‘se deverá evitar reduzir o pecado mortal a um ato de “opção fundamental” – como hoje se costuma dizer – contra Deus, entendendo com isso um desprezo explícito e formal de Deus ou do próximo. Comete-se, com efeito, um pecado mortal também, quando o homem, sabendo e querendo escolhe, por qualquer razão, algo gravemente desordenado. Com efeito, nesta escolha está já incluído um desprezo do preceito divino, uma rejeição do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação: o homem afasta-se de Deus e perde a caridade’ (João Paulo II, Reconciliatio et Paenitentia, nº 17).” (Bíblia Sagrada, traduzida por vários autores portugueses para Editorial Universus e anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra, Edições Theologica, Braga, 1991, Vol. III, José Maria Casciaro (dir.), p. 728-729).>> 
 
    Visto que o texto da I Epístola de São João contraria o que disse a Gaudium et Spes, vejamos o que outros autores dizem da posição do Vaticano II sobre a indistinção entre ordem natural e sobrenatural, e qual a origem desse erro do Vaticano II.
    Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Giuseppe Siri escreveu sobre erros teólogicos atuais uma obra bem comedida: Refléxions sur le Mouvement Théologique Contemporain, Éditions de La Fraternité de la Três Saninte Vierge – Rome, sem data).
    Nesse trabalho, o Cardeal Siri aponta como erros que continuam vivos em nossa época o Pelagianismo, o Arianismo e o Modernismo.
    O Cardeal Siri analisa, depois, alguns erros teológicos mais graves de nosso tempo, e começa com os erros do Padre Henri de Lubac, censurado por Pio XII na Humani Generis, nomeado perito do Vaticano II por João XXIII, e feito cardeal por Paulo VI. E o principal erro de Henri de Lubac apontado pelo Cardeal Siri foi exatamente a identificação da ordem natural à ordem sobrenatural, que o Vaticano II adotou.
    Exatamente essa tese é que a Gaudium et Spes aceitou ao afirmar que Deus colocou uma semente divina no homem, como se na própria natureza humana houvesse algo de divino, o que identificaria a ordem natural à sobrenatural.
    Essa identificação do natural como sobrenatural foi um dos erros modernistas condenados por São Pio X, na encíclica Pascendi:
    “Já não se trata aqui do velho erro, que à natureza humana atribuía um quase direito à ordem sobrenatural.
    “Vai-se muito mais longe ainda; chega-se até a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontâneo da natureza. Nada pode vir mais a propósito para dar cabo de toda a ordem sobrenatural. Por isto com suma razão o Concílio Vaticano I definiu: Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a conhecimento e perfeição, que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso, chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel Cân. 3)”. (São Pio X, Pascendi. Denzinger, n0 2077).
    O Cardeal Siri cita a condenação desse mesmo erro defendido pelos neomodernistas da chamada Nova Teologia, de Henri de Lubac, por Pio XII:
    “Outros deformam a verdadeira noção da gratuidade da ordem sobrenatural quando eles pretendem que Deus pode criar seres dotados de inteligência sem chamá-los e ordená-los à visão beatífica” (Pio XII, Humani Generis, Denzinger 3891 in Cardeal G. Siri op. cit. p. 44).
    O Cardeal Siri lembra que segundo o padre de Lubac, discípulo do modernista Padre Auguste Valensin, que o foi do modernista Maurice Blondel, Cristo revelando o Pai, acabou por revelar o homem ao homem. Essa estranha expressão vai fazer sucesso e é muito repetida hoje em dia.
    O Cardeal Siri pergunta:
    “Qual pode ser o sentido dessa afirmação [revelar o homem ao homem]? Ou que Cristo é apenas homem, ou que o homem é divino. As conclusões podem não ser expressas nitidamente, entretanto elas determinam sempre essa noção de sobrenatural enquanto implicado na natureza humana em si, e daí sem que se o queira conscientemente, se abre o caminho do antropocentrismo fundamental” (Cardeal G. Siri, op. cit. 43).
    E diz esse Cardeal: “é muito grave enunciar, como princípio, que a referência à ordem do infinito implica que a essência do infinito seja a natureza humana” (Cardeal Siri, op. cit. p. 43).
    O que Henri de Lubac disse mais vagamente, seguindo o estilo esfumaçado de seu mestre modernista Blondel, seu discípulo Karl Rahnner, a alma negra do Vaticano II, o afirmou de modo mais rotundo.
    “A concepção do sobrenatural necessariamente ligado à natureza humana é claramente proposta por Karl Rahnner desde os anos 30. Em sua tese ‘Geist im Welt’ ele apresenta nitidamente esta concepção do sobrenatural não gratuito” (Cardeal G. Siri, op. cit. p. 52).
    “Para Rahnner, o núcleo mais íntimo da natureza do homem é o ‘existencial sobrenatural’, isto é, a capacidade de receber a graça. O homem, sempre segundo Rahnner, não pode ter verdadeira experiência de si mesmo senão enquanto ordenado interiormente e de modo absoluto ao sobrenatural”.
    “O homem não pode ter experiência sobre si mesmo senão na amorosa vontade sobrenatural de Deus, ele não pode apresentar a natureza num ‘estado quimicamente puro’, separado do seu existencial sobrenatural. A natureza nesse sentido permanece um conceito abstrato derivado. Mas esse conceito é necessário e objetivamente fundado, se se quer tomar consciência, por via reflexa, da gratuidade da graça, se bem que o homem esteja ordenado a ela interiormente e de modo absoluto”. (K. Rahnner, Rapport entre Nature et Grâce, In Ensaios de Antropologia Sobrenatural, p. 72, in G. Siri, op. cit. p. 55).
    Claro que se se identifica o sobrenatural com a natureza então todo homem, apenas pelo fato de ser homem, já tem o sobrenatural, e estará salvo, sem qualquer religião que ele tenha e quaisquer ações que ele pratique.
    Decorre necessariamente disso a equivalência de todas as religiões, o ecumenismo, e a tese da salvação universal, erros triunfantes após o Vaticano II declarar na Gaudium et Spes que Deus colocou uma semente divina no homem, isto é que, no fundo, todo homem é divino.
    O que se diz hoje sobre ter uma experiência interior de Deus fica claro quando se lê o que escreveu Rahnner, o grande inspirador do Vaticano II:
    “A pregação é a explicitação e o despertar daquilo que há no fundo do ser humano, não de natural, mas de graça. Uma graça que envolve o homem, mesmo o pecador e o infiel, como fundo inevitável de tal existência” (Karl Rahnner, Nature et Grâce, em Ensaios de Antropologia Sobrenatural, ed Paulinas, Roma, 1969, p. 109, apud Cardeal G. Siri, op. cit., p. 56).
    “A natureza efetiva jamais é uma ‘pura’ natureza, mas antes uma natureza na ordem sobrenatural, da qual o homem (mesmo incrédulo e pecador) não pode sair” (K Rahnner, idem p. 110, in Cardeal G. Siri, op. cit. p. 56).
    “Rahnner declara de todos os modos que a essência em Deus e em nós é a mesma: Quando o Logos se faz homem… este homem enquanto homem é precisamente a auto manifestação de Deus na sua auto expressão”, – a essência, com efeito, é a mesma em nós e nele; mas nós a chamamos de natureza humana.” (Karl Rahnner, Théologie de l Incarnation, in Ensaios de Antropologia Sobrenatural, ed. Paulinas, 2a ed. Roma, 1967, p. 113, apud Cardeal G. Siri, op. cit., p. 57).
    E comenta o Cardeal Siri: “É, pois, claro que [para Rahnner] Deus e o homem têm a mesma essência, e nós – diz Karl Rahnner – nós não o chamamos de outra forma do que ‘natureza humana.’” (Cardeal G. Siri, op, cit., p. 57).
    O que Rahnner afirma de modo descarado é que a natureza humana e a divina são a mesma coisa. E isso é Gnose sem máscara.
    O que repetiu a Gaudium et Spes foi esse mesmo pensamento herético de Karl Rahnner, ao dizer que Deus colocou no homem uma semente divina, o que é a mesma Gnose, um pouco – só um pouco – mais mascarada.
    “Ainda uma vez, Rahnner conclui que a graça é a realização de nossa essência. Partindo de uma visão das coisas que, queira-se ou não, rejeita de fato a verdadeira gratuidade da ordem sobrenatural, ele chega a colocar Cristo e Deus nas coisas: ‘Deus e a graça de Cristo estão em tudo, como essência secreta de toda realidade’” (K. Rahnner, Théologie et Anthropologie, in “Novos Ensaios”, III, ed Paoline, Roma, 1969, p. 58). Por conseqüência basta referir-se à “realização da essência humana para aceitar o filho do Homem, Cristo, porque nele Deus assumiu o homem” (Cardeal G. Siri, op. cit., p, 63).
    É possível ser mais claro?
    ***
 
Conseqüências da identificação do natural com o sobrenatural após o Vaticano II
                                               
   Se afirmar que “Deus e a graça de Cristo estão em tudo, como essência secreta de toda realidade” não é Gnose, então nada no mundo é Gnose.
    Mas, é esta afirmação absolutamente herética e gnóstica que explica todos os erros que grassam atualmente entre os católicos.
    Por exemplo, entre os teólogos e padres que colaboraram para editar o livro Concílio Vaticano II – Análise e Prospectivas [que citaremos pela sigla CVII] organizado pelo Padre Paulo Sérgio Lopes Gonçalves e pela Irmã Vera Ivanise Bombonatto, com ensaios deles et allii (Paulinas, São Paulo, 2004), contando com a apresentação autorizada do Cardeal Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Aparecida, defende-se a tese herética da salvação universal.
    É claro que admitindo que há uma divinização do homem, o Vaticano II e seus seguidores tinham que defender que todo homem se salva.
    Antes do Concílio, a salvação – ensinava a Igreja – dependia da Fé e da obediência à lei de Deus e à lei da Igreja. Ensinava-se, com a Escritura, que, sem a Fé verdadeira, não se podia agradar a Deus. Também era ensinado que a violação grave da lei de Deus, feita consciente e livremente, era pecado mortal, e que quem morresse em pecado mortal era condenado eternamente ao inferno.
    Com o Vaticano II, diz-se, essas condições de salvação pessoal foram abandonadas.    
    Hoje, só se fala em pecado social. Aboliram-se, em conseqüência, os confessionários e a absolvição tornou-se, de regra, comunitária.
    Passou-se a falar em salvação coletiva.
    Para a Nova Teologia, a salvação é universal: todos se salvam, independente da fé que professem, ou mesmo que não tenham fé. Não importariam nem mesmo os pecados cometidos, porque Cristo já teria tudo pago, e todos estariam automaticamente salvos.
    Por ter sido concebido, o homem já estaria salvo.
 
    Veja-se, como comprovação do que dissemos, como essa doutrina errônea da salvação universal é deduzida por Maria Clara Lucchetti Bingemer, de modo bastante forçado, dos textos do Vaticano II.
 
    Porque o Vaticano II afirma que Deus criou os homens como seres sociais, ela deduz que a salvação é comunitária, e não só individual.
Ademais, essa autora não titubeia em mudar algumas palavras do próprio texto conciliar, a fim de chegar mais facilmente à sua interpretação forçada de que o Vaticano II defendeu explicitamente a salvação universal. Por exemplo, na citação abaixo, onde o texto da Gaudium et Spes fala de “união social”, a autora traduz redundantemente por “comunidade social”. Será bem “difícil” encontrar uma comunidade que não seja “social”.
    “Deus não criou os seres humanos para viverem isolados, mas para formarem uma comunidade social (Sic. O negrito é meu). Da mesma forma “quis santificá-los e salvá-los não como simples pessoas, independentemente dos laços sociais que os unem, mas como povo que o reconhecesse na verdade e o servisse na santidade” (Gaudium et Spes, n0 32).
    E a autora cita também a Lumen Gentium que diz: “Deus quis entretanto santificar e salvar os homens não como simples pessoas, independentemente dos laços sociais que os unem, mas constituiu um povo para reconhecê-lo na verdade e servi-lo na santidade” (Lumen Gentium, n0 9, apud Maria Clara Lucchetti Bingemer, Deus: Experiência Histórica e Rosto Humano, in CV II, p.198, nota 32).
    
    Padre Antonio Manzatto, outro colaborador dessa obra escandalosa que estamos citando, confirma essa idéia herética da salvação universal, e a leva a extremos incríveis.
    Diz ele:
    “Não se trata, pois, de salvar o “homem genérico”, mas sim o homem concreto, histórico, inserido em seu contexto. Por isso, “o Concílio quer  falar a todos, para esclarecer o  “mistério do ser humano” e cooperar na busca de uma solução para as principais questões de nosso tempo” (Gaudium et Spes, n0 4-6; 10, 63 etc. apud Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, p. 213, e nota 33).
    Desse texto, que ainda não fala de salvação universal, Padre Manzatto vai tirar conseqüências salvíficas universais e não só para a alma humana, e não só para a outra vida.
    Veja-se o que diz Padre Manzatto:
    “O Concílio vai ainda precisar dois aspectos importantes no que concerne a salvação. O primeiro é que se trata da salvação do humano concreto. O segundo é que a salvação não pode ser entendida em sentido individualista, mas diz respeito à comunidade” (Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, p. 212). 
    “A salvação não concerne apenas ao aspecto espiritual do homem, mas abrange toda a sua realidade (Gaudium et Spes, n0 34), inclusive o material, nas suas dimensões política, econômica e social, como bem precisa a Gaudium et Spes. “A pessoa deve ser salva e a sociedade consolidada” (Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, p. 213).
    “Mais ainda, o Concílio se preocupa em dizer que a salvação não é apenas endereçada a indivíduos isolados, mas constituídos em um povo. (…) Ela – [ a salvação] – não pode ser entendida apenas como espiritual ou individual, mas deve tocar o homem todo e todos os homens, já que todos formam o novo povo de Deus. Ultrapassou-se, assim, uma visão privatizante da fé para compreendê-la como profundamente relacionada ao concreto da existência humana”. “Essa idéia permite compreender a salvação trazida por Jesus como sendo oferecida – [Nota minha: oferecida não é dada] – a toda a humanidade, atingindo todas as pessoas e todos os povos.
    “Donde as relações abertas postuladas pelo Concílio no que se refere às outras Igrejas e religiões, cristãs ou não, propondo que todas elas possam trabalhar para que o mundo seja transformado em um lugar onde os seres humanos possam viver melhor, com mais justiça, dignidade e fraternidade”.
    “Salvação, assim, não é compreendida como acontecimento pós-morte, mas como acontecimento englobador da totalidade do ser humano; passa a ser vista também em dimensões históricas, ainda que sua plenificação se dê apenas na eternidade. Com isso se valorizam as realidades terrenas, como as atividades políticas e econômicas. A existência humana a ser salva não começa após a morte, mas aqui e agora, e se plenifica na eternidade” (Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, pp. 213-214).
    E note-se como esse Padre vai fazendo o texto do Vaticano II ir escorregando do “oferecida” para o “dada”, da salvação espiritual, para a terrena, e da eternidade para o tempo, do Reino dos Céus para a utopia socialista da Teologia da Libertação.
    É evidente que esta nova idéia de salvação coletiva exige uma Nova Moral, muito distante da moral católica dos dez mandamentos, das virtudes, dos pecados e dos vícios, tal qual era ensinada pela Moral anterior ao Concílio.
 
    Pior ainda: a salvação, de que fala essa Nova Igreja Conciliar, não consistiria na salvação da alma, num outro mundo, mas a salvação seria já neste mundo, consistindo na criação de um “reino” milenarista socialista, na terra.
 
   Por exemplo, no capítulo escrito pelo padre Antônio Manzatto para o livro Vaticano II – Análise e Prospectivas lê-se:
   “A idéia de salvação fica então desenhada de maneira mais completa. Ela não será afirmada apenas com relação ao pós-morte, como salvação espiritual no além, mas também como antecipação na história do que se espera na fé (Cfr. Heb. XI. 1). Aproxima-se a idéia de salvação da idéia de libertação, com características concretas e históricas” (Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, p. 221).
 
    É daí que nasceu a Teologia da Libertação, libertação que não seria mais a do pecado, e sim a das explorações capitalistas das classes opressoras sobre as classes trabalhadoras oprimidas, exatamente como ensina o marxismo.
    
    Diz Padre Manzatto que, após o Vaticano II…
    “O comportamento do cristão não é mais construído segundo o modelo da imitação de Cristo, no qual o que adquire valor é a prática de virtudes normalmente definidas de antemão como sendo boas, mas sim segundo o modelo do Seguimento de Jesus, no qual as questões histórico-sociais têm maior relevância!” (Padre Antonio Manzatto, O Paradigma Cristológico do Vaticano II, e sua Incidência na Cristologia Latino-Americana, in CV II, p. 222).
 
    Santo não seria o homem que se dedica a elevar a sua alma, obedecendo a lei de Deus, e praticando as virtudes. Santo seria aquele que participa de greves, da luta operária nos sindicatos, que atua na guerrilha, ainda que ele nem tenha fé, e nem pratique a lei moral.
    Pecador seria o capitalista ou o simples proprietário, ainda que ele tenha Fé e obedeça perfeitamente a lei de Deus e da Igreja. Ele seria pecador, porque, sendo proprietário, e opor ter empregados, é um “explorador” do povo, como definiu Marx, autor que na Teologia da Libertação tomou o lugar de São Tomás e de Santo Afonso de Ligório.
          
***
 
          CONCLUSÃO
 
    O artigo do Reverendo Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, ilustre professor do Seminário de Mariana, ao tentar eximir a Gaudium et Spes da pecha de gnóstica, só acabou por confirmar essa acusação. Além disso, ficou patente, no artigo dele, que se ele admite em certa frase a distinção entre graça e natureza, noutras frases ele deixa claro que seu pensamento foi afetado pelo erro da Nova Teologia Modernista que triunfou no Vaticano II, identificando natureza e sobrenatural.
    Vimos depois que o texto da Gaudium et Spes que suscitou polêmica na Internet, de fato, atribui ao homem, considerado in genere, em sua natureza, a posse de uma pretensa semente divina.
    Tal semente divinizaria o homem e causaria necessariamente a sua salvação, independentemente da Fé que ele professasse e sem considerar sua responsabilidade moral pessoal. Hereges e pecadores, todos seriam salvos.
    Daí, o ecumenismo do Vaticano II. Todas as religiões salvariam porque todas são resultantes da mesma semente divina, existente em cada ser humano, e que se revela ao homem, interiormente, de modo difuso pelo sentimento religioso. Todo homem sendo Deus não poderia se perder.
    Que esses erros da Nova Teologia repercutiram no Vaticano II, através de seus peritos mais importantes, Padre Henri de Lubac e Padre Karl Rahnner, defensores dessas teorias gnósticas,  é comprovado pelo que diz Cardeal Giuseppe Siri.
Finalmente, que dos textos do Vaticano II nasceram doutrinas heréticas a respeito da salvação é comprovado pelas teses defendidas pelos modernistas brasileiros que colaboraram no livro Vaticano II – Análise e Prospectivas, do qual faremos logo mais uma crítica.
Veja, meu caro Roberto, o bem que você me propiciou fazer, por defender a Fé, criticando o artigo do nosso ilustre Cônego Vidigal.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.
 

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