Montfort Associação Cultural

22 de novembro de 2004

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Che Guevara, Socialismo e Comunismo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Carlos
  • Localizaçao: Porto – Portugal

Caro Senhor: Li o seu artigo sobre Che Guevara, o qual me deixou extremamente preocupado sobre as ideias que tentou passar sobre o Socialismo e sobre Che Guevara.

Queria deixar bem claro que nao o conheço, e ainda bem, por isso os comentarios que vou fazer nao tem nada de pessoais.

Deixe-me lembra-lo da tirania que os Estados Unidos, que o senhor deve defender, para com os cubanos, que à anos sofrem um embargo desumano e absurdo por parte de um país povoado por idiotas e que provavelmente nao sabem onde fica Portugal e só sabem que no Brasil há maravilhosas mulheres.

Caro senhor, sendo o seu texto de 1999, deve-se lembrar dos bombardeamentos americanos a civis iraquianos, libaneses, somalis.

Deve-se tambem lembrar da tirania de direita do General Pinochet, das guerras civis instigadas pelos americanos em todo o Mundo.

Quero tambem lembra-lo que os Estados Unidos durante anos foram coniventes com a ocupação de Timor Leste pela Indonesia.

E a conivencia com Israel?

Caro senhor, nao defendo de maneira nenhuma todos os tipos de atentados contra a humanidade, mas queria acrescentar ao seu texto a Inquisiçao. Pois é nao se lembra pois nao??? Ja foi á muito tempo, nao é?

Quantas pessoas terá matado a Inquisicao?

Posso-lhe confessar que apenas a imagem de Che Guevara me fascina. Que amo a liberdade em todos os seus aspectos, principalmente a liberdade de expressao.

Vivendo o senhor no Brasil dá-me vontade de rir a sua revolta contra o socialismo. E as favelas,a pobreza, os ricos cada vez mais ricos, a corrupcao??!!?? Isto nao o preocupa?

Nao estamos todos isentos de erros e de contradicoes, somos humanos.

A humildade só fica bem.Se olharmos para tras vemos que o nosso passado esta cheio de erros….mesmo as coisas mais sagradas para nos.

Prezado Carlos, salve Maria.

Sua reação contra nossas críticas ao socialismo e ao guerrilheiro e terrorista Che Guevara provam que você tem muito de romântico, e que é muito suscetível à propaganda.

Sim, muito influenciado pela propaganda, além de avesso aos estudos mais sérios da História.

E não só avesso ao estudo sério da História, como — o que é pior — desconhecedor das doutrinas liberal e socialista.

Nossa crítica e condenação do socialismo não significam, de modo nenhum, uma aprovação do liberalismo e do capitalismo yankees. Muito pelo contrário, pois sabe-se que o socialismo é o efeito lógico e natural do liberalismo e do capitalismo.

Meu caro Carlos, se você estudar a História americana, verá que toda a colonização que deu origem aos EUA teve forte caráter puritano. Isso significa que as colônias inglesas que deram origem aos EUA eram todas de caráter protestante pentecostal, místico, e, quase todas, defensoras da igualdade absoluta, inclusive social. Entre os colonizadores americanos não faltavam os que condenavam o direito de propriedade particular, e havia até quem defendesse o anarquismo e a abolição de toda a autoridade.

Essas seitas eram todas derivadas da corrente anabatista da Reforma protestante, a qual defendia a comunidade de bens.

O igualitarismo marcou a civilização americana desde o seu nascimento. Assim, em Philadelfia — cidade do amor fraterno, nome que indica bem o caráter milenarista dos Quakers de William Penn — era obrigatório usar roupas iguais e era proibido chamar qualquer um de Mister. A URSS e Mao Tse Tung não fizeram de modo diferente, e em Cuba se repete esse igualitarismo tipicamente socialista e comunista.

Os EUA estabeleceram a igualdade e a liberdade como ideais de sua civilização: hoje, lá não se usam mais as roupas negras do “uniforme” quaker, mas o blue jeans se tornou uniforme desgraçadamente internacional, pois o mundo adotou os EUA como modelo. Também o hambúrguer, a Coca Cola e o McDonalds são marcas do igualitarismo yankee triunfante, em todo o mundo, desgraçadamente americanizado.

Considerando esse igualitarismo americano, fica mais compreensível porque a Revolução de Lenin tenha recebido financiamento de Bancos de Wall Street (Banco Khun Loeb de New York), e que o Presidente Wilson tenha visto a revolução bolchevista de Lenin, na Rússia, como um fato auspicioso para a humanidade. Esse mesmo Presidente Woodrow Wilson forneceu então a Lenin uma ajuda de 300.000.000 de dólares, quantia que, em valores atuais, seria bem mais elevada.

Foram os EUA que sustentaram o governo bolchevista e que salvaram a URSS, na segunda Guerra Mundial, fornecendo-lhe ajuda de 11.000.000.000 de dólares, quantia que a URSS jamais devolveu.

Foi Roosevelt quem deu a Stalin o “direito” de ocupar 11 países na Europa, acabando neles com a “liberdade de expressão” tão cara à mentalidade americana e tão exigida pela Constituição yankee. E que você diz defender e amar.

Foi o Presidente dos EUA, Harry Truman, quem deu a China a MaoTsé Tung.

Foi Kennedy quem favoreceu as reformas socialistas na América Latina, e quem prometeu a Castro que jamais os EUA atacariam ou permitiriam que se atacasse Cuba. Foi Kennedy quem favoreceu a subversão comunista na América Latina. Foi Kennedy quem financiou as famigeradas reformas de base – sempre de caráter socialista — na América Latina, através da “Aliança para o Progresso”. E grandes Fundações capitalistas davam dinheiro para os que resistiam aos militares, no Brasil…

Assim como Atenas olhava Esparta com ciúmes, porque via no igualitarismo e no estatismo espartanos a realização dos seus ideais, assim também, os que dirigem os EUA sempre viram na URSS a realização de seus ideais políticos de igualdade absoluta.

A URSS, no fundo, realizou o que os EUA sempre desejaram: a igualdade, fundamento do mundo moderno, da Revolução Francesa e da Revolução Americana.

Note bem, meu caro Carlos, que, mais acima, eu disse “os que dirigem os EUA”, e não o povo americano, pois o povo, lá, é de orientação geral bem diferente daquela que lhe é imposta pelos seus “dirigentes”. (Voltarei, mais abaixo, a tratar da ignorância atual do povo..e dos diplomados…).

Aliás, é regra geral no mundo moderno: os povos tem desejos bem diferentes daqueles que os dirigentes dizem aplicar… “em nome do povo”.

Repare, por exemplo, o caso da pena de morte: em toda a parte a maioria do povo quer a pena de morte, mas os representantes do povo, que dizem querer fazer apenas a vontade da maioria, na questão da pena de morte acham que não se deve fazer a vontade do povo, mas que é preciso, antes, “conscientizá-lo”, isto é, convencê-lo, através de propaganda maciça, a querer o que os deputados querem. Essa mesma propaganda “sabiamente” dirigida, irá “convencer” “livremente” o povo de que ele está enganado ao querer a pena de morte para os criminosos, mas que seu desejo mais profundo e verdadeiro é o oposto: é o de querer a abolição da pena de morte.

Prodígios da propaganda livremente dirigida…

A mesma propaganda romântica e igualitária que cria a imagem romântica de Che Guevara – que você admira e que o fascina — faz considerar a Coca Cola um produto de bom gosto, e convence que o hambúrguer é saboroso. Tão gostoso quanto o paredón de Fidel Castro é bondoso e justiceiro. Tão cheio de ternura quanto o fuzil do Chê.

Você se engana, portanto, rotundamente, pensando que defendemos o que você chama de “tirania americana”.

A tirania americana é feita de propaganda. A tirania castrista e guevarista é feita pelo paredón e também pela propaganda, tal como a da URSS e a dos nazistas era feita por Goebbls e pelo Agit Prop, pelos Gulags e por seus irmãos gêmeos, os campos de concentração nazistas.

No mundo moderno, os homens vivem sempre aprisionados ou por cercas visíveis, duras e espinhosas — as de arame farpado eletrificado, nos Gulags — ou por cercas invisíveis, doces e suavemente eletrificadas da propaganda “dirigida”, visando a “conscientizações” acorrentadoras, por fascinação, de tantas almas ignorantes.

E as cercas invisíveis, que fascinam através de imagens romanticamente falsas, são as mais perigosas e escravizadoras, porque estabelecem uma servidão invisível.

Hay que vigilar, para no endurecerse el corazón, por medio de una falsa ternura diestramente propagandizada….

Gulags, Auschwitz, McDonalds, Guevara, são produtos típicos da doutrina e da mentalidade rousseaunianas.

Governos que proclamam que o poder vem do povo, ou aceitam o anarquismo da cambiante vontade popular — tão sensível à propaganda e aos mitos — ou, em nome do povo, impõem a tirania. Hitler e Fidel fundamentaram e fundamentam em plebiscitos com “sins” maciçamente — papagaiamente — repetidos pelo povo, para exercer seu domínio tirânico. Nas praças,o povo fascinado pela propaganda e “sabiamente” “conscientizado” ulula SIM, hurras e slogans de morte. Nas urnas, a multidão, domesticadamente amestrada pela propaganda, consente no que subrepticiamente se lhe enfiou na cabeça vazia.

Das duas maneiras, é sempre o povo que é vítima dessas tiranias da propaganda ou da força.

Você me diz que o povo americano é formado por idiotas.

Protesto contra essa formulação.

Você não acha que isso é uma generalização absurda e pouco respeitosa?

Em todos os povos, há gente boa e gente má, gente sábia e gente idiota.

Nosso Camões mesmo nos adverte que “Até entre os portugueses, traidores houve algumas vezes”…

No povo americano certamente há muita gente boa e sábia, como deve haver muita gente estúpida e dominada pela propaganda, infelizmente.

No Brasil, como em toda a parte, há gente sábia e ignorante. E a pior ignorância é a diplomada…

E em Portugal, não haveria gente de todo o tipo?

Se nos EUA, há pessoas, como você escreve: “que provavelmente não sabem onde fica Portugal e só sabem que no Brasil há maravilhosas mulheres”, em Portugal também, há gente que pensa que a Inquisição matou milhões, gente que, sem ter jamais lido nem sequer um livro sério sobre a Inquisição, repete o que ouve na mídia e nas aulas de colégio.

E se você me permite, prezado Carlos, vou apontar-lhe – sem nenhuma prevenção pessoal contra você — algumas contradições em sua carta.

Em primeiro lugar, note que você afirma: “amo a liberdade em todos os seus aspectos, principalmente a liberdade de expressão”.

Meu caro, se isso é verdade, como você afirma ser um admirador do Chê e do regime cubano, a ditadura mais velha do mundo?

Como você não vitupera a completa falta de liberdade de expressão em Cuba? Como você admira o Chê que, matando, queria impor a ditadura socialista em toda a parte? Como você finge não saber — porque o creio conhecedor da História soviética e socialista — que a ditadura é a marca própria do socialismo de todos os matizes?

E não me venha falar do socialismo democrático, fórmula ingenuamente romântica, que abre as portas para todas as ditaduras, especialmente para a ditadura da propaganda e da educação “dirigidas”, para a ditadura das cercas invisíveis da “conscientização” sem consciência.

Depois — outra contradição — você me fala das favelas brasileiras, rindo-se de minha ignorância desse problema: “Vivendo o senhor no Brasil dá-me vontade de rir a sua revolta contra o socialismo. E as favelas, a pobreza, os ricos cada vez mais ricos, a corrupcao??!!?? Isto nao o preocupa?”
Vejo bem, nessa frase, como você, prezado Carlos, é vítima da ditadura da propaganda e da educação “dirigida”.

Por acaso a favela é um problema apenas brasileiro? Esse problema não se repete em muitos outros países?

Você me dirá que esse é um problema criado pelo capitalismo.

Mas então, meu caro, a grande favela chamada CUBA, que é “socialista” – isto é COMUNISTA, desde o sistema econômico adotado até seus frutos naturais que são o paredón, o campo de concentração e o aniquilamento de qualquer liberdade, mesmo a de expressão – como fica? Você não vê a contradição entre acusar a favela brasileira e defender o socialismo afavelador de paises inteiros?

Meu caro, seu esquecimento de que Cuba é um favelão seria de fazer rir, se não fosse tragicamente triste.

Seu esquecimento de que Cuba tem um regime, criado por Fidel e Chê, que acabou com qualquer possibilidade de livre expressão é de fazer rir ou… chorar.

Dir-me-á você que Cuba está reduzida a uma grande favela pelo embargo americano.

Esse embargo, ao que consta, não impede as relações de Fidel com as famigeradas e socialistas FARC, aliadas do cartel de Medellin, controlador do altamente lucrativo e altamente corrupto comércio de drogas.

E você se esquece do favelão a que a economia socialista reduziu o leste europeu?

Viaje aos antigos países satélites da estrela vernelha soviética e constate, até hoje, os efeitos da afavelamento do sistema socialista.

E você, que se diz “fascinado pela imagem do Che Guevara” não o culpa pela parte de responsabilidade que ele teve na miséria dos países que Cuba ajudou a sovietizar, a afavelar e afivelar na África e na América?

Você se esquece da miséria em que o comunismo deixou a Etiópia? E Moçambique? E Angola?

Não prossigo porque a lista seria imensa, e porque não creio que isto faça chorar seu olho direito.

Sim, seu olho direito, porque os fascinados pela imagem do Chê só choram com o olho esquerdo.

É de fazer rir. Com a boca inteira. E não só com um dos cantos dela.

De passagem, veja que, várias vezes já, sublinhei as palavras imagem e fascinado usadas por você, numa confissão implícita de que você é fascinado, isto é, deslumbrado, cego, por uma imagem, isto é, por um fantasma, uma figura, uma ilusão criada pelos holofotes da propaganda dirigida.

E é bem difícil a quem está fascinado por holofote propagandístico enxergar alguma realidade.

Lembre-se que a pior corrupção não é a corrupção de uma pessoa, e sim a institucionalização da corrupção, que é o que faz o socialismo. Também Robespierre se fazia chamar de “Incorruptível”…assim como a “Nova Classe” produzida pela doutrina de Marx, e que vivia em dachas de luxo, ou em casas aburguesadas nas praias do Mar Negro, enquanto o povo se amontoava nas favelas soviéticas, quando não entupia os Gulags. E você certamente conhece líderes socialistas que não trabalham, se dizem chefes de partidos dos trabalhadores, e que não pagam aluguel há muitos anos…

Contradições socialistas, das quais já vi pessoalmente alguns casos…

Por exemplo, já vi com meus dois olhos — não só com o olho direito — um famoso dirigente sindical brasileiro viajando de avião, burguesamente, e me disseram que ele estava na primeira classe!

E conheço o caso de um Arcebispo socialista e amigo de Fidel que, apesar de ter feito voto de pobreza e ter aderido à famosa “opção preferencial pelos pobres”, mora em uma casa bem burguesa num bairro aburguesado…Políticamente, a opção foi preferencial pelos pobres. A opção pessoal, porém, parece ter sido pela riqueza e comodidades burguesas…

Pois meu caro Carlos, “se até entre os portugueses, traidores houve algmas vezes”, que dirá entre os sindicalistas socialistas?

E que dirá entre os clérigos?

Afinal de contas, até entre os Apóstolos de Cristo, traidor houve uma vez…E foi um traidor que, como os socialistas, se dizia preocupado com os pobres…E que, como os capitalistas, controlava a bolsa…

Seria de fazer rir… se não fosse trágico. Gulagmente trágico, um socialista preocupar-se em acabar com as favelas fora do período eleitoral (você não é candidato a nada aí, em Portugal, não?).

Mas, para quem só chora com o olho esquerdo, as vitimas do Gulag não contam, a KGB causa alegria, e as cercas de arame farpado são detalhes aprazíveis da paisagem socialista. E os comissários da imprensa são dirigentes de “conscientização” e nunca violadores daquilo que a Revolução Francesa e o liberalismo proclamam como liberdade de expressão.

Chore meu caro Carlos, chore. Chore a corrupção, as favelas, a pobreza, e as ilusões de tantos moços enganados pela doutrinação dirigida.

Mas, por favor, não chore só com o olho esquerdo.

E, para aprender a chorar corretamente — com os dois olhos que Deus lhe deu — as misérias do mundo moderno causadas pelo igualitarismo e pelo amor às liberdades de perdição, recomendo-lhe: 1) Que leia as encíclicas dos Papas que condenam os erros monstruosos da peste do socialismo; 2) Que estude melhor a História, e não repita slogans que são próprios de pessoa que engoliu fábulas por fatos. De pessoa que se julga ilustrada e consciente, mas que vive nas trevas do erro e da mentira, fascinada por imagens produzidas pela propaganda anticatólica, quer seja liberal e yanquee, quer seja bolchevista e guevarista. Mas que vive, seguramente, cercada pelas teias invisíveis da propaganda dirigida e “conscientizadora”.

Desejando-lhe que se liberte dessas cercas de arame farpado invisível, e de toda fascinação pela imagem de quem quer que seja, subscrevo-me atenciosa e amigavelmente,

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

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