Montfort Associação Cultural

25 de agosto de 2004

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Che e Religião

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Fernanda
  • Idade: 28
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior incompleto
  • Religião: Evangélica

Marcelo, Boa Noite…

Estou confusa! Apesar de não ser extremamente ligada à política e conhecer pouco sobre a vida de Che Quevara, ao assistir o filme ” Diário da motocicleta ” acreditei que Che tratava-se de uma pessoa de fortes ideais onde para ser feita qualquer revolução – infelizmente – mortes acontecem. Querendo ou não a violência está dentro do ser humano e para impor qualquer tipo de “justiça” contrariando a força já existente, temos crueldade como resultado.

Buscando um exemplo mais atual, veja a atrocidade que GWBusch vem cometendo com os iraquianos: mortes, falta de respeito, injutiças, humilhações, civis morrendo, crianças aleijadas, fome, destruindo a moral de uma nação inteira e por qual motivo? Petróleo.

Isso é uma verdadeiro ato terrorista, perto de Bin Laden, Busch é professor.

Então partindo desse raciocínio, Che estava tão errado assim?

Já voltando a religião, sou evangélica convertida há 3 anos, onde frequento uma igreja que ninguém ganha salário, não é “cobrado” dízimo e o ato voluntário entre a irmandade é comum.

Passei por diversas religiões na vida, experimentando um pouco de cada para saber qual era minha verdadeira essência e sabe qual a verdade? Vou a Igreja apenas para ouvir uma parte da Bíblia onde alguém “talvez” com mais conhecimento do que eu possa me trazer diversas interpretações sobre o texto e quem sabe com sorte eu possa sentir a “virtude do Espírito Santo” em momento de oração e fevor. Fora isso a Igreja serve pra que?? Os príncipios de Cristo se emudeceram com o tempo e fraternidade, compaixão e caridade não são praticados, principalmente pela Igreja Católica a qual nasci, me Batizei, me catequizei e me Crismei e mesmo assim saí de lá sem CRISTO, SEM DEUS E SEM VALOR COMO SER-HUMANO.

No seu texto você me pareceu bastante esclarecido em relação a história e por isso eu lhe pergunto: No que você acredita? Pois se “a guerra Che” é ruim, como vc pode classificar a Igreja católica, cheia de ouro por todos os lados e que deixam as margem do mundo milhares de pessoas com fome e na miséria.

Eu prefiro morrer pela causa justa do que pela hipocrisia do que é imposto por socialistas ou capitalistas ou seja lá o que for apenas porque são pessoas bem sucedidas que ditam regras e não as seguem.

Deixo claro que respeito os católicos e assim como creio apenas em Jesus e Deus ( não em Santos ) e nem na doutrina do homem, sigo meu caminho tentando não cair na vala da escuridão do mundo.

Sem mais,

Fernanda

Muito prezada Fernanda, salve Maria!

Respondo a você, em lugar de Marcelo Andrade, que está impossibilitado, no momento de atender a seu pedido.

Você nos coloca várias questões, quer sobre Chê Guevara, quer sobre guerras, e finalmente sobre a Igreja Católica.

Chê Guevara foi transformado em herói pela mídia socialista. Seu retrato foi tão retocado quanto o do Tiradentes, tomando ares de um herói romântico de Hollywood. Um herói da capitalista Metro Goldwin Mayer. Uma espécie de Robin Wood do século XX, de boina e fuzil, levando à realização da reforma Agrária e a fuzilamentos en el Paredón!

Na verdade, ele foi um comunista que ajudou a instalar a ditadura de Fidel Castro no poder, há mais de 40 anos. Essa ditadura, que surgiu — dizia-se — para combater a ditadura de Batista, para acabar com a pobreza e a corrupção, só as substituiu por outra ditadura, ainda mais sanguinária que a anterior e, certamente, mais corrupta. (Não faltam os indícios ligando castrismo e narcotráfico) E quanto à pobreza, em Cuba, nunca se passou tanta fome como com o regime fidelista.

Mas é uma fome socialista. Uma fome livre. Sem eleições, mas livre. Só quem não concorda — por falta de compreensão das leis da História — é que vai ser reeducado na cadeia, e, em casos de reeducação impossível, vai para “El Paredón” o justiceiro purificador social.

É claro que os comunistas — do tipo do semi frei Betto — apontam como causa da miséria cubana o bloqueio econômico imposto pelos americanos à ilha do Caribe. Mas isso é uma falácia.

Todos os países em que se instaurou o socialismo justiceiro e igualitário caíram na esfarrapada e faminta miséria castrista. URSS e seus países satélites, China comunista, Angola, Moçambique, Etiópia, Chile de Allende, todos os países socialistas jamais tiveram problemas de obesidade. Todos sofreram da tradicional elegante magreza socialista.

Chê Guevara ajudou a instalar o comunismo magro e elegante em Angola, sendo, portanto, responsável pela exportação da miséria cubana e seus massacres para esse feliz país africano.

Guevara levou a guerrilha e o terrorismo à Bolívia, onde foi morto.

Sua morte foi a alavanca para fazer dele o herói comunista, que permite uma escapatória ideológica para os socialistas — eles não gostam de se apresentar como comunistas — decepcionados com as ditaduras e a miséria castrista ou da URSS: o socialismo instalado na Rússia ou em Cuba, dizem, não foi o verdadeiro, o puro socialismo sonhado por Guevara. Caso ele -o herói — tivesse triunfado, outro seria o socialismo. Seria realmente um socialismo mais justo, mais solidário, mais cheio de ternura — com o fuzil, claro, mas um fuzil terno e doce, que usaria balas açucaradas… –e não um socialismo desumano, bruto, stalinista.

Tudo sonho.

Sonho que adia para um eterno depois-de-amanhã, além do horizonte azul da realidade, a “realização” do idealizado regime da igualdade e da justiça, quando a igualdade, sendo antinatural, só traz a injustiça.

Os sonhadores da utopia adiam sempre, para um amanhã indefinido, os seus sonhos irrealizáveis, porque absurdos.

Amanhã… amanhã será um lindo dia.

Como se o sonho pudesse garantir que amanhã, seguramente será sempre azul, e que nesse amanhã não haverá mais nem trovoadas, nem furacões. E que, nesse amanhã, só haverá panelas cheias, crianças saudáveis, jovens idealistas, homens trabalhadores e carinhosos, e deputados honestos.

É o sonho da floresta do Tarzan, com tigres educados e leais, pântanos sem lama, florestas sem espinhos e sem malária.

A figura idealizada do Chê, à custa da propaganda, permite que universitários descabelados, alimentem suas auto ilusões de serem justos, tomando cerveja, enquanto namoram em mesinhas de bares, posando de filósofos, arrotando frases sobre mais valia e dialética, que, normalmente, jamais estudaram, enquanto mastigam um hambúrguer capitalista.

Isso quando não fazem pose de serem cristãos, amantes de uma justiça social aprendida em sacristias de conventos de bairros abastados, da boca de frades da Teologia da Libertação, eles também freqüentadores de barzinhos social-capitalistas.

Minha cara Fernanda, não se deixe seduzir pela utopia do guevarismo, nem beba as ilusões do cock tail de Marx com Vaticano II. On the rocks.

Jogue fora essa ilusão do guevarismo — agora montada em motocicleta — criada pela mídia marxista.

***

E você me fala da guerra de Bush no Iraque, que é apresentada pela mídia como se fosse a guerra do Pol Pot, que massacrou metade da população do Cambodge. Em nome de Marx.

Na tremenda guerra do Iraque já morreram, só depois do final das hostilidades propriamente bélicas, mais de 800 soldados americanos. É quase a cifra dos assassinatos, no Brasil, em um mês de paz. A guerra do Iraque está se aproximando dos morticínios do Rio de Janeiro ou São Paulo, em plena paz. Uma guerra assim não dá para se aturar. Afinal, o Bush está querendo fazer o mundo todo virar a favela do Maré ? Assim não dá ! É um horror!! Um horror!!!

Quantos não esperavam, no século XXI a civilização do amor!

Entretanto, o que nos veio no século XXI foi Bin Laden, a explosão das torres de Nova York, a guerra do Iraque, e o terrorismo dos homens-bomba.

Civilização do amor que viria também com a lei do desarmamento.

Feita a lei do desarmamento, tão insuflada por rádios que retocam a notícia– e por outras que a tocam diretamente — com suas locutoras esganiçadas defensoras do socialismo, prometia-se a diminuição da criminalidade: com a proibição legal do uso de armas, não haveria mais crimes. Como seria possível haver crimes, se as armas forem proibidas, esganiçavam as vozes socialistas na mídia.

O povo ficou sem armas. Mas o MST continua armado e invadindo terras, e os bandidos continuaram assaltando bancos, e fazendo seqüestros. Os bandidos deslealmente, sem respeitar a lei do desarmamento, não entregaram as armas. E a criminalidade até cresceu!

Quem diria !

Amanhã, amanhã… amanhã será um lindo dia, sem armas… Com seqüestros amorosos. Duros, talvez, porém cheios de ternura. Amanhã…

Amanhã, amanhã… Amanhã, todo o mundo com a barriga cheia. Amanhã haverá câmaras de deputados e senadores cheios de humanitarismo e de honestidade. Amanhã, não será preciso fazer mais CPIs, com testemunhas em gravidez de risco… Amanhã, amanhã… não precisará a mídia promover caras pintadas, aqueles repentinos campeões da honestidade contra a corrupção, surgidos espontaneamente não se sabe de onde…

Amanhã…Que lindo dia!

Mas só amanhã.

Hoje… nunca.

E o problema é que quando o amanhã chegar, ele se chamará hoje. Nunca estamos no amanhã. Vivemos sempre no hoje. No real.

No real, tão desvalorizado…

***

Passando à religião…” você me diz: “Passei por diversas religiões na vida, experimentando um pouco de cada para saber qual era minha verdadeira essência e saber qual a verdade?”.

Minha cara Fernanda, seu erro foi passar por diversas religiões, experimentando-as. Religião é uma só. E religião não é como bebida, que se experimenta, para se conhecer qual é a mais saborosa a nosso paladar.

Há um só Deus, uma só revelação feita por Deus, uma só Fé, e, portanto uma só religião verdadeira.

Fé não se experimenta: se conhece com a inteligência, e se aceita com a vontade. Experimentar várias religiões buscando a cura de nossa alma é equivalente a ir a uma farmácia tomar vários remédios, sem receita médica, para experimentar qual deles nos fará bem curando nossa doença. O doente que fizer isso, morrerá envenenado por remédios disparatados.

E a religião não visa que conheçamos nossa “essência”, e sim que conheçamos a Deus, nosso Senhor.

Para conhecer a nossa essência não é preciso recorrer à religião. Basta a Filosofia que nos diz que somos animais racionais.

Você me diz ainda: “e quem sabe com sorte eu possa sentir a “virtude do Espírito Santo” em momento de oração e fervor”.

Minha cara Fernanda, permita que a elucide.

O Espírito Santo — e a virtude do Espírito Santo — não se sentem, porque o Espírito Santo não nos faz sentir coisa nenhuma. Em questões espirituais os sentimentos não importam. O Espírito Santo ilumina nossa inteligência permitindo-nos compreender a verdade, e impulsiona a nossa vontade para fazer o bem, e fugir do pecado. Normalmente, Ele não nos faz sentir coisa nenhuma.

Desconfie, pois, de sentimentos na religião. De regra, eles são apenas ilusões.

Você critica a Igreja Católica, pois atribui a Ela os defeitos de clérigos e leigos que a Ela pertencem.

E esse é outro engano seu.

Há maus médicos, mas a Medicina é sempre boa.

Podem existir maus católicos, – padres e leigos — mas a Religião Católica Apostólica Romana é sempre santa.

Não é ruim que a Igreja tenha riquezas. Ruim é que haja católicos que vivam só para as riquezas. A Igreja precisa de riqueza para oferecer a Deus um culto mais digno, e para ajudar os pobres.

E saiba que a maior riqueza é ter a verdade. E maior pobreza não é a de não ter posses materiais, e sim a de não ter a verdade.

O mundo tem mais fome da verdade do que de pão, pois como nos disse Jesus, nem só de pão vive o homem.

Você me diz que só crê em Jesus, e não no santos. E lhe respondo, hoje, no dia de São Pedro.

Como então você diz que crê em Jesus e não nos santos se Jesus disse que quem cresse nos seus Apóstolos, creria nele?

Pois Jesus disse aos Apóstolos:

“Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza” (Luc., X, 16).

Você ao não querer ouvir os santos apóstolos, recusa ouvir Cristo. E repare que o mundo tem tanta necessidade de ouvir e seguir os santos, que um mundo que recusa os santos, acaba por fabricar falsos santos como falsos ídolos.

Quem não crê nos santos, acredita e segue chês assassinos, madonnas, beatles, cantores e artistas famosos pelos vícios ou pelos crimes.

Você só encontrará a Cristo na Igreja Católica Apostólica Romana, porque só nela está a Verdade, que é Cristo, Senhor e Redentor nosso.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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