Montfort Associação Cultural

22 de dezembro de 2011

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“Certeza”, essa palavrinha arrogante!

André Roncolato Siano

“Certeza” [1] essa palavrinha arrogante!

 

“Ventarola” era o apelido que lhe deram. Era um rapazinho, magricela, de andar apático e, dependendo da perspectiva, se via claramente a curva acentuada que se projetava em direção às costas, como um berimbau.  Ventarola tinha um relacionamento mais que próximo com um aparelho recém-inventado – acho – que despertava a curiosidade: o videogame. Ele e essa pequena “máquina-de-ilusões” ficavam, lá, horas a fio, juntos. Às vezes, ele saía à rua para brincar conosco. Digamos que ele não era um entusiasta de nossas brincadeiras. Nós meninos, quando brincávamos – devo confessar – às vezes parecíamos uma turba de bárbaros prontos a tomar a cidadela fortificada. Enfim, crianças normais.

Eu particularmente, não faço muitas digressões sobre os “porquês” dos apelidos, mesmo porque, pensar sobre apelidos, não obstante que sejam simpáticos, ainda assim, não constituem per si uma filosofia. Mas, este era um caso excepcional. A alcunha foi forjada com o autêntico espírito criativo, que a molecada lá da Vila Vanda elevou ao estado da arte. Pelo menos dos apelidos. Coisa de meninos. Deram-lhe – e com as devidas honras – esse apelido, porque Ventarola, quando não estava no videogame e resolvia sair para brincar conosco, tinha uma conversa bem estranha. As palavras iam saindo sem uma ordem muito lógica, e o raciocínio frequentemente não chegava a termo. Isso causava certa impaciência na meninada que era bem mais objetiva. Então diziam dele que tinha cabeça-de-vento, pois entre o espaço craniano cogitavam que só havia ar. Chegaram ao absurdo – embora imbuídos de excelente intenção – de um dia fazer uma espécie de assembleia para deliberar se o problema de Ventarola era de ordem médica e assim poder ajudá-lo. A conclusão – acertada, como se poderá ver – era que Ventarola, por seu apreço aos eletrônicos, tinha mesmo era preguiça mental, ocasionada pelo tal brinquedinho eletrônico.

Na época eu não entendia muito bem essas coisas. Lá na Vila Vanda os meninos ainda se preocupavam com coisas bem reais. Bolas de gude, apelidos e do bem provável corretivo que tomariam se não passassem de ano. Ainda era usual se reprovar na escola quem não estudava. Os corretivos aplicados segundo a caridade, em época, eram bastante convincentes, e eram argumentos de força muito persuasiva. Um santo remédio para o ócio compulsivo que, hora ou outra, acometia a moçada.  Hoje em dia, as correções como o estudar para passar de ano saíram de moda e os apelidos viraram bullying, graças aquela tal “psico-pedagogia”, que veio trazer confusão à ordem.

Bom, mas não escrevo esta crônica para tratar do passado. Ainda nestes dias, com a costumeira pressa, pois na atualidade parece que estamos sempre atrasados, saía resignado para pegar a lotação – lotada evidentemente – para ouvir a missa e, com algum tempo, fazer uma boa confissão. No caminho, aproveito sempre para “colocar em dia” as orações cotidianas, pois esse é um certo bem que podemos tirar dos congestionamentos aqui em São Paulo. Com o terço em punho, logo chegou a lotação, e interrompi por instantes o Credo, enquanto tentava romper a falange formada por uma disciplinada legião romana, que se formara na porta do carro obstruindo a passagem.  Ao entrar, voltei à meditação, e na altura do Credo in Spiritum Sanctum, sanctam Ecclesiam catholicam… senti um toque no ombro com a suavidade de um timoneiro e, para minha surpresa, me relembra o rapaz:

— Sou o Ventarola, não se lembra?

— Ventarola? Há quanto tempo, nem mais me lembrava de você! Que bom vê-lo!

Respondi, com certa alegria de reencontrar um colega de infância, que enquanto me cumprimentava abocanhava um generoso lanche.

Mas minha alegria não durou muito, como veremos.

Ele estava bastante mudado fisicamente. O tempo e – suponho os muitos lanches – fizeram-no vencer com louros sua magreza. Vitória esmagadora! No sentido figurado, claro.   Vestia uma roupa bem esquisita: um jeans todo rasgado, camiseta preta com um protagonista fúnebre – acho que uma caveira – uma tatuagem de um dragão que lhe subia o braço esquerdo feito uma lagartixa e engolia a própria cauda – o que me fez lembrar de Napoleão, o chiuáua  rabugento de minha vizinha, que ficava, quase o dia todo, tentando comer o próprio rabo. Trazia consigo também tantos aparelhinhos eletrônicos…  eram tantos fios que eu não sabia se ele estava ouvindo músicas, falando ao celular ou fazendo um eletrocardiograma.

Ventarola deu mais umas duas mordidas naquela massa já disforme, com as quais liquidou de vez o lanche, e ficou a postos para a conversa.  Começou a me contar sobre o curso que fazia em uma importante universidade gratuita, com uma tal Dra. Holofotina. O nome já me soou inquietante. Inquietante, não de preocupante, mas de bizarro. Imagine o tamanho da conta de energia elétrica que ela deve receber todo mês? E não é um nome que represente muito a virtude da humildade, mas enfim, não queria cogitar hipóteses injustas. Ele continuou dizendo que era agora um “pensador”. Dra. Holofotina, cheia das luzes, clareou sua visão obscurantista e retrógada de alguém que diz ter acesso à verdade das coisas. Por isso, tinha deixado para trás aquelas bobagens, aquelas certezas da religião, e gloriosamente se lançou nos braços da dúvida. Além do que, ele me enfatizava que pretender possuir a verdade é algo de muita arrogância.

Interpolei-o ponderando que ele havia se tornado um cético[2].  Ele, por sua vez, balançou solene e positivamente a cabeça, quando concluí:

- Dra. Holofotina lhe encheu a cabeça de pataratas…

- De “pata…” o quê? – perguntou Ventarola, meio sem posição.

- De “caraminholas”, “ilusão”, “invencionices”… respondi, completando que, se assim fosse, seria arrogância pretender possuir a verdade de que é arrogância pretender possuir a verdade.

Ele ficou com cara de interrogação.

Com nossa cordial discussão iniciada, perguntei se ele sabia me definir “dúvida”.

Ele me respondeu prontamente que era a ausência da certeza. O que concordei, pedindo então para que ele definisse “certeza”.   Ele então ficou estatelado, olhando para os seus aparelhinhos, e antes que caísse em desalento lhe socorri:

— Certeza, Ventarola, é o estado da mente que está intimamente persuadido de possuir a verdade.

Já desconfortável, Ventarola pôs-se a argumentar em favor do ceticismo:

a)      Como o homem manifesta a ignorância sobre vários assuntos, e como tudo tem ligação na realidade, devido a esta mesma ignorância de vários aspectos das coisas, é impossível conhecer as coisas como elas são.

b)      O erro, ou seja, o homem engana-se frequentemente e muitas vezes enganado julga possuir a verdade. Assim, como o homem poderá saber se alcançou a verdade?

Sorrindo, contestei a fraca objeção:

a)      O fato de o homem ignorar algumas verdades, não prova que não possa existir certeza sobre outras, ou seja, não é o desconhecimento sobre algumas coisas que torna impossível eu ter certeza acerca de outras coisas. Supondo que eu desconhecesse os processos nucleares que se dão no Sol. Ainda desconhecendo isso, poderia ter certeza de sua existência.

b)      A objeção sobre o erro é inconsistente, e, pelo contrário, é um argumento em favor da certeza. Se é possível reconhecer que estávamos errados, isto é uma magnífica prova que podemos alcançar a verdade, pois só persuadidos a possuir a verdade podemos dizer que estávamos errados.

Neste momento, Ventarola entrou numa espécie de transe filosófico que só foi quebrado por uma lombada que pôs dragão e dono em gravidade zero, voltando à “terra-firme” off-line de seus fones de ouvido.

Continuou, ele, defendendo, já não tão vigorosamente, o ceticismo:

c)      Os homens estão sempre em contradição. Algumas coisas que eram entendidas de uma forma no passado, hoje são compreendidas de maneira diferente. Alguns julgam algo bom outros, ao contrário, julgam mal.

d)      Há um circulo vicioso, ou seja, o dialeto. Para se provar a razão, não há outro meio que a própria razão. Por isso, não há outra disposição da inteligência que não seja a dúvida.

Mais uma vez, esclareci ao interlocutor, derrubando as objeções:

c)      A questão da contradição se identifica com a objeção da ignorância. O fato dos homens não estarem de acordo com tudo não invalida a certeza. Isto porque a contradição não é universal e não se estende a todos os domínios do saber e nem a todas as proposições.

d)      Com relação ao dialeto, é uma estultícia a argumentação cética, visto que o argumento se desmorona sob seu próprio princípio, ou seja, demonstrar pela razão a ilegitimidade da razão também é um círculo vicioso.

Finalizei, usando uma brincadeira de um muito estimado professor:

— Você ainda tem certeza da dúvida?

Impaciente, Ventarola decidiu terminar nossa rápida conversa, com a desculpa de que tinha esquecido que precisava descer alguns pontos antes. Ao mesmo tempo em que se justificava, ia espalhando, sobre os passageiros nada felizes, as migalhas daquele lanche que ficaram retidas – contra a vontade – em uma ampla junção entre seu abdómen e o tórax. Barafunda feita, desceu  despedindo-se desapegadamente.



[1] As considerações filosóficas sobre a certeza expostas nesta crônica foram baseadas integralmente no trabalho de Pe. Boulenger, Manual de Apologética. Ed. AI, Porto, 1950. P. 22-25.

[2] O ceticismo objeta que o homem é incapaz de distinguir o falso do verdadeiro e, desta, forma, deve se abster de julgamento. A refutação do ceticismo é o dogmatismo, que mostra que a razão humana é capaz de possuir a verdade chegando à certeza.

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