Montfort Associação Cultural

21 de janeiro de 2005

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Celibato e os casos de desvios de padres

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: prof. Antonio Folquito Verona
  • Localizaçao: Lins – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: político (PT) professor Unesp
  • Religião: Católica

Prezados editores,

li vários e interessantes artigos publicados na página da Montfort e percebi que os Srs. não deram qualquer atenção a um tema de extrema atualidade e que vem mexendo com a cabeça de muitos católicos e cristãos bem-informados, quando não está pondo em questão as raízes mesmo da instituição eclesiástica: a sexualidade dos padres. É necessário divulgar a verdade sobre as causas da expansão da pedofilia, do homossexualismo e da ambiguidade da vida sexual (celibato x relações eventuais), acontecimentos que estão na ordem do dia do ambiente hierárquico, envolvendo desde cardeais, bispos e clérigos seculares e religiosos.

Há tempo sabia-se que tais comportamentos eram freqüentes na instituição religiosa, mas agora, com a exposição nos meios de comunicação, os fatos, antes, pontuais se transformaram em coisa corriqueira.

Aguardo, atenciosamente, uma resposta dos Srs.

Prof. Antonio Folquito Verona

Prezado Antonio,
salve Maria.

Você diz bem que há tempos se conheciam casos que, hoje, são denunciados como de pedofilia.

O curioso é: por que eles não foram denunciados antes, já que há tempos eles ocorrem?

Também é curioso que a imprensa americana chama de pedofílicos vários casos de sexualismo de adultos com adultos. Pelo menos estes casos deveriam ser chamados de casos de homossexualismo e não de pedofilia. Por que essa troca de denominação do crime?

O Papa João Paulo II, graças a Deus, mandou punir os padres envolvidos e entregá-los à polícia, “ao braço secular“, como se dizia na Idade Média. Fazendo isso o Papa, graças a Deus, contrariou a política péssima que vinha sendo seguida durante décadas pelos Bispos americanos, que deixaram o câncer crescer em vez de extirpá-lo.

Valentemente o Papa João Paulo II exigiu tolerância ZERO, para os padres criminosos.

Outra pergunta que deve ser levantada: por que logo se tentou ligar a pedofilia do clero com o celibato?

Há muitos pedofílicos casados…

Até parece que se quis aproveitar a onda para sabotar o celibato.

Quando for oportuno, e sem criar escândalo, trataremos do caso.

Você fala que essa questão interessa e “vem mexendo com a cabeça de muitos católicos e cristãos bem-informados, quando não está pondo em questão as raízes mesmo da instituição eclesiástica: a sexualidade dos padres” (coloquei em negrito a palavra cristãos de seu texto).

Permita-me quatro perguntas:

1) você é um católico ou um “cristão”?

2) Você é “bem informado”?

3) você é bem formado?

4) Qual é a sua formação?

Conforme forem suas respostas, tratarei do tema — bastante delicado — segundo o ponto de vista que o interessa.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

Replica

Sr. Fedeli,

     Só Cristo salva!

    como o Sr. bem disse, meu discurso é serpentino. O seu, entretanto, parece-me movido por uma predileção especial em investigar as peculiaridades alheias! Não é mesmo, Sr. Fedeli? Pode ser alguma reminiscência medieval extemporânea e mal resolvida. Por isso, começo pelo fim, só distorcer sua “ordem milenar” e variar um pouco sua rigidez. Malgrado o Sr. tenha feito uma capilar perscrutação em minha vida pregressa no Post-Scriptum e chegado, precipitadamente, a algumas conclusões sobre o que está nos textos (não no contexto) que leu, dou-lhe, por dedicação, algumas explicações preliminares a respeito, sem ter certeza, contudo, que este diálogo vai de fato se consumar:

    a) o nome adotado pelo Grupo de Jovens do qual fiz parte durante alguns anos, “Novos Hippies”, usou o termo hippie precedido de “novos” exatamente porque queria se diferenciar dos originários. Seguíamos a linha do conhecido TLC (Treinamento de Lideranças Cristãs – versão juvenil do Cursilho de Cristandade, movimento inspirado na Opus Dei, instituição que hoje assessora diretamente o atual papa), como disse, implementado pelo clero local e que produziu, na época, uma abundante liderança juvenil na cidade. Para seu desapontamento, jamais fui um “hippie” ou qualquer coisa do gênero, apesar do esforço teórico em entendê-los. Fui muito mais “enquadrado” do que o Sr. possa imaginar. Não fui usuário de drogas e nem versado no “amor livre”, práticas já tão usuais naqueles tempos. Malgrado houvesse alguns de nós que, infelizmente, enveredou-se pelo caminho, sobretudo, das drogas chamadas lícitas e ilícitas, a maioria manteve-se totalmente sóbria e incólume aos devaneios da mocidade.

    b) as três viagens iniciais que fiz a Taizè, como estudante de teologia, foram organizadas por e dentro de instituições católicas oficiais, tanto da Itália como do Brasil. O Sr. desconhece – e nem é obrigado a saber – que o Vaticano sempre manteve excelentes relações com aquela comunidade, desde o Concílio Vaticano II (o Sr. deve persignar-se ao ouvir tal menção, não é mesmo?). Sua igreja inclusive aceitava que vários monges ali inseridos se mantivessem católicos, apesar que a comunidade fosse inter-denominacional. Nos anos 70, um terço dos monges era católico. Portanto, Sr. Fedeli, não havia qualquer óbice por parte da Santa Sé para que muitíssimos “fieis”, padres, freiras, teólogos e seminaristas freqüentassem, participassem e comungassem com os irmãos de Taizè.

    c) o Sr. confundiu-se radicalmente mais uma vez ao dizer que o jornal “La Liberté”, editado em Fribourg (Suíça) era de inspiração marxista (O jornal “La Liberté” deveria difundir a devoção a … Marx, Lenin e Stalin não?). A cegueira que o Sr. atribui a mim na primeira parte de seu texto, pode ter-lhe afetado, infelizmente, também na gana incontrolável de encontrar indícios para me imputar a alcunha máxima de um apóstata: a de ser “comunista”. Mas, voltando ao tema central, o diário citado era, entretanto, para seu espanto: “catolicíssimo”, segundo sua concepção ideológica, ou reacionaríssimo, na opinião de outros católicos francófonos. O Sr. desconhece – e nem é obrigado a saber, mas por isso está sujeito a crassos erros – que na Universidade Católica de Fribourg, então, havia uma separação nítida de tendências entre os católicos de língua francesa, seus respectivos cursos, considerados muito conservadores; e os de língua alemã, considerados excessivamente liberais. Eu convivia exatamente com os primeiros. Tomava café da manhã com os frades e freiras provenientes dos cantões do Sudoeste Helvético. Por isso, fui contatado a distribuir o aludido jornal. Sua memória não deve tê-lo ajudado, mas perto de Fribourg creio que há, ainda, o ”Séminaire International Saint Pie X” (fundado pelo, então, arcebispo Marcel Lefebvre), situado em Ecône, no Cantão de Valais onde também se fala a língua francesa. Vários seminaristas dessa instituição cursavam, na época, em Fribourg.

    d) a respeito do meu divórcio, gostaria de dizer-lhe, e o Sr. deve sabê-lo porque disse ser casado, que nenhum casal a priori quer separar-se. Uma ruptura traz conseqüências traumáticas tanto para os cônjuges quanto para os filhos. Sofri durante vários anos as sequelas desse incidente pessoal. Gostaria que o Sr., se tiver o mínimo de caridade, nunca mais utilizasse de minhas próprias palavras e do meu caso de separação para querer desqualificar os argumentos que utilizo quando me refiro ao celibato obrigatório imposto pela instituição à qual o Sr. pertence. A separação é uma experiência muito difícil de ser digerida e que não desejo nem para meu pior inimigo. Quando, em mensagem anterior, citei vários casos de “desvio” comportamental de religiosos locais não dei-lhe qualquer indicação de nomes próprios. O Sr., por sua conta e, certamente, movido por mórbida mania inquisitorial quem veio localizar-me via Internet e “desvendar” minha identidade.

    A propósito, uma pessoa de nome Pedro de Alcântara me escreveu dizendo que teve conhecimento, através do Sr., do conteúdo de nossa correspondência. Por uma questão de garantia de privacidade, gostaria de não ver o nome de meus filhos, de minha ex-esposa e de outras pessoas que passaram por minha vida, em frases pinçadas e descontextualizadas, circulando entre pessoas de sua particular intimidade. Se quiser discutir qualquer tema, faça-o comigo, pessoalmente. Não envolva terceiros (que somente o Sr. os conhece) na conversa, por favor. Afinal, o Sr. é que não é serpentino, nem dissimulado … e, por outro lado, é muito franco! Espero que o Sr. tenha a hombridade de manter a persona (no sentido grego) que contruíu em nosso diálogo. Eu garanto que continuarei com a minha.

    e) no seu afano de reencarnar o Torquemada, nos moldes, evidentemente, tupiniquim, o Sr. gostaria que eu lhe dicesse que meu “coração está com Lutero!”. Pois, mais uma vez, enganou-se redondamente. Ir a Halle e a Wittenberg, reconhecer a relevância da Reforma Protestante para a modernidade européia (até João Paulo II, entre tantos outros líderes católicos (cardeal Bea, por exemplo), já falou sobre isso!) não significa, de modo algum, aderir ou simpatizar-se com o luteranismo. Não sou de Pedro, de Paulo ou de Tiago. Sou de Cristo, nosso Senhor e único Salvador, como dizia hoje um padre católico num programa da Rede Vida com ênfase pentecostal. O Sr. é quem precisa de enquadramento para se encontrar seguro, Sr. Fedeli, arrogando-se no direito de denominar os diferentes como lascivos, hereges, comunistas, etc. Graças a Deus que, apesar da extemporaneidade de seu pensamento, o Sr. não detém o poder de persuadir o braço secular a agir contra a “escória da humanidade”, como os inquisidores medievais (lembra-se de Joana d”Arc, Jan Huss, Giordano Bruno e tantos milhares … pela morte horrenda dos quais João Paulo II já pediu perdão!). Estaríamos literalmente fritos (como o foi São João) em suas ortodoxas mãos!

    f) sou doutorado pela USP, mas não possuo, como o Sr. pretende, a ciência infusa. Quanto à tradução do latim para o alemão da Bíblia por Lutero, o Sr. não quis entender mesmo! O alemão usado por ele era sim a língua falada pelo povo da Turíngia, que não sabia o latim (por sinal, nem mesmo a nobreza laica o sabia). Tal texto transformou-se no documento inicial da língua alemã, constituindo-se, assim numa língua também escrita.

    g) quanto à filiação arquitetônica da Marienkirche de Halle escrevi que é uma igreja gótica (sua construção foi por volta de 1064), passo-lhe minha fonte. De gótico, certamente, o Sr. deve ser especialista. Tenho certeza que sua erudição (ou de seus assessores) permitir-lhe-á traduzir o texto em alemão. Tenho proximidade com a língua, mas, se errei interpretando-o, gostaria que o Sr. me apontasse a falha (fará um grande serviço à minha HP) e eu a corrigirei onde for necessário.

    “3 Marienkirche. Die Marienkirche, auch “Unser Lieben Frauen” oder Marktkirche genannt, entstand ab 1529 aus den jahrhudertealten Kirchen St. Gertruden im Westen und St. Marien im Osten. St. Gertruden (errichtet

 etwa 1064) war die Kirche der Salzleute im Tal zu Halle, der Gegend um den Hallmarkt, St. Marien (errichtet 1121-1137) die der Kaufleute der “Bergstadt”, der im Vergleich zum Tal höhergelegenen Strassen und Gassen um die Marienkirche und den Markt. Beide Gotteshäuser besassen je zwei Türme. Kardinal Albrecht regte an, die alten Kirchenschiffe abzureissen und die vier Türme durch ein Langhaus zu einer einzigen viertürmigen Kirche zu verbinden. Die Ausführung übernahm Ratsbaumeister Caspar Kraft, und nach nur zehnjähriger Bauzeit erfolgte eine erste Weihe. Vollendet wurde das Werk durch Ratsbaumeister Nickel Hofmann. An der südlichen Empore nennt eine Bauinschrift das Jahr: 1554. Die spätgotische Hallenkirche (gleichhohe Schiffe, schlanke Strebepfeiler, Spitzbögen, Stern-und Netzgewölbe) weist bereits Elemente der Renaissance auf (Emporen, Treppen, Arkaden). Sie gilt als Abschluss un Höhepukt der sakralen Aukunst in Halle.” (In Stadtführer Halle, Gondrom, 1995, p. 30)

    Suas teorias alucinadas sobre abominação de cruzes, de velas, de quadros e de estátuas de santos por parte dos protestantes cairão (de boca) por terra quando o Sr. entrar numa das igrejas evangélicas do Centro-Norte da Alemanha!

    Quanto ao celibato obrigatório, continuaremos a discuti-lo, visto que não é um problema particularmente teórico, mas encontra-se sobretudo numa perspectiva da razão prática, como dizia Kant. O tempo dirá se o chamado “Segredo de Fátima” terá mais eficácia que a necessidade da instituição se perpetuar. Hoje, por sinal, a questão está muito mais além disso … passa pela presença qualitativa e quantitativa de mulheres nos movimentos eclesiásticos e da necessidade de galgarem os ministérios (ordens) que, mais cedo ou mais tarde, a Igreja Católica deverá admiti-lo como já o fizeram as Igrejas Evangélicas.

    Quanto a sua propalada TOLERÂNCIA ZERO contra os padres pedófilos norte-americanos, procura saber qual foi a última notícia vinda do Vaticano. Parece que seu papa não pensa exatamente da maneira que o Sr. está afirmando.

Não se chega ao Pai senão através de Mim.

Antonio Folquito Verona

Sr. Folquito,

salve Maria.
 
Se o senhor mesmo reconhece que seu discurso é serpentino, não vejo utilidade nem conveniência em conversar com o senhor. Passe bem.

Orlando Fedeli.

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