Montfort Associação Cultural

21 de janeiro de 2005

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Católico Pós-Vaticano II

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jean
  • Idade: 21
  • Localizaçao: Rio Grande – RS – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Religião: Católico Pós-Vaticano II

Caríssimo Prof. Dr. Orlando Fedeli, Não pude deixar de ler os artigos do seu site, principalmente os que se referem a assuntos que o senhor chama de polêmicos. Gostaria de saber sua opinião sobre o Movimento dos Focolares, tendo em vista o parecer dado pelo senhor sobre ecumenismo, que não é nada compatível com o Decreto “Unitatis Redintegratio” do Concílio Vaticano II. Ora, se o senhor não reconhece a autoridade deste Concílio, está em estado de desobediência ao Magistério da Igreja. Pelo menos, o senhor não demonstra, em nenhum momento, considerar este Concílio ao qual me refiro como válido.

A Paz de Cristo esteja contigo!!!

Jean

Prezado Jean…Salve Maria.

Você deve ter se perguntado o por quê das reticências antes do meu costumeiro “salve Maria”.

Explico-lhe essas reticências.

É que você confessa ser “Católico Pós-Vaticano II”. Você é a primeira pessoa de que tenho conhecimento ousando confessar-se membro de uma nova religião: o Catolicismo Pós Vaticano II.

Até hoje, eu não lera, nem ouvira proclamar tal heresia e tal apostasia. Sim, pois, dizendo isso, você afirma que não pertence mais à Igreja Católica de sempre, que existe desde que foi fundada por Nosso Senhor sobre Pedro. Você se separa da Igreja de sempre.

Dizendo-se Católico Pós Vaticano II, você afirma que o Vaticano II estabeleceu uma nova doutrina, uma nova Fé, contrária àquela que a Igreja sempre ensinou.

Claro é, para mim, que essa ousadia imprudente de sua parte se deve à sua imaturidade juvenil, que não pesa convenientemente as palavras que assina. Afinal, você tem apenas 18 anos…

Muito provavelmente você está apenas repetindo o que ouviu de alguma padre modernista, que, à boca pequena, ensinou isso você e a outros, no fundo de uma sacristia — ou foi tomando chopp numa roda de bar? — que a Igreja de antes Vaticano II… “já era”. E você ingenuamente se proclama então “Católico Pós Vaticano II”, sem compreender bem o que está dizendo. E pela Internet!

Tenho, porém que admitir que você tem uma certa coerência.

Se você crê que o Vaticano II foi uma ruptura total com a Igreja Católica tal qual Ela sempre foi, até esse Concílio, então é natural e lógico que você considere que os católicos que se mantiveram fiéis à doutrina que a Igreja ensinou durante dois mil anos não são membros dessa sua Nova Igreja, a “Igreja Católica Pós-Vaticano II”.

O “Pós” do Vaticano II se caracterizou por uma enorme polêmica, que continua até hoje.

Alguns — como você — garantem, de pés juntos, que o Vaticano II rompeu radicalmente com a Igreja Católica, e que foi fundada uma Nova Igreja. Estes são os que — como você — consideram o Vaticano II o único Concílio válido, que anulou tudo o que fora ensinado anteriormente, por todos os Concílios, e por todos os Papas.

Teólogos defensores desa tese esdrúxula são, por exemplo, Jacques Dupuis, cujos erros foram condenados recentemente pela Declaração Dominus Iesus, ou o ex Frei Boff, assim como Frei Betto .São eles os que defendem aquilo que denominaram o “espírito do Concílio Vaticano II”.

Outros há que defendem a “letra do Concílio Vaticano II”, recusando a interpretação radical dele.

Outros, como atualmente o Cardeal Ratzinger, embora aceitem o Vaticano II, consideram que esse foi longe demais, e querem um certo retorno à situação anterior.

Outros ainda existem que recusam de tal modo o Vaticano II, que consideram os Papas do Vaticano II como pseudos Papas: são os chamados sede vacantistas, que caem diretamente no cisma, e, alguns, na heresia.

Há ainda aqueles que, fazendo restrições ao Vaticano II, condenam o sedevacantismo, como por exemplo, os chamados tradicionalistas Lefebvristas. Recentemente estes tradicionalistas confessaram ter estabelecido Tribunais papais, o que os coloca claramente em estado de cisma.

Outros há ainda que consideram o Vaticano II — como o proclamou o Papa Paulo VI — um Concílio Pastoral, e portanto não dogmático, não infalível.

Resumi, assim, para você, as posições mais típicas face ao Concílio Vaticano II.

Como se explicam tantas divergências de interpretação?

Explicam-se pela ambiguidade dos textos do Vaticano II, ambiguidade reconhecida até mesmo por autoridades eclesiásticas de importância e de renome.

O famoso teólogo modernista Schillebeeckx — um dos mais importantes peritos oficiais do Vaticano II — declarou literalmente:

“Nós nos exprimimos numa maneira diplomática, mas após o Concílio nós tiraremos do texto as conclusões que aí estão implícitas” (Padre Schillebeeckx, na revista De Bazuin, n* 16, 1965, apud Romano Amerio, Iota Unum,Ricardo Ricciardi, Milão, 1985, p. 93, e in Ralph Wiltgen, Le Rhin se jette dans le Tibre, p. 238).

Tiraram. E querem tirar mais ainda. E prometem tirar coisas incríveis.

Você também — embora como simples eco juvenil de outra voz mais responsável (?) — tirou também conclusões esdrúxulas: passou para uma Nova Igreja Pós Vaticano II.

Pelo menos, — é preciso reconhecer isso — você teve a coragem de proclamar o que outros falam em voz baixa…

Romano Amerio, que escreveu um dos livros mais importantes de crítica ao Vaticano II — e que não foi de modo nenhum censurado por isso — mostra que o método empregado na redação dos textos conciliares, e confessado por Schillebeeckx, indica uma vontade deliberada de esconder o pensamento verdadeiro, num texto obscuro e ambíguo. Romano Amerio acusou os elaboradores dos textos conciliares de anfibologia voluntária..

Esse método nada leal é que vai causar a confusão, que persiste até hoje, de saber ao certo o que o Concílio quis realmente dizer. Dai, as várias interpretações ou “leituras” possíveis do Vaticano II.

Ora, se um Concílio é declarado Pastoral e não dogmático, o fiel tem a sua obrigação de obediência diminuída. Mas, se além de ser pastoral, esse Concílio é ambíguo, permitindo várias “leituras” diversas e contraditórias, que até hoje produzem divergências mesmo nos círculos da Cúria Romana e no Colégio dos Cardeais, que grau de obrigação resta então para o simples fiel?

Talvez você se espante por afirmar eu que as divergências sobre o que disse realmente o Vaticano II, e como deve ele ser entendido, tenham atingido até os altos círculos da Cúria e dos Cardeais. Se você quer uma prova disso, basta ler as violentas reações de Cardeais e Bispos contra a Declaração Dominus Iesus, que proclamou Verdades de Fé obrigatórias para todo fiel católico. Verdades de Fé obrigatórias também para Cardeais e Bispos. Entretanto…

Entretanto, o Cardeal Koenig foi dos primeiros a se declarar contra a Dominus Iesus. Ele foi imitado e seguido imediatamente pelo Cardeal Cassidy que era então da Cúria. A divergência entre os Cardeais Cassidy e Ratzinger, por causa da Dominus Iesus, ganhou lugar nos jornais.

Aqui mesmo, no Brasil, Dom Ivo Lorscheider assinou um manifesto, conjuntamente com hereges, protestanto contra a Dominus Iesus. Na Bélgica, 80 teólogos e teólogas assinaram um manifesto contra a Dominus Iesus. É pública a divergência entre os Cardeais Kasper e Martini, da ala radical, com relação ao Cardeal Ratzinger, a respeito da “leitura” correta do Vaticano II.

O próprio Cardeal Ratzinger, anos atrás, reconheceu, em livro, que o Vaticano II foi, de certo modo, uma tal ruptura com a doutrina anterior da Igreja, que um texto conciliar — a Gaudium et Spes — pode ser reconhecido como um Anti Syllabus.

Veja o próprio texto de Ratzinger:

“Se se deve admitir um diagnóstico global sobre esse texto [a Gaudium et Spes do Vaticano II] poderia dizer-se que significa, (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus” (Cardeal Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Herder, Munchen, Barcelona, 1992-1995, p. 457).

Noutro texto desse mesmo livro, o Cardeal Ratzinger diz:

“Em razão de sua forma e da orientação de suas afirmações, [o Decreto sobre o Ecumenismo do Vaticano II] é o que mais se afasta da anterior história dos Concílios e, portanto, permite perceber melhor que todos os outros textos, a peculiar fisionomia do último concilio” (Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria dos Principios Teológicos, p. 454).

Ratzinger, depois, mudou sua “leitura” do Vaticano II.

Quer você que lhe prove a mudança do Cardeal Ratzinger?

Pois não. Isso é fácil.

Nesse mesmo livro que acabo de citar, o Cardeal Ratzinger diz, a certa altura, que a substituição do verbo ser pelo verbo subsistir, no relacionar a Igreja de Cristo coma Igreja Católica, permitiu incluir na noção de Igreja até mesmo comunidades e religiões antes consideradas falsas.

Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, ensinando o que a Igreja sempre ensinara, escreveu que “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica Apostólica Romana”. O Vaticano II mudou o verbo dessa frase, dizendo que “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”.

Sobre essa mudança comentou o Cardeal Ratzinger no livro citado:

“O texto latino apresenta matizes muito finos, graças aos quais se conseguiu marcar diferenças face à equação absoluta dos primeiros esquemas conciliares, que punham um sinal de igualdade total entre a Igeja de Jesus Cristo e a Igreja Católica romana: Aqui não se tira um til da concreção do conceito de Igreja; a Igreja permanece ali onde estão todos os sucessores do Apóstolo Pedro e dos restantes apóstolos, que encarnam visivelmente a linha de continuidade com a origem. Porém, esta concreção plena não diz que todo o resto deva ser considerado como não sendo Igreja. O sinal de igualdade não é uma magnitude matemática, porque ao Espirito santo não se O pode encerrar em um símbolo matemático, nem sequer ali onde se vincula e se acredita de forma concreta” (Cardeal Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, p. 278).

Para Ratzinger, então, pelo menos na época em que escreveu esse livro (1992), a frase de Pio XII: A Igreja Católica é = à Igreja de Cristo, fora trocada pelo Vaticano II, em “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica“, o que permitiria entender que ela subsiste também em outras Igrejas e religiões.

Ora, na Declaração Dominus Iesus, aprovada pelo Papa João Paulo II e assinada pelo mesmo Cardeal Ratzinger, se condena essa intreretação do texto do Vaticano II:

“É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. “O Concílio, invés, adotou a palavra “subsistit” precisamente para esclarecer que existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas “elementa ecclesiae”, que – por serem elementos da própria Igreja – tendem e conduzem para a Igreja Católica” (Congregação para a Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume: “Igreja , carisma e Poder” do P. Leonardo Boff. AAS 77 (1985) 756-762. O negrito é nosso.)

Daí a Dominus Iesus ter declarado que as comunidades cristãs não são propriamente Igrejas. O que provocou a fúria dos ecumenistas radicais da Igreja do Pós Concílio.

Portanto, o Vaticano II provocou — e provoca — divergências de “leituras” e de intrepretação até nos mais altos círculos da Igreja.

Ora, a Comissão Teológica do Concílio Vaticano II, tratando da autoridade dos pronunciamentos conciliares declarou em 16 -XI – 1964: “Tendo em conta a praxe conciliar e o fim PASTORAL do presente Concílio, este sagrado Concílio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé. Tudo o mais que o Sagrado Concílio propõe, como doutrina do Supremo Magistério da Igreja, devem-no os fiéis receber e interpretar segundo a mente do mesmo Concílio, a qual se deduz quer do assunto em questão, quer do modo de dizer, segundo as normas de interpretação teológica”. (Compêndio do Vaticano II , ed. Vozes, Petrópolis1969, p. 21-22. Os negrito são meus).

O Vaticano II propõe tudo pastoralmente, não impõe nada dogmaticamente.

Afirmou ainda o Papa Paulo VI:

“Há quem pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quer atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de Março de 1964, confirmada a 16 de novembro desse mesmo ano. [Documento acima citado].

Portanto, segundo declarou expressamente Paulo VI, o Vaticano II evitou dar definições solenes envolvendo a infalibilidade. Meu caro, em vista de tudo isso, conclui-se que o Vaticano II não exige uma submissão a seus documentos como se eles fossem dogmas, porque ele nada proclamou ex cathedra. Pelo contrário, todo católico é obrigado a continuar a aceitar tudo o que a Igreja sempre ensinou dogmaticamente. Nada foi mudado na Fé católica. A Igreja Católica Apostólica Romana continua sempre a mesma. Ninguém pode mudar o que ela sempre ensinou, pois Cristo Nosso Senhor declarou: “Passarão os céus e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mt. XXIV, 35).

Por isso, quando até Cardeais divergem sobre o que disse esse Concílio Pastoral, e quando alguns defendem que surgiu uma Nova Igreja e se declaram Católicos Pós Vaticano II — como você, infelizmente o faz — convém aos simples leigos católicos, como eu, permanecerem fiéis àquilo que a Igreja sempre ensinou, inclusive obedecendo o Papa atual, João Paulo II, e condenando toda revolta contra o Papa, quer repelindo o sedevacanismo, quer qualquer forma de cisma, aguardando que Deus, com o tempo e com sua graça, esclareça essa situação tão confusa e inédita na Igreja de Deus.

Quanto aos Focolari, nunca os estudei a fundo, e atualmente não tenho opinião formada sobre eles. (Aliás, se você não me considera católico, para que quer você saber minha opinião?). Mas se foram eles que lhe ensinaram a dizer-se Católico Pós Vaticano II, então, eles estão bem errados.

Se você quiser mais esclarecimentos sobre este problema, veja a troca de cartas que mantive, ainda este ano, com Dom Estevão Bettencourt.

Rogando a Deus que lhe abra os olhos — e que lhe segure a pena e a língua — e o faça dizer-se sempre e simplesmente Católico Apostólico Romano, como sempre foi e como sempre será dito, despeço-me in Corde Jesu, semper et semper fidelis a Roma e ao Papa, qualquer que ele seja,

Orlando Fedeli

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