Montfort Associação Cultural

7 de maio de 2010

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Carta de Dom Fellay sobre Bento XVI e Fátima

 
Caros Amigos e Benfeitores,   
 
     A situação da Igreja parece cada vez mais a um mar agitado em todos os sentidos. Nele se vêem ondas, que cada vez mais parecem querer fazer afundar a barca de Pedro, arrastando-a para abismos sem fim. Desde o Concílio Vaticano II, uma onda parece querer tudo arrastar para baixo para deixar apenas um monte de ruínas, um deserto espiritual que os próprios Papas qualificaram de uma apostasia. Não queremos descrever de novo essa dura realidade, nós já o fizemos muitas vezes, e todos vós a podeis constatar. Mas, entretanto, nos parece útil comentar um pouco os acontecimentos desses últimos meses: quero falar desses golpes, surpreendentes por sua violência e particularmente bem orquestrados, que são feitos contra a Igreja e o Soberano Pontífice. Por que  tal violência?
 
     Para retomar nossa imagem, parece que há algum tempo, mais ou menos desde a eleição ao pontificado do Papa Bento XVI, apareceu uma nova onda, muito mais modesta que a primeira, mas suficientemente persistente para que se possa todavia notá-la. Contra toda expectativa, ela parece ir em sentido contrário da primeira. Os indícios são suficientemente variados e numerosos para que se possa afirmar que esse novo movimento de reforma ou de restauração é bem real. Ele se constata em particular junto às jovens gerações, manifestamente frustradas pela pouca eficácia espiritual das reformas do Vaticano II. Se se consideram as críticas muito duras e amargas que formulam os progressistas contra Bento XVI, é  certo que eles percebem na própria pessoa do Papa atual uma das causas mais vigorosas desse começo de renovação. E de fato, mesmo se achamos as iniciativas do Papa antes tímidas, elas contrariam profundamente o mundo revolucionário e esquerdista, tanto dentro quanto fora da Igreja, e isso em vários níveis.
 
     Esta irritação dos progressistas e do mundo se faz sentir primeiramente nas questões que tocam a moral a reabilitação em 2007 da Missa de sempre em seu direito, depois, dois anos mais tarde, a anulação da pena infamante que pretendia nos desqualificar, provocaram a raiva dos liberais e progressistas de todo tipo. De mais, a feliz iniciativa de um ano sacerdotal remetendo o padre à honra, relembrando sua importância capital e tão necessária para a salvação das almas, e propondo como modelo o Santo Cura de Ars, é não só um convite feito ao povo cristão a rezar pelos padres, mas ainda mais um apelo a recorrer ao sacramento da penitência, caído completamente no esquecimento em largas porções da Igreja, assim como a tomar cuidado com o culto eucarístico considerando notadamente a importância da adoração de Nosso-Senhor na Sagrada Hóstia, clara indicação da realidade da presença real e substancial de Nosso-Senhor Jesus-Cristo.. Em particular, a esquerda e os liberais se irritaram pelas palavras, entretanto bem equilibradas, do Papa sobre o uso dos preservativos na questão da aids na África. Relativamente à vida da Igreja,
 
     Da mesma forma, a nomeação de Bispos nitidamente mais conservadores, entre os quais um certo número já celebrava antes a Missa tridentina. Poder-se-ia ainda citar como exemplo inegável da realidade dessa pequena onda contrariante a Carta aos católicos da Irlanda convidando à penitência, à confissão, aos exercícios espirituais, pedindo também a adoração a Jesus Eucaristia. Mesmo se com razão estimar-se-á em nossos meios, que esses esforços são ainda insuficientes para deter a decadência e a crise da Igreja, notadamente tendo em vista um certo número de atos que se situam na lamentável linha de seu predecessor, como as visitas à sinagoga e ao templo protestante, entretanto, nos meios modernistas, a hora do toque de combate soou ! A grande onda ataca a pequenina com uma violência surpreendente. Não é de espantar que o choque dessas duas ondas, muito desiguais, cause muitos remoinhos e  tumultos, e provoque uma situação muito confusa na qual é muito difícil distinguir, e prever qual das duas vai vencer. Entretanto, isso é novo e merece ser saudado.
 
     Não se trata de cair em um entusiasmo inconsiderado que desejaria fazer crer que a crise terminou. Pelo contrário, as forças envelhecidas, que vêem repostas em discussão as conquistas que elas pensavam ser definitivas, vão desencadear, sem dúvida alguma, um combate de envergadura para tentar salvar esse sonho de modernidade que começa desmoronar. É muito importante conservar um olhar tão realista quanto possível sobre o que se passa. Se nós nos alegramos por tudo o que se faz de bem na Igreja e no mundo, permanecemos entretanto sem ilusão diante da gravidade da situação atual.
 
     Que devemos prever para os próximos anos? A paz  na Igreja, ou a guerra? O triunfo do bem e seu retorno tão esperado, ou uma nova tormenta? A pequena onda chegará a crescer suficientemente para um dia se impor? A certeza do cumprimento da promessa de Nossa Senhora em Fátima – «por fim meu Imaculado Coração triunfará» –, não resolve necessariamente e diretamente nossa questão, porque não está de todo excluído que seja preciso inicialmente passar por uma tribulação ainda maior, antes que chegue o triunfo tão esperado…
 
     Essa formidável disputa se encontra também forçosamente em nossa cruzada de terços: não quereríamos diminuir em nada a alegria do anúncio do resultado extraordinário de nossa Cruzada do Rosário. Nós vos pedimos audaciosamente, faz um ano, uma dúzia de milhões de terços a fim de coroar, de envolver com uma magnífica cintura de louvores, como se fossem tantas estrelas, Nossa boa Mãe do Céu, a Mãe de Deus, essa Mãe que se apresenta diante dos inimigos de Deus como «tão terrível quanto um exército em ordem de batalhaum ramalhete de mais de 19 millions de terços, sem contar todos os que se uniram a nós sem ser diretamente de nossos fiéis.» (Cant. 6,3). Vós respondestes com uma tal generosidade que nós podemos presentemente levar a Roma 
 
     Não foi certamente por acaso que Pio XII, proclamando o dogma da Assunção, quis mudar o Intróito da festa de 15 de agosto, colocando lá a  passagem do Apocalipse que saúda o grande sinal aparecido no céu. Esse extrato do Apocalipse inaugura a descrição de uma das guerras mais terríveis que  foram expostas no livro Sagrado: o grande dragão, que vai arrastar com sua cauda um terço das estrelas, vem dar batalha à grande Senhora (cf. Apoc. 12). Todo essa passagem se refere a nosso tempo? Pode-se facilmente  crer nisso, sempre evitando fazer aplicações por demais literais e unívocas dessas misteriosas e proféticas descrições. Não temos absolutamente nenhuma dúvida que todas nossas orações têm sua importância, e mesmo uma muito grande importância nesse momento da história em que nos achamos. Entretanto, pensamos dever também advertir-vos e encorajar-vos nessas circunstâncias da história da Igreja.
 
     Vossa grande generosidade mostra, sem a menor dúvida possível, vosso apego e vosso amor bem reais por nossa santa Mãe a Igreja Católica Romana, pelo Sucessor de São Pedro, pela hierarquia, mesmo se temos muito que sofrer por causa dela. Deus é mais forte que o mal e o bem vencerá, mas talvez não com toda a pompa que desejaríamos.
 
     É preciso agora convencer as autoridades a cumprir a famosa consagração da Rússia que elas dizem já ter sido feita; é preciso lembrar a atualidade do que dizia Nossa Senhora em Fatima, quando, no ano 2000, se quis manifestamente virar a página para não mais falar dela. As dificuldades e os obstáculos parecem dever se multiplicar a fim de que aquilo que pedimos sobretudo não se realize. Pouco importa, nós contamos muito mais com Deus do que com os homens, da mesma forma que esperamos de atos tão simples como o da consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria resultados surpreendentes para a Igreja e para o mundo, resultados ultrapassando tudo o que possamos imaginar. Isso é loucura aos olhos dos homens, mas é bem o reflexo do que já São Paulo pregava em sua época: o que é sábio aos olhos dos homens é loucura para Deus, enquanto que a sabedoria de Deus é considerada pelos sábios deste mundo como uma loucura insensata(cf. 1 Cor. 1, 20).
 
     Quando levarmos ao conhecimento do Santo Padre vossos notáveis esforços, assim como a razão dessas orações, esperando contribuir assim, à nossa maneira, para o bem da Igreja, nós vos pedimos de bem querer continuar esses mesmos esforços. Seguindo o exemplo a que nos convida o próprio Nosso Senhor em sua tão tocante exortação à oração: «Pedi e recebereis»,  insistindo, e mesmo muito (cf. Mt. 7, 7-11). A grandeza do que pedimos, sem que  duvidemos de ser atendidos, exige uma insistência e uma perseverança proporcionadas.
 
     Lembremo-nos também que o essencial da mensagem de Fátima não se acha só na consagração da Rússia, mais bem exatamente devoção ao Imaculado Coração de Maria. Que essas orações e sacrifícios nos façam todos crescer e aprofundar essa devoção especial ao Coração da Mãe de Deus. É desse modo que Deus quer se fazer tocar.
 
     Que nesse início do mês de Maio, o mês de Maria, nós nos reencontremos todos ainda muito mais sob sua maternal proteção, é o nosso desejo mais caro. Agradecendo-vos por vossa generosidade bem grande, pedimos a Nossa Senhora que ela se digne vos abençoar com o Menino Jesus.
 
+Bernard Fellay - 1 de Maio de 2010, 
 na festa de São José artesão

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