Montfort Associação Cultural

11 de fevereiro de 2010

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Carta aberta de apoio ao Papa Bento XVI

  • Consulente: Pe. Frei Flávius, Pmpn
  • Localizaçao: Juiz de Fora – MG – Brasil
  • Profissão: Monge E Padre Melquita
  • Religião: Católica

Caros senhores editores,

boa tarde!

Seguramente, o apostolado que os meios de comunicação desevenvolvem na Igreja, confere aos profissionais e missionários que neles trabalham uma percepção mais aguçada, veloz e precisa da repercursão negativa que tem tido na imprensa mundial fatos que se relacionam ao pontificado de Sua Santidade o Papa Bento XVI.

Há um crescente sistemático disto, que nos lança um desafio, a nós todos, católicos e homens de boa vontade: perscrutar as razões íntimas deste processo; observar quais os fundamentos subjacentes a estes movimentos reativos; identificar quais as causa primárias que alimentam os processos mentais que desencadeiam tamanha aversão ao Pontífice católico, sucessor de Pedro, Vigário de Cristo.

Mais que identificar, informar. Mais que dar a conhecer, oferecer ao publico em geral o honesto contraponto por questão de justiça à verdade e por dever de pertença à mesma dignidade divinamente instituída como Igreja de Cristo.

Em razão disto, caro editor, julguei importante neste momento escrever esta carta aberta ao Papa, para colaborar no processo de reação positiva que se faz necessário à consciência verdadeiramente católica.

Se, especialmente nesta hora, não se formarem parcerias sólidas entre aqueles que como eu – simples monge e sacerdote católico da Igreja Melquita no Brasil – que se dispõe a correr riscos por romper a barreira da omissão e aqueles que como vocês, baluartes das comunicações dos fatos relativos à Igreja, não formarem fileira para fazer frente a insurreição do século contra a Fé cristã, então, que futuro construiremos para as gerações que nos sucederão?

Vez por outra aparecem, aqui e acolá, cartas abertas dirigidas ao Papa, que são amplamente difundidas na internet, sempre críticas e nada reverentes. Tomara este mesmo veículo de massa – a internet – possa também propalar iniciativas como esta, solidárias ao Papa, para o bem da Igreja e de seus fiéis.

Esta carta aberta (abaixo) em tom de desagravo, que escrevo, assino e autorizo publicação na qualidade de padre da Igreja Católica, é uma forma de oferecer tijolos de catolicismo para os filhos e netos desta geração.

Atenciosamente e colocando-me ao inteiro dispor de V. Srias. para quaisquer solicitações que estejam ao meu alcance, assumo por inteiro e conscientemente a conseqüência eventual das repercussões que poderão advir desta iniciativa quando de sua publicação.

Pe. Frei Flávius, pmPN

OBRA DOS PEQUENOS MONGES DO PATER NOSTER

Fundador e Moderador Geral


CARTA ABERTA AO PAPA BENTO XVI

“Fiquei triste pelo fato de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste.”

Como não começar esta carta aberta ao Papa citando esta sua frase potentíssima, extraída da carta que dirigiu aos digníssimos Bispos da Igreja, no último dia 10 de março de 2009, acerca do levantamento das excomunhões dos Bispos da FSSPX? Aliás, tantas querelas há contra este papado que é justo e necessário pinçar ao menos uma delas para exprimir uma forma de desagravo contra o levante que se forma no horizonte da Igreja.

Que frase impactante, pois, esta do Papa dirigindo-se aos católicos. Coisa inédita, em que o Sumo Pontífice exprime uma confissão tão rara na história da Igreja e do papado. Uma pérola de seguimento ao Senhor da Vida e da História. Um exemplo de imitação do Senhor da Glória, o qual, para fazer brilhar a própria Glória Divina elegeu viver como Homem o abandono da Cruz, cujos passos o Pontífice Romano segue. Misteriosa Cruz, sem a qual, nem mesmo o Verbo de Deus após ter encarnado poderia ressuscitar, pois, para haver ressurreição requer-se um corpo atingido pela morte. A transformação gloriosa do corpo, sem o acidente providente da morte, é transfiguração, não ressurreição. E o Rei da Glória tem poder de fazer uma e outra coisa, como o demonstrou. Contudo, para libertar-nos do aguilhão do pecado, escolheu glorificar, n’Ele, o homem, fadado à morte por ocasião do pecado. Fez isto Se permitindo morrer na carne uma morte de Cruz.

Permita-me, Santo Padre, em vista de vossa carta dirigida aos digníssimos Bispos da Igreja, e tão difundida na internet, “a propósito da remissão da excomunhão aos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre” – tema que tanta polêmica produziu nas últimas semanas nos quatro cantos da terra – dirigir-vos de modo público meu insignificante, mas, autentico manifesto de desagravo contra a dignidade Pontifícal. Para tanto, com a vossa licença, arriscarei alguns parágrafos de “provocação” teológica, dirigindo-os reverenciosamente a vós que sois uma das maiores – se não a maior – autoridade viva neste campo.

São João Apóstolo e Evangelista ao descrever a “Vitória de Cristo sobre as feras”, no Livro da Revelação, diz: “Vi ainda o céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que ele julga e guerreia.” (Ap 19, 11). Pois bem, Santo Padre, vós o sabeis muito melhor do que eu, este mesmo Jesus que subiu para Glória de Deus Pai a fim de retornar montado sobre as nuvens no tempo devido (cf. At 1, 9-11), preferiu, antes – e como primícias – montar num burrico para triunfar em Jerusalém cavalgando o despojamento e o abandono… Assim como vós o fazeis nesta hora, igualmente derradeira.

A primeira imagem, a do rei-guerreiro que cavalga a justiça e que guerreia com fidelidade é a imagem para o fim da História e não para a realização dela. É a realidade efetiva e definitiva da escatologia. A segunda imagem, a do rei-camponês que cavalga a humildade, é a imagem para o curso da História, para realização dela e para sua plenificação. Ao invés de entrar na gloriosa Jerusalém cavalgando um ginete, símbolo do rei combatente, vingador, vigoroso, glorioso e implacável, com postura majestosa sobre um imponente “trono galopante”, como era aguardado o libertador de Israel e como esperam todos aqueles que desejam a vitória sobre o mundo com a lógica do mundo, a grande lição: o Ungido de Deus vence o mundo cavalgando um burrico, símbolo do rei compassivo, complacente, dócil, humilde e perdoador, com postura modesta sobre um discreto “trono desconfortavelmente trotante”. Novamente aqui, esta segunda imagem, faz-me lembrar do Papa Ratzinger, que, contra toda expectativa do século, orienta-se para Jerusalém Celeste, despojando-se das convenções do século e abrindo-se para a incompreensão e intolerância do arrazoado humano.

Seguindo esta lógica do Evangelho, Santidade, a glória de vossa dignidade ministerial e de vossa grande erudição cultural, que a presunção do conhecimento humano tenta roubar de vós com intransigência e intolerância, é o vosso burrico, sobre o qual vós podeis carregar a maior dignidade dentre todos os Auter Christis: a graça de ser o mais configurado ao Cristo incompreendido. Vós sois, por conta destas duras servis das ovelhas desatinadas com o uivo lancinante do lobo assaltante o rosto atual mais perfeito do Filho Bem amado do Pai, no qual Ele pôs toda Sua afeição. Vós sois o mais amado. Vós sois o mais provado.

Respeitando esta que é a lógica do Mistério Divino, ousaria ainda a seguinte contemporização: o humanismo moderno antropocentrizou negativamente – com o perdão do neologismo de ocasião – o Mistério da Fé, protestando contra a Verdadeira Ressurreição, que supõe e exige a Cruz.

Se for possível fazer uma critica construtiva às novas teologias e novas exegeses – com a devida licença ecumênica estabelecida pelo vosso Sacrossanto Ministério Petrino – sem, no entanto, desobedecer ao Magistério do Concílio e do pós Concílio Vaticano II, os quais, são autênticos na medida exata daquilo que Vossa Santidade mesmo chamou de hermenêutica da continuidade (Discurso de 22 de dezembro de 2005), levantaremos algumas questões conseqüentes de certa obstinação humanista – um tanto relativista – no que tange à Revelação Divina.

Se lançarmos um olhar sobre a história do conhecimento partindo do renascimento; passando pela “parceria” ideológica entre a reforma protestante e o humanismo (pagão e “cristão”), e, desembocando na síntese iluminista entre o racionalismo e o empirismo, chegaremos ao conjunto de postulados que fomentam – muitas vezes de modo ingênuo e inconsciente – a evasão subrreptícia dessas novas teologias e exegeses. E tal evasão do Mistério da Redenção atenta, especialmente, contra os elementos insubstituíveis e irrevogáveis da Revelação Divina, que o primeiro Grande Doutor da Igreja, Santo Ireneu de Lion, chamara de “dogmas imutáveis da verdade”, em sua magnífica obra Contra as Heresias.

Em meio a tantos desvios presentes no bojo do cristianismo moderno, todos, contudo, devedores dos novos modelos antropológicos, gostaria, aqui, nesta breve, filial e reverente “provocação” reflexiva, Santidade, que pretende sair a campo em favor do Mistério da Fé sob a égide da ortodoxia de vosso pontificado católico, retomar a evidência de que a Ressurreição é a solução escolhida por Deus para a morte, passando pela morte. Não a Transfiguração, que realizaria a mesma misteriosa glorificação sem passar pela morte, como preconiza veladamente a grande aversão que este cristianismo moderno, de raiz protestante, tem da Cruz. Cristo morreu na carne e ressuscitou na carne. Por isto cantava solenemente São João Crisóstomo no tempo da Liturgia Pascal, dentro do Sacrifício Incruento: “Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte venceu a morte e deu a vida aos que estão nos túmulos!”

Parece haver certo horror, diluído na consciência cristã de hoje, sob os auspícios do vaticínio de neociências – tais como: as ciências sociológicas, as ciências das religiões e, especialmente, as ciências psicológicas – àquilo que outrora era a glória dos cristãos: a Cruz. E não apenas a Cruz como símbolo fundamental da fé, admitido somente vazio, sem o Crucificado, nas comunidades cristãs protestantes, como se fora um mero totem. O horror da Cruz vai muito além do símbolo da Fé e do imprescindível elemento litúrgico. O horror da Cruz reside no que ela realiza também como Sacrifício incruento, isto é, como Mistério ontológico e não apenas como representação simbólica de uma mera ceia celebrativa de um memorial isolado no passado, ou seja, um simples referencial antropológico, sem fundamento ontológico. Falta o entendimento e o amor à Cruz muito para além das imagens teológicas. Falta o entendimento e o amor pelo apelo existencial dela, como convite para que a repitamos na nossa páscoa pessoal e contemporânea, carregando-a generosamente, aceitando o mistério exigente de pendurar nela a concretude do nosso dia a dia, suportando resignadamente os reveses permanentes de nossa história e as contrariedades incessantes dos dramas pessoais e sociais. O horror da Cruz pelo que ela efetivamente significa na vida de um cristão autêntico seguidor do Cristo e pelo que ela exige dele, é a doença espiritual que torna cegos, surdos e de coração empedernidos os que se pretendem cristãos em nossos dias. Muitos chegam a realizar histerias coletivas em assembléias reunidas em nome de cristos divididos, para livrarem-se deste horror da Cruz, pensando, iludidamente, estar invocando o nome do Verdadeiro Cristo, pois, o Unigênito de Deus, ao contrário do que supõe os que se deixam enganar por estes falsos cristos – prometedores de prosperidade terrena – não livra ninguém da Cruz. O Verdadeiro Cristo, Unigênito de Deus, para ela convida, para ela atrai, a ela cativa. Nisto consiste a Glória do seguimento: a Glória da Cruz. Sem a Glória da Cruz, não há, nem pode haver, Glória da Ressurreição. Contudo, esta doença espiritual que aplaca o homem moderno, se curada por uma Sã Doutrina de ortodoxia cristã ou por uma honesta espiritualidade que torna o fiel amante deste mistério, é tratado pronta e rapidamente como caso de patologia psicológica e/ou de má fé num dos “falsos cristos” que jamais ressuscitou porque jamais compartilhou da morte na vida e na consciência deste pseudo cristianismo, novo e velho a um só tempo, tão recorrente que é na história da Igreja.

Não seria, Santo Padre, este horror mudo, implícito e covarde que subtrai do cristianismo sua natureza intrínseca, isto é, a necessária experiência da Cruz, para que o homem quedado pelo pecado seja configurado ontologicamente ao Homem elevado pela Glória de Cristo, que só experimentou verdadeiramente a ressurreição porque experimentou verdadeiramente a crucifixão?

Portanto, Santo Padre, também a vossa Cruz não é diferente da Cruz de São Paulo. A Cruz foi, é e será, sempre, escândalo para uns e loucura para outros, “mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus.” (1Co 1, 23-24).

Santo Padre, por que razão estaria eu, desqualificado discípulo de Cristo e de Seu Vigário na Terra, levantando esta questão cuja evidência objetiva é tão patente para Tradição Cristã?

Não será porque, recorrendo à bela imagem usada por vossa Santidade, as “raízes de que vive a árvore” (a Tradição) não está com o “machado” dos postulados antropológicos modernos posto ao sopé para decepar o “terebinto”, como diria o profeta Isaías (cf. Is 6, 12-13)? Não será porque os pressupostos gerais da modernidade – no que diz respeito exclusivamente aos fundamentos antropológicos e não quanto aos justos benefícios trazidos pelo progresso da technè – desejam reduzir a transcendência aos limites presunçosos da imanência? Não será porque o afã da glória na vida presente, seja aquele encontrado nos discursos mais à esquerda, que aspiraram à glória da plenitude do Reino através do progresso da ascensão da justiça social; ou, seja aquele encontrado nos discursos mais a direita, que relacionam os sinais do Reino com a prosperidade material – social e individual – e com a prosperidade psicológica, sentimental, emocional; enfim, circunscritos a uma prosperidade espiritualista que encerra o ser humano mitigadamente dentro dos parâmetros da história, subtraindo-lhe sua essência metafísica, num extremo, ou dissociando-a do necessário drama histórico, no outro extremo?

Ora, se a autoridade moral, espiritual, ministerial, canônica e apostólica do Sucessor de Pedro, bem como a autoridade cultural, intelectual e erudita de um teólogo do gabarito do Papa Ratzinger, parece não ser suficiente para cativar o respeito e a admiração da grande maioria dos cristãos na modernidade, resta-nos, ainda, perguntar com certa ironia teológica: teremos que esconder hermeneuticamente a contundência do Sermão da Montanha, a fim de diminuir o escândalo causado pela Cruz?

Santo Padre, eu continuo a perguntar: nós devemos aceitar inertes estes postulados e pressupostos advindos da forma mental dos últimos séculos, ainda que a sofisticação antropológica deles advindas, se apresente desprovida de razoável fundamentação ontológica? E se assim constatamos, em razão desta efetiva fragilidade ontológica, deveríamos aceitar como compatíveis com a Revelação Divina, a qual é indissociável dos dogmas imutáveis da verdade, as teses das novas teologias e das novas exegeses que lançam suas bases nestes pressupostos antropológicos de questionável fundamento ontológico?

Santidade, estas proposições não desejam, de nenhum modo, questionar a lucidez de vosso posicionamento teológico – coisa que não poderíamos fazer, mesmo que fossemos capazes. Bem ao contrário. Desejamos com isto fazer ressaltar que há católicos sim e homens de boa vontade também – especialmente entre os judeus que vos apóiam – capazes não apenas de compreender o levante processual e sistemático que vos cerca, porque cerca a Cristo e a Sua önica Igreja. Capazes também de identificar o mistério da iniqüidade que fomenta esta animosidade própria do espírito anticristão, que realiza na história o “ministério” da divisão. E como o anticristo, paródia avessa do Cristo, por isto “falso cristo”, possui “ministros” da divisão! Não é por menos que São João, na primeira Epístola, distingue os espíritos com precisão: “Filhinhos, esta é a última hora, Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que há muitos anticristos, por isto conhecemos que é a última hora. Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos.” (1Jo 2, 18-19). Mas, principalmente, são estes mesmos bons católicos e homens de boa vontade, que avessos ao espírito do Anticristo, cerram fileira sob a majestosa proteção de vosso Báculo de Pastor, agonizando, sem balir, o mesmo destino do Cordeiro Imolado.

Por tanto, Santo Padre, não obstante nosso propósito seja aquilatar o valor inestimável de vossa trajetória – do getsêmani ao gólgota passando pelo patíbulo – preciso sincera e honestamente suplicar que aceite benevolamente minha retórica em estilo paulino, um tanto maiêutica, nas questões que seguem:

– a forma mentis dessas teologias e exegeses modernas, as quais tanto aspiram enaltecer a Ressurreição, esquivando-se subliminarmente da rigorosa exigência da Cruz, não estariam postulando a Transfiguração – que glorifica o corpo sem a angústia da morte – como centralidade do Mistério numa perspectiva um tanto milenarista da Redenção??? Perdoe-me, Santíssimo Padre, a ignorância seguida de atrevimento teológico, por isto recorro a vós cujo Magistério deve continuar – na minha modesta e medíocre opinião sacerdotal – seguindo esta linha de autoridade para com as teologias e exegeses dos dias de hoje.

Eis algumas outras questões, que reagem a este deslocamento quase impercepitível da forma mental teológica iniciada há mais de cinco séculos com um outro teólogo alemão, que demonstrou horror à Cruz e à Tradição:

– pode o homem na Igreja modificar ou deslocar o estatuto Salvífico da Igreja para o homem, como parece sugerir, em via de regra, a teologia cristã de hoje – em sua forma geral – na esteira do livre pensamento do teólogo alemão de outrora???

Que o teólogo alemão de hoje – que para glória de Deus é Papa – ponha termo aos postulados anticruz daquele do passado, seguindo o Princípio Eterno do Evangelho: acolhendo os errantes e abominando os erros. Bem sei que o vosso magnífico exemplo de abandono, Santidade, seguindo pari passus as pegadas de Pedro – que seguiu as de Cristo – nos ensinam o contrário desta infeliz tese da figueira estéril do humanismo moderno, com feições pagãs e maquiagem cristã.

Por caridade, Papa Ratzinger, releve com benevolência minha picante retórica contra a hostilidade do século à Verdade Revelada. Já me é por demais pesada – assim como, em incomparável medida, o é para vós e os vossos pares na Verdadeira Fé – a ironia filosófica e teológica do livre pensamento, com a qual os homens de nossa época tratam a Revelação Divina.

Eis, portanto, Santidade, o Mistério da Fé que, agora, mais que nunca, vós abraçais com propriedade para cumprir a ordem do Senhor como bem o dizeis nesta carta dirigida aos Bispos da Santa Igreja no dia 10 de março de 2009: “A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cenáculo, de maneira inequivocável: «Tu (…) confirma os teus irmãos» (Lc 22, 32). Permita-me, então, prosseguir no meu atrevimento reverente e filial: vós sois chamado, Santo Padre, nesta hora de grande suplício para a Verdadeira Igreja de Cristo, para nos indicar com a própria vida o reto seguimento, que só resultará em glória futura, “depois dessa derradeira Páscoa” (CIC 677).

Santo Padre, quem sou eu, indigno pecador e menor entre os padres sob a vossa jurisdição pontifical, para dirigir-vos esta singela reflexão? Todavia, devo ousar faze-lo, para que não pensais que todos os católicos são sucessores de Judas, o traidor. Tanto quanto, nem todos se escondem num silêncio sofrido e velado, sucedendo misticamente aos demais apóstolos, que fugiram e se esconderam face ao terrificante Mistério da morte – e morte de Cruz – do Ungido de Deus. É preciso que saibais Doce Cristo na Terra, que há entre os católicos inúmeros sucessores do mistério joanino, que permanecem firmes, inertes e intrépidos aos pés da hodierna Cruz, na qual se apresenta ao mundo o verdadeiro e inequívoco seguimento do Cordeiro de Deus.

Como calou fundo na minha pobre alma sacerdotal a vossa constatação na referida carta dirigida aos digníssimos Bispos da Santa Igreja:
“Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência.(grifo nosso)
Como eu gostaria que aqueles mesmos meios que tão prontamente propalaram este específico pico da campanha de intolerância, orquestrada muitas vezes com maestria jocosa, inclusive por católicos, contra a dignidade do Sucessor de Pedro, dessem ao menos o dízimo secular de evidência midiática ao singelo desagravo destas linhas. Contudo, esperar que isto aconteça pode requerer um milagre tão grande quanto o milagre da compreensão de que a Revelação Divina foi seqüestrada – sem pedido de resgate – por tudo o que se chama conhecimento moderno. Sendo assim, esperamos, pelo menos, que os veículos ligados à Igreja façam ecoar este desagravo sobre os telhados, “sem morder e devorar” a legítima diferença – na unidade – da catolicidade presente nesta forma tradicional e ortodoxa de viver a Fé.

Aproveito, outrossim, Santo Padre Papa Bento XVI, para através desta carta aberta, vos devolver com imensurável gratidão as palavras de encorajamento que o vosso predecessor Apostólico, o Saudoso Papa João Paulo II dirigiu, outrora, a todos nós, católicos: “Non abbiate paura”… Sim Santo Padre, Papa Bento XVI, não tenhais medo, verdadeiros católicos e não só, mas também honestos homens de Boa Vontade, entre os quais, Judeus que vos apóiam, estão convosco.

Respeitosamente, despeço-me, Santo Padre, não como porta voz oficial de todos que gostariam fazer destas minhas palavras as suas, mas, sobretudo, com a certeza moral de que faço do meu sentimento o sentimento de muitos que “ousa[m] aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso” e, juntamente com ele, cada qual de nós que está disposto a “perde[r] também o direito à tolerância e pode[r] de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência”, por amor ao Evangelho em suas premissas francas e diretas, sem a ruptura das hermenêuticas da descontinuidade, as quais – ingenuamente em alguns casos e perversamente mal intencionada em outros – propalam na história o mistério da iniqüidade.

Portanto, saibais Santo Padre, quão precioso é para a Igreja esta vossa carta dirigida aos digníssimos Bispos, a qual chega ao nosso conhecimento pela internet. Quiçá possa também a internet tornar conhecido o que ela significa para todos nós, especialmente os que se unem a vossa dor pela impactante frase extraída desta carta, da qual nos servimos para começar esta nossa e que vale repetir para frizar a relevância e singularidade deste momento histórico: “Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste.”

Unidos num só pensamento e num só coração, queremos fazer saber o que significa para nós, católicos, esta afortunada admoestação apostólica, no momento lacônico desta grande agonia no horto do vosso ministério pontifical. A exemplo do Cristo, ela nos diz: “Por que dormis? Levantai-vos, orai, para não cairdes em tentação.” (Lc 22, 46). De fato, a começar por Jesus Cristo, o Unigênito de Deus, e em verdadeira comunhão com Ele, há muitos “getsemanis” na história, Santo Padre. Este é o vosso. Este é o nosso.

Pe. Frei Flávius do öltimo Lugar, pmPN
OBRA DOS PEQUENOS MONGES DO PATER NOSTER

Juiz de Fora, 14 de março de 2009.

 

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