Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Carismas

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Luciano
  • Localizaçao: – Brasil

Prezado Sr. Orlando Fedeli,

É com imenso prazer que escrevo este e-mai para você e aproveito a oportunidade para parabenizá-lo pela excelente obra de evangelização e artigos muito interessantes que o Sr. responde no site. Entretanto, não me agradou o fato de perceber que o Sr. condena a Renovação Carismática Católica. Um movimento que surgiu dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, mesmo que o Sr. diga que o mesmo surgiu em seitas protestantes.

Pelo que pude perceber o Sr. baseia-se muito em um único carisma do Espírito Santo (o dom das linguas) para “atacar” a RCC, quando esse é apenas um dos vários carismas que “o único e mesmo Espírito realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz.”( I Cor XXII,11). Nesta passagem vemos o Apóstolo Paulo dizer que é vontade de Deus distribuir esses dons (“conforme lhe apraz”). Sobre este carisma especifico ainda, eu o aconselho a ler a carta de São Paulo aos Romanos, capítulo IIX versículos 26 e 27. Na questão da Re-novação o Sr. está coberto de razão. Realmente a RCC está reiniciando algo que foi interrompido e não explorado pela Santa Igreja durante muito tempo. A vivência dos carismas, que era incentivada por Paulo (I Cor XIV, 24), começou a ser reiniciada não por vontade do homem mas por vontade de Deus, pois, mais uma vez, I Cor XXII,11 confirma que tudo isso vem de Deus segundo Sua vontade. O Sr. deveria procurar se informar mais sobre como as pessoas que estão inseridas na RCC estão buscando ardentemente os sacramentos da Santa Igreja, como os jovens têm abandonado as drogas por causa de Cristo e quantas pessoas têm retornado à Santa Igreja por causa desse movimento, e a grande quantidade de pessoas que se consagram. Negar a autenticidade da RCC é negar a vontade de Deus em distribuir Seus carismas conforme Sua vontade. Será que não seria muita prepotência nossa querer dizer a Deus para não distribuir estes dons?

Com relação à questão de Fé x Razão na RCC tenho que discordar do Sr., mas à esta altura o Sr. já deve ter lido o livro do Prof. Felipe Aquino o que deve ter te ajudado bastante.
Esto rezando por você….. Finalmente um último conselho: leia com o coração mais aberto a passagem de At IX, 1-25.
PAX

Prezado Sr. Luciano,
Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de mais nada, agradeço seus elogios caridosos ao nosso trabalho em defesa da Fé Católica Apostólica Romana. Nesta site, visamos apenas a glória de Deus e a salvação das almas, hoje tão abandonadas. Fala-se muito, hoje, de fome de pão, e quase não se procura matar a fome da verdade, da qual tantos sofrem. Peço-lhe suas orações para que Deus nos torne fecundo o apostolado.

Entretanto, sabemos que não poderemos agradar a todos. O próprio Cristo Senhor não agradou a todos os homens. E nem poderia ser assim, porque, se alguns compreendem que o remédio amargo pode trazer a saúde, muitos há que, repugnando o amargor da correção, se esquecem que ela visa a salvação da alma. Não nos espanta então, que mesmo o senhor, que demonstra tanta admiração e estima por nós — o que prova que compreendeu nosso objetivo – deixa escapar um certo protesto pelo amargo que encontrou em nosso comentário contra a chamada Renovação Carismática Católica.

Que esse movimento nasceu em seitas heréticas, não sou eu que o digo, mas os próprios defensores do carismatismo não o negam: ele provém mesmo dos Despertados da Baviera, dos pentecostais protestantes, do Revival herético dos Estados Unidos.
E não de estranhar que seu lançador na Igreja Católica tenha sido o Cardeal Suenens, famoso por suas teses modernistas e ecumênicas.
Com efeito, o ecumenismo modernista procura unir as religiões passando por cima das divergências de Fé, buscando, em fenômenos pseudo místicos, a união com as mais variadas seitas. A tese ecumênica é que os dons do Espírito Santo podem ser concedidos a quaisquer pessoas independente de seu Credo, pois, abusando da Escritura dizem que o “Espírito sopra onde quer” (Jo III,8). O resultado é uma contaminação de espírito heretizante na RCC.
Sim, espírito heretizante, porque é próprio de toda heresia afirmar que a Igreja Católica abandonou o verdadeiro espírito cristão, corrompendo-se e perdendo o autêntico espírito cristão. Nesse posicionamento está afirmado – às vezes de modo explícito, outras vezes de modo velado – que a Igreja apostatou. E então se nega a afirmação de Nosso Senhor que prometeu: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (XXVIII,20). Ou ainda a promessa que Cristo fez a Pedro de que “as portas do inferno não prevaleceriam contra ti [Pedro] (Mt XVI,18).

Ora, infelizmente esta tendência a acusar a Igreja de ter errado – como se o Espírito Santo não a assistisse continuamente — encontro-a até numa pessoa como o senhor que me parece tão sincero em suas posições. Pois até em sua carta encontrei estas palavras: “Realmente a RCC está reiniciando algo que foi interrompido e não explorado pela Santa Igreja durante muito tempo”. Se sua afirmação fosse verdadeira, a Igreja Católica teria desprezado os dons de Deus durante séculos. Se tivesse sido assim, como seria ela Santa? De fato, os carismas que Deus concedeu aos cristãos dos primeiros tempos não foram abandonados pelos homens da Igreja contra a vontade de Deus, porque o Espírito sopra onde quer, e não seriam os homens capazes de impedira ação do Espírito Santo. Por outro lado, o Espírito Santo jamais abandona a Santa Igreja. Portanto, ao mesmo tempo em que o Senhor acusa a Igreja — talvez sem perceber — de que ela teria agido de modo não santo, o senhor acaba atribuindo uma certa impotência ao próprio Espírito Santo, a quem os carismáticos se gabam de ter devoção particular. Os Doutores da Igreja ensinam que Deus concedeu carismas extraordinários aos primeiros cristãos para facilitar a expansão do Cristianismo, e que, alcançada esta expansão, certos carismas extraordinários (como a glossolália) deixaram de ser dados em tão larga e grande escala, porque já não eram necessários ao apostolado.
Assim fez o próprio Espírito Santo, e isto não foi o resultado de um abandono da Igreja. Entretanto, os carismas mais importantes nunca cessaram de ser derramados por Deus aos santos da Igreja. Se salientei mais o dom das línguas, foi porque este é o dom de que mais se ufanam os atuais carismáticos católicos, em sua emulação com os pentecostais protestantes.

O senhor tem razão ao dizer que Deus concede vários outros carismas. São Paulo, em suas epístolas cita vários outros e até prova que o dom das línguas é inferior ao dom da profecia, e que é conveniente que quem tenha o dom de línguas deve pedir também o dom da interpretação para que a Igreja seja edificada (I Cor.XIII,5).
Mais ainda. São Paulo demonstra que de nada vale qualquer carisma se não houver caridade: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine (…) Não seria nada” (I Cor.XIII, 1-2).
Por fim – e mais fundamental — é preciso lembrar que podem haver fenômenos de pseudo misticismo, de falsos carismas, por fraude diabólica, explorando o orgulho, as paixôese até problemas patológicos, como por exemplo a histeria.
O próprio São Paulo, ao tratar dos carismas na I Epístola aos Coríntios (cap. XII), lembra, logo no início desse capítulo, qual o critério para distinguir os carismas verdadeiros dos falsos: a Fé ortodoxa. Diz São Paulo: “Portanto faço-vos saber que ninguém que fala pelo Espírito de Deus, diz anátema a Jesus. E ninguém pode dizer Senhor Jesus, senão pelo
Espírito Santo” (I Cor. XII,3).
Isto é, quem é herege — quem nega a divindade de Cristo — não pode falar pelo Espírito Santo. E só se pode confessar a Cristo Senhor por ação do Espírito Santo.
Ora, há até livros da Renovação carismática que afirmam que ela permite receber o “Batismo do espírito Santo”, como se fosse um oitavo sacramento, e como se no Batismo instituído por Cristo e administrado pela Igreja, a pessoa não recebesse também os dons e carismas do Espírito Santo.

Tenho aqui, em mãos, um opúsculo intitulado “O Batismo no Espírito Santo” de Salvador Carrillo Alday, MSp.S. (Comunidade Emanuel, ed. Louva a Deus, Rio de Janeiro, 1991). Nesse opúsculo, se pode ler:
“Pois bem, o que se pretende na Renovação Carismática, é rogar a Jesus que novamente realize em nós o mesmo que fez em seus Apóstolos e com os mesmos fins, isto é, que derrame em nós o Dom do Espírito Santo, Força de Deus, para sermos suas testemunhas em todas as partes, até os confins da Terra”.
Tratando-se de “renovação” cristã supõe-se que a pessoa tenha recebido o sacramento do batismo, em virtude do qual o crente “recebe o perdão de seus pecados, a adoção dos filhos de Deus, o caráter de Cristo, mediante o qual se incorpora à Igreja e se faz, pela primeira vez, partícipe do sacerdócio do Salvador” (P. 16).
Esse texto é muito pouco preciso, e – note-se – não afirma que no Batismo a pessoa recebe os dons do Espírito Santo.

Ora, na página seguinte, o mesmo livrinho diz:
“Então, em que consiste o “batismo no Espírito Santo” dentro da Renovação Carismática?
1. “O batismo no Espírito Santo consiste na oração que uma comunidade cristã eleva a Jesus glorificado para que derrame seu Espírito de maneira nova e em maior abundância sobre a pessoa que ardentemente o pede e por quem se ora.
Esta oração se faz, de ordinário, mediante a imposição das mãos” (p. 17). O texto faz crer que o Batismo não dá aquilo que se pretende receber pelo “batismo no Espírito santo”. Deste modo, o Batismo de Cristo, administrado pela Igreja, fica reduzido ao nível do Batismo de água de João Batista. Só o Batismo no Espírito Santo seria capaz de obter os dons e carismas do Espírito Santo que a RCC pretende possuir. Deste modo, haveria um oitavo sacramento, o que vai contra o que ensina — com anátema — o Concílio de Trento: “Se alguém disser que os sacramentos da Nova Lei não foram instituídos por Jesus Cristo Nosso Senhor, o que são mais ou menos que sete a saber, batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema unção, ordem e matrimônio, ou também que algum destes não é verdadeira e propriamente sacramento, seja anátema” (Concílio de Trento Cânones sobre os sacramentos em geral, canon 1 — Denziger 844).

Se o texto do opúsculo citado não diz expressamente que há oito sacramentos, ele, omitindo que o Batismo de Cristo dá todos os dons do Espírito Santo, e que estes dons se recebem no “batismo no Espírito Santo”, se insinua que há um oitavo sacramento. A distinção feita pela RCC — pelo menos como está nessse opúsculo, e como muitos padres afirmam — entre Batismo e “Batismo no Espírito Santo”, salvo melhor juízo, não me parece ortodoxa.
E o mesmo opúsculo confirma nossa interpretação porque diz, logo a seguir:
“Não sendo “o batismo no Espírito Santo” nem o sacramento do batismo, nem o da Confirmação, pode-se dizer que o BATISMO NO ESPÍRITO SANTO É UMA EFUSÃO A MAIS, uma NOVA EFUSÃO DO ESPÍRITO SANTO que põe em atividade o rico potencial de graça que Deus deu a cada um segundo sua própria vocação e segundo o carisma pessoal do estado próprio de vida (cf. I Cor. 7,7)”. (p. 18 do opúsculo citado).

Isto não nos parece de acordo com a Fé Católica. E, conforme diz São Paulo, não havendo verdadeira Fé, não pode haver verdadeiro carisma do Espírito Santo. Nos livros de S Falvo se acham erros do mesmo gênero.
Não conheço o livro que o senhor cita de Felipe de Aquino. Para atendê-lo, vou comprá-lo e estudá-lo. Comenta-lo-ei posteriormente. Veremos sua ortodoxia…

E por que tantos erros de doutrina nos defensores da RCC ?
Porque eles — salvo as devidas e santas exceções — dão pouca importância à Fé e à ortodoxia. Contrariando o que diz São Paulo (ICor XII), a atual RCC coloca o que ela chama de “carisma” acima da verdade católica. Prova é que não a assusta o fato de conhecer que ela nasceu de movimentos protestantes…
O que se vê na RCC é uma total predominância da emoção sobre o zelo pela verdade. E é o que faz transformar as cerimônias da RCC em verdadeiros shows. Foi o que se viu ainda no último dia 12 de outubro em Aparecida com o show-Missa de Roberto Carlos, e no Maracanã, com o show dos padres cantores.
A RCC está transformando Missa em Carnaval, com requebros e danças sensuais, com manifestações de emoção histérica que levam à Santa Missa ao ridículo e, mesmo, à profanação. Pois não é profanar usar canções profanas — e de tão baixo nível — em cerimônias sagradas ?
E nenhum entusiasmo dura muito… E todo movimento de entusiasmo desregrado sempre acabou mal…

Como prova do valor da RCC o senhor me afirma que muitas pessoa, uma grande quantidade de pessoas, graças à RCC “estão voltando à Igreja”, como estão “buscando ardentemente os sacramentos”, como “os jovens tem abandonado as drogas por causa de Cristo “, etc.
Seu argumento se funda no que diz Cristo: a boa árvore só pode produzir bons frutos”.
O argumento me parece — entenda-me , muito mal aplicado. Porque, se deixar as drogas, o álcool, fosse prova de ortodoxia, como se explica que muitas seitas heréticas obtenham esses mesmos frutos que acabo de citar ?
Quais são então os bons frutos que a boa árvore, a árvore da Igreja de Cristo, só ela pode dar?
Os frutos da verdade são a unidade e a caridade, e não apenas frutos materialmente bons, como deixar drogas e alguns vícios contrários à caridade. Por isso disse São Paulo que sem a Fé é impossível verdadeiro carisma, e sem a caridade de nada vale falar em línguas (I Cor.).
E não se impressione com o número. O número é apenas um preconceito democrático e capitalista. O maior número votou por Barrabás e não por Cristo.
Aliás, a preocupação de concorrer em número com as seitas protestantes que estão crescendo em nosso mundo apóstata, é uma característica fundamental do carismatismo dito católico… Encher estádios, eis o triunfo! Fazer Missas-Show para atrair multidões, que, muitas vezes, vão assistir o tal padre Rossi, ou que compram os seus discos de baixo quilate, e depois vão, com a mesma facilidade a terreiros de macumba, a seitas pentecostais, ou a sessões espíritas…
Rezo a Deus para que o senhor não caia nunca neste caso. E, se como caridosamente me desejou que lesse de coração aberto a passagem dos Atos que narram a conversão de São Paulo, da mesma forma, peço que o senhor atenda o que ensinaram São Paulo, São Tomás (Comentário à Epístola aos Romanos) e outros Doutores da Igreja — que tinham o carisma de ensinar que é superior ao de línguas — sobre os carismas do Espírito Santo.
(Recomendo-lhe ainda que leia o excelente livro “A teologia de São Paulo de F. Pratt)

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli
Logo mais, voltarei a escrever-lhe, analisando o livro que me recomendou.
O.F.

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