Montfort Associação Cultural

22 de fevereiro de 2006

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Budismo, Gnose e Catolicismo.

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Bruno Araújo de Carvalho
  • Idade: 23
  • Localizaçao: Seattle – EUA
  • Religião: Católica

Salve Maria!
Desde que passei a acessar este sítio, não pude deixar de verificar que a maioria das doutrinas do Catolicismo e do Budismo são antagônicas, pois se Buda ensinou que nada é eterno – há apenas mudanças perpétuas – o Catolicismo ensina que há um Deus eterno com doutrinas imutáveis. Quando Buda ensinou que nada é permanente e tudo é vazio (incluíndo as suas próprias doutrinas ou darmas, de forma que nem mesmo a elas deveria-se haver apego), e que o mundo que conhecemos é produto da mente, como um sonho, o Catolicismo diz que as criaturas têm valor, conforme o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, e o livro do Gênesis atesta que Deus, ao examinar o conjunto das coisas criadas disse que “era muito bom”. (Gen I, 31).

Em algum lugar li neste sítio a afirmação de que o budismo é de origem gnóstica… Concordo em parte, pois o Budismo Theravada (praticado no Sri Lanka e Sudeste da Ásia) acredita que Sidarta Gautama foi um homem que encontrou a iluminação, tornando-se então Buda, ao passo que o Budismo Mahayana (praticado no Tibet, na China e Japão) diz que Buda é um princípio cósmico.

Os budistas acreditam que os ensinamentos podem ser expressos em Quatro Nobres Verdades.
1 – Existir é sofrer.
2 – O sofrimento é causado pela ligação a coisas impermanentes.
3 – O sofrimento cessa com o fim dessa ligação.
4 – Há um “caminho” para eliminar o sofrimento. (Este “caminho” varia nos diferentes tipos de Budismo. O Budismo Theravada ensina a disciplina e a meditação; o Mahayana enfatiza o desapego radical e o “despertar” deste mundo aparente – Neste ponto realmente lembra a Gnose, quando fala da centelha divina que necessita se libertar da prisão da matéria, da inteligência e dos Mandamentos – , o Zen-budismo, com meditação silenciosa e métodos como gritos, tapas, golpes de bastão e uso das artes marciais para “acordar” os adeptos… Ou ainda o budismo esotérico – também chamado tântrico ou “diamante” – que propõe uma técnica espiritual correta para obter a revelação dentro do discípulo – também lembra a Gnose, que afirma sermos partes de Deus presas na matéria- e o Nishiren, que atribui magicamente um poder especial na repetição de mantras, e é predominantemente japonês.

Contudo, das Quatro Nobres Verdades que enumerei, acaso alguma delas concilia-se ao Catolicismo? Qual a postura do cristão, diante do sofrimento? Há no Catolicismo alguma semelhança com a postura budista (afinal, também temos mosteiros, com disciplinas, contemplação e desapego material segundo o voto de pobreza)?
Sou obrigado a pedir ajuda, pois o Budismo com suas doutrinas me mostra que sou ainda ignorante da minha própria fé.

Desde já, obrigado.

Muito prezado Bruno,
sale Maria!
 
    Primeiro conselho que lhe dou é que deixe de ler fábulas budistas e que estude mais a Doutrina Católica, lendo São Tomás, por exemplo.
    A Gnose é anti metafísica, pois nega o ser. E o budismo é gnóstico também por negar o ser.
    Claro que os vários ramos do budismo podem explicitar mais ou menos as características da Gnose, mas todos os ramos são gnósticos.
    Não chame então as quatro mentiras budistas de quatro nobres verdades.
    Existir não é sofrer. Nem tudo o que existe sofre. Pedras não sofrem.
    E, nos seres capazes de sofrimento físico ou espiritual (os homens) é errado identificar o existir com o sofrer. Em nossa existência temos sofrimentos. Mas, também temos felicidade, alegrias e prazeres. Existir não é sofrer. No existir pode-se ter sofrimentos. Nessa condenação da existência é que está a raiz da Gnose budista.
    A causa do sofrimento seria o desejo, a “ligação com coisas impermanentes”.
   Também isso é falso. Só podemos conhecer racional e naturalmente o permanente, o eterno através do que é temporário, provisório. Portanto é através do exame do universo passageiro que compreendemos a existência do eterno e do Absoluto que é Deus, Nosso Senhor, criador de todas as coisas. O erro está não em admirar e desejar retamente o que é passageiro, e sim em considerar o passageiro ou como não-ser (que é a posição Gnóstica e budista), ou como o ser absoluto (que é a posição panteísta). Gnose e panteísmo são então naturalistas, pois colocam na natureza humana a auto salvação.
    O sofrimento não cessa com a negação do mundo, que é algo impossível. O budismo condena o desejo. Ora,  é impossível ao homem deixar de desejar. Se o homem quer deixar de desejar estará desejando não desejar.
    O anjo elogiou o profeta Daniel chamando-o Daniel, homem de grandes desejos. Devemos sim desejar, isto é, amar. Mas, amar retamente, compreendendo que o bem nas coisas criadas é mero reflexo do Bem Absoluto, que é Deus, Nosso Senhor. É a Deus que devemos amar, através do amor de todo bem existente em toda criatura. O único caminho pra alcançar a felicidade eterna é Cristo, que afirmou: “Ego sum Via, Veritas, Vita“.(Eu sou o caminho, a verdade e a vida)
    Os falsos caminhos budistas são vias de perdição, pois negando o valor da exsitência e do mundo, pregam um repúdio ou indiferença ao bem criado. E como poderá amar o Bem infinito aquele que repudiou ou foi indiferente ao bem finito. Se num coração não coube o bem pequeno, como caberá nele o bem infinito?
    A existência de mosteiros budistas é apenas materiamente igual aos mosteiros católicos.
    A penitência budista é por repúdio ao bem finito ou por indiferença a ele. O budista não considera as coisas a que renuncia como boas, porém más, ou inexistentes
    A renúncia aos bens materiais nos mosteiros católicos é por desejar um bem maior. O monge católico considera o dinheiro, a liberdade e o casamento como coisas boas, mas as sacrifica, renunciando a elas por desejar um bem infinito: Deus.
    Repito-lhe: deixe de ler fábulas delirantes do budismo que lhe fazem mal. Veja as coisas com olhar claro da verdade e com o afeto puro do desapego cristão.
    “Con occhio chiaro e con afetto puro”.
    Leia os Evangelhos. Leia São Tomás. 
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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