Montfort Associação Cultural

22 de setembro de 2005

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Bíblia à luz da Tradição?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: João Pedro
  • Idade: 32
  • Localizaçao: Niterói – RJ – Brasil
  • Religião: Católica

Caríssimo professor Fedeli, sua argumentação sempre foi segura e muito lógica. Porém, o sr. deixou muito a desejar ao dizer, no Texto em que comenta a carta: “Concílio Vaticano II à luz da tradição”, que o Concílio Vaticano II não é infalível porque precisa ser interpretado à luz da Tradição e ao dizer que é inútil porque precisa da tradição para ilustrar verdades. Isso me causou uma confusão!!! Pela primeira vez, leio um artigo, uma resposta de V.Sa. e fico confuso e decepcionado. E a Bíblia? Ela não é obscura? Ela não precisa de ser interpretada segundo a tradição? Se aplicarmos seus argumentos à Bíblia ela fica sendo inútil. O senhor, por um acaso, tem duas lógicas? Uma para as verdades universais e outras para seus interesses? Seus princípios são elásticos? Servem para certas argumentações apenas ou são princípios lógicos? A Bíblia, porque precisa de ser interpretada pela Tradição é inútil, falível? Não me deixe sem resposta! Publique essa minha carta também. Preciso que o Sr. me tire esta dúvida, assim como a dúvida de mais pessoas, ás quais poderão desacreditar da Bíblia por causa de sua argumentação em relação ao Vat. II. Se estiver errado e o sr. me responder satisfatoriamente eu tenho humildade para pedir desculpas!

Um abraço,

João Pedro.

    “A glória de Deus é encobrir a palavra, e a glória dos reis é investigar o discurso (Prov. XXV,2).
   

Muito prezado João Pedro,
salve Maria!
 

    Antes de tudo, deixe-me agradecer a sua sinceridade e a confiança manifestada em minha pessoa.
    Fico contente também com sau missiva, porque é melhor receber uma contra argumentação vinda de um amigo, do que um sofisma manejado por um inimigo de má vontade. Sua carta é, pois, providencial.
    A dificuldade que você coloca é fácil de ser solucionada.
    Tanto a Sagrada Escritura como a Tradição são infalíveis, pois ambas provém de Deus, que não pode errar, e não nos quer enganar.
    Entretanto, a Sagrada Escritura, por vezes, é bem obscura, pois “A glória de Deus é encobrir a palavra,e a glória dos reis é investigar o discurso(Prov. XXV,2).
    Deus encobre a sua palavra, para impedir a sua profanação, e para nos levar à humildade, pois, nessa situação, somos obrigados a recorrer a quem tem Sabedoria — os grandes Doutores e Padres da Igreja –, e, sobretudo, a quem tem as chaves do Reino dos Céus, ao Papa, que foi posto como Rei da Igreja, Vigário de Cristo, e que recebeu o poder das chaves para ligar e desligar, para nos dizer clara e nitidamente o que é certo e o que é errado.
    Cabe ao Papa decidir como iluminar a Igreja com seu ensinamento infalível, mostrando como Tradição e Sagrada Escritura são harmônicas.
    O ensinamento do Papa e da Igreja, porém, não podem ser obscuros, porque, se o fossem, seria preciso interpretar o que o Papa e a Igreja ensinaram. O que não teria fim. Portanto, o Papa — Rei da Igreja — com o poder de ligar e de desligar tem que ensinar clara e nitidamente.
    Se um Papa — ou a Igreja num Concílio — ensinam algo obscuramente, não ensinaram infalivelmente.
    E foi o que aconteceu com o Concílio Vaticano II.
    A solução então seria o Papa decidir infalivelmente — clara e nitidamente — o que é certo e condenar o errado no Vaticano II, dizer o que se deve crer e o que se deve repelir. Enquanto permanece-se no campo das interpretações, fica-se na confusão.
    Por isso que, a Bíblia, sem a interpretação infalível, sempre clara e nítida do papa, seria inútil.
    A confusão doutrinária das seitas protestantes prova exatamente isso: a Bíblia sem o Papa é inútil, e só causa confusão.
    O Vaticano II por sua ambiguidade e obscuridade permitiram várias interpretações. Daí, a confusão atual na Igreja que só o papa pode solucionar.
    Espero que o tenha esclarecido em sua objeção.
    Se lhe for preciso mais, escreva-me que terei prazer em elucidá-lo.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

Replica

Prof. Orlando, Salve Maria!

Muito obrigado por ter respondido minha carta com tamanha presteza e clareza!

Quero lhe pedir desculpas pela aspereza de minhas perguntas, pois eu realmente tinha ficado confuso. Porém, a confusão se dissipou. Eu entendi bem o que o Sr. disse. O Concílio, por ser produto do Magistério deveria ser claro, pois a função do Magistério é elucidar a revelação retirando as ambigüidades, porém o Concílio Vat. II obscureceu aquilo que estava já claro. Logo, prestou um desserviço aos cristãos, trazendo confusão e vacilação na fé. Também penso assim. É enorme a confusão.

Passo a lhe contar o que está havendo em minha paróquia.

O pároco recebeu da coordenação de pastoral da Diocese (Eu não vou falar o nome da Diocese, pois prefiro colocar meu lugar de nascimento do que colocar o lugar onde moro – razões éticas) uma orientação de montar a pastoral dos idosos. Sendo que essa pastoral deve ser ecumênica. Abarcar todos os idosos de todas as religiões. Isso quer dizer, meu caro professor, que os nomes da Santíssima Virgem Maria e dos Santos não poderiam entrar no rol das discusões e do Anúncio. O pároco, porém, pediu para ignorar a orientação da diocese, pois pastoral da Igreja Católica é para levar os católicos às verdades da fé e não para tomar chá com biscoito. Ele disse que queria que se rezasse o terço com os idosos e se fizesse uma reflexão doutrinária também, pois como os pais estão sem juízo e não dão educação religiosa aos filhos, ele quer que os avós ensinem a vontade de Deus aos netos. Ele ainda disse mais, ele estava muito nervoso: “pastoral ecumênica só na LBV“. Quem não gostar de ouvir a doutrina da Igreja que se converta ou vá embora, e se vc não concordar pode ir embora tb pra seita universal do reino do dinheiro”. Na hora, eu fiquei com raiva do padre, pois a gente sempre toma chá com biscoito depois das reflexões, e ele duvidou da minha fé. Pensei em entregar a pastoral. Pensei comigo: “ele que faça tudo sozinho”.

Porém, no mesmo dia eu fui entregar os panfletos da Festa de Nossa padroeira num comércio da cidade e um dos comerciantes disse: “Desculpa, não posso aceitar, somos evangélicos“. Compreendi que a gente não deve renunciar as verdades da nossa fé por respeito humano. O protestante que recusou o panfleto demosntrou uma convicção que não encontro em muitos dos que freqüentam as missas.

O meu pároco sempre diz que o Jesus que os protestantes anunciam não é o mesmo nosso, pois o Jesus Salvador tem mãe e tem amigos. O Jesus protestante é inventado, não é o bíblico. Eu sempre achei essa pregação um exagero. Porém graças ao site, estou mudando meus conceitos. Naquele momento agradeci a Deus pelo meu sacerdote, o qual me tratou super-mal, mas pensando única e exclusivamente na salvação das almas, incluindo a minha.

Obrigado, obrigado, obrigado!

João Pedro.

Muito prezado João Pedro,
salve Maria !
 
    Graças a Deus você compreendeu o que expliquei sobre o Vaticano II, que escureceu a luz da verdade católica com sua linguagem ambígua.
 
    Portanto, sou eu que lhe agardeço sua carta leal. E agradeçamos juntos a Deus Nosso Senhor por haver ainda padres como o seu vigário que ensina muito bem que o Jesus dos protestantes é inventado. E como ele tem razão em condenar a pastoral ecumênica que manda deixar Nossa Senhora de fora.
 
    Concordo também com ele na crítica ao apostolado do “chá com biscoito”. Cristo Jesus nos disse que se quiséssemos segui-lo deveríamos negar-nos a nós mesmos, e tomar a cruz. Tomar a cruz não é tomar chazinho com biscoito.
 
    A pastoral do Concílio Vaticano II é ecumênica, sem a cruz de Cristo e sem a Virgem Maria.
 
    Ela só pode trazer desgraça e apostasia. O sinal do cristão é o sinal da Cruz.
 
    Um abraço bem agradecido e meu pedido que se lembre de mim em suas orações.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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