Montfort Associação Cultural

18 de junho de 2014

Download PDF

Beco sem saída: A Cidade do Homem contra a Cidade de Deus – As Revoluções da Modernidade

Autor: Ivone Fedeli

  • Consulente: José Antônio
  • Enviada em: 21 Fev 2014

Olá, Montfort. Viva a Jesus, Maria e José! Me chamo José Antônio e tenho uma dúvida acerca do estado atual do mundo. Li com muita atenção “A Cidade do Homem contra a Cidade de Deus – As Revoluções da Modernidade” do saudoso professor Orlando Fedeli e pergunto: Se o demônio fez a humanidade cair em tão graves e números erros de todos os tipos, como sairemos desse labirinto de gnoses, panteísmos e heresias? Estou preocupado comigo mesmo, com a Igreja e com a humanidade envoltos em tantos erros… Parabéns por continuarem a obra de Deus e do professor Orlando – o site Montfort. Que os Santos Anjos de Guarda protejam a todos nós.

Data: 16 Jun 2014
 
Prezado Sr. José Antônio,
Salve Maria.

Não há dúvida que vivemos uma situação muito grave e que os inimigos de Deus atuam hoje com tal liberdade, com tal audácia e tão livremente em todos os campos – até dentro da Santa Igreja, onde estão, segundo São Pio X os seus mais perigosos inimigos[1] – que todos os católicos têm razão de lamentar tal estado de coisas e de sofrer profundamente com ele.
São Luís de Montfort, por exemplo, em sua Oração Abrasada, mostra todo seu sofrimento com a situação da Igreja e do mundo que via já em seu tempo, clamando a Deus:

“Tempus faciendi Domine, dissipaverunt legem tuam: é tempo de cumprir o que prometestes. Vossa divina lei é transgredida; vosso Evangelho, abandonado; torrentes de iniquidade inundam toda a Terra, e arrastam até os vossos servos; a Terra toda está desolada: desolatione desolata est omnis Terra; a impiedade está sobre o Trono, vosso santuário é profanado e a abominação entrou até no lugar santo.
Deixareis tudo assim ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre? Tolerareis sempre? Não cumpre que seja feita vossa vontade assim na Terra como no Céu, e que venha a nós o vosso reino? [...] Todas as criaturas, até as mais insensíveis, gemem sob o peso dos pecados inumeráveis de Babilônia e pedem a vossa vinda para restabelecer todas as coisas: omnis creatura ingemiscit.

Veja que as semelhanças com a atualidade não são mera coincidência. E note que ele escrevia no século XVIII. Mas já no século XVI, assistindo às primeiras consequências do processo de que presenciamos hoje as últimas, Santa Teresa D’Ávila dizia:

O mundo está ardendo, querem tornar a condenar Cristo, como dizem, pois Lhe levantam mil falsos testemunhos;[2]

E depois de pedir a Deus que ponha fim a tantos males, conclui:

Ai de mim, Senhor, e quem se atreveu a fazer esta petição em nome de todas! Que má intercessora, filhas minhas, para serdes ouvidas e para que fizesse por vós a petição! Mais se há-de indignar este soberano Juiz ao ver-me tão atrevida, e com razão e justiça! Mas vede, Senhor, já que sois Deus de misericórdia, tende-a desta pecadorazinha, pequeno verme que assim se atreve diante de Vós! Vede, Deus meu, os meus desejos e as lágrimas com que isto Vos suplico e olvidai as minhas obras, por quem sois e tende lástima de tantas almas que se perdem e favorecei a Vossa Igreja! Não permitais já, Senhor, mais danos na Cristandade. Dai luz a estas trevas!

Cito-lhe esses dois trechos, José Antônio, não apenas para mostrar que a dor dos católicos, que a sua dor, é legítima e santa, que é uma dor que todos compartilhamos com os grandes santos, mas para fazer-lhe notar uma outra coisa, no esquecimento da qual, parece-me, reside o mais perigo para aqueles que contemplam dolorosamente consternados a crise da Igreja e a consequente crise do mundo: qual é a solução para esse estado de coisas.
Como assim, solução? Será que eu tenho e louca pretensão de poder responder a sua angustiada questão: “Como sairemos desse labirinto?”
Não, José Antônio, não é uma louca pretensão.
Porque, desde o princípio, como aliás nota o trabalho que você leu, a humanidade se deixou envolver, para usar sua expressão “em gnoses, panteísmos e heresias”.
A crise hoje é grande, é imensa, é avassaladora. Mas não é a primeira e não será a última.
Nem sabemos se é a maior, já que não conhecemos as que estão por vir.
A maior de todas será, sem dúvida, a última, a do Anticristo, e essa ninguém sabe, ninguém mesmo – é Nosso Senhor que o afirma (Mt 24: 36-39) – quando será, embora alguns queiram imprudentemente afiançar que é agora.
Mas, como eu dizia, o mundo sempre foi inimigo de Deus. Sempre. “O mundo inteiro está sob o poder do Maligno”, diz São João (I Jo 5:19). Não apenas hoje, mas em todos os tempos. E “quem quer ser amigo do mundo é inimigo de Deus” (Tg 4:4). Sempre. Ser católico não apenas de nome, mas seriamente não é fácil e nunca foi. “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10:22), é o que diz Nosso Senhor. E também que, embora estejamos no mundo, “não sois do mundo” (Jo 15:19).
Mas Nosso Senhor não nos alerta apenas para o problema. Dá-nos a solução. Não precisamos estar “sob o poder do Maligno”. Não precisamos – e não podemos para sermos verdadeiramente católicos – ser do mundo. Por isso Ele também nos diz:

Neste mundo tereis aflições, mas tende coragem: Eu venci o mundo” (Jo 16:32)

“Eu venci”. Não diz que vai vencer. Diz que venceu. O mundo está vencido por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Assim, José Antônio, para não sermos pegos em tantas “gnoses, panteísmos e heresias” é simples: basta seguirmos cuidadosamente Nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo que Ele nos ensinou com sua boca física e foi registrado, pelo Espírito Santo, nos Evangelhos. Tudo que Ele nos ensina com a boca de seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, Apostólica Romana.
Prevejo a sua objeção: em tempos de tanta confusão doutrinária, de tantos erros sendo ensinados até por bocas de onde só deveria sair a verdade, como orientar-se?
Também essa objeção e essa dúvida não são de hoje. Já no século V os católicos se punham o mesmo problema. Veja aí se o problema de São Vicente de Lérins não é o seu, não é o nosso:

Frequentemente consultei com muito zelo e atenção homens eminentes por sua santidade e seu conhecimento. E lhes perguntei: ‘existe um método seguro, por assim dizer, geral, e constante por meio do qual eu possa discernir a verdadeira fé católica das mentiras da heresia?’

Não é isso mesmo que também nós queremos, José Antônio, um meio geral, constante e seguro de nos livrar do “labirinto de gnoses, panteísmos e heresias” que nos assediam de todos os lados e mesmo, e ainda mais perigosamente, de dentro da Igreja? Não é o problema de São Vicente de Lérins exatamente o nosso?
Pois veja a resposta que ele nos fornece:

“ E de todos recebi esta resposta: que se eu ou qualquer outra pessoa quisermos derrotar a astúcia dos hereges, evitar cair em suas armadilhas e permanecer numa fé sã (com a ajuda de Deus), nós mesmo sãos e incorruptos, nós nos devíamos abrigar atrás de uma dupla muralha: primeiro a autoridade da lei divina e em seguida a tradição da Igreja católica”.

E para que não reste dúvida sobre o que ele quer dizer com tradição, para que ninguém nos engane com uma tal “tradição viva” (qual é a tradição morta?) que poderia dizer hoje o contrário do que disse ontem, ele esclarece, no que é conhecido como o cânon de Lérins:

“Na própria Igreja Católica é preciso vigiar cuidadosamente para aderir ao que foi crido em todo lugar, sempre e por todos. Pois isso é verdadeira e propriamente católico, como o mostram a força e a etimologia da própria palavra, universalidade das coisas” (católico=universal).

Como eu lhe disse a solução existe e é essa, que nos é dada por São Vicente de Lérins, que cada um de nós que constata e sofre com a crise da Igreja:

1. Quanto aos costumes: respeite de todo o coração e cumpra com minúcia e fervor tudo o que nos ensina “a autoridade da lei divina”. Os Mandamentos de Deus, a lei moral, ensinada desde Nosso Senhor e confirmada constantemente pela igreja, não tem prazo de validade, não perde a força, nem a obrigatoriedade. Tudo que era pecado no passado (desde a mínima murmuração até o mais cruel assassinato) continua sendo pecado no presente e continuará sendo pecado no futuro;

2. Quanto à Fé: saiba que nosso Deus é “aquele que é” (Ex 3:14), o “Pai das luzes no qual não pode existir variação nem sombra de mudança” (Ti 1:17) e que por isso, devemos crer, com fé inabalável, no que “foi crido em todo lugar, sempre e por todos”.

A Fé de sempre e a moral de sempre.
Como você vê, é simples. Mas é duro. Como podemos, dada nossa fragilidade, fazer isso, num mundo que é o oposto disso?
E aqui volto aos dois santos que citei no começo.
Tanto Santa Teresa de Jesus, no século XVI, quanto São Luís de Montfort, no século XVII, viram a crise, sofreram enormemente com ela e que fizeram?
Desanimaram? Usaram o melhor de seus esforços para chorar a desgraça de seus tempos e dos tempos futuros? Escreveram principalmente para lamentar um, de si, tão lamentável estado de coisas?
Não.
Reconhecendo a própria impotência diante de problemas que os ultrapassavam – e que podiam submergi-los, como podem submergir-nos – recorreram a duas forças invencíveis: a oração e a devoção a Maria Santíssima.
Não desanimaram. Pelo contrário. Reconhecendo a gravidade da crise, perceberam que, nas palavras de Santa Teresa “não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância”[3] e dedicaram suas vidas à resolução dos grandes problemas da Igreja pela oração e pelo sacrifício de sua vidas, no raio de ação em que Deus lhes permitiu atuar.
Nunca pensaram que não havia nada a fazer.
Sabiam que Nosso Senhor já venceu.
É verdade que ambos fundaram congregações religiosas – uma para rezar, outro para trabalhar – mas isso foi uma consequência.
Em primeiro lugar procuraram ser, cada um deles, intransigentemente fieis a Deus Nosso Senhor e à sua Igreja.
E isso, todos podemos fazer.
Depois, Deus os tomou nas mãos e fez deles o que quis. E, apesar de dificuldades e de perseguições inauditas, eles nunca desanimaram. Trabalharam até a morte.
Apesar da crise.

O demônio quer que desanimemos, porque desanimados não fazemos nada.
Os discípulos de Emaús não estavam indo embora?
Essa é a tentação de todas as épocas: diante da Paixão, ir embora.
Pensar, como os discípulos de Emaús, que não adianta mais… que tudo acabou… que não é mais possível fazer nada.
É mentira. Sejamos fieis aos mandamentos e fieis a ensino tradicional da Igreja. Lutemos em nossos pequenos campos de batalha, como pudermos.
Se for desejo de Deus, Ele nos dará campos maiores.
Tiremos força da oração e da devoção à Santíssima Virgem.
Você vê que em Fátima, Nossa Senhora que veio para falar da crise e dos sofrimentos que ela acarretaria, não nos manda nada de complicado: “rezai o terço todos os dias”. “Deixai de ofender a Deus que já está muito ofendido”.
É simples.
Deus lhe dê luz e força, José Antônio, para compreender que o caminho de Deus é duro, mas é simples.
E que, com a ajuda que Ele nunca nega a quem pede, também essa dureza é doce, como é doce e cheio de ânimo valente o Dulcíssimo Coração de Maria.
Que Ela lhe dê ânimo.
Que Ela nos dê ânimo.
Como dizia o amigo de um amigo, vamos deixar Deus ser Deus.
Não queiramos nós encontrar a solução para todos os problemas da Igreja e do mundo.
Façamos valente e humildemente o nosso dever.
Nosso Senhor já venceu.

Salve Maria.
Ivone Fedeli.

___________
[1] Cfr. Pio X, São. Pascendi Domini Gregis. § 5.
[2] Teresa de Jesus, Santa. Caminho de Perfeição. C.1, §5.
[3] Teresa de Jesus, Santa. Caminho de Perfeição. I, 5.

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Agradecimento - Orlando Fedeli

Cartas: Ele esta no meio de nós? - Orlando Fedeli

Cartas: Como provar a veracidade dos evangelhos? - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais