Montfort Associação Cultural

20 de novembro de 2005

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Atributos Divinos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sophia
  • Idade: 23
  • Localizaçao: Petrópolis – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação incompleta
  • Profissão: Estudante/professora

Senhor Orlando,

Primeiramente eu quero elogiar o trabalho que os senhor desenve aqui neste site que considero como um maravilhoso local de pesquisa sobre o Catolicismo. Tenho uma admiração cada vez maior por apologética.
Escrevo esta para lhe pedir encarecidamente elementos da doutrina católica acerca de alguns atributos divinos.
Me declaro como católica mas ainda estou em processo de conversão. Anteriormente eu me declarava ter um lado espiritual independente de religiões mas ao estudar algumas religiões me voltei ao Catolicismo. Não precisei receber nenhum Sacramento porque tive criação católica, portanto já me batizei, fiz Primeira Comunhão e Crisma. Mas depois dos 15 anos fui aos poucos me afastando da idéia de religião, e quando passei a cursar universidade abandonei definitivamente a religião. Passei por alguns problemas emocionais e depois fui aos poucos voltando para as práticas devocionais católicas de fazer orações, ir na igreja, assistir a Missa.
Sei que tenho mais motivos para crer do que para descrer, e os motivos que me parecem sem sentido são compensados pelos que tenho para crer, ou seja, são justificados pela fé. Espero poder fazer com que os questões baseadas apenas em uma fé pura e de certa forma comodista e por uma obediência cega sejam cada dia substituídos por argumentos sólidos, que sei que a Igreja tem, mas ainda não conheço muito bem.
A crença em Deus já me é totalmente aceita, mas no Deus cristão sumamente Bom e Misericordioso, creio por causa da objetividade católica e dos milagres que vivem no Catolicismo.
Peço alguma bibliografia a respeito dos atributos divinos como onisciência, onipotência e onipresença. O primeiro em contraponto ao mal no mundo, o segundo também, e o terceiro em contraponto a idéias panteístas que misturam Deus à criação.
Sei que já estou começando com temas pra lá de difíceis, mas pra mim são base de sustentação de fé. De resto só a mantenho porque a vejo como superior e mais coerente que as outras possibilidades, inclusive a descrença, e por causa dos milagres que são como assinaturas de Deus.
Mas eu pergunto, isso é suficiente? Será que minha fé não fica incompleta sem esclarecer essas dúvidas que tenho ou devo aquietar meu coração pois não existem respostas para elas?
Vou enumerar as questões para explicitar melhor o que procuro saber. Peço que a resposta seja colocada de acordo com o que é pregado pela Igreja, seja a resposta objetiva ou um Mistério da fé no qual devemos crer mas não temos explicação racional. Além vou tentar enumerar algumas outras dúvidas, que em parte podem ser semelhantes às já colocadas.

1- Sendo Deus Onisciente, e sabendo de tudo o que ocorrerá no futuro, qual a explicação para a Criação de seres que, mesmo sendo bons, se perderão para sempre (demônios, pessoas más)?

2- Sendo Deus onipotente, qual a explicação para não eliminar o mal e o sofrimento? Sei que isso contrariraria as consequências do pecado, mas Deus também se submete a essa Lei? Ou Deus é a própria Lei?

3- Cristo na Cruz é a maior prova de Amor. Isso realmente é fato. Estou querendo questionar demais fazendo essas perguntas? Será mal de ex-estudante de filosofia que não pára de perguntar “por que”? Vejo que estudar certas coisas em um período frágil de minha vida me prejudicaram, mas também agora já não posso parar os questionamentos e dizer para mim mesma que devo apenas afastá-los de minha cabeça. Devo encará-los e resolvê-los.

Acho que minha missiva ficou confusa. Peço que o senhor como professor com muita experiência, que já deve ter tido todo tipo de alunos, tente tirar o máximo dessa carta proveniente de uma cabeça confusa. Desculpe-me pela enorme carta. Faço idéia do número de cartas que o senhor tem a responder. Espero ansiosamente pela resposta. Por incrível que pareça essas dúvidas não afetam minha fé em Jesus Cristo e Nossa Senhora, a quem sempre direciono minhas preces e me comovo ao me lembrar.

Muito obrigada,
Na Paz de Jeses e no amor de Maria,

Sophia

Muito prezada Professora Sophia,
salve Maria !
 
    Sua carta me agradou sumamente. É assim mesmo que deve fazer (vou tratá-la por você por sua juventude, e por minha velhice adiantada, mas sem esquecer jamais que você é professora como eu, e que eu também passei em minha juventude por dificuldades religiosas).
    Você faz muito bem em procurar respostas para essas perguntas. É assim que a Fé cresce porque a Fé é uma virtude intelectual, e ela não repudia a razão.
    Recomendo-lhe que reze e que estude, sim.
 
    Creio que lhe faria muito bem ler essas questões que me pergunta na Suma Teológica de São tomás de Aquino. No site Montfort, resumi algumas das primeiras questões da Suma sobre a Existência de Deus, e as Processões em Deus. São pontos fundamentais da doutrina Católica sobre os quais tudo mais se fundamenta.
    Na Suma, logo depois da exposição das provas da existência de Deus, você encontrará exatamente as qualidades próprias de Deus.
    No site Montfort você poderá encontar ainda respostas a outras perguntas que você me coloca.
    E a primeira delas é sobre a oniciência de Deus e a perdição das almas.
    Deus existe na eternidade, fora do tempo. Para Deus não há antes, agora ou depois. Ele conhece tudo no mesmo eterno e fixo agora. Ele não sabe o que faremos, antes de que nós façamos algo, porque para Deus tudo é agora.
    Deus nos criou para o bem, e para sermos eternamente felizes com Ele. Ele nos dá toda a ajuda que necessitamos para nos salvar. Mas, para que ser justo ao nos dar o prêmio eterno, Ele nos fez livres e responsáveis por nossos atos
    Seres sem liberdade não podem ser nem premiados, nem castigados. Deus nos fez seres livres, para poder nos premiar.
    Por isso, o saber de deus não condiciona a nossa liberdade. Nós não agimos porque Deus sabe, mas Deus sabe porque agimos. Dou-lhe um exemplo que costumava dar no colégio.
    Se estamos no alto de uma torre da qual vemos um cego caminhando em direção a um abismo, nós gritamos avisando-o do perigo. Se ele continua a andar na mesma direção apesar de nosso aviso, nós sabemos que ele irá morrer. Mas ele não morre porque nós sabemos. Morre porque quis, porque repeliu nosso aviso. Não foi o nosso saber antecipado que determinou sua ação. Nós previmos a sua morte, mas não a causamos.
    Do mesmo modo, Deus sabe o que faremos, mas não é o saber dele que determina nossa ação. Escolhemos livremente o que queremos. Só vai para o céu quem Deus leva. Só vai para o inferno quem quer.
 
    Quanto à sua segunda pergunta (sobre o mal), antes de tudo, há que distinguir mal ontológico, e mal moral. Os gnósticos se perguntavam de onde vem o mal.
    Deus é bom e tudo o que ele fez é bom.
    É o que se lê no Gênesis capítulo I, Deus dizia ser boa cada coisa que Ele criava. E, contemplando o conjunto de sua obra, Deus disse que o todo era “muito bom”. Portanto tudo o que existe é bom.
    O ser é na medida que tem qualidades em ato.
    Deus sendo ato puro é bem absoluto.
    Tudo o que Ele criou é bem, mas não bem absoluto. Toda criatura é boa, mas seu bem é limitado, finito, relativo. Então toda criatura, não tendo o bem absoluto, carece de algum bem, e nesse sentido restritivo, teria carência de uma bem maior que ela.  
  
    Por outro lado, o mal não pode existir enquanto ser. Como explicou Santo Agostinho em seu livro Contra Manicheos, existir é melhor do que não existir. Existir é um bem. Se o mal absoluto existisse, ele teria o bem da existência. Então não seria mal absoluto.
    O mal é uma falta de ser, uma falta do que devia existir, ou uma falta de ordem.
    Se me faltasse um braço, isso seria um mal. Um buraco na pista de uma rodovia é um mal, pela falta de asfalto.
    Se tenho uma orelha a mais na fronte, isso seria um mal pela falta de ordem.
    A treva não existe. O que existe é a luz. A treva é uma falta de luz.
    O inferno existe, então ele é um bem, pois faz justiça.
 
    Por outro lado, o mal moral existe.
    Roubar é um mal moral.
    Mas roubar não é uma coisa. É uma ação. Não há então coisas más, mas pode haver ações más. Não há substantivos maus.     Há verbos maus.
    Mentir, roubar, adulterar, fraudar são verbos que indicam ações más.
    Quando alguém rouba, faz uma desordem nos bens.
    O dinheiro que se busca roubando é bom. É um bem. Mas a Justiça é um bem maior que o dinheiro. Roubar é colocar o dinheiro (bem menor) acima da justiça (bem maior).
    Roubar é desordenar bens. Roubar é uma ação má. Roubar é pecado por desordenar os bens.
    A lei é a expressão da Vontade de Deus.
    A lei natural é a própria Vontade de Deus enquanto governa a natureza. Por isso, tudo o que vai contra a natureza vai contra a Vontade de Deus.
    Não há então motivo para não perguntar.
    Pelo contrário. Deus nos mandou que o amássemos com todo o entendimento, porque só podemos amar aquilo que conhecemos. Ninguém pode amar “xoró no avesso”, porque “xoró″ não existe. Imagine no avesso…
    Para amar a Deus devemos procurar conhecer todo o possível a respeito dele. Por isso o estudo é a fonte da que alimenta o amor. Todo amor vem do conhecimento. Pergunte, estude e ame a Deus com toda a sua inteligência e vontade.
    E tendo alguma dúvida que eu possa solucionar, estarei pronto a fazê-lo, quando você me indagar.
    Deus a guarde sempre em sua santa Lei.
   
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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